junho 28, 2009
Reviver o Passado em Budapeste








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abril 04, 2009
Memória VI

Carlos Miguel Fernandes
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março 30, 2009
Memória V

Carlos Miguel Fernandes
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janeiro 19, 2009
Memória IV

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janeiro 01, 2009
Memória III

Carlos Miguel Fernandes
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dezembro 30, 2008
Memória II




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dezembro 29, 2008
Memória



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agosto 08, 2008
Notas de Viagem VII
Mão amiga guiou-me, à distância, pelas galerias de fotografia de Chelsea. Fui até ao limite ocidental do bairro, já perto do Hudson, subi elevadores, fiz soar campainhas, encontrei a Bruce Silverstein fechada, e esbarrei com espaços que não estavam na lista obrigatória. Na Robert Mann e na Julie Saul encontram-se agora exposições do acervo. On the refrain, até 22 de Agosto na Mann, recorre aos mestres do preto-e-branco, alguns representados na galeria, para estabelecer relações (refrães) entre autores aparentemente distantes. Há magníficas fotografias vintage, e a concepção da exposição, com uma sequenciação de imagens baseada não só nas formas, mas também noutras sugestões mais subtis, leva-nos num ritmado périplo pelo modernismo da Fotografia da primeira metade do século XX. Paul Arma’s Hands, de André Kertész (1894-1985), é um regalo para os olhos. Podem comprá-la por 4500 dólares, muito menos do que algum lixo contemporâneo que empeçonha os circuitos comerciais da Arte.

Na Julie Saul, When the color was new (até 6 de Setembro) ambiciona abranger e mostrar o processo de entrada da cor na idade adulta, quando esta retira ao preto-e-branco a exclusividade nas paredes das galerias e museus. Está lá Eggleston, obviamente, e as polaróides de Walker Evans. When the color was new e On the Refrain, foram as melhores exposições que vi nessa tarde. Antes de ir à Aperture, ainda passei pelas galerias James Mollison, Priska C. Juschka, Folley e Poller, todas com Fotografia nas paredes. A Aperture tinha (a galeria fecha em Agosto) um trabalho de Richard Ross, Architectures of Authorithy, que retrata os espaços de autoridade, de poder, de esmagamento das liberdades individuais. Os livros e as edições limitadas estavam em saldo. Por fim, depois de descansar no BillyMark’s West, ainda arranjei forças para subir a Avenue of the Americas até ao Internacional Center of Photography, onde se encontra uma exposição de fotografia japonesa contemporânea, desigual, e uma mostra de Bill Wood (1913-1973), um fotógrafo comercial, e vendedor de câmaras e acessórios. Da primeira exposição retive os nomes de Naoya Hatakeyama, Risaku Suzuki e Miwa Yanagi, e reforcei uma convicção: no Japão fazem-se livros de Fotografia deslumbrantes, originais, refinados. Bill Wood, o fundador da Bill Wood Photo Company, um fotógrafo do banal recuperado pelos curadores Marvin Heifemann e Diane Keaton, surpreendeu-me. A exposição, evitando inteligentemente uma linha de tempo, mostra-nos um trajecto uniforme, marcado pelas encomendas e por um inusitado rigor formal, mas que ao mesmo tempo parece caminhar ao lado daquilo que se convencionou chamar fotografia vernacular.
E foi tudo, nessa tarde quente de Julho. E foi muito.
Carlos Miguel Fernandes
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agosto 01, 2008
Notas de Viagem V
Notas na prata.


Carlos Miguel Fernandes
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fevereiro 18, 2008
Fotografia e Arte Contemporânea
Num país estrangeiro a busca por livros de fotografia está quase sempre condicionada pela língua dos textos de introdução. O critério aumenta de importância quando se visitam lugares onde é usado um alfabeto que nem sequer permite identificar o nome do fotógrafo, e onde, por vezes, o viajante não conhece os intérpretes basilares da fotografia local. A Coreia do Sul é, para mim, um desses países. Quando visitei pela primeira vez os alfarrabistas de Busan — agregados em meia dúzia de pequenas ruas a poucas centenas de metros de distância do famoso mercado de peixe — não sabia o que ia encontrar. No final da viagem olhei para a mala e vi uma boa colheita (com Melville a dominar, como não podia deixar de ser numa cidade portuária). Mas só lá estava um livro de fotografia: Mementomori 1990-2000, do fotógrafo coreano Lee Sang Ill. Veio comigo porque, no meio de alguns livros de fotografia, Mementomori era o único com uma tradução inglesa do prefácio. Ou, pelo menos, assim parecia, após uma leitura apressada. Mais tarde, olhei com outra atenção. Vamos ler o primeiro parágrafo.
A photographer, Lee, Sang Ill, to show social valuable situation and life emotion of late works formalize ordinary life through coexistence and impact. Also his works to an industrial complex area people of lives explain nature of photography. He appeals a specificity of contemporary art. “in situ”; with emphasizing unique of the place. A talking pictures is an expression of personal with social value and judgment. Moreover it should regard a new to combine rational activities of people and usual value of life.
Thus, he becomes a witness to represent various objectivities. Eventually he is affected by contemporary trends of thought value and politics and seeks photo-realism of lenses as firming documentary with various styles of his photos.

Este texto faz lembrar o quotidiano de um expatriado nas ruas coreanas, onde pouca gente sabe falar inglês e quem sabe...não sabe! O esforço do cidadão comum é enorme, mas, exceptuando alguns casos (profissionais do turismo na capital, por exemplo), as frases parecem saídas de um tradutor automático de páginas da internet. Tal como o prefácio de Mementomori.
Mas mesmo no estranho texto transcrito em cima, é possível discernir uma estratégia comum nos meios artísticos actuais. Note-se como o autor (o curador da exposição que o livro registou) tenta enquadrar o trabalho de Lee Sang Ill nas correntes da Arte Contemporânea. Olhando para as imagens de Mementomori (e que nos mostram dez anos de trabalho do fotógrafo) encontramos uma linha claramente documental, até num sentido muito clássico do termo. Predomínio do retrato inserido no ambiente do retratado, utilização frequente da grande angular, temas fortes e emotivos. Um estilo que, Sebastião Salgado e World Press Photo à parte, se vê em livros, revistas ou jornais, e não nas paredes de uma galeria. Mas esta passagem de Fotografia para o patamar da Arte Contemporânea, mesmo quando é feita de forma claramente forçada, implica mais um zero na venda de uma peça. A Fotografia move-se entre dois mercados claramente distintos, e estar de um lado ou do outro da barricada só depende da forma como uma obra é promovida, e não do objecto em si. E no mercado encontramos sempre a lei da oferta e da procura.

Mas voltemos atrás. Eu disse “passagem forçada”? Há outra forma de ver a coisa: a Arte Contemporânea (no sentido não literal do termo, claro) é um conceito vazio alimentado por uma clientela cada vez mais desenraizada da sua cultura e viciada na arte popular. São os efeitos da democratização do acesso à cultura, sobre os quais não vale a pena estar aqui a moralizar. Basta apenas dizer que, num ambiente de contornos tão levianos, é fácil transportar uma obra de um lado para o outro da fronteira. Não é o objecto que conta, mas apenas o discurso. E basta aumentar a dimensão de uma peça para que esta abandone o frágil estatuto de “fotografia” e passe a ser admirada como uma obra de Arte Contemporânea.

Por isso, ao contrário do que a minha expressão “passagem forçada” pode dar a entender, penso que o curador de Lee Sang Ill faz muito bem quando arrasta um trabalho de carácter marcadamente fotográfico (hoje já não há fotógrafos, há artistas que usam a fotografia!) para um território estranho. Goste-se ou não do estilo, pelo menos injecta um pouco de vida num ambiente que revela sintomas de indolência e superficialidade. A fotografia documental e a fotografia de arquitectura/”paisagem urbana” são talvez duas das grandes forças que podem agitar a Arte Contemporânea, retirá-la deste marasmo, e ao mesmo tempo aliviar a Fotografia das grilhetas que alguns dos seus agentes lhe impuseram. Como diz um amigo, bom entendedor e amante da arte fotográfica como poucos em Portugal, uma fotografia é apenas um pedaço de papel. Se desmistificarmos esse pedaço de papel dar-lhe-emos, paradoxalmente, o valor que tem perdido nas últimas décadas. Basta varrer o lixo em redor.
Carlos Miguel Fernandes
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setembro 09, 2007
Recordar Londres
Londres, a preto-e-branco e a cores.

Carlos Miguel Fernandes
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maio 31, 2007
Cidades de Fronteira

Comprei Bordertown no Texas, em 1999, não muito longe da fronteira que o livro de Barry Gifford e David Perry intenta retratar. Mas a distância entre San Antonio e a linha que divide os EUA do México é ainda suficientemente grande para afastar da cidade do Álamo o desassossego que cerca tantos lugares de passagem, e que os corrompe para além do tolerável, oferecendo-lhes como reparação inglória uma aura romântica que seduz sem mais argumentos do que a honestidade dos seus recantos pútridos. Talvez por isso, talvez por estar tão perto de um abismo que atrai toda a desordem como um vórtice ardiloso, San Antonio é uma cidade branda sem muitos argumentos para além do inevitável Álamo e de toda a história que lhe está associado. Curiosamente, foi na Batalha do Álamo (1836) que a fronteira actual entre os EUA e o México se começou a desenhar a traço indelével. Foi nesse território que dois artistas americanos se moveram para realizar Bordertown, um esboço directo e áspero da vida nas terras raianas da América Central, feito com as imagens do fotógrafo David Perry e com os textos e desenhos de Barry Gifford, autor de Wild at Heart, prosa que foi transformada em filme por David Lynch em 1990.
O livro não esconde um apurado trabalho gráfico, mas não se deixa cair no pudor acusatório nem resvala para a romantização de um mundo com feridas profundas. O tráfico de droga, os raptos, os assassinatos, a prostituição e os pequenos crimes convivem com o quotidiano da rua, e a maldição estende-se pelos três mil e cem quilómetros da fronteira internacional mais movimentada do mundo. Bordertown mostra um universo sem rasto de redenção, pois os seus actores não parecem procurá-la. As personagens percorrem o livro e as silhuetas da paisagem urbana como caminham nas cidades da fronteira: resignadas, felizes ou infelizes. À sua maneira excessiva, estas bordertowns são também cidades tristes e alegres.
Ao contrário de Palla e Costa Martins*, Gifford e Perry não ficarão arrolados em lugar de destaque na História da Fotografia e do livro de fotografia. Mas Bordertown não é uma obra desprezável e serviu de complemento a uma viagem que não pôde ir além de San Antonio. Com Bordertown tive a ilusão de ir um pouco mais longe. E há lugares que só se visitam nos livros.

Carlos Miguel Fernandes
*Victor Palla e Costa Martins são os autores do livro de fotografia Lisboa, Cidade Triste e Alegre. Alguns exemplares desta obra têm atingido preços surpreendentes nos mercados internacionais.
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março 14, 2007
Ainda em Seul
Fotografias de Seul, na página de fotografia.
O Na Cozinha guarda agora imagens das mesas coreanas.
E por aqui deixo-vos Berlim e Lisboa, encontradas em Seul!
Carlos Miguel Fernandes
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janeiro 15, 2007
Na Estrada, em 2006 - XI
Os tons de barro fulgem, mesmo no preto-e-branco. O traço urbano é confuso. O calor sufoca. Desde o cimo do monte Benacantil, encostados às muralhas do Castelo de Santa Bárbara e de costas viradas para o Mediterrâneo, parece que experimentamos uma anomalia geográfica e fitamos o Norte de África. Mas não é África que nos mira lá de baixo. É Espanha, pura e dura. E ainda bem.

Carlos Miguel Fernandes
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janeiro 04, 2007
Na Estrada, em 2006 - X
A Solidão.
A Islândia ficar-me-á gravada para sempre nas entranhas como um albergue de tédio. Onde muitos vêem sinais da cidade-paraíso – ausência de trânsito, poluição residual, segurança, nível de rendimentos elevado, protecção social a todos níveis, etc. – eu vi um prenúncio do inferno. O que senti naquela ilha parece reflectir a sua condição geológica: por baixo de cenários idílicos e paisagens imponentes vive uma Terra em sobressalto, que por vezes explode em torrentes de água quente e até de lava.
Mas é serena, sim, a Islândia. E o tempo parece passar devagar, sinal que pode ser interpretado como o ambiente ideal para vidas mais completas e atentas aos pequenos pormenores da existência. Ilusão. A serenidade exterior tolhe os sentimentos, e, para aqueles que o transportam, choca com o desassossego, conduzindo à inquietude implacável. O alerta chegava-me logo de manhã, quando enfrentava durante dez minutos um vento que me gelava a cara, percorrendo a pequena distância que separava o centro de Reykjavik da universidade, a qual, dada a desolação em redor, parecia já situar-se nos arrabaldes da cidade. Não se via vivalma, os carros passavam isolados, e até os seus motores pareciam ser mais discretos. Mas pelo caminho, o cemitério afastava-me logo de qualquer ensaio de adaptação ao ritmo lento das altas latitudes, lembrando-me que abrandar conduz à imobilidade, e parar é morrer. E antes a morte que tal sorte. Agitava então o passo e, sozinho numa rua de uma capital europeia à hora de ponta, esmagado pelo silêncio, sonhava acordado com buzinas enraivecidas e multidões anónimas esperando impacientemente pela mudança de côr do semáforo para prosseguirem as suas vidas.

Carlos Miguel Fernandes
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janeiro 01, 2007
Na Estrada, em 2006 - IX
Um quarto no 222 da calle Valencia, caracoletas no Cargol Treu Banya, um jantar no Semproniana, passeios no Born, a Brahma no café brasileiro, uma noite no Gràcia, visitas a dois amigos, cecina, cabrales, fuet e moxama nas tascas do Gótico. Tudo isto e muito mais em dois dias, nos quais tentámos encaixar uma cidade inteira. Mesmo a partida para a longa viagem que nos levaria desde Barcelona até Reykjavik foi marcada pelo sobressalto, fruto de uma fantásticas tapas bascas e de uma confusão entre as horas espanhola e portuguesa.

Carlos Miguel Fernandes
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dezembro 28, 2006
Na Estrada, em 2006 - VIII
Uma noite em branco no comboio, com a temperatura a subir vertiginosamente até atingir quase os quarentas graus na manhã de Belgrado.
Em Belgrado.

Carlos Miguel Fernandes
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Na Estrada, em 2006 - VII
A estância balnear do Montenegro, com tudo o que isso tem de bom e de mau.

Carlos Miguel Fernandes
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dezembro 27, 2006
Na Estrada, em 2006 - VI
Novi Sad, três da manhã. Enquanto esperávamos que os melhores cevapcici da cidade saíssem da grelha, conversávamos com um estranho. Vão amanhã para Kotor? Têm que ir também a Perast, fica a poucos quilómetros de distância. No dia seguinte, na agência de viagens, quando tentávamos decidir qual o meio de transporte que nos levaria até à costa montenegrina: Kotor? Não podem perder Perast!
Fomos a Perast. E deixámos lá ficar um pouco de nós.

Carlos Miguel Fernandes
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Na Estrada, em 2006 - V
Um segredo bem guardado na costa adriática, só acessível aos privilegiados, que lá chegam por mar, ou aos loucos, que se aventuram pelo acidentado terreno balcânico nos inacreditáveis transportes terrestres da região.

Carlos Miguel Fernandes
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Na Estrada, em 2006 - IV
O fim-de-semana em Novi Sad também já se repete com periodicidade anual. É a porta de entrada nos Balcãs.

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Na Estrada, em 2006 - III
A visita anual e obrigatória.

Carlos Miguel Fernandes
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Na Estrada, em 2006 - II
A alma do Sul. Tão perto e, ao mesmo tempo, tão longe.

Carlos Miguel Fernandes
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Na Estrada, em 2006
Barcelona, uma velha amiga. A cidade mais espanhola da Catalunha e mais europeia de Espanha.

Carlos Miguel Fernandes
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dezembro 25, 2005
De Berlim a Sevilha num Ano
Na página de fotografia já podem ser apreciados alguns resultados da colheita de 2005. Para além da felicidade que os inevitáveis regressos à Hungria e à Sérvia sempre nos oferecem, o No Mundo teve o imenso prazer de conhecer Berlim, Varsóvia e Cracóvia. Agora, só falta terminar o ano com as tapas e canas de Sevilha, lugar que inexplicavelmente se tem mantido arredado do nosso roteiro. Infelizmente, para já, a cidade andaluz apenas se revelará a meio (No) Mundo. Mas Barcelona já espreita no horizonte, prometendo um novo ano de boas viagens...



Carlos Miguel Fernandes
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dezembro 07, 2005
Bloco de Notas – IV
Catastrofa!, repetem insistentemente os sérvios, nas ruas, nos cafés, nas conversas, como se quisessem transformar em realidade a ficção de Kusturica.
Belgrado, 30 de Setembro de 2005

Adenda: Claro que foi a ficção a imitar a realidade. O músico cigano que percorre o filme Underground, em pânico, a repetir Catastrofa!, não é um fruto da imaginação delirante de Emir Kusturica, mas uma caricatura e uma paródia a um hábito sérvio.
Carlos Miguel Fernandes
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dezembro 06, 2004
EUROPA – Viagem por um Lugar Comum
...intemporalidade – adjectivo próprio daquilo a que chamaria a boa fotografia...
Paulo Nozolino
Como observou Dorothea Lange, o intemporal é um contrasenso em fotografia: ‘para terem qualquer significado real, a maior parte das fotografias deve ser datada’; as imagens devem ainda comunicar uma certa noção de local.
Jorge Calado, O Estado do Tempo
EUROPA – Uma Viagem por um Lugar Comum: um trabalho antigo acompanhado de um texto preguiçoso.
EUROPA não é uma descrição de culturas e espaço físico nem o relato de uma época. Não tenho essa ambição. Estas imagens são um Diário, uma descrição visual de experiências vividas ao longo de percursos por um espaço comum, local onde as diferenças entre povos reforçam a sua unidade e onde as fronteiras se reduzem, cada vez mais, a linhas vermelhas em velhos mapas.
Um dos aspectos mais marcantes nestas viagens pelos países europeus é o facto de raramente me sentir um estranho, mesmo quando os sons e os sinais que me rodeiam são indecifráveis. Procurei que este sentimento de adaptação estivesse presente nas 17 imagens escolhidas para ilustrar este projecto.
Carlos Miguel Fernandes, Lisboa, 1999
A primeira versão do projecto, com 18 imagens compostas em três painéis, foi apresentado em 1999, na Escola Superior de Belas-Artes, numa exposição colectiva intitulada Portuguese New Visions. Em 2001, no Instituto Cervantes, esteve integrada na exposição Engenhos e Visões, a qual fez parte do programa de comemorações dos setenta anos da Universidade Técnica de Lisboa. Nessa altura, o trabalho já havia sido reduzido a 17 imagens ordenadas por Jorge Calado, o comissário da exposição.
É essa última versão de EUROPA que os leitores do No Mundo podem ver na página de fotografia.
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As imagens de EUROPA estão datadas. Literalmente datadas, sem dúvida. E metaforicamente? Como autor não posso avaliar a pertinência de tal questão. Olho para as imagens (a última das quais foi captada há quase sete anos) e vejo algumas obsessões que me atormentavam na época. Esteticamente, alguns “lugares-comuns” podem ser facilmente detectados. Mas é nos lugares físicos, ou na minha relação com os mesmos, que encontro os maiores sinais da passagem do tempo.
Praga, que monopoliza o projecto, dominou durante alguns anos todos os meus sonhos expedicionários, não dando tréguas à angústia da estada caseira entre jornadas. Visitei a capital checa mais uma vez, em 1999. Não regressei, desde essa altura, e perdi todo o entusiasmo que me mantinha ligado a uma cidade que, aos poucos, foi revelando uma ausência de alma e uma lugubridade excessiva, a qual se enredava, sem piedade, nos singulares edifícios representativos da Arte Nova. A beleza excessiva de Praga poderá ter sido a sua morte. Uma cidade precisa de sujidade, necessita dos seus recantos sórdidos e decadentes. Só assim se poderá admirar convenientemente o belo: quando este se encontra no meio do caos e da corrupção. Até Veneza, com a sua exasperante graciosidade, se encontra cercada por uma aura pérfida, putrefacta, que só lhe acentua o encanto, feita de águas paradas e de uma condenação adiada que, no entanto, se mantém firmemente ameaçadora sobre a débil existência veneziana,.
As imagens de Barcelona, e das solitárias estradas da meseta ibérica, evocam as longas viagens de carro, atravessando Espanha, desde Badajoz até às fronteiras dos Pirenéus. Haverá melhor forma de viajar? O avião, dirão os mais apressados e os adeptos do “pacote turístico”. O comboio, afirmarão os românticos e os saudosos do passado. Não concordo. No último verão, enquanto conduzia um carro alugado nas estradas da Transilvânia, ouvindo os sons de Maramures, tive a certeza de que só os pés poderiam ser melhor meio de transporte, se para tal esforço tivéssemos uma vida mais longa e uma saúde irrepreensível. Após três anos de aviões, comboios e camionetas, senti novamente, na Transilvânia, a refrescante liberdade que o automóvel proporciona ao viajante.

Ao olhar para EUROPA, outra lembrança me sobressalta: Segovia, e a circunstância de não visitar a cidade espanhola desde 1996, quando registei, com a velha Nikon F2 que continua a acompanhar-me em qualquer saída, a imagem da cidade incluída na série. Oito anos sem ver Segovia, é um pecado imperdoável. Mas existe um ainda pior, que quase atinge o carácter supremo: viver em Portugal e não conhecer Segovia.
Carlos Miguel Fernandes
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junho 29, 2004
Bósnia-Herzegovina
A página de fotografia foi finalmente actualizada com imagens da Bósnia captadas no verão de 2003. Entre Sarajevo e Mostar, o No Mundo encontrou um país europeu de cujo nome tanto se fala, mas cujas essência, cultura e características são tão pouco conhecidas.
As imagens apresentadas foram sujeitas a um critério de selecção e a um trabalho de edição pouco rigorosos. É minha ambição integrá-las, num futuro próximo, num projecto mais alargado, que pretende retratar as principais cidades da ex-Jugoslávia neste início de século, após quase uma década de confrontos, disputas territoriais, atrocidades e reconciliações mais ou menos estáveis e sinceras.
Nas fotografias, especialmente naquelas que nos mostram as feridas de Mostar, nota-se uma forte presença da destruição e da morte. Nada foi procurado na ânsia de mostrar o grotesco. Mas, na Bósnia-Herzegovina, as chagas encontram-se a céu aberto, sem subterfúgios, com toda a sinceridade dos acontecimentos irremediáveis.
Nos próximos dias deixaremos por aqui algumas palavras sobre este torturado país. Palavras que ostentarão uma inevitável negritude, mas que, esperamos, possam transmitir o fascínio que nos acompanhou na travessia da Bósnia, desde a saída de Belgrado, no dia 19 de Agosto, até à chegada a Split, em território croata, no dia 28 de Agosto do inesquecível verão quente de 2003.
Carlos Miguel Fernandes
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janeiro 18, 2004
A Pietà do Mercado de Hwanghak-dong
Dois textos que servem de introdução a um projecto fotográfico da minha autoria, intitulado Seoul, e organizado na forma de um livro artesanal. O primeiro texto é um excerto de uma crónica dos dias que passei na capital sul-coreana. O segundo, da autoria da Maria João Martins, pretende ser uma visão pessoal do meu trabalho. As imagens de Seoul podem ser vistas aqui.
A pietà do mercado de Hwanghak-dong
(...) Começava a sair do mercado. O movimento e o barulho diminuíam gradualmente quando reparei num conjunto de objectos, em cima de um passeio. Sobre um colchão, e encostada a uma televisão, estava uma imagem esculpida, em madeira, representando uma figura feminina com uma criança no regaço. A mulher e a criança, mesmo ilustradas por uma espécie de legenda em caracteres coreanos, pareciam compor um ícone bíblico: acabara de encontrar a pietà do mercado de Hwanghak-dong. Registo algumas imagens com a minha câmara. Três coreanos, aparentemente donos do material que fotografava, olham-me sorridentes, trocando alguns comentários que, obviamente, não entendi. Entrara e movimentara-me no mercado como observador e o ostracismo com que fui recebido poderia parecer, a alguns, quase ofensivo. Tratar-se-ia de uma conclusão precipitada. Naquele mercado eu era um estranho, mas um estranho como todos aqueles que circulavam pelo labirinto de linóleo e artefactos. Foi como se ao entrar passasse a ser mais uma peça da engrenagem de um sistema que não tolera atitudes fúteis nem supérfluas. Mas, quando fotografava a pietà de Hwanghak-dong, sobre um colchão e em frente de um televisor, tornei-me num ocidental com uma máquina fotográfica, divertindo os três homens que pareciam surpreendidos com o meu interesse por aqueles objectos. Nas franjas, a pressão diminuía, as peças começavam a sair da engrenagem e a ceder às fraquezas humanas. (...)
Carlos Miguel Fernandes, Lisboa, Novembro de 2003
Seoul
Entro em Seoul, pé-ante-pé, pela escuridão adentro, tentando seguir a réstia de luz que ilumina estas imagens de aura misteriosa. Descortino-as, uma a seguir à outra. Cada uma mais religiosa que a anterior. Não respiro. Mas não há nenhum enigma. O Oriente traz-me cor, muita cor e exuberância, mas aqui, em Seoul, apercebo-me de uma imensa sobriedade ascética e, finalmente, entendo que a exuberância pode ser feita de frugalidade.
Maria João Reis Martins, Novembro de 2003
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às 07:10 PM