outubro 14, 2009

Soñando Viejas Luces de Hungría

Já sei que o livro foi adulado pela crítica e pelo público (muito predisposto a isso) e que há nomes sagrados que não podem ser postos em causa. Eu li-o, fiquei indiferente, e os anos foram apagando os traços do enredo. Há, no entanto, uma frase que perdura e que tem qualidades de epitáfio.

Por sorte me restavam os sonhos, e em sonhos eu estava sempre numa ponte do Danúbio, às horas mortas, a fitar suas águas cor de chumbo.
Chico Buarque, Budapeste

Carlos Miguel Fernandes

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setembro 12, 2009

Progresso

Estou em Madrid. Às 14.20 tenho um voo para Budapeste e ao fim da tarde espero estar no Castro com uma caneca de Pilsner Urquell e meia dúzia de cevapcici à frente (sim, uma mistura de República Checa com Sérvia no coração da capital da Hungria). Se o Castro já não existir, vou logo para o Bhoeme, um dos poucos bares no centro da cidade que transportaram até ao presente o ambiente decadente e trágico da Budapeste comunista. Se o Bhoeme já tiver sido tragado pela moderna Beograd Rakpart, vou ao Central Kávéház (Café Central) comer o fígado de ganso. Se entretanto transformaram o Central num banco ou em coisa parecida vou à ponte dos leões, olho uma última vez para o castelo, e atiro-me ao Danúbio. Fica isto como nota de suicídio.

P.S. O voo está atrasado. Podia estar na Taberna del Mozárabe, ali para os lados da Gran Via, a comer as melhores almôndegas do mundo, e estou no aeroporto a comer umas almôndegas medíocres e frias. Mas pelo menos a noite passada, embora curta, deu para matar saudades das ruas vibrantes de Madrid.

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fevereiro 14, 2009

Málaga

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Carlos M. Fernandes, Málaga, 2009

Málaga, uma reunião, calor (!), pescadito frito, marisco e um banho nas águas mornas do Mediterrâneo às seis da manhã. Foi assim a pausa que recarregou as baterias para a fase final de um longo percurso. E como este é um remate que exige todas as atenções e empenho, o blogue fica oficialmente em pausa durante duas ou três semanas, a menos que eu seja assaltado por algum impulso incontrolável.

Carlos Miguel Fernandes

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dezembro 26, 2008

Lisboa

Victor Palla e Costa Martins chamaram-lhe Cidade Triste e Alegre. Nunca encontrei muita alegria na capital portuguesa, mas agora, que sou mais turista do que lisboeta, a tristeza de Lisboa mortifica-me os olhos como nunca. Não sei se foi a crise ou a ASAE, ou se é mesmo o resultado dos três tomos (qual deles o mais desastroso!) desta República com quase um século de idade, mas o país parece-se cada vez mais com um enclave escandinavo na Península Ibérica. E Lisboa é a capital correcta para este lugarejo que, apesar do clima invejável e herança mediterrânica, não se dá nada bem com o seu carácter latino. A Finlândia, a distante e fria Finlândia, não é apenas o modelo para a inepta personagem que tomou conta das rédeas de Portugal. Muitos dos que a lá colocaram também sonham com um “paraíso” asséptico e por isso batem palmas a uma Lisboa cada vez mais próxima do sonho de qualquer totalitarista: mansa e obediente. Limpa. E há ainda a caução de Bruxelas.

No entanto, se me deixo enlear por estas ruas desertas que causam desconforto e me impelem de volta para a feérica Espanha, perco-me num tédio aflitivo. Para piorar a situação, estamos na época do trânsito lento mas sôfrego, e dos jantares de Natal que ocupam todas as mesas do mais incógnito dos restaurantes. Há que aproveitar e celebrar cada raro momento de beleza que a cidade nos oferece como se fosse uma dádiva divina, mesmo que corramos o risco de fazer apreciações influenciadas pelas baixas expectativas. Nos últimos dias tenho tido a sorte de encontrar pequenos oásis no deserto lisboeta. Aqui fica a descrição de três, dois deles à laia de sugestão.

1. Fidelio de Beethoven esteve em Portugal, na versão concerto. Foi no sábado passado, no CCB, perante uma sala muito mal composta. Fontes seguras dizem-me que o São Carlos, desde a saída de Pinamonti, oscila entre o trágico e o cómico (isto não é metáfora de palco). Conquanto não tenha sido evento para animar a memória durante anos, esta co-produção CCB/TNCS esteve longe de ser um desastre, como aqueles que passaram recentemente pelo palco do São Carlos. E a brava Anja Kampe, apesar da constipação, foi uma Leonore fantástica que merecia uma casa cheia. Vendia a alma ao diabo para ver e ouvir a sua Isolda no festival de Glydebourne de 2009.

2. A Galeria Pente 10 abriu há menos de um ano, e dedica-se exclusivamente à Fotografia. O risco é enorme. Estamos a falar de um mercado incipiente, dominado pelas “instituições” e por preços arrogantes. Mas a Catarina Ferrer e o Pedro Lopes Vieira atiraram-se de cabeça a um projecto que já conta com cinco exposições (e respectivos catálogos) no curriculum. José M. Rodrigues, Miguel Santos, Carlos Afonso Dias, Flor Garduño e Rita Barros são os nomes que, para já, compõem uma ecléctica lista de artistas que abrange três gerações. Até 10 de Janeiro podem ainda ver o trabalho Presença da Ausência, de Rita Barros (espreitem também este texto da Madalena Lello), no número dez da Travessa da Fábrica dos Pentes, ao Jardim das Amoreiras.

3. A Taberna Ideal é, também, ainda infante. Abriu há poucos meses e trouxe uma mensagem diferente mas clara: o restaurante assume-se como alternativa a um modelo com uma presença cada vez mais forte nas cidades europeias, que confunde cozinha de autor com pratos feitos a eito, polvilhados com endro e adornados com riscos de redução de vinagre balsâmico. Na Taberna Ideal encontramos a “louça da avó” e o cada vez mais raro mobiliário de mármore e madeira. A comida chega à mesa com aquele aspecto rústico que, hoje, só é encontrado nos restaurantes dominados pelo aço inoxidável, de onde apetece fugir. Claro que esta opção corre o risco de ser paradigma, ou, utilizando palavras mais urbanas, moda. O chique já anda à espreita e o dia em que esta Taberna se vai transfigurar em lugar para ser visto não deve tardar. Entretanto, aproveitemos a comida que está muito acima da (baixa) média em que caiu a hotelaria portuguesa nos últimos anos (neste aspecto, há que culpar a crise, apenas). Não vou fazer crítica gastronómica, mas não posso deixar de destacar a tiborna, um petisco esquecido do Sul de Portugal. Aliás, a gastronomia algarvia parece ser um prato forte da Taberna Ideal e quero enaltecer aqui essa opção (mas posso estar enganado, porque em certas regiões do Sul as cozinhas algarvia e alentejana confundem-se). Na minha opinião, a cozinha do Algarve é a melhor de Portugal. É também a mais desprezada. Por isso, qualquer tentativa de apontar as baterias gastronómicas para o Sul é um serviço público.
Como não há tabernas ideais, tenho, pelo menos, dois reparos a fazer. O borrego estava óptimo, mas eu não lhe chamaria “ensopado”. E não deixem acabar a cerveja (ou o vinho branco fresco). Ah, e um balcão com espaço suficiente para beber uma imperial e comer uma tiborna, pelo menos enquanto esperamos por uma mesa, era muito bem-vindo. Mas isto é a alma granadina a falar. Sei que Lisboa e as outras cidades portuguesas já não conhecem a vida de barra. E nunca ouviram falar.
Resumindo, a Taberna Ideal é um lugar muito recomendável, especialmente para quem aprecia os sabores do Sul, e os reparos negativos não são mais do que pequenos detalhes num cenário louvável que não vos devem afastar do número 112 da Rua da Esperança, pois a relação qualidade/preço é, provavelmente, imbatível.

Carlos Miguel Fernandes

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outubro 10, 2008

Bruxelas II

C'était au temps où Bruxelles rêvait
C'était au temps du cinéma muet
C'était au temps où Bruxelles chantait
C'était au temps où Bruxelles bruxellait

Jacques Brel, Bruxelles

Bruxelas é perfeita como capital do Império. É uma cidade que cresceu à medida dos burocratas: sem alma, sem rasgos, sem um traço de personalidade. Há nove anos, quando palmilhei pela primeira vez as suas ruas, numa tarde de Setembro que prometia companhia e anunciava nova etapa de vida, não encontrei motivos que me prendessem a Bruxelas. Aguardava o TGV que vinha de Paris, e gastei a última hora de espera num bar soturno da estação Midi. Logo que a ansiada hora chegou, avancei para Antuérpia e nunca mais voltei à capital belga, até há um par de semanas, por razões intransponíveis. Desta vez tive mais algum tempo para viver a cidade, mas os dias que passei sob aquele eterno céu cinzento apenas reforçaram o preconceito.

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Carlos M. Fernandes, Bruxelas, 2008

O centro de Bruxelas converge para a Grand Place e por brevíssimos instantes agarramo-nos à ilusão de estarmos perante mais uma cidade grandiosa do centro da Europa, outra encruzilhada de culturas que não abdicou das reminiscências imperiais. Mas logo percorremos e deixamos para trás as ruas adjacentes à praça central, esquivando-nos às investidas dos pescadores de turistas que, com a ementa na mão, nos prometem mil encantos nos mexilhões vendidos a preço de lagosta, e acabamos perdidos no silêncio de ruas anónimas. Há uma livraria que nos desperta, um café ilustre, numa esquina, que pede meia hora e um jornal, uma taberna acolhedora que nos convence a entrar. Afinal, estamos na Europa Central, e há traços de elegância no ar. Mas ténues. E que logo se esfumam quando nos afastamos do centro, para sul, por exemplo, para a Gare du Midi, que, em tandem com a estação do norte, sitia a cidade, sufoca-a com a pressão da miséria, do multiculturalismo e do isolamento dos expatriados. Um passo fora do centro de Bruxelas basta para que a pérfida periferia mostre as suas garras descoroçoantes. Os guetos sucedem-se, com dimensões bem distintas. Enormes, no caso dos árabes. Pequenos, do tamanho de um café, quando há portugueses ou espanhóis. (Os cafés portugueses e espanhóis parecem amostras dos respectivos países prontas para serem escrutinadas por observador atento. Nos primeiros impera a tristeza, o ressentimento, e o silêncio apenas interrompido por discussões amargas e sem sentido. Bebe-se Sagres. Salva-se, nalguns lugares, a boa disposição dos africanos que falam português. Nos segundos há música alta, palmas, risos, e bebe-se cerveja belga.)

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Carlos M. Fernandes, Bruxelas, 2008

A Place de la Constitución, o anfiteatro da Midi, coberto em grande parte pelas linhas de comboio que cortam a cidade ao meio, é o palco ideal para espreitar a Europa que se esconde por trás das praças altivas e da prosperidade da (velha) classe média. As estações de comboio têm o duvidoso dom de atrair a refugo da urbe. São lugares de chegada e partida que raramente reflectem uma só característica da cidade que servem. Mas não ficamos imunes às lições das estações de Bruxelas. Por entre as zonas circundantes cresce uma caricatura da Europa, um novo mundo que põe em causa a civilização baseada na liberdade e igualdade perante a lei. Sejamos directos: há bairros em Bruxelas (e noutras cidades europeias) que mais parecem enclaves magrebinos. O carácter segregativo e intolerante do multiculturalismo é-nos oferecido, perante os nossos olhos incrédulos, com requintes de invasão. Estamos muito longe de Nova Iorque, cidade de verdadeira mescla cultural, onde até um bairro quase autista como Chinatown assenta como uma luva na dinâmica da cidade. Numa Europa em decadência demográfica, sustenta-se o sonho do Estado Social com a mão-de-obra barata que nos chega dos mais inesperados recantos do mundo. Mão-de-obra descartável, usada e abusada por governos e cidadãos que não querem abdicar do seu direito à preguiça. Os têxteis chineses são diabolizados pelo progressista, mas os operários senegaleses são acarinhados, pois são esses que pagam a reforma do europeu nauseado. Bruxelas é o palco principal desta deriva europeia no sentido da sua própria extinção, e até o basfond perdeu o encanto. Os bares da estação, com os seus néones de bordel, já não convidam à reflexão sobre a condição humana. Longe do mar, não há des marins qui chantent. Longe da Europa, já não há des marins qui dansent/ En se frottant la panse/ Sur la panse des femmes. Sem o disfarce da magnificência, mesmo que perdida sob o olhar de mil leopardos, só vemos um desfile de miséria que nos acorda, com um estremecimento, de um sonho que há muito se tornou pesadelo. E, asfixiados pelo islamismo, o qual, em Bruxelas enche o peito com nomes como Alhambra e Andaluzia, nomes de baptismo de restaurantes onde não há tapas nem cañas, pode chegar o dia em que não dançaremos nem cantaremos, muito menos encostados ao ventre de uma mulher, e seguramente sem uma cerveja para beber, rebeber e rebeber outra vez.

Mas há um aspecto positivo nesta descaracterização de Bruxelas, nesta cidade que já não canta, que já não se lembra dos tempos do cinema mudo, uma cidade onde nem o fantasma de Brel se atreve a entrar. No dia em que os europeus perderem a cabeça – e se não se perderem entretanto numa nova histeria de nacionalismo arquitectada por um qualquer aspirante a tirano* – e resolverem construir um muro em redor dos burocratas, Bruxelas é o lugar ideal para ficar esquecido para sempre. O gueto de Bruxelas. Não se perde nada e talvez recuperemos a diversidade perdida, a discrepância interna que não nos separa, mas que nos une, e que tanto incomoda, por motivos inescrutáveis, os burocratas.

Carlos Miguel Fernandes

*Não esquecer que a Bélgica foi palco de uma das mais representativas manifestações de nacionalismo romântico, logo após o final de La Muette de Portici, de Daniel Auber, a 25 de Agosto de 1830. A Bélgica é o resultado de uma ópera! Mas se é verdade que o romantismo foi o edificador dos Estados-nação, é também indiscutível que as perversas doutrinas hegelianas podem levar à barbárie. Já aconteceu. A história não se repete (deixemos essas teorias para os historicistas), mas o o zeitgeist europeu não nos deixa dormir descansados.

P.S. De Lisboa chega a notícia sobre um cartaz racista, e sobre a sua retirada pelos serviços da Câmara. O estado da Europa conduz a isto, à emergência de discursos doentios, ao aparecimento no espaço público de semi-analfabetos que só podem almejar a seduzir outros indigentes mentais. Mas um dia aparece um mais esperto, e estas guerras declaradas (retirada do cartaz, fora da alçada dos tribuinais), que tão facilmente se confundem com atentados à liberdade de expressão, revelar-se-ão contraproducentes. E os ismos já espreitam, ismo de extremismo, como se pode ver pelas reacções, consonantes, dos dois extremos do espectro político português à crise financeiro. Dos dois lados declara-se a morte do capitalismo, já se fala no regresso de Marx, e a extrema-direita só não evoca Fichte porque talvez não tenha bagagem cultural para tão humilde atrevimento.

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setembro 20, 2008

Berlim, Café Adler

Lamento, mas a sugestão dada no texto anterior, ainda com os pés em Granada e a cabeça em memórias de outras viagens a Berlim, chegou tarde. O Café Adler fechou, e, dado o estado do local, não me parece que volte a abri no mesmo formato. Viajar é também um ensaio para a perda.
O Checkpoint Charlie está agora entregue ao circo do muro, às bancas com camisolas de Che Guevara e bandeiras comunistas. Suásticas não se vêem, claro. Na Europa, todos os símbolos do Terror são iguais, mas…

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Carlos M. Fernandes, Berlin, 2007

Carlos Miguel Fernandes

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setembro 17, 2008

Berlim, Mais uma Volta no Carrossel

To revert for a moment to the distinction between totalitarian government and other dictatorships, it is precisely the relative rarity of outright crimes that distinguishes fascist dictatorships from fully developed totalitarian ones, although it is of course true that there are more crimes committed by fascist or military dictatorships than would even be conceivable under constitutional government.
Hanna Arendt, Responsibility and Judgment (Personal Responsibility under Dictatorship)

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Carlos M. Fernandes, Berlin, Chekpoint Charlie, 2007

O Café Adler, distinto espaço de convívio que domina uma das esquinas do Checkpoint Charlie, convida à reflexão, não só pela elegância da traça, mas também por aquilo que deixa ver através das suas janelas. Com Arendt nas mãos, é o lugar ideal para desfazer mitos, alargar o espírito crítico e resistir a comparações obscenas. Mas, tendo em conta o número de turistas que diariamente passam por aquele cruzamento, outrora fronteira, parece-me que não é por falta de contacto com a cidade mais representativa dos ismos que desumanizaram o século XX que os europeus teimam em ser parciais na sua intolerância. Talvez lhes falte mesmo Hanna Arendt e o seu pensamento, um dos mais importantes na identificação da génese do totalitarismo. Os portugueses, em particular, poderiam reflectir no regime que criaram (e comparar liberdades que têm, tiveram, ou nunca tiveram),

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Carlos M. Fernandes, Berlin, Cafe Adler (Águia), Chekpoint Charlie, 2007

In every bureaucratic system the shifting of responsibilities is matter of daily routine, and if one wishes to define bureaucracy in terms of political science, as contrasted to the rule of men, of one man, or of the few, or of the many – bureaucracy unhappily is the rule of nobody and for this very reason perhaps the least human and most cruel form of rulership.

Quando a descrença chega ao topo (ou seja, pouca gente acredita que a mudança de um governo produza câmbios concretos), é pertinente afirmar que Much would be gained if we could eliminate this pernicious word “obedience” from our vocabulary of moral and political thought. Mas os fiéis seguidores do querido líder continuam aí, prontos a fincar os dentes no dissidente, como cães de fila bem treinados e submissos. Pobre regime, aquele que pede obediência à “lei” podre. Ou, pobres cidadãos.

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Carlos M. Fernandes, Berlin, Chekpoint Charlie, 2007

Carlos Miguel Fernandes

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setembro 14, 2008

Barcelona: Descobertas e Regressos

Não sei quando foi, nem sei se já era assim quando visitei Barcelona pela primeira vez, há doze anos. Nas últimas duas décadas a cidade de Gaudi atingiu um patamar que associamos habitualmente a Nova Iorque, Londres ou Tóquio. Tem, por exemplo, uma dinâmica delirante e transformadora, e essa é uma das características de uma verdadeira metrópole em evolução. O exemplo do Born é paradigmático. Conheci o bairro há dez anos quando parecia um subúrbio de Tanger, e, nas últimas visitas a Barcelona, fui vendo como se transformava num lugar elegante e de convergência de multidões. Há um rio de gente que, todas as tardes, desce a carrer de l’Argenteria para dar vida, uma imensa vida, às ruelas e praças em redor do Passeig del Born. O estatuto de recanto sórdido e negro do centro da cidade ficou agora na posse exclusiva do bairro Gótico (há o Raval, claro, mas quando o Raval perder a aura canalha que transporta há muitas décadas, Barcelona deixa de ser Barcelona).

A especialização do comércio é outra característica das grandes cidades, e emerge quando se atinge uma determinada massa crítica de habitantes e visitantes, em quantidade e “qualidade” (ou seja, de carteira cheia). Em qualquer bairro de Barcelona encontramos lojas que se dedicam a vender, exclusivamente, os mais inesperados produtos e conceitos. A Kowasa Books não vende um produto estranho ou surpreendente. Há muitas cidades com livrarias especializadas em Fotografia. Mas a Kowasa surpreende pela dimensão da oferta. Já conhecia a página, e agora, finalmente, visitei a loja, situada no 235 da Mallorca. Não conheço melhor. O único aspecto negativo é o preço dos livros, uma política que segue o padrão de Barcelona, entre o caro e o muito caro. Mesmo assim veio de lá, a um bom preço, o Reflections in a Looking Glass, dedicado à obra de Lewis Carrol, e editado pela Aperture. Passemos à música.

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Na Rambla de Catalunya encontrei, por acaso, a Jazz Messengers. Só duas palavras podem descrever com exactidão mais este negócio especializado: tem tudo! E, neste caso, nem podemos dizer que os preços são abusivos. Como o jazz moderno raramente me entusiasma, fui ao baú dos clássicos e encontrei Complete Studio Recordings, de John Coltrane e Thelonious Monk (com Coleman Hawkins nas faixas 2 a 6 como brinde).

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Abaixo da Gran Via visita-se, acima vive-se. Esta é uma das regras de ouro dos barceloneses. Quem já dormiu no bairro Gótico ou Velho sabe o pesadelo em que tal aventura se pode transformar. A zona que fica entre a Gran Via de Las Corts Catalanas e o Mediterrâneo – Gótico, Born, Raval, etc – é um lugar de animação permanente, ideal para uma tarde de tapas ou uma noite de excessos. Para dormir, é mais aconselhável procurar um quarto a norte da Praça da Catalunha, e depois caminhar. Mas, quanto mais conheço Barcelona, mais aprecio os bairros novos, com a sua geometria ortogonal que baralha o viajante, e os amplos cruzamentos, onde se escondem verdadeiras pérolas da gastronomia ibérica. Num desses cruzamentos, do qual infelizmente não tomei nota* (mas que sei estar entre a carrer del Bruc e o Passeig de Gracia), encontrei uma mercearia com uma selecção notável de enchidos e queijos (Torta del Casar, Serra da Estrela,…). Na montra, uma coisa chamada Mimolette chamou-me a atenção. É um queijo de vaca, de estilo holandês, com dois anos de cura. Lembrei-me do Ryipenaer e comprei um troço.

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Carlos M. Fernandes, Barcelona, 2008

A carrer Roselló, uma das muitas vias extensas que compõem os Eixamples, é, na zona que se aproxima da Faculdade de Medicina, um segredo bem escondido e afastado do fluxo turístico. É lá que se encontra o Semproniana, um restaurante que já havia visitado em 2006, e ao qual voltei há pouco dias para confirmar a avaliação prévia. As molejas saíram, com muita pena nossa, do menu, mas o brazo de un gitano moreno, imagem de marca da casa, lá estava para nos estimular com a sua personalidade forte. Um canelone, um recheio de botifarra negra e um molho de parmesão, e o resultado é uma ode a uma certa gastronomia mediterrânica, um delírio de sabores em confronto, uma simplicidade desarmante. A refeição seguiu com o tamboril com judias e açafrão, e dois pratos fortes, um coelho recheado de verduras, e um pregado, que, como se sabe, é das melhores coisas que anda pelos oceanos. O Celia 2001, um reserva da Ribera del Duero, teve que se aguentar com tamanha diversidade, mas um grande vinho porta-se sempre bem (e este era “enorme”) e uma refeição nunca se pode desviar do que lhe é central: a comida, e esta estava irrepreensível. O Semproniana, mais uma vez, rondou a perfeição. Em Espanha só me sento para uma refeição tradicional quando a proposta é muito estimulante. A tapa está-me no sangue, e não é de ânimo leve que troco os longos roteiros feitos de marisco, frituras, enchidos e muitos outros petiscos saídos do riquíssimo receituário espanhol, pela tranquilidade de um jantar “de faca e garfo”. O Semproniana consegue tirar-me da barra e sentar-me à mesa. Mas antes não dispenso um par de cañas e umas setas no bar do 150 da Roselló, mesmo ao lado do restaurante, e que se pode ver na fotografia que escolhi para ilustrar a entrada anterior. Um excelente ponto de encontro. E um daqueles lugares em que, por vezes, nos sentimos no centro do mundo.

Carlos Miguel Fernandes

*Fica na Roger de Lúria 85, no cruzamento com a València.

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setembro 11, 2008

Barcelona

Já não sei o que contar sobre esta cidade fantástica. Já não são o que descobrir nestas ruas que percorri tantas vezes. Basta-me para já recordar o que escrevi. Mais tarde talvez acrescente alguma coisa.

Barcelona

A vida são dois dias.

A Vida são dois dias II.

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Carlos M. Fernandes, Barcelona, 2008

Carlos Miguel Fernandes

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setembro 06, 2008

O País Visto de Longe XIV

Por estes dias, e perto da capital, milhares de pessoas reúnem-se numa festa que celebra uma das ideologias mais criminosas da História da Humanidade. Concedo que muita gente não esteja lá para celebrar coisa alguma, mas apenas para se divertir num festival de Verão como outro qualquer. Mas a Festa do Avante não é um festival como outro qualquer. Participar num evento destes é ser conivente com o branqueamento de uma doutrina atroz. E, a acrescentar à essência já suficientemente cruel da festa, há detalhes que deveriam envergonhar o mais apolítico dos “festivaleiros”, como a presença de organizações terroristas em barraquinhas gentilmente cedidas pela organização.
Há cidadãos imunes às lições da História. Há cidadãos que não estão minimamente interessados na História. Estão no seu direito. Mas o mesmo já não se pode dizer das políticas de Estado, as quais se pautam pela vigilância e até proibição de reuniões tentadas no outro lado do espectro político, enquanto que o ismo celebrado este fim-de-semana na Quinta da Atalaia é tolerado com um sorriso complacente nos lábios. Não defendo proibições ou coisas do género. A liberdade implica, por vezes, tolerar os intolerantes. Mas este dilema popperiano não pode ser selectivo. O Estado não tem legitimidade para definir quais as ideologias que podem entrar no espaço e debate público.

A parcialidade da intolerância não é um problema ou característica de Portugal, como o título do texto dá a entender. É um problema da Europa. Já aqui escrevi há algum tempo que a Europa só virará definitivamente uma das páginas mais negras da sua História quando a “foice e martelo” for fazer companhia à cruz gamada. No caixote de lixo.

Carlos Miguel Fernandes

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agosto 21, 2008

Notas de Viagem VIII

Madrid, 22 de Julho de 2008. Baixei do hotel, onde descansara um par de horas, para a rua. Chegara a Madrid nessa manhã, e Nova Iorque ainda me ocupava os pensamentos (e ainda a sentia no corpo). Entrei na primeira tasca que vi, na rua San Bernardo, e bebi uma coca-cola e comi uma tapa. Um homem entrou, com uma disposição alegre, e pediu uma caña. É para celebrar os cem dias do governo de Zapatero, disse. Tu eres como la orquestra del Titanic, respondeu-lhe o taberneiro, enquanto fazia o gesto do arco sobre um violino invisível. O barco afunda-se, mas os seguidores do desastrado comandante continuam a tocar. De repente, Nova Iorque esfumou-se. Estava na Europa.

Carlos Miguel Fernandes

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agosto 03, 2008

Notas de Viagem VI

Vinha do Metropolitan e vagueava pela zona da Columbus Avenue, rumo ao metro que me levaria às portas de Brooklyn. É desta, pensei, é desta que saio de Manhattan. Queria estar do outro lado do East River quando o sol, baixo, iluminasse em contra-luz a silhueta mutilada da Dutch New Amsterdam. Mas o calor fez-me tropeçar no Dublin House, que fica na W 79th Street, perto da West End. Sentei-me ao balcão, e por alguma razão que agora não recordo, entabulei conversa com o Mark, dramaturgo nas horas vagas (I work for the city, é a única pista que tenho sobre o seu verdadeiro trabalho). O Mark tinha aquela energia louca, aquela ânsia pelos grandes feitos que nos faz desconfiar que o seu amor à arte é um desígnio constantemente adiado. Talvez nunca tenha estreado um trabalho na Broadway, nem fora da Broadway. Disse-me que prepara agora uma peça em dois actos baseada no Inferno de Dante. Não adapta a obra integral, porque, nobody cares about Purgatory! Comecei a perceber que estava a conversar com a cidade. O Mark cada vez me parecia menos uma pessoa de carne e osso, e transformava-se agora numa personagem literária, cinematográfica. Era matéria de romance. Como estávamos no Upper West Side, Auster vinha-me constantemente à memória, mas era mais profunda a investida no Great American Novel, eram as águas de Moby Dick que navegávamos, era a insana demanda pela obra maior do que a vida, a ambição acima do génio, era essa amálgama americana que estava em cima daquele balcão gasto de um bar irlandês na 79th Street. Mark perseguia o seu Leviatão pessoal. Mas estava convencido que Nova Iorque nunca o iria revelar perante os seus olhos. Vociferou contra a nova cidade, a cidade sem vagabundos e livre de fumo. Denunciou as campanhas higienistas, classificando-as como políticas nazis, e meteu democratas e republicanos no mesmo saco. As restrições das liberdades individuais, o Patriot Act, mereceram os mesmos mimos. Mark é um libertário, de ímpetos criados no caldo dos anos sessenta, sim (esteve em Woodstock), com tiques esquerdistas, talvez, mas é um exemplo de como a discussão política, na América, se recentra sempre que as liberdades são postas em causa. It’s all about freedom, man, it’s not about democrats and republicans. Mark já não consegue viver em Nova Iorque. É um poeta, diz-me. Se não pode beber uma cerveja e fumar um cigarro ao mesmo tempo, não consegue escrever. Vai para Oeste, para um Estado menos puritano, afirma com convicção. A sua descrição de uma Nova Iorque com os vícios mais sérios varridos para baixo do tapete, enquanto os cigarros e outros estilos de vida menos adaptados à moral higienista são perseguidos, fez-me lembrar as palavras de Abel Ferrara: em Nova Iorque ainda se compra cocaína; mas agora vamos de limusina.
A ronda pela histórias de Nova Iorque não terminou com o Mark. Do meu lado direito estava um texano, de cujo nome, lamentavelmente, não me recordo, que escrevinhava umas notas com o lápis que lhe emprestei. Estava a trabalhar em ideias para o seu espectáculo de comédia. Já actuaste em muitas salas?, perguntei. Não, ainda nem sequer tinha passado pelo baptismo! Graduara-se em Geografia, trabalhava agora com o pai na venda de livros de medicina (!) e estava à espera de uma oportunidade para sair de uma vida rotineira. Enquanto esta não chegava tentava melhorar o seu reportório. Mark partia, desiludido com o rumo de Nova Iorque, e este jovem nascido em Austin preparava-se para tentar a sua sorte na cidade que nunca dorme. I don’t even know if I’m funny, disse-me com uma sinceridade desarmante. A conversa chegou ao seu irmão mais novo, que acabara de se licenciar em Design. He has an artistic temper, disse, e depois perguntou-me que conselho daria a um jovem com tais ambições. Fiquei surpreendido com a questão. Talvez estivesse apenas a tentar arranjar material para o futuro espectáculo. Talvez não. Respondi como sabia: estudar os clássicos, estudar muito, evitar a arrogância da juventude, não cair no erro de pensar que pode construir algo a partir do nada; o objecto artístico nasce do autor, sem dúvida, mas de todo o conhecimento acumulado por este, de toda a cultura edificada pelos que lhe antecederam. Na Arte, como na Ciência, o défice de humildade é a morte do artista.

Saí do Dublin duas horas após ter entrado. Brooklyn ficava mais uma vez adiado. Sem penas. Estive no coração de Manhattan. E Manhattan (já) não é Amsterdão. Não há canais concêntricos a lembrar os círculos do Inferno, há apenas algumas almas, umas penadas, outras com um sopro imenso de vida, a lembrar-nos que o Inferno somos nós, e o que dele fazemos.


(Nota adicional: A Europa indignou-se com a escalada no ataque às liberdades individuais que se verifica nos EUA pós-11 de Setembro. Não percebo bem por que razão. Somos fotografados e obrigados a deixar uma impressão digital à entrada dos EUA? É verdade. Mas não é isso que portugueses, espanhóis, gregos e outros europeus fazem há anos? Não somos tratados como criminosos pelos sucessivos governos, não somos obrigados a sujar os dedos e a deixar a marca pessoal para os arquivos? Parece coisa de pouca monta, sujeitamo-nos com um sorriso na cara, e quem levanta a questão dos Bilhetes de Identidade é até alvo de chacota. Mas a fotografia e a impressão digital são o primeiro passo no sentido da servidão. Os americanos e os ingleses sabem-no bem, e por isso resistem aos avanços de certos sectores dos seus governos. Os europeu continentais vão olhando zombeteiramente para o mundo anglo-saxónico e para sua luta em prol da liberdade, enquanto as suas grilhetas vão ficando mais apertadas.
Um conselho: se forem aos EUA e vos pedirem algum documento de identificação, nunca mostrem o Bilhete de Identidade. Arriscam-se a receber em troca um olhar desconfiado. Uma impressão digital num documento é sinal de passado duvidoso.)

Carlos Miguel Fernandes

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julho 29, 2008

Notas de Viagem IV

Notas gastronómicas. Muito bom, o rabo encendido do Cuba, um rabo de boi saído de uma cozinha competente, imerso num molho rico que mostrou toda a delicadeza da carne sem exotismos fanfarrões. Chegou à mesa com arroz branco e feijão negro, e foi por mim regado com a brasileira Brahma. O restaurante fica no 222 da Thompson, no exuberante Greenwich Village, e ofereceu-me a melhor refeição da viagem, atenuando assim a tristeza que emana sempre da última tarde em Nova Iorque. Bom, o borrego do Mekeren, um restaurante etíope, ainda em Village, na McDougall. Também muito recomendáveis, para quem gosta de sabores mais intensos e quentes, as amêijoas com erva-limão que comi no Singapore, sito em Mott Street, no coração da Chinatown nova-iorquina; e a galinha grelhada, enrolada em folhas de bananeira e cozida em vapor, que veio como entrada, também não desmerece alguns elogios. Noutro registo, as chamuças da cafetaria do Ruben Museum of Himalayan Art não estavam nada más e foram o aperitivo correcto para Nepal in black-and-white, de Kevin Bubiski. Para terminar, não posso deixar de referir as almôndegas da Taberna del Mozárabe, já em Madrid, na Plaza Conde Torreno. Foram “só” as melhores que comi nos últimos anos. Carne picada toscamente, alho abundante, molho de tomate com a acidez bem controlada, e cantatas de Bach como música de fundo. O final perfeito de mais uma viagem memorável.

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Carlos M. Fernandes, Atlanta, 2008

Carlos Miguel Fernandes

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julho 25, 2008

Notas de Viagem III

O BillyMark’s West apareceu-me pela frente como um oásis num deserto urbano. Um deserto circunstancial, claro, pois Nova Iorque é tudo menos uma cidade desolada. Vinha de uma visita às galerias de Chelsea, na zona de armazéns perto do rio Hudson, e sentia na pele a aflição de Tom Ewell/Richard Sherman, mesmo sem o pecado ao lado (ou em cima), mesmo sem a comichão dos sete anos, e sem Rachmaninoff para me confortar. Eram três da tarde, o calor e a humidade atingiam níveis insuportáveis. Ainda queria subir a Avenue of the Americas até ao número 1133, a morada das exposições do Internacional Center of Phtography, perto das ruas mais congestionadas de Nova Iorque, onde a multidão se adensa até ao limite de almas por metro quadrado. Estava na hora de descansar um pouco. O contacto periódico com o ar-condicionado é fundamental para enfrentar o Julho nova-iorquino. Pode ser numa galeria, numa loja, num bar, desde que o suor pare, por um momento, de nos encharcar a face, de se acumular nas sobrancelhas e cair em gotas que baralham a visão já toldada pela beleza de Nova Iorque. Atravessava a Nona, pela 29, quando vejo o BillyMark’s. Entrei. A frescura do interior deu-me outro ânimo. Sentei-me num dos bancos de napa e encostei-me ao balcão de madeira pintada de negro. O bar é escuro, não por falta de luz, mas pelos tons da decoração. Ao fundo, em lado oposto à entrada, estão duas mesas de bilhar e a inevitável “caixa de música” (jukebox). A poucos bancos de distância, dois afro-americanos (é assim que se diz, não é?) falavam sobre o estranho labor dos “seguranças” (bouncers), com gestos a imitar agressões tentadas e pistolas apontadas à cabeça. Não é velho, nem novo, o BillyMark’s. Está apenas gasto, tem pátina, há ali histórias para contar, e por contar. Peço uma cerveja, uma Budweiser, por favor. Are you from Spain?, pergunta-me o Mark ou Billy, não sei qual deles (é o da esquerda nesta imagem). Olho para a mochila em busca de pistas. Na roupa é impossível. Confundirem-me a nacionalidade é habitual, e o “alemão” é sempre o primeiro tiro. Mas “espanhol” é a primeira vez. Actually I live in Spain, but I am portuguese, respondi, enquanto meditava na fragilidade de uma identidade, e nas razões que terão levado o homem a pensar que eu era espanhol. Ter-me-á a Andaluzia cambiado o sotaque? Ou, como dizia o Antonio em Atlanta, referindo-se aos meus hábitos aparentemente desregrados, serei mesmo half spanish? Por vezes sinto-o por inteiro. They sure know how to party there, continua o Billy/Mark. Respondi de acordo com a minhas palavras anteriores, yes they do, mas por dentro pensava, yes we do, my friend, yes we do. Sorri, levei a Budweiser aos lábios, e a temperatura da sala desceu mais um pouco.

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Carlos M. Fernandes, New York, 2008

Carlos M. Fernandes

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julho 24, 2008

Notas de Viagem II

En Viena hay diez muchachas,
un hombro donde solloza la muerte
y un bosque de palomas disecadas.
Hay un fragmento de la mañana
en el museo de la escarcha.
Hay un salón con mil ventanas.
¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals con la boca cerrada.

Federico Garcia Lorca, Pequeño Vals Vienés

Viagem mental a Granada, quando estar na cidade ainda era uma viagem e não uma vida desejada, quando andava de taberna em taberna, sem voz amiga que me prendesse durante mais tempo do que o necessário para beber duas cañas. Estou no balcão e ouço música de uma estação de rádio. A certa altura chega-me a voz de Cohen. Now in Vienna there’s ten pretty women... Take this waltz. Nada de relevante, e momento esquecível, se não fosse o caso de estar em El Rincón de Lorca, na Tablas. E agora as recordações levam-me para o BillyMark’s West. Sem lógica condutora.

Carlos Miguel Fernandes

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julho 23, 2008

Mais Notas de Viagem I

Era meia-noite e eu subia a Sexta Avenida quando vi no chão The Closing of the American Mind, de Allan Bloom. O homem pedia três dólares pelo livro. É a primeira edição.

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Carlos M. Fernandes, New York, 2008

Carlos Miguel Fernandes

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julho 18, 2008

Um Milagre

No Iorque não é uma cidade, é um milagre. Podem atacá-la, arrasar os seus edifícios mais emblemáticos, escarnecer do modo de vida americano. Nova Iorque manter-se-á, por muito mais tempo, como a Cidade Perfeita, aquela que faz todas as outras parecer uma aldeia perdida no espaço e no tempo.


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Carlos M. Fernandes, New York, 2001

Notas de viagem:
1) Passear por Nova Iorque depois do sol-posto, entre Chinatown e Chelsea. Comprar o Impressions do Coltrane numa loja de discos usados na W 4th Street; depois, o Let now praise famous men, o mítico livro de Walker Evans e James Agee, num alfarrabista de Greenwich Village, o Left Bank Books. Atravessar dois ou três quilómetros da cidade imerso numa multidão excitada. Parecem pequenas coisas, mas são grandes luxos.

2) Atlanta é maçadora, é demasiado extensa e não tem vida nas ruas que ligam as suas diferentes áreas mais (pouco, muito pouco) animadas. É uma cidade feita para carros, e os peões sofrem, e sofrem ainda mais durante o verão subtropical. Mas nunca esquecerei as noites quentes de Atlanta, a humidade, o cheiro a terra, os sons, o verde intenso da vegetação que rodeava as casa de madeira, aparentemente, frágeis. E não esquecerei a esplanada do City Café (um diner, aberto 24 horas), no cruzamento da 10 com a Hemphill, no meio do nada, o suor a escorrer-me pela cara, os arranha-céus do centro e do Midtown ao fundo, iluminados como árvores de Natal, e a sensação incómoda de nunca mais voltar àquele lugar.

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Carlos M. Fernandes, Atlanta, 2008

3) Sweetwater. A cerveja de Atlanta. Chama-se água doce, mas é uma ale amarga, a fazer lembrar as cervejas dos pubs londrinos. Excelente.

4) Bolo de caranguejo. Há uns dias, No Ray's Oyster Bar, na Peachtree, Atlanta, com a pandilha granadina reunida em volta de um enorme prato com os ditos, calamares fritos, ostras com parmesão e espinafre, e gambas picantes. Ontem, já em Nova Iorque, e aqui mesmo na porta ao lado, acompanhado por uma Hoegardeen. Deliciosos.

5) Em Atlanta, um jornal esquecido em cima da mesa do hotel descrevia, num artigo, a recente migração de reformados desde a Florida até à Geórgia, e em particular até à sua capital. Foram feitas algumas perguntas a um casal que trocou as praias de Miami por uma pequena vila nos arredores de Atlanta. Razões? Os impostos na Florida tornaram-se insuportáveis. Nos EUA, cada estado é livre de definir a sua política fiscal, podendo, dessa forma, competir com outras regiões do país, conquistando população e investimento. Na Europa, assustados com as políticas dos países de Leste, os sacerdotes do Estado social tentam, por todas as vias, a uniformização fiscal. Repare-se bem no absurdo: estados que pertencem a um país são livres de definir as suas regras, mas os iluminados burocratas de Bruxelas julgam que os estados soberanos que compõem a União Europeia não têm esse direito. Coisas de beatos, de quem tem medo de que a Santíssima Trindade (liberdade, igualdade, fraternidade) abandone o domínio dos governos e seja entregue ao povo. Os europeus têm a água pelo pescoço, lutam para conseguir respirar, mas insistem em continuar com as políticas que inundaram o salão. Ao mesmo tempo, mantêm sempre um dedo apontado ao outro lado do Atlântico, esperando a anunciada derrocada do capitalismo. Enfim, a Fé não se discute…

6) Escrevo desde o quarto 503 do Chelsea Inn. Nada mudou nos últimos sete anos. O Chelsea Inn é um hotel modesto, situado num velho prédio de Chelsea. As escadas rangem, as paredes são irregulares e as alcatifas já podiam ter sido mudadas há alguns anos. No entanto, é um sítio aprazível, o quarto é grande, o ar-condicionado ajuda a suportar os 35 graus e os 60 por cento de humidade, e na recepção estão caras simpáticas e prestáveis. Mas era escusado terem-me posto no quinto andar de um prédio sem elevador. Não sei que espécie de neotenia se manifesta no meu rosto (em Atlanta, em mais do que um lugar, tive que mostrar identificação para beber uma cerveja!!), mas já tenho uma barriga respeitável, e o corpo faria soar muitas campainhas se me desse ao trabalho de ir a um médico. Uns destes dias, de manhã, encontram-me estendido nas escadas, entre o terceiro e o quarto piso.

Carlos Miguel Fernandes

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julho 11, 2008

Crónicas Antecipadas

Granada-Lisboa-Atlanta-Nova Iorque-Madrid-Granada. Em doze dias. Cansa, mas a recompensa costuma ser elevada. Os roteiros ficam em aberto. Em Atlanta, só desejo que as três apresentações nas quais estou envolvido corram bem; espero também encontrar um bom restaurante de cozinha cajun (mesmo sabendo que ainda estou longe do Louisiana). Em Nova Iorque, quero passar uma tarde no Metropolitan, dar um salto ao International Center of Photography, jantar em Chinatown, passear entre o Soho e o Noho, e tentar não perder a cabeça na Strand. Em Madrid, "tenho" que ir a algumas exposições do PhotoEspaña, mas tenho mais ganas de gastar o tempo nas galerias, alfarrabistas e tabernas que dão uma atmosfera elegante e canalha às ruelas que se estendem preguiçosamente entre a Gran Via e a calle Atocha. No final, quero chegar a Granada, no início da noite, atirar três pedras de gelo para dentro de um copo, regá-las com gin, e rezar para que, no frigorífico, tenham ficado esquecidas algumas garrafas de água tónica. Depois, sentar-me-ei na varanda a olhar para os terraços da cidade. Será pedir muito?

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Carlos M. Fernandes, San Antonio, Texas, 1998

(Falta Lisboa? Pois falta. Mas Lisboa não conta para nada, nunca contou. A única compensação de uma passagem forçada é a exposição do Sérgio Santimano na P4. Não percam.)

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Carlos M. Fernandes, Red Rock Canyon, Nevada, 2001

Carlos Miguel Fernandes

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abril 18, 2008

Atlanta, Geórgia

Foi George Barnard quem me transmitiu a imagem que tenho de Atlanta. Uma cidade a nascer e a crescer, em meados do século XIX. Sei que por lá passaram os Jogos Olímpicos, mas como ligo pouco a esse tipo de eventos, não actualizei a "fotografia". Em breve vou confrontar-me com a Atlanta real, uma cidade com uma população (na área metropolitana) de cinco milhões de habitantes, capital do estado da Geórgia. A Coca-Cola, e muitas outras empresas de peso, escolheram Atlanta para instalar a sua sede. Pouco mais sei sobre Atlanta. Por agora, pois em Julho espero que passe a ser mais um pedaço de terra na geografia pessoal.

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George Barnard, Atlanta, 1864

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dezembro 23, 2007

Saudade

Numa inversão de valores que pode parecer absurda a muita gente, é em Portugal que percebo o significado da palavra saudade, pois é aqui que a sinto em todo o seu vigor (sim, estou em Portugal durante alguns dias, demasiados). Saudades de Nova Iorque, saudades de Budapeste, saudades de Berlim, a lista é extensa e os itens invadem-me o espírito consoante os estímulos. Agora, menos de vinte e quatro horas após ter regressado, temporariamente, ao país, já sinto saudades do estúdio pequeno e frio que deixei fechado na Conde de Tendillas, e das ruas vivas do bairro Boquerón. Aqui, em Lisboa, nada me prende e nada me alimenta a saudade (estou a falar de “coisas”, e não de gente, claro; a família, uma cadela e alguns amigos – poucos, e cada vez menos – são matéria sagrada que não entra nestes delírios). Quando me deixo enredar nesta disposição recordo-me sempre do Jorge Calado e da conversa que tivemos há quase dez anos, uma espécie de diálogo mestre-aprendiz saído directamente de Cinema Paraíso. Carlos, vá para o estrangeiro e não volte, dizia-me o Jorge, enquanto explicava a sua forma de estar vida: quero lá saber do pastel de bacalhau quando estou em Londres. Acabei por perder a rampa que o fulgor da juventude nos oferece, tomei opções discutíveis e não abracei logo o sábio conselho. Mas também não sei se serei um homem do mundo, como o meu amigo Jorge Calado. Não porque esteja agarrado a Portugal, terra à qual nunca chamei “minha”, ou ao pastel de bacalhau. Digo isto porque, quando estou em Espanha, percorre-me, como em mais lado algum, uma vaga sensação de patriotismo, um patriotismo com rosto castelhano. É em Espanha, nas calles de Granada, Sevilha ou Barcelona, que percebo o amor a um pedaço de terra. É em Espanha que frases como Todo por la Pátria, inscritas à entrada dos quartéis, não me parecem ridículas, pois é em Espanha, mais do que em qualquer outro lugar, que respeito e venero aqueles que morrem pela pátria. Porque eu talvez desse o meu sangue pela tradição espanhola, pela sua força e brio. Porque eu talvez morresse pelas tabernas, pelo flamenco, pelas corridas de touros. Porque eu talvez morresse por Espanha, una e indivisível. Aliás, Espanha me mata. Todos os dias um pouco.

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Carlos Miguel Fernandes, Granada, 2007

Carlos Miguel Fernandes

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dezembro 03, 2007

Dias Granadinos III

Ontem, domingo, levantei-me tarde. Está frio, o ar da Serra não perdoa, e os lençóis prendem-me com força. Mas acabei por descer à rua. Comprei o jornal Ideal, que agora, ao domingo, vem com uma colecção de DVDs dedicada a Cary Grant. Não me faltaram quiosques onde procurar. Perdi uma hora num cibercafé, e quando saí estava mais frio, muito mais frio. Apetecia-me um chá. Onde? Nas ruas do bairro via-se gente, e alguns cafés estavam a abertos. Desci a Gran Capitan, voltei à direita, virei à esquerda, e li, numa parede, La Tertulia. Espreitei. Era mesmo ali. O La Tertulia é um café-bar com quase trinta anos de idade. Às vezes toca-se flamenco e a quarta-feira é dia de aula de tango. Sentei-me, e bebi um chá verde enquanto folheava o Ideal. Nas mesas jogava-se xadrez. Este Tertulia estava tão perto de casa e eu ainda não o descobrira, até ontem!
Quando saí, lembrei-me de comprar pão. Eram quase oito horas, onde iria eu encontrar pão num início de noite de domingo? Mesmo em frente. E quente, acabado de fazer. Pedi para me cortarem também uma fatia da empanada de atum que olhava para mim, e voltei para casa. Hesitei. Sabia que o centro da cidade estava ao rubro, mas ontem a noite era de trabalho. Voltei mesmo para casa. Feliz, mas apreensivo. Lisboa, cidade da qual nunca gostei, parecia-me, lá longe, ainda mais lúgubre do que o habitual. Saber que mais cedo ou mais tarde vai haver um regresso é um problema que me aflige e que já me faz rever decisões que pareciam tão cristalizadas ainda há poucas semanas atrás. Alguém pode viver em Lisboa depois de passar por Espanha? Ah, a luz de Lisboa e tal. Ora, os realizadores franceses que fiquem com essa luz…

Carlos Miguel Fernandes

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novembro 29, 2007

Dias Granadinos

Hoje de manhã encontrei a Gran Via cortado por uma manifestação. Caminhei no sentido da Av. de la Constitución em busca de uma alternativa, sem grande esperança, pois a Gran Via de Colón é a coluna vertebral da cidade, e ainda mais quando falamos de transportes públicos. Passei pela multidão que agitava bandeiras e ouvia um orador. Pelas palavras que eram ditas, percebi o que se passava: agricultores, consumidores, governo; fui agricultor toda vida, quero morrer agricultor. Que luxo, hein, emprego para a vida! Nada de novo, é a Velha Europa no seu esplendor. Debater ou divulgar ideias é sinónimo, para esta gente, de estragar a vida aos seus concidadãos. E é notável com falam de consumidores, e da defesa dos seus produtos perante os mesmos, quando hostilizam esses mesmos consumidores. Mas é indiferente, não é? Quando a um agricultor lhe falha o mercado há sempre soluções: governo, governo, governo. Resumindo: perdi quase duas horas com a brincadeira, e cheguei atrasado a uma reunião durante a qual deveria mostrar o trabalho que tenho desenvolvido nos últimos dias. Por onde andam os bastões quando mais precisamos deles?
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No sábado passado sentei-me no balcão de uma cervejaria com O Pátio Maldito, de Ivo Andrić. Dividi o livro com cañas e fatias de presunto, enquanto mantinha uma orelha posta na conversa entre quatro empregados, sul-americanos, sobre a possível existência de uma língua brasileira. O ambiente estava manso, em contraste com outras bodegas da zona da Calle Gran Capitán. A noite anterior, vivida entre ciganos e flamenco, já havia sido palco de muitos excessos, e agora procurava um lugar mais calmo. Ali podia ler um pouco.
Ivo Andrić (1892-1975) nasceu na Bósnia, venceu o Prémio Nobel da Literatura em 1961, e foi um excelso narrador da condição balcânica. Tenho saudades dos Balcãs, e quis lá regressar em sonhos embalados pela prosa de Andrić. Mas, entre duas tapas, foi a outro lugar que voltei:
Neste momento, em direcção à cela diante da qual o monge e Kâmil estavam ainda sentados, veio a correr um guarda a gritar o nome do jovem. Alguns passos atrás corria outro também gritando a mesma coisa, mas com mais zelo ainda. Assim é em todos os lugares do género, o pessoal miúdo é muito rápido a cumprir a ordem superior, rápido para o bem e para o mal, depende da natureza da ordem.
O que é o Pátio Maldito? É uma prisão, uma prisão onde se entra sem se saber muito bem a razão, e de onde raramente se sai com vida. Lá dentro, a existência é parda. Vive-se num estado constante de esquecimento, e num progressivo abandono de qualquer vestígio de personalidade própria. O pátio é dirigido por Karagös, um tirano ambivalente, com explosões de raiva e punições duras, pautadas por atitudes mais benevolentes e paternalistas. Um paizinho.

Sentiu uma grande necessidade de mudar de lugar, de ver e ouvir outras pessoas, que estivessem longe destas complicadas e turvas histórias de Smirna; de ver outra gente, fosse quem fosse, desde que estivesse fora desta absurda rede que os loucos e os guardas do Sultão, sem cérebro e sem coração, entretecem, estendem e emaranham entre si, e na qual, inocente como um cordeiro, ele próprio se vira enredado.
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Para me reconciliar com a cidade, depois do desentendimento desta manhã, vou daqui a pouco a este lugar, ao Al Sur de Granada, participar numa prova de vinhos da região. Uma ampla e excelente loja de produtos gastronómicos, maioritariamente da região de Granada, e com uma zona de degustação de vinhos, queijos e enchidos, entre outras coisas. Degustação, sim. Eu sei que corro risco de vida porque não tenho uma ASAE que me proteja. No Al Sur atrevem-se a servir “tábuas” de enchidos e queijos em…tábua, madeira mesmo! Brrr, que medo. Não sabem o que fazem, estes andaluzes. E talvez ainda usem colheres de pau, estes loucos. E vinho a copo, servem vinho a copo! Ah, esqueci-me, ainda se serve vinho a copo em Portugal (pouco, mas serve-se). Confundi com o episódio dos galheteiros. Como se sabe, é muito mais fácil adulterar azeite do que vinho. Onde estava eu com a cabeça, que tonteria. Os portugueses podem ser enganados com o azeite, mas com o vinho não são parvos.
(Eu sei que começo a fazer figura de Lenny Bruce, mas a deriva “higienista” de Portugal irrita-me até ao tutano. E é irritação por uma boa causa.)

Carlos Miguel Fernandes

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novembro 23, 2007

A Felicidade

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Morreu Férnan Goméz (1921-2007), artista de muitos ofícios, e Espanha veste-se de luto. Respeitando os seus últimos desejos, familiares e amigos velaram-no no palco de um teatro de Madrid, colocando mesas e cadeiras em redor da sua urna. Beberam-se cafés e copas e ouviu-se tango, a música favorita de Goméz. Isto é Espanha. Na televisão passam imagens da sua mulher, Emma Cohen, a “mulher da sua vida”, como dizem, recebendo e cumprimentando amigos, conhecidos e oportunistas, com os olhos inundados de lágrimas. Mas não eram apenas lágrimas lavradas pela perda e desgosto. Havia algo mais naquele esgar de dor, alguma coisa que nos desvendava uma solidão violenta, e nos dizia que Emma perdeu mais do que um marido, perdeu um amigo, o maior amigo, e que, de certa forma, para ela, também chegou o Fim. Temos um estremecimento e lembramo-nos de Fellini e Massina. E invade-nos uma sensação de desconforto.
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Amor a Andalucía. Amor a sus gentes, a sus tierras, a sus cantes, a sus frutos y a sus vinos, a sus mares y a sus ríos, a su cielo y a su sol. Amor a todo lo andaluz. Fruto de este amor son estas páginas que reúnen una seria de trabajos que tienen el denominador común andaluz. Andalucia es tan bella como compleja. Y atrae amarla y estudiarla. Andalucía es un puro contraste que enamora e incita a hablar e a escribir de ella.

Assim começa o livro Temas Andaluces, de Manuel Gallego Morell, editado em 1971, e que comprei num alfarrabista da rua San Jerónimo, perto da Catedral de Granada. Foi hoje (ontem), e, para além de ter passado meia hora da minha tarde a espreitar as prateleiras desse alfarrabista — no qual eu já reparara há cerca de duas semanas, e em cuja montra se destaca uma edição de Os Lusíadas —, aproveitei também para me deter perante lugares e recantos que vou deixando para trás, com pressa, quando caminho quase todos os dias até à Gran Via de Colón, onde entro no autocarro que me leva até ao local oficial de trabalho.

Mas hoje não fui para a Gran Via. Gastei o dia a resolver assuntos pendentes, pequenos detalhes que, uma vez rematados, poder-me-iam proporcionar uma maior estabilidade. Por isso me deixei ficar pelo centro de Granada, hoje, jueves, numa disposição branda e contemplativa, intercalada pelos deveres ditados pelo quotidiano de um recém-chegado. E assim aportei na livraria onde estava o Temas Andaluces e outras obras que também vieram comigo, entre as quais se destaca um guia de Avila. Avila!, cidade de Castela, situada a centenas de quilómetros de Granada; Avila, terra deslumbrante que visitei há quase dez anos, numa outra vida. Por que razão escolhi esse lugar, tão longe dos “temas andaluzes” que agora me rodeiam? Pelo nome que vi no canto superior direito da capa, o nome do improvável autor: Camilo Jose Cela. Será “o” Camilo Jose Cela, enorme escritor galego, prémio Nobel, bom andarilho (recorde-se Vagabundo ao Serviço de Espanha)? Não coloco outra hipótese, tal como me parece muito plausível que o F. Catalá Roca que aparece na lista de fotógrafos do guia seja “o” Francesc Catalá Roca, um dos maiores de Espanha. São estes os pequenos tesouros que nos preenchem um dia e que nos vão acorrentando, aos poucos, às cidades por onde passamos, mesmo quando a adaptação é lenta e despreocupada. Falemos então de adaptação, que agora percebo ser um processo conduzida pelo registo da visita, e não pelo lugar.

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Carlos Miguel Fernandes, Granada, 2007


Já passaram quase três semanas desde que cheguei a Granada e duas desde que me instalei na Conde de Tendillas. Quando pretendemos viver num lugar, e não apenas visitá-lo, precisamos de mais tempo para nos enterrarmos na verdadeira teia da cidade, no segundo nível, aquele que o viajante “de alguns dias” raramente alcança, mesmo quando volta vezes sem conta ao mesmo lugar — passatempo ao qual eu me dedico com afinco, e mania que me vai escondendo grande parte do mundo. As primeiras semanas de uma estada prolongada e dedicada ao trabalho não são “visita” nem “viver”. É um grau intermédio, um limbo desconfortável apenas amenizado pela plena consciência de que não vale a pena ter pressa, de que as ruas esperarão por nós, com toda a paciência do mundo. Mas um pequeno estúdio com vista para um saguão já não é tão apaziguador do desconforto. Não há qualquer romantismo num apartamento acanhado e frio, nem que lá fora nos esperasse Paris. Ah, Paris. Ironicamente, o livro Paris Nunca se Acaba de Enrique Vila-Matas acompanhou-me durante os primeiros dias que passei neste apartamento gélido, livro que trata não só do exílio de jovem Vila-Matas em Paris, mas também, e mais ironicamente ainda, da ironia: Eu esbanjava liberdade em Paris? Não muita, quando muito esbanjava riscos de pneumonia. Avariou-se-me o aquecedor eléctrico, por exemplo, e passei vários dias com um frio enorme na chambre. Sem aquecimento central, como o que tinha em casa dos meus pais, não há verdadeira ou, melhor dito, completa liberdade. No fundo eu sabia isso, mas preferia enganar-me a mim mesmo e acreditar que o frio e a boémia eram a liberdade pura.
O conforto pode ser arquitectado, aos poucos, e voluntariamente (um aquecedor eléctrico novo é o caminho para a liberdade). Mas também nos surge nas pequenas minudências, como os livros de Morell e Cela que encontrei no alfarrabista da Calle San Jerónimo. Ou nos singelos diálogos que se vão formando, sem disso darmos conta, e que num repente se revelam, e nos tocam e animam a alma. Hoje, ao fim da tarde, fui à Cafetaria Duquesa, taberna onde tenho entrado e saído várias vezes durante esta semana e que fica a dois passos do meu apartamento. O lugar está vazio, ainda não são oito horas, momento solene em que calles granadinas explodem e os cafés se enchem de gente. Sento-me, como é habitual, num dos poucos bancos altos que rodeiam o balcão, a única manjedoura disponível na pequena sala. Do outro lado recebe-me o mesmo homem de sempre, camisa branca, calvo, com gestos e olhar simpáticos. Por cima da sua cabeça, numa prateleira, está uma fotografia de uma menina vestida para a primeira-comunhão, um dos mais característicos retratos de Espanha, e que destoa do cenário de tasca (bem, talvez não...). Uma cañita por favor. O homem, vendo-me entrar todos os dias, arrisca: Estás a viver aqui, ou só de passagem, Sim, a viver, na Conde de Tendillas, mesmo aqui ao lado, Encantado, chamo-me Rafa, e tu?, Miguel, encantado...Mais uma caña Rafa. E então da caña bebemos o conforto, lembramo-nos de Fernán Goméz, e brindamos à sua memória e ao absurdo da existência, no fim da qual não há qualquer vitória, apenas uma esforçada derrota na recta final. Por una cabeza.

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Carlos Miguel Fernandes, Granada, 2007

Carlos Miguel Fernandes

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novembro 09, 2007

Me Quedo Sin Sangre (ou, Gabinete com Vista para a Serra Nevada)

A partir de agora atendo na Calle Conde de Tendillas. Em terra de tapas e cañas, de touros e toureiros, de flamenco e gitanos. Em terra de homens. Resta saber se estou à altura do desafio: por ahora me quedo un poquito enfermo.

Carlos Miguel Fernandes

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novembro 03, 2007

O País Possível

O algarvio é um andaluz. Ao contrário do alentejano, tudo o interessa, de tudo fala, agita-se em permanência, com uma vivacidade quase infantil.
Oliveira Martins, História de Portugal (em Antologia da Terra PortuguesaO Algarve, editado por David Mourão-Ferreira)


algarve.jpgO algarvio é um andaluz! Ou foi. Mais do que o Alentejo, o resto do país, a norte, com o seu estranho temperamento que mistura a culpa e vergonha católicas e a virtude protestante, invadiu o Algarve e tolheu-lhe a alma. Resta uma ilusão, uma sombra do passado. E uma imagem: o Algarve como continuação da Andaluzia, linha avançada de um país imaginário que enfrenta o Sul sem reservas, mantendo na retaguarda os refúgios de serenidade alentejano e extremeño. O verdadeiro Além-Tejo.

Faltam poucas horas para vestir a pele de um andaluz. Faço-o com convicção, pois sinto-o na alma. Cumpre-se um sonho, com alguns tropeções inesperados, e ainda com contornos indefinidos, e acautelam-se futuras desilusões. Sim, o porvir pode trazer-nos a desilusão. É melhor partir para Espanha já, antes que Zapatero acabe aquela que é a mais bela forma de vida.

E agora o Manolo Caracol vai ajudar-me a explicar uma paixão. Porque quiere, porque puede y porque sabe.

Está encerrado en la cárcel
porque quiere,porque puede y porque sabe
esta encerrado en la carcel del cante
él mismo tiene las llaves
abre y cierra cuando quiere,
porque quiere,porque puede y porque sabe
es el propio carcelero de la cárcel de su cante
y entra y sale cuando quiere
porque quiere,porque puede y porque sabe.

Una llave para abrir:soleares
para cerrar otras llaves:fandangos como cuchillos
que hacen sangrar hasta el aire
siguiriyas como penas para llenar cien estanques
y martinetes de fragua,donde se fragua el buen cante.

Cuando Manolo quiere,
porque quiere,porque puede y porque sabe
salir de la puerta grande de la carcel de su cante
Sevilla se rompe el pecho,Granada queda sin sangre
Malaga se hace mas fina,Cordoba se hace mas grave
Huelva se queda pasmada,Cadiz se queda sin aire
Almeria siente un viento lento por sus naranjales
Jaen reparte banderas de olés por los olivares,
los gitanos sienten golpes de martillo y yunque en sus carnes,
y todos los castellanos sienten sangre de gitano.

Dios le sembro por sus venas un dolor de cante grande
para que fuera su voz
un arco de cante grande
toda la fragua hecha cante
un corazon hecho cante
la pena de los gitanos hecho cante
un Guadalquivir pasando bajo los puentes del cante
y un torero serio y hondo
en la gran plaza del cante
y está encerrado en la carcel
porque quiere,porque puede y porque sabe
esta encerrado en la carcel del cante
él mismo tiene las llaves
abre y cierra cuando quiere,
porque quiere,porque puede y porque sabe.

Una llave para abrir,la llave de las soleares
quejío profundo que abre las puertas
por donde salen tres versos que son tres penas
tres penas que son tres ayes,
tre ayes que son tres toros que nos cornean la sangre.

Caracol toma ya la llave grande de las siguiriyas
y abre ya la puerta de la cárcel de tu cante.

Canta Manolo Caracol...
(Manuel Benítez Carrasco, La Carcel del Cante)

Carlos Miguel Fernandes

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outubro 20, 2007

Um Hotel em Arad

Os blocos de notas são guardados na prateleira e ficam entregues ao pó até que uma memória trôpega os resgata do esquecimento. As imagens, notas visuais, são mais atrevidas e, escudando-se num extenso processo de arquivamento, resistem ao oblívio com o afinco de uma recordação doce. Provas de contacto, provas de trabalho, digitalizações, ajuste de tons, retoque, redimensionamento: um rol de oportunidades antes da escuridão da gaveta. Hoje, enquanto uniformizava o espaço ocupado por algumas imagens, foi esta que me fez parar. Arad, Roménia, em 2004. O que se vê na imagem vê-se (ou via-se) desde um dos quartos do Hotel Arad. Um momento esquecido, um quadro urbano sem argumentos que acabará no fundo de um baú, soterrado por uma avalancha de fotografias. Uma cidade perdida.

Arad, Agosto 2004, 355-10.jpg
Carlos M. Fernandes, Arad, Roménia, 2004

Carlos Miguel Fernandes

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julho 20, 2007

Dez Dias em Londres

Dez dias nas ruas de Londres, dez dias entre o Bloomsbury, o Soho, o University College, e pouco mais. Percorri muitos quilómetros, alarguei a geografia e a toponímia privada. Baker Street, Russel Square, Tavistock Place, Shaftesbury Avenue, Old Compton Street, Thames. Nomes que transportam aos ombros uma história nobre e brava, tal como qualquer singela parede de Londres nos afaga com um enredo milenar. Há um clube inglês de futebol que vive sob o lema You’ll never walk alone. É essa sensação de conforto que temos ao percorrer as ruas de Londres; a frase parece que nos acompanha em todos o instantes, surge-nos escrita no pavimento a cada passo que damos. Na pátria do individualismo encontramos o aconchego da espécie. Só a um colectivista é que isto pode parecer estranho.
(Sim, visitei Londres pela primeira vez, após muitos anos de viagens. O que está perto acaba sempre por ficar para trás, tal como aconteceu durante muito tempo com Sevilha. Mas alegra-me ter percebido, em Londres, que ainda não perdi a capacidade de me deslumbrar com algo que, à distância, parecia tão familiar e banal. Quando isso acontecer, quando se desvanecer a propensão para o deslumbramento, é altura de guardar as malas no sótão.)

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Carlos Miguel Fernandes, Londres, 2007

Não entrei em museus nem em galerias, mas nesse registo só lamento ter perdido, por desleixo, a hipótese de comprar um bilhete para o Don Giovanni, apresentado na Royal Opera House. Abaixo de Mozart, já nada valia a pena. As ruas bastaram-me, e, quando me cansava, entrava numa livraria ou num pub, e descansava os olhos nas imensas filas de livros ou consultava as aquisições com uma ale ao lado. Ah, os pubs! Umas das muitas instituições inglesas que foram preservadas por quem melhor o sabe fazer. Mas...saberão mesmo?, ou começam a dar sinais de “continentalização”, arrasando aquilo que demorou séculos a erguer? Os pubs de hoje já não são os de ontem (quase literalmente). No dia 1 de Julho deste ano tudo mudou. A infame lei antitabaco chegou às ruas de Londres como um rolo compressor e ignorou tradições, acorrentou a liberdade e a responsabilidade individual. A interdição invadiu aos pubs, sem transigência ou excepções. É triste. Uma cervejaria sem fumo é como uma cerveja sem álcool, é como tremoços sem sal. Eu não fumo, as minhas roupas agradecem no dia seguinte, mas frequentar um pub sem tabaco é uma experiência coxa. A plenitude está perto, mas a beleza da madeira escura, o sabor agreste das ale ou anacronismo das alcatifas não são suficientes para fazer esquecer a ideia do verdadeiro pub. Alguns, enfastiados, e do alto de uma putativa sabedoria, dizem que noutros lugares, como Nova Iorque, já nem se discute esta questão: não se fuma nos bares e ponto final. É verdade, mas essa resignação colectiva não é argumento para encerrar a revolta. E.O. Wilson disse, Doutrinar os seres humanos é de uma facilidade absurda. A resignação de fumadores e não-fumadores é apenas um reforço de peso desta tese.

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Carlos Miguel Fernandes, Londres, 2007

E a continentalização da Inglaterra continua. As câmaras de vigilância já fazem parte do património da cidade há muito. You’ll never walk alone é agora uma frase mais literal e assustadora, e nem a velha casa de George Orwell escapa ao fulgor vigilante. Num artigo publicado na última edição da revista Atlântico, o André Azevedo Alves leva-nos mais longe, e fala de Inglaterra, da vigilância electrónica do lixo doméstico (!) e da forma como as crianças são agora incentivadas a denunciar pais fumadores. Acabou-se. Se o último reduto da liberdade, daquela liberdade que é uma herança — como dizia Burke — que deveria acarinhada como um objecto precioso de família, se esse último bastião cai, o que nos espera? Os ingleses estão a desbaratar o legado. Nós, que sempre fomos pobres nesse aspecto, e que nunca tivemos pais fundadores para ancorar uma ideia de liberdade, temos um futuro ainda mais negro pela frente. Que o fantasma de Churchill os assombre sem piedade; pode ser que se assustem.

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Carlos Miguel Fernandes, Londres, 2007

É este o legado de Blair, foi esta a sua missão? Acorrentar os ingleses e seguir cegamente os erros grosseiros da administração norte-americana!? Não vale a pena ficarmos surpreendidos. Essa é a verdadeira face, horrenda, do socialismo, e não são algumas privatizações que a vão conseguir esconder.
Mas, apesar destas nuvens negras, Londres é uma grande cidade. Atrevo-me até a dizer que é A cidade. Isto são sintomas do deslumbramento, certamente, é êxtase causado pela ale que ainda me corre nas veias. Mas sabe bem.

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Carlos Miguel Fernandes, Londres, 2007

Carlos Miguel Fernandes

P.S. Em Inglaterra a tradição pode já não ser o que era. Mas pelo menos ainda é fácil comprar um afia-lápis. Na papelaria do University College há uma caixa cheia de afias, 30p cada um. Mas estou a ver que devia ter comprado uma dúzia.

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junho 27, 2007

Gueto de Varsóvia

Foram poucas as vezes que os judeus se revoltaram durante os anos do nazismo. O Gueto de Varsóvia viu uma dessas revoltas, e na rua Zamenhofa, perto dos principais locais de confronto entre os judeus e as tropas nazis, ergue-se um monumento, desenhado por Natan Rappaport, que presta homenagem aos homens caídos durante a insurreição.

(Varsóvia, 18 de Setembro de 2005)

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Carlos Miguel Fernandes, Varsóvia, Setembro de 2005

Carlos Miguel Fernandes

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junho 04, 2007

Dem Deutschen Volke

No passado fim-de-semana, em Berlim, voltei a percorrer o caminho do velho Muro. Entretanto, em Lisboa, Francisco Louçã defendia a nacionalização da Galp e um secretário de Estado elogiava Hugo Chávez. Tal como a actual pujança da capital alemã não nos pode fazer esquecer que a História não tem fim, pois Berlim já foi enorme antes de se perder nas chamas da ideologia, também o cartão de eleitor que ainda temos na algibeira não é arma que nos dê descanso. Há por aí muitos indivíduos desatentos que não aprenderam as lições da História. Mas enviá-los para o canto da sala com orelhas de burro não é recurso do qual possamos dispor, porque a tolerância perante os inimigos internos é a força e a fraqueza da democracia e dos sistemas liberais. Claro que quando entre nós se instalar uma democracia liberal, dormiremos todos mais descansados. (Ou quase todos. Nessa altura veremos um bando de irredutíveis apavorado com a possibilidade de o céu desabar sobre as suas cabeças.)

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Carlos Miguel Fernandes, Berlim, Junho de 2007

Carlos Miguel Fernandes

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maio 18, 2007

Cidades Invisíveis

Este texto do Combustões, que fala de Varsóvia e dos dramas que teimaram em perseguir a cidade durante uma parte significativa da sua história, fez-me pensar bastante durante os últimos dias. Não discordo dos factos, obviamente, mas perturba-me a afirmação tudo soa a postiço. Também não sei se poderemos afirmar, sem reservas, que a cidade terá sido reconstruída fingindo a traça original. Se na Cidade Nova, Cidade Velha, rua Novi Swat e arredores se pode ver um pasticho da Varsóvia antiga, noutros lugares ergueu-se uma cidade diferente, de traça megalómana e silhueta comunista, sem dúvida, mas uma cidade arejada e moderna, agora que os ventos da liberdade há muito percorrem aquelas magníficas avenidas. Do gueto, por exemplo, só ficou a igreja de S. Agostinho na rua Nowopoli, hoje rodeada por blocos de habitação anódinos, parques, e memoriais do Holocausto e do malogrado movimento de resistência. Mas o centro é uma réplica. E talvez por isso a ideia expressa por MCB não deixa de ser pertinente, tendo sido já veiculada por inúmeros autores. Já aqui referi, há mais de um ano, as palavras de Isabel Fonseca em Enterrem-me de Pé (um livro sobre a situação dos ciganos na Europa que emergiu após a queda do Muro de Berlim), as quais vão de encontro ao que foi escrito no Combustões.

Em Varsóvia há também uma abundância de novas lojas que vendem apenas lingerie lúbrica e outras que só têm alimentos de luxo: whisky e caviar, mas nunca leite. Quem lá vai? Quem vive ali? Tudo parece falso, afinal – as pessoas e os locais variegadamente enfestoados. Mas é mesmo falso, afinal. Há cinquenta anos, os soldados alemães apagaram do mapa a cidade e dois terços dos seus habitantes. Hoje restam apenas meia dúzia de fachadas descarnadas, anteriores à guerra, conservadas talvez como lembrete (muitos dos velhos prédios abundam em buracos de balas). Os Polacos andam obcecados pela sua história, mas na capital vivem numa cidade sem qualquer pátina. Ali, nada é antigo; e, muitas vezes, as coisas não são o que pretendem.
(...) A sensação de um cenário cinematográfico talvez prestes a ser novamente derrubado por terríveis forças históricas: é este o sabor do mal-estar que se sente ali, onde os nomes das ruas ainda estão a mudar e onde, no Gueto, os alicerces dos edifícios abrem fendas. O entulho do passado está realmente a vir ao de cima e fica-se de olhar fixo, como se se esperasse que aparecessem, duma fenda, duas trémulas mãos.

Na altura, com as lembranças frescas da viagem à Polónia, discordei desta avaliação de Isabel Fonseca. Hoje, quase dois anos depois de ter saído de Varsóvia pela última vez, ainda recordo uma cidade vibrante, com carácter e com uma história inscrita em cada parede “falsa”. Não, Varsóvia não soa a postiço. Varsóvia é genuína e uma das mais cativantes cidades europeias.

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Carlos Miguel Fernandes, Varsóvia, Setembro de 2005 (de MittelEur/opa)

Enquanto pensava neste assunto lembrei-me de Praga e de como a capital checa me foi soando cada vez mais a postiço à medida que a ela regressava. Porquê? Praga escapou quase ilesa aos distúrbios da História, e mantém um património arquitectónico invejável. Não parecia ter sustentação esta minha opinião negativa sobre a cidade. Foi hoje, ao reler um ensaio de Ivan Klíma sobre Praga (numa edição da Aperture sobre fotografia checa e eslovaca), que percebi onde poderia estar a génese do desconforto que a cidade me causou. This city, apparently spared the raveges of war, has had to bear greater suffering than many cities directly affected by belligerent action (...), escreve Klíma. Praga tem feridas escondidas, e foi mais afectada pelo passado e pelas convulsões da Europa Central do que aquilo que a sua pureza urbana deixa entender. Há ruas que mudaram de nome cinco vezes durante um século, monumentos que foram destruídos, igrejas que agora servem de armazém. The Prague of past eras is gone. No one can bring the murdered back to life, and most of those who were driven out will probably never return to the city. Notem a semelhança entre estas palavras de Ivan Klíma e o texto de MCB!
Talvez a terraplanagem a que Varsóvia foi sujeita tenha levado os seus habitantes a serem confrontados com a realidade e a assumir a nova alma da cidade. Praga, por outro lado, parece agarrada a um passado que já não existe. As suas paredes mantiveram-se intactas, mas o espírito foi devassado. Praga também não escapou ao estupro, mas talvez ainda não se tenha apercebido desse terrível facto.

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Carlos Miguel Fernandes, Praga, Abril de 1998 (de Europa)

Carlos Miguel Fernandes

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abril 06, 2007

A Esperança

Em Setembro de 2005 iniciei na Polónia, país que nunca havia visitado, a periódica viagem pela Europa Central. Em Varsóvia caminhei pela zona do gueto, hoje enterrado pela História e pela reconstrução da cidade, e entrei no cemitério judeu, invadido nesse dia por uma imensa excursão de jovens israelitas. O chão estava salpicado de pequenas bandeiras de Israel. Bandeiras estrangeiras em solo polaco! A visão incomodou-me um pouco na altura, mas nos meses seguintes compreendi melhor a situação e aceitei-a definitivamente. Na verdade, nos meses seguintes compreendi muita coisa. Andava há anos a chafurdar na Europa e na História, mas foi na Polónia que comecei a vislumbrar algo por detrás da poeira levantada pelo agitado século XX. E foi nesse dia, no cemitério, que recebi um impulso definitivo que me empurraria de vez para lá de um beco que parecia não ter saída. Junto ao que mais tarde descobri ser a vala comum das vítimas do gueto, juntara-se um dos muitos grupos em que se haviam dividido os jovens da excursão. Um adulto parecia explicar-lhes o significado do espaço. Quando me afastei já cantavam o HaTikva, o hino israelita, num sussurro dorido e envolvente. Deixei o cemitério com a melodia a ecoar nos ouvidos e a romper-me a alma com delicadeza. Soube nessa altura que encontrara o punctum da viagem. Três semanas depois regressei e fotografei o chão sagrado. A imagem viria a ser o alicerce central no qual se sustentou MittelEur/opa, um trabalho que não teria passado de uma caricatura sem a viagem à Polónia.

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Carlos Miguel Fernandes, Varsóvia (Cemitério Judeu), Outubro de 2005

Lembrei-me de tudo isto a propósito do HaTikva cantado pelos sobreviventes de Bergen-Belsen, que encontrei ontem no A Arte da Fuga e que me fez regressar finalmente à Europa, depois de um período de latência em que a cabeça teimou em ficar do outro lado do mundo. Regressei à Europa via Israel. Haverá outra forma de o fazer?
Há alguns anos comprei em Novi Sad o disco Na Kapijama tjovim, o, Jerusalime/At Thy Gates, o, Jerusalem, do grupo Shira Utfila, originário de Belgrado e guardião da tradição musical dos judeus sefarditas. O trabalho termina com o HaTikva cantado em hebreu, ladino e judeu-árabe. Dada a origem da banda e do disco, os títulos dos temas têm tradução em servo-croata, e Nada é a perturbante tradução de HaTikva, a Esperança. Nada! É a isso que muitos querem reduzir Israel e a esperança. A nada. A cinzas.


Shira Utfila, HaTikva

Carlos Miguel Fernandes

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abril 03, 2007

Busan

Os portos marcam as cidades, cravam-lhes as unhas e não costumam deixar espaço para outras identidades. O que distingue Busan de Seul é a imensa linha de água onde descansam os barcos, de recorte fractal e pontuada por ilhotas, e cuja influência se prolonga pela cidade adentro, transformando-a em lugar de fronteira, e oferecendo-lhe um cosmopolitismo que não é feito de taxistas indianos nem de estudantes do “erasmus”, mas de marinheiros russos, turistas japoneses, armazéns chineses e trabalhadores do sudeste asiático. A Rua Texas, assim designada por ser um lugar pouco aberto às coisas da lei e da ordem (mas, pelo menos durante o dia, a visão é um pouco exagerada), alberga o comércio chinês e os prostíbulos russos. Russian vodka!?, sugerem mulheres louras à porta de lugares esconsos que despejam luzes arroxeadas e deixam entrever texturas de cetim barato e gasto por corpos que desejam desaparecer na penumbra. Não ver e não ser visto; parece ser este o lema dos pardieiros das cidades portuárias, lugares onde os perseguidos pela lei ou pelo passado desejam perder-se, perder o rasto do mundo que terminou no acto do desembarque. Busan, mesmo fazendo fronteira apenas com o mar, não escapa a um certo ar de Tijuana oriental. Mas a insegurança e o assédio que se observam noutros lugares fronteiriços não existem em Busan. Em Busan vive-se em paz.

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Maria João Martins, Busan (Rua Texas), Março de 2007

A atracção principal da cidade encontra-se a sul, junto ao mar e um pouco afastada do centro, conquanto a zona esteja longe de ser pouco movimentada. O mercado de Jagalchi é a alma duma enorme urbe com cinco milhões de habitantes que cintila de actividade virada para o Pacífico, para um mar riquíssimo que a abastece com o melhor peixe e marisco que qualquer faina pode encontrar. O espectáculo começa no piso térreo do edifício que abriga o mercado, e prolonga-se pelas ruas adjacentes, onde as enguias se mexem furiosamente em tinas de plástico, os bivalves esguicham água e os polvos se passeiam por entre os pés dos transeuntes até que o seus donos os ponham na ordem. A oriente, o mercado de peixe seco continua a festa marítima, enquanto a norte o mercado de Gukje prolonga uma intensa zona de comércio, a qual termina mais acima ainda, na simpática rua dos alfarrabistas, que já nos recebe com serenidade.

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Maria João Martins, no exterior do Jagalchi, Busan, Março de 2007

No edifício do mercado parecem estar os animais mais nobres. Vivos, sempre vivos! Amêijoas, vieiras, búzios, caranguejos, polvos, pregados, robalos, enguias, e até pequenos tubarões; todos são escolhidos pelo cliente enquanto ainda se movem numa água em constante renovação que vai produzindo um revigorante som de cascata. Água, chão, paredes, tudo apresenta uma limpeza irrepreensível, soltando um cheiro puro a mar que nos invade os sentidos, desperta a gula e impele para o segundo andar do mercado. Foi aí que, à mesa, e sentados no chão em pose coreana, comemos o enorme caranguejo-real vermelho, que bateu nos 4,2 Kg quando foi pesado no andar de baixo; tem razão quem defende que a sua carne é melhor do que a da lagosta! A este monstro juntou-se um caranguejo de menor dimensão, mas de sabor igualmente intenso e agradável, e umas ostras fresquíssimas, cruas. Ao lado, os camarões, os mexilhões, os búzios, o sashimi e outros petiscos são acompanhamento habitual nas mesas do Jagalchi; um couvert de luxo que acaba por passar despercebido no meio de bichos tão nobres como o caranguejo-real. Tudo se conjugou numa mariscada inesquecível, um jantar sem grandes malabarismos culinários mas cuja matéria-prima, perfeita e bem tratada, não deixará tão cedo cair no esquecimento, fazendo-o ombrear com recordações muito mais sofisticadas.

O exterior do mercado também ferve de agitação gastronómica. Aí, a especialidade são as enguias pequenas, esfoladas e cortadas a pedido, chegando às brasas do centro da mesa em pequenos troços que ainda se debatem em espasmos musculares post-mortem. Mas as vieiras, caros leitores, são um caso sério! Nem da Galiza trouxe tais recordações da concha de Santiago.

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Carlos Miguel Fernandes, no exterior do Jagalchi, Busan, Março de 2007

No centro da cidade, longe do mar, encontrei uma marisqueira onde jantei duas vezes (para além do segundo piso do mercado, foi o único restaurante que repeti na viagem à Coreia do Sul). O marisco, de qualidade irrepreensível, chegava vivo à mesa, onde era depois cozinhado na chapa, ao natural ou com um molho de cebola e pimentão. Foi aí que experimentei alguns sabores novos, de bivalves que até essa altura só havia visto em programas sobre as maravilhas do mundo subaquático. A sala enorme, onde cabe uma centena de pessoas, estremecia com a algazarra de vozes e risos e o fumo que saía das chapas em actividade ajudavam a transmitir um ambiente de celebração constante. Lá fora, o Busanjin-gu continuava no seu habitual ritmo frenético, soltando cheiros intensos das bancas de comida e barulhos ensurdecedores das casas de jogo, onde os jovens coreanos se entretêm a encestar bolas de basquete ou a ensaiar os seus dotes de cantores de karaoke em pequenos cubículos com isolamento sonoro. Os painéis publicitários, luminosos, dotam as ruas de um excesso de informação que, para aqueles que nada entendem do alfabeto coreano, não é mais do que um deslumbrante espectáculo gráfico. É nos centros das cidades coreanas, durante a noite, que vemos o outro lado do mundo.

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Maria João Martins, Okpo, Geoje, Março de 2007

Não houve tempo para muitas aventuras. Recordo ainda, com muita saudade, uma simples mas deliciosa sopa de peixe que comi num restaurante do centro da cidade, e o peixe (primorosamente) grelhado com qual me deleitei em Okpo, na ilha Geoje, a quarenta e cinco minutos de Busan. Este, meia hora antes de chegar à mesa, ainda se passeava no aquário do restaurante arrastando o anzol com o qual havia sido capturado. Na mesa portou-se com galhardia, pois na grelha estava alguém que sabia trabalhar. A pele estava bem tostada, sem apresentar sinais de secura, e a carne junto à espinha estava quase, quase, crua, condição limite que só um peixe muito fresco aguenta. O tempo aquecera, e pela primeira o casaco e a camisola podiam descansar na cadeira da esplanada. Nem o som metálico e periódico que vinha do outro lado da baía, do estaleiro, conseguiu perturbar uma tarde perfeita, umas horas de descanso que o corpo já pedia depois de muitos quilómetros percorridos através das ruas de duas cidades desmesuradamente grandes.

(Adaptado do texto publicado no Na Cozinha.)

Carlos Miguel Fernandes

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março 27, 2007

Regresso

Depois da viagem à Islândia, a qual, apesar do relativo sucesso no campo gastronómico, não deixou mais do que um sabor a banalidade, precisava desta jornada por terras coreanas. O roteiro, como sempre, foi mais reduzido do que aquele que se planeava à partida; a região de Jeolla e a “pequena” cidade de Mokpo vão ter que esperar, pois Busan foi irresistível e não nos deixou partir. Mas mesmo assim, esta viagem ficará durante muito tempo na galeria das mais arrebatadoras, tal como aquela que fiz há seis anos quando visitei Seul pela primeira vez. (E espero que, desta vez, não tenha que esperar meia dúzia de anos para regressar à Coreia do Sul.)
Como curiosidade, e antes de falar de outros assuntos mais prazenteiros, gostava de informar que os restaurantes coreanos apresentam uma taxa de IVA de 10%, contra os 24,5% que tive a infelicidade de encontrar em Reykjavik. Coisas da Liberdade...
Para terminar, e ainda no registo da hotelaria, gostava também de referir que, provavelmente, noventa nove por cento dos restaurantes com os quais me cruzei na Coreia não poderiam funcionar em Portugal. Mas...come-se tão bem! (Coisas da Liberdade, novamente...)

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Carlos Miguel Fernandes, Busan, Março de 2007

Carlos Miguel Fernandes

P.S. As actualizações irão acontecer nos próximos dias também no Nafarricos e no Na Cozinha.

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março 12, 2007

Quatro Horas em Amsterdão

Passear no Red Light, comprar livros de fotografia (clássicos) nos alfarrabistas do centro da cidade, comer pernas de rã e caril de enguias com vista para um canal e beber uma Amstel num velho bar. Estes foram os ingredientes de uma tarde perfeita em Amsterdão. Depois, nove horas de viagem, e pouso final no quarto 408 do Hotel Saerim, no epicentro do caos de Insa-dong.

Carlos Miguel Fernandes

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março 08, 2007

A Caminho do Oriente

(...)
Agora preparo-me para ir mais longe. Depois de reviver as ruas de capital, vou meter-me na estrada para conhecer melhor a faceta marítima da cozinha coreana e perder-me no mercado de peixe de Busan, um colosso delirante rodeado por restaurantes especializados em marisco. Na província de Jeolla, uma região remota de costa acidentada e enfeitada por centenas de ilhas, espero provar os famosos polvos-bebé. E outras surpresas me esperam, certamente.
(...)
(Na Cozinha)

Carlos Miguel Fernandes

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janeiro 27, 2007

Berlim, Novamente

As companhias aéreas de baixo custo vieram dar novos caminhos ao viajante. Agora, pode ser mais barato viajar de avião para Barcelona do que de carro para Madrid; é também possível chegar a Reykjavik, com alguma imaginação, sem gastar uma fortuna (convém, pois na capital islandesa gasta-se uma pequena fortuna por dia); e as ilhas britânicas estão, há muito tempo, à distância de poucas dezenas de euros. A partir do dia 11 de Maio a EasyJet oferece mais um rebuçado aos amantes das cidades europeias que vivem em Lisboa: uma rota para Berlim, em voo directo. Oitenta euros, com seguro de viagem (e é possível encontrar combinações mais baratas). Um bilhete já cá mora. Daqui a poucos meses, dois anos após a última visita (o tempo passa depressa, depressa demais!), espero estar finalmente a contemplar a Lerther Banhof erguida e em todo o seu esplendor. Aproveitem, enquanto os ataques estatais - que já se esboçam! - às companhias aéreas de baixo custo não arrasam esta nova forma de viajar.

[05] Berlim, Março de 2005 377-27.jpg
Carlos Miguel Fernandes, Berlim, Março de 2005


[13b] Berlim, Março de 2005 379-39.jpg
Carlos Miguel Fernandes, Berlim, Março de 2005


[18a] Berlim, Março de 2005 373-1.jpg
Carlos Miguel Fernandes, Berlim, Março de 2005


[26] Berlim, Março 2005 373-6.jpg
Carlos Miguel Fernandes, Berlim, Março de 2005


[29d]Berlim, Março de 2005 380-34.jpg
Carlos Miguel Fernandes, Berlim, Junho de 2005

(Imagens trazidas das duas viagens a Berlim, em 2005, e incluídas no projecto MittelEur/opa, exposto em Fevereiro de 2006 no Átrio do Ministério das Finanças, em Lisboa)


Carlos Miguel Fernandes

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setembro 21, 2006

A Vida Está no Sul

El que no bebe vino
Ni mata puerco
Está entre los vivos
Pero está muerto

(...na parede da cervejaria Ibericos, em Alicante.)

A Islândia ficar-me-á gravada para sempre nas entranhas como um albergue de tédio. Onde muitos vêem sinais da cidade-paraíso – ausência de trânsito, poluição residual, segurança, nível de rendimentos elevado, protecção social a todos níveis, etc. – eu vi um prenúncio do inferno. O que senti naquela ilha parece reflectir a sua condição geológica: por baixo de cenários idílicos e paisagens imponentes vive uma Terra em sobressalto, que por vezes explode em torrentes de água quente e até de lava.
Mas é serena, sim, a Islândia. E o tempo parece passar devagar, sinal que pode ser interpretado como o ambiente ideal para vidas mais completas e atentas aos pequenos pormenores da existência. Ilusão. A serenidade exterior tolhe os sentimentos, e, para aqueles que o transportam, choca com o desassossego, conduzindo à inquietude implacável. O alerta chegava-me logo de manhã, quando enfrentava durante dez minutos um vento que me gelava a cara, percorrendo a pequena distância que separava o centro de Reykjavik da universidade, a qual, dada a desolação em redor, parecia já situar-se nos arrabaldes da cidade. Não se via vivalma, os carros passavam isolados, e até os seus motores pareciam ser mais discretos. Mas pelo caminho, o cemitério afastava-me logo de qualquer ensaio de adaptação ao ritmo lento das altas latitudes, lembrando-me que abrandar conduz à imobilidade, e parar é morrer. E antes a morte que tal sorte. Agitava então o passo e, sozinho numa rua de uma capital europeia à hora de ponta, esmagado pelo silêncio, sonhava acordado com buzinas enraivecidas e multidões anónimas esperando impacientemente pela mudança de côr do semáforo para prosseguirem as suas vidas.

Mas nem tudo, na Islândia, levou ao enfado. Uma experiência gastronómica digna dos deuses (aqui, e sobre a qual espero escrever uma crónica em breve), o contacto com novos sabores (baleia, por exemplo) e com alguns fenómenos geológicos fascinantes salvaram a parte lúdica da estada na Islândia. E depois, houve Espanha. A viagem começou e acabou no aeroporto de Barcelona. Pelo caminho, para além da semana em Reykjavik, houve muitas horas de caminhada pela cidade de Gaudi, reencontros, um jantar sublime no Semproniana (que uma conversa com muitos anos de atraso não me permitiu registar convenientemente para mais tarde relatar; por vezes, há coisas mais importantes), e tapeo, muito tapeo. E Alicante, a surpreendente Alicante, que merece também muitas linhas de texto, por aqui, nos próximos tempos.
Uma viagem que passe por Espanha arrisca-se sempre a ser um evento inesquecível, por muito fracos que sejam os outros momentos. Esta não foi excepção.


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A moxama de atum no El Corral. Um lugar que faço questão de visitar sempre que regresso a Barcelona.


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A Lagoa Azul, perto de Reykjavik. (Fotografia da Maria João Martins.)


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Alicante, e o Castillo de Santa Barbara. (Fotografia da Maria João Martins.)

Carlos Miguel Fernandes

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setembro 06, 2006

O Frio

O No Mundo vai viajar novamente. Desta vez, o roteiro é estranho. Começa por tocar o Mediterrâneo e depois aproxima-se do Círculo Polar Árctico. Amanhã já se espera tapeo em Barcelona durante a tarde. Dois dias depois, uma curta passagem por Alicante marca a partida para Reykjavik. O regresso será feito pelo mesmo caminho, e nessa altura haverá mais tempo para conhecer a cidade do torrão.
Reykjavik é uma capital com pouco mais de cem mil habitantes, e saber disso não nos dá muito entusiasmo para a visita que se avizinha. No entanto, parece que se come muito bem, tendo a cozinha criativa ocupado já uma parcela considerável da gastronomia islandesa (mas as contas podem ser assustadoras, mesmo no restaurante mais modesto). E o marisco das águas frias, o halibut, e até o tubarão podre, o caricato prato tradicional islandês, são argumentos irresistíveis. Vamos então auscultar-lhe o espírito, bater as suas ruas, cheirar o Atlântico do norte, provar os sabores que nos oferece, e, no regresso, far-lhe-emos justiça. Até breve.

Carlos Miguel Fernandes

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agosto 03, 2006

Em Belgrado

Uma noite em branco no comboio, com a temperatura a subir vertiginosamente até atingir quase os quarentas graus na manhã de Belgrado. Uma saída precipitada desse mesmo comboio, e uma deambulação bêbeda de sono por uma feira cigana de domingo feita de remendos nos passeios encimados por toda a sorte de objectos. Uma viagem de autocarro até ao centro carregando uma mala que cada vez mais se agarrava ao chão. Uma tentativa vã de dormir algumas horas no quarto, sob a temperatura infernal de uma cidade que, nesse dia, começava a sofrer os efeitos de uma onda de calor inesperada. Uma tarde passada a caminhar pelas ruas do centro e a descansar nos barcos no rio Sava, numa disposição dormente e lenta. Foi assim o dia que nos levou à noite. E a noite de domingo surpreendeu-nos com as portas fechadas dos pequenos restaurantes do centro de Belgrado, aqueles onde as ementas em cirílico só deixam espaço para a aleatoriedade da escolha. Sobrava a Skadarska, a rua boémia de Belgrado, como gostam de lhe chamar os roteiros turísticos. Não é o coração da cidade, e muito menos a sua artéria mais genuína. Mas quando as horas avançam e as alternativas escasseiam, uma escolha serena e ponderada do lugar para jantar não trará, certamente, más recordações. Foi com o corpo ávido de alimento e descanso que nos sentámos numa mesa no exterior do restaurante Buca. As esplanadas transbordavam de gente que fugia, sem sucesso, ao calor que teimava em queimar mesmo durante a noite. Ouvia-se música vinda de todo o lado. Não há restaurante na Skadarska que não tenha a sua pequena banda, mas não se costumam atrever a entrar nos ritmos balcânicos mais endiabrados. E era assim naquela noite domingo, quente como o inferno, que pedia o diabo no corpo mas não saía de uma indolência teimosa. Até que uma fanfarra cigana de sopros, no restaurante ao lado, inicia uma alucinante viagem à verdadeira alma sérvia. Toda a rua estremeceu com os trompetes e tubas que iam narrando os clássicos do repertório balcânico. Durdevdan, Mesecina, Adje Jano levantavam as mesas, levantavam os braços daqueles que passavam e daqueles que se mantinham sentados, braços que faziam o gesto de ensaio de bailarico de aldeia que caracteriza a reacção física à cadência acelerada da música balcânica. Cantava-se alto, muito alto. Erguiam-se canecas de Jelen Pivo e cálices de Šljivovica. No interior do restaurante o ambiente contrastava com aquele se vivia lá fora. A sala havia sido despojada de todas as mesas, que serviam agora para reforçar a esplanada. Uma nuvem de fumo percorria o espaço vazio, até chegar à entrada dos lavabos, onde uma mulher com os olhos semicerrados, os cabelos brancos como leite e um cigarro colado ao canto da boca pedia os habituais dez dinar. Do exterior, o som abafado dos trompetes ajudava a compor o cenário onírico. Nessa altura, vergado ao peso da noite em branco, dos quilómetros percorridos durante a tarde, da carne do mesano meso, da Jelen Pivo, julguei ver aproximar-se um ganso voando lenta e desajeitadamente, rodeado por um manto de penas, enquanto meu corpo levitava sobre o mundo gozando de uma espécie de imponderabilidade terrestre que só se encontra nos Balcãs. O vórtice das emoções começava a puxar-me. Chegara a Belgrado.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 03:34 AM | Comentários (1)

julho 27, 2006

Despojos de viagem

Não basta ir ao encontro da História. É preciso, por vezes, trazê-la para casa. E na Sérvia, as livrarias, compreensivelmente, não se furtam à História recente nem esquecem o passado mais remoto. Por essa razão, são lugares ideais para colmatar lacunas no entendimento da Europa do presente, e reforçar conhecimentos essenciais para falar sobre assuntos tão importantes e actuais, como a independência do Montenegro e do Kosovo, com um pouco mais de rigor do que alguns discursos que se lêem por aí, cujos autores parecem conhecer Franz Ferdinand como apenas um grupo de miúdos que canta umas coisas.
Infelizmente, quando os conhecimentos do viajante sobre a língua servo-croata se resumem a frases desajeitadas e telegráficas como dobro dan, jeden toceno pivo i jeden porcija cevapcici, este não se pode aventurar pelas prateleiras mais ricas. Mas também não fica mal servido nas secções de língua inglesa. Para além disso, a quantidade de livrarias é impressionante, especialmente no centro de Belgrado. Na rua pedonal Kneza Mihaila, um bibliófilo arrisca-se a gastar uma tarde saltitando de livraria em livraria.
Preparo-me agora para ler um dos dois livros trazidos da última viagem aos Balcãs que não estão relacionados com a fascinante história da região (o outro é um magnífico livro sobre a arquitectura de interiores dos restaurantes de Barcelona, com algumas das receitas que se podem provar nesses lugares). Trata-se de The Globalization Myth – Why Protestors Have Got it Wrong, de Alan Shipman. Não é uma novidade, já foi publicado em 2002. (Mas a antiguidade das ideias nunca foi defesa contra a recusa do diálogo.)
Na contra-capa da obra de Shipman pode ler-se o seguinte texto:

Globalization – scourge of indigenous peoples, arch-enemy of protesters from Seatlle to Genoa, crusade of the Orwellian IMF, WTO and G8: the new evil stalking the globe.

Right? Wrong. In this radical new book Alan Shipman turns the myths about globalization upside down.
- globalization is not a rampant unchecked capitalism but a political creation
- market forces have not imposed global uniformity – nor will they
- big corporations are the true rebels against conservatism
- supra-national bodies are the best hope for opressed peoples

The protesters are right to see globalization as important and pottentially dangerous – but almost always wrong in their diagnosis of the problems and their prescriptions to solve them.

Globalization is a potential force for good – and for the benefit of all.

Não sei se é bom, se é mau, se é pertinente ou superficial. No final, talvez comente. Mas suspeito que para os discípulos da religião anti-globalização, com a sua bíblia No Logo debaixo do braço, não há conversa que resista à exaltação ou ao desdém pela diferença.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 06:26 PM | Comentários (0)

julho 25, 2006

Bloco de Notas

O Castro acabou! É o fim de uma era que, no entanto, continua (por quanto tempo?) a poder ser recordada no Boheme. Este pequeno bar, situado numa zona nobre da cidade com vista para a imponente colina Gellért, e gerido por um homem e uma mulher (já com algumas décadas de vida nos ombros) que me recebem como um velho cliente habitual em cada um dos meus regressos, resiste heroicamente à tentação da mudança.
(no Avala Express, entre Budapeste e Novi Sad, 9 de junho de 2006)


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Carlos Miguel Fernandes, entre Budapeste e Novi Sad, Junho de 2006

Adenda: O Castro não fechou! Mudou apenas de local, e tropecei nele quando saí do apartamento onde pernoitei no regresso a Budapeste, depois da descida até ao Montenegro. Podem encontrá-lo agora, igual a si próprio, perto da Deak Ferenciek ter, na Madách ter. Os cevapcici continuam excelentes, e há Pilsner Urquell para quem não se deixar convencer pela Dreher húngara.


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Carlos Miguel Fernandes, no (velho) Castro, Budapeste, Abril de 2003

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 07:20 PM | Comentários (1)

julho 09, 2006

Saber Viajar II

De todos os bons momentos que me foram oferecido por este espaço onde escrevo, o mais gratificante (e inesperado) aconteceu quando fui contactado pela família Callixto a propósito do texto Hotel Balkan. Mesmo tendo conhecido Vasco Callixto apenas através de duas conversas telefónicas, foi fácil perceber que estava perante alguém que reverencia a viagem como ela merece, um eterno deslumbrado, um autêntico viajante. Alguém com quem falhei o primeiro contacto por se encontrar algures em Marrocos, num cruzeiro; que continua a viajar de carro pela Europa fora; que, há pouco anos, deu uma volta ao mundo. Percebi que Vasco Callixto, quatro décadas após as míticas viagens que deram origem aos seus livros, sabe qual o passo seguinte a dar, e ainda tem planos para uma vida de viagens. Fora do circuito das televisões, dos livros com tiragens de dez mil exemplares, da espiritualidade balofa de muitos retratos da estrada, Vasco Callixto é uma referência e um exemplo a seguir para aqueles que não conseguem viver sem um bilhete de avião no bolso. Há cerca de três semanas, no bar do Hotel Slavija, lembrei-me de Vasco Callixto. Lembrei-me que há quarenta anos atrás ele se deve ter sentado nas mesmas mesas, a ver o reboliço da cidade através daqueles enormes vidros. Presto-lhe aqui esta singela homenagem.

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Carlos Miguel Fernandes, Belgrado, Hotel Slavija, Setembro de 2005

Dentro do circuito referido está Gonçalo Cadilhe. Habituei-me a lê-lo nas páginas da Grande Reportagem e da revista do jornal Expresso. Incomodava-me um pouco a tendência para recusar a civilização, mas continuei a lê-lo. Torcia o nariz ao “terceiro–mundismo” das suas rotas, mas continuei a lê-lo. Na sua volta ao mundo, descrita nas páginas do Expresso, fez-me confusão a pressa com que atravessou os E.U.A. seguida do tempo que dedicou à América do Sul, e o deslumbramento perante a miséria que tentava disfarçar com roupagens nobres, de “bons selvagens” corrompidos pelo homem branco. Mas continuei a lê-lo. Mesmo quando, chegado à Europa, após dezoito meses a viajar, a atravessou sem pestanejar, continuei a lê-lo. (Por vezes parece que, no nosso continente, tudo o que seja mais “avançado” do que Maramures, na Roménia, com as suas estradas intransitáveis, já sai fora dos seus alvos.) Recentemente vi-o e ouvi-o na televisão. A propósito da volta ao mundo, falou do Irão. Falou de (...) uma sociedade que funciona (...), de (...) um país evoluído (...) que (...) tem os seus problemas (...) mas (...) isso é lá com eles (...). Depois, quando inquirido sobre Israel, se já havia visitado o país, ou se desejava lá ir, Gonçalo Cadilhe disse que não, que até havia conhecido alguns israelitas que lhe pareciam boas pessoas, mas como discordava do sentido político de Israel não pretendia colocar lá os pés. Entre a teocracia do Irão e a democracia de Israel, Cadilhe faz a sua escolha. Eu também. Por isso é que vou continuar a lê-lo. Não se perde assim tanto tempo, e aprende-se qualquer coisa. Coisas pouco bonitas, mas informação fundamental para não cairmos em tentações ideológicas. Temos que prestar muita atenção ao que diz quem sonha com um mundo de servos e sociedades que funcionam.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 09:52 PM | Comentários (13)

junho 26, 2006

Fora da Estrada

Tenho um pesadelo comum quando estou em viagem: um regresso a casa. Acordo em pânico e só acalmo quando reparo na estranheza do quarto que me rodeia. Hoje foi real. Despertei em Budapeste, daqui a pouco deitar-me-ei em Lisboa. O trajecto foi o habitual: centro da cidade, Ferihegy, Portela. É desolador, é inevitável, tem-se repetido nos últimos anos, mas não há forma de afastar a tristeza. Os patês do aeroporto e os últimos diálogos em húngaro, ouvidos já dentro do avião, apenas servem para iludir a dor. Na Portela, de repente, tudo nos cai em cima. Nessa altura, nada mais resta do que apanhar um táxi, entrar em casa, colocar a roupa na máquina, arrumar os livros e tentar descobrir uma forma de regressar a Budapeste o mais depressa possível. Porque, mesmo após tantas visitas, continua a ser uma cidade que, sem alarido, me surpreende e seduz com os seus cafés e livrarias elegantes, as suas ruas cheias de História e de histórias, o fígado de ganso, o Danúbio.
Belgrado, entretanto, continua a crescer, aqui dentro, onde a alma acolhe as memórias. Novi Sad já é, também, uma velha amiga. De Perast e Kotor, no Montenegro, prefiro nem falar, para já. Seria duro demais.
Entretanto, ainda no aeroporto da Portela, entre o avião e as bagagens, encontrei uma nota no chão. Duzentos forints húngaros. Talvez seja um sinal. Um dos bons.

Carlos Miguel Fernandes

P.S. Eu não me esqueci de fotografar os mexilhões da costa montenegrina. Mas fiquei mais uns dias em terras balcânicas e, para além disso, um problema técnico impede-me de arrancar as imagens da câmara digital.

P.P.S. Aqui estão eles! Os melhores mexilhões do (meu) mundo. Por eles, voltava a fazer as dez horas de comboio entre Novi Sad e Podgorica, e as três horas de camioneta pelas montanhas que separam a capital montenegrina do fiorde de Kotor. Hoje. Já.

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Carlos Miguel Fernandes, Perast, Junho de 2006


Publicado por CMF às 01:40 AM | Comentários (3)

junho 23, 2006

Esqueci-me de Fotografar os Mexilhões

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Perast, Montenegro, Maria João Reis Martins, Junho 2006

Maria João Reis Martins

Publicado por João às 05:18 PM | Comentários (0)

junho 07, 2006

Na Estrada

O roteiro é recorrente. Começa com a aterragem em Ferihegy, e, depois de apaziguadas as saudades de Budapeste, segue no comboio para Novi Sad. Este chama-se agora Avala, e é um paradigma de conforto, com uma óptima carruagem-bar onde, numa mesa, costuma estar um tabuleiro de xadrez à espera de ser aberto. Antes, em 2003 e 2004, a viagem era feita em condições menos agradáveis, especialmente quando a temperatura no exterior não colaborava.
Depois de Novi Sad, tudo se complica. As ramificações levam-nos à Bósnia e à Croácia, e da Croácia ainda chegam a Lubliana. Ou então descem para sul, para Belgrado, ou mais ainda, até à costa do Montenegro. Depois de muitas indecisões, a última hipótese parece ser a mais forte. Menor tempo perdido em fronteiras e a atracção pelo mar que, nas costas croatas, montenegrinas e albanesas tem contornos paradisíacos, foram argumentos de peso. A Macedónia, escondida lá no sul, e separada das outras capitais por muitas horas de viagem, vai ser outra vez preterida. Com este, é o quarto ano em que isso acontece. É preciso paciência. A Roménia também foi escapando sorrateiramente durante algum tempo. Para já, o necessário equilíbrio entre o conhecido e o desconhecido deverá ser garantido por Bar, Budva, Sveti Stefan e, finalmente, Kotor, uma cidade situada junto a um inesperado fiorde na costa montenegrina.
No final, o regresso à capital húngara pede uns banhos revigorantes. E aqui, talvez seja um bom lugar para aprender e praticar as manhas do gambito de Budapeste.


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Carlos Miguel Fernandes, Budapeste (aeroporto Ferihegy), Abril de 2004


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Carlos Miguel Fernandes, Novi Sad, Setembro de 2005


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Carlos Miguel Fernandes, Belgrado, Agosto de 2003

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 04:40 PM | Comentários (3)

maio 29, 2006

O Regresso da Lerther Banhof

Há cerca de um ano estava assim:

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Carlos Miguel Fernandes, Berlim, Junho de 2005

Hoje, é a maior estação ferroviária da Europa. Mais uma boa razão para voltar a Berlim. Não necessariamente de comboio, que é um meio de transporte sobrevalorizado e romantizado pelas artes. A estação é sempre mais sedutora do que o comboio. Este não passa de um avião que voa baixinho. E tem sempre um destino, perdendo-se, lá dentro, aquela sensação de se poder abraçar o mundo através de um painel de horários. Mas é uma ilusão, apenas, porque a viagem começa onde acaba a escolha, e quando se recusam as alternativas.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 05:44 PM | Comentários (2)

maio 25, 2006

Saber Viajar, ou Em Contagem Decrescente para o Regresso aos Balcãs

E convencido de que nada a não ser a sua Ítaca lhe interessava (como teriam podido não o pensar se ele percorrera a imensidão dos mares para regressar ali?), seringavam-lhe o que se passara durante a sua ausência, ávidos de responderem a todas as suas perguntas. Nada o aborrecia mais do que isso. Só esperava uma coisa; que lhe dissessem enfim: Conta! E foi a única palavra que nunca lhe disseram.
Milan Kundera, A Ignorância

Há muitas teorias sobre o viajante que não sabe viajar. É aquele que leva a casa atrás, que gasta o orçamento de três boas viagens em três dias num quarto de hotel luxuoso, que procura o conhecido no meio do desconhecido, que regressa com um sorriso. Um Ulisses dos tempos do turismo, sem a dimensão épica do herói grego. Por outro lado, poucas vezes o viajante de pé-no-chinelo e mochila às costas que se deslumbra com o terceiro-mundo é atacado, pelo menos não tanto como aqueles que deixam esse terceiro-mundo por trás da cortina de palmeiras. Mas esmiuçando as ideias por trás destas divagações, mais ou menos engajadas, pouco substância se encontra. São apenas desabafos, porque viagem e soberba não combinam. O bom viajante é aquele que sabe que nada conhece, por muitas horas de voo que tenha no lombo, por muitos carimbos que traga no passaporte. Se ao mau viajante é complicado identificar-lhe os traços, do bom emanam pequenos sinais inconfundíveis.
Tal como na procura do conhecimento, o alvo deve ser posto no “querer” e nunca no “saber”. Não existe o indivíduo que não sabe viajar. Mas existe aquele não quer viajar. Porque é difícil, porque é duro como a busca do conhecimento, e só as perspectivas construtivistas podem conceber um conhecimento sem dor. (O mundo está cheio de “génios” que nunca sofreram, excepto com a ingratidão daqueles que não lhes reconhecem as extraordinárias aptidões.) Não é abordagem estranha aliar conhecimento e viagem. Ambos se constróem sobre o esforço, ambos crescem em redor do fracasso, da tentativa e do erro. Não há viagem sem coragem, não há salto epistemológico sem arrojo. Um e outro não foram feitos para a alma sedentária. Os donos destas ficam em Lisboa a comer sardinhas. Os outros arriscam e vão prová-las, albardadas, em Lubliana. São melhores por isso? Não, são diferentes.
Existe, ou não, o mau viajante? Não sei. Mas há formas de identificá-lo implicitamente, de retirá-lo do outro conjunto. O bom viajante não chega de uma viagem em silêncio, como se tivesse acabado de superar uma pequena contrariedade; o bom viajante é um eterno deslumbrado; o bom viajante nunca está satisfeito; o bom viajante...viaja. Sempre que pode.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 02:33 AM | Comentários (0)

maio 12, 2006

Primavera em Sevilha

Sevilla para herir.
¡Siempre Sevilla para herir!

Federico García Lorca, Sevilla

Sevilha é a Giralda e a Catedral, o centro de todas as escolhas, para cima as ruas estreitas de Santa Cruz, para baixo El Arenal e a boa mesa, para um lado ou para ou outro, os jardins serenos do Alcazar ou a algazarra das calles pedonais, Sierpes, Tetuan e afins. Sevilha é a Macarena, cortada pela Calle Feria, o deserto urbano durante as horas da siesta que acorda ao som do arrastar das coberturas metálicas das lojas num crescendo magnífico de gentes à cata de livros, guitarras, cañas, ou apenas de um passeio ao fim da tarde, quando o calor, que em Maio já aperta, abranda, para no dia seguinte reaparecer em força num ciclo matreiro e perverso que só cessa no curto inverno sevilhano. Sevilha é Triana, Triana que já foi canalha, e a sua Calle del Betis, um miradouro para o horizonte com séculos de história em tons de terra quente que se estende do outro lado do rio. O rio. Sevilha é também o Guadalquivir, único oásis de frescura nas tardes tórridas da cidade, mas enganador como todos os oásis, porque quando o sol sobe e as sombras encolhem não há refúgio que nos salve. Isto é Sevilha, isto e muito mais fazem a cidade, a elegância única da cidade. (Mas não serão todas únicas, estes centros por excelência da civilização humana, com os traços de quem lhes deu vida, de quem as arrasou e de quem as voltou a erguer?)
Mas é nas características não exclusivas de Sevilha que encontramos paixão, aquela forma tão peculiar de ver e viver a vida que deu a aura mística à Andaluzia, para sempre registada nas palavras de Cervantes, na vontade indómita de Carmen, nos momentos decisivos de Cartier-Bresson, nas novelas de Hemingway. E se falamos de Hemingway falamos das touradas e dos matadores elegantes, festa imune a todas as modas assépticas nascidas do centralismo europeu. Infelizmente, não posso falar muito de touros, pois deixei de frequentar corridas quando a minha idade ainda não atingira os dois dígitos, e os caminhos da vida nunca mais me levaram para o lote de aficcionados. Mas, sobre a comida e a música, as outras duas grandes marcas da Andaluzia para além dos touros, já me atrevo a debruçar. (Existem ainda, como marca indelével do carácter andaluz, os quadros representativos da Paixão de Cristo ou do sofrimento de Maria que decoram qualquer botequim mais tradicional; mas isso são coisas mais próximas do exagero almodovariano que só se podem sentir e entender após uma visita.)
A comida. Nas mesas de Sevilha abre-se o vasto receituário andaluz. As chacinas não se envergonham perante aquilo que melhor se faz na Extremadura. O peixe frito, dos linguadinhos às pescadinhas, são sempre infanticídios deliciosos, aos quais se juntam o cazón en adobo com seu sabor agridoce dado pela carne adocicada do tubarão e pela acídula mistura de vinagre, alho e orégãos na qual o bicho marina durante algumas horas. Os mariscos têm uma frescura garantida pela proximidade das costas de Huelva, Cadiz e Algarve, e, em alguns lugares da cidade, o tratamento é dado pelos galegos, gente que sabe o que faz, e que ainda traz, das suas águas, zamburiñas, vieiras e amêijoas de Carril. E o salmorejo, as setas, a pringa, as tortillitas, as ortiguillas e a mojama (ah, a mojama, ou moxama, como se diz no Algarve, onde já pouco se come), e tantas outras tapas, são a base que sustenta o ambiente de festa quase permanente que se vive nas barras dos restaurantes e cafés sevilhanos. A tudo isto começam já a juntar-se as tapas mais requintadas, reinvenções das receitas tradicionais sem agressões gratuitas à matriz, uma lição de bem cozinhar e servir. É a vida.
Mas a boa comida, tal como as touradas, é património espanhol e não apenas andaluz, embora nesta região estes dois pontos incontornáveis da cultura espanhola atinjam dimensões épicas. Aquilo que realmente distingue a província sulista do resto do país é o flamenco, dança e música de tez escura, a exposição da alma cigana ao mundo. Só o flamenco e o canto balcânico (que apesar das distâncias geográficas em causa, não estão assim tão afastados como parece) se aproximam da ópera na emoção que me causam. E em Sevilha, como em toda a Andaluzia, o lamento, as palmas, o taconeo e as cordas ecoam, literalmente, em cada parede, vindas do tablao mais formal, do improviso entre amigos em torno de uma tapa de presunto ou até de uma janela aberta. Pelo meio, temos casas onde, sem hora marcada, arrancam bullerias e rumbas, ao ritmo de músicos virtuosos ou clientes mais dotados, muitas vezes até ao amanhecer. Das últimas, destaca-se o número 31B da Calle del Betis, um templo onde o mestre de cerimónias Gabi embala com a sua guitarra uma exuberante cigana chamada Samara que podia ter sido a inspiração de Bizet. No Rejoneo, quem não se deixar arrebatar não tem coração.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 03:12 AM | Comentários (4)

abril 21, 2006

A Vida São dois dias – II

(continuação)

Quando atravessamos o Raval pela Rua de Sant Pau chegamos à Rambla de San Josep, também conhecida por Rambla das Flores por causa dos inúmeros floristas que aí exercem a sua actividade. Do outro lado da rua, avistamos logo a Casa Bruno Quadros e os seus motivos orientais. Poucos passos acima, situa-se o mercado La Boqueria, ponto de passagem obrigatório para quem aprecia boa comida. Mesmo quando o lar está demasiadamente remoto para que possamos aproveitar a frescura que se exibe nas bancadas, vale sempre a pena passear um pouco no meio daquelas cores e cheiros. Mas, a quem visitar Barcelona pela primeira vez, aconselham-se também algumas subidas e descidas pelas ramblas de San José, Santa Monica, Canaletes, Caputxins e Estudis, as quais se estendem desde a Plaça de Catalunya até ao miradouro de Colón e constituem aquilo que se costuma designar por Ramblas ou La Rambla. Esta, separa o Bairro Gótico do Raval e parece um resumo de todas as virtudes e defeitos da cidade. Por um lado, a animação incessante, o comércio e a gastronomia variada e a arquitectura marcada pelo génio de Gaudi. Por outro, o caos das épocas mais favoráveis ao turismo, os preços exagerados e os carteiristas. A Rambla é um retrato de Barcelona. Ama-se ou deixa-se. Vamos deixá-la agora, mas para entrar no Bairro Gótico, fechado entre a Praça de Catalunya, a norte, e o Passeig de Cólom, a sul, enquanto a oriente, a Via Laetana o separa do Born. No meio está um mundo que o viajante não pode aspirar a conhecer num dia. Quem quiser esquadrinhar as lojas em busca de recordações de Barcelona pode seguir para norte e passar uma tarde de compras alimentada pelos pinchos bascos que se encontram em quase todo o lado. Depois, e antes de chegarmos à Plaça de Catalunya, podemos retomar o caminho do sul e descer até à Catedral. Com alguma sorte, passamos por uma qualquer feira de iguarias, onde se pode encher a mochila com patês, queijos, especiarias ou chás. Um desvio até à Plaça Reial é quase obrigatório, mas, depois, deixemos a parte mais ribeirinha do Gótico para a noite, pois esta está recheada de restaurantes, bares e casas de degustação de enchidos. É melhor atravessar a Laetana, e passear no Born, outro labirinto de ruas estreitas onde se encontram algumas preciosidades culturais e gastronómicas. Junto à Praça do Born e à Basílica de Santa Maria del Mar, a animação é constante a partir das cinco da tarde, com gente a entrar e a sair das muitas casas de tapas que lá se encontram. Perto da Basílica, os apreciadores de chá encontrarão uma casa notável. Em frente, está um restaurante basco. Ainda hoje me arrependo de ter ficado à porta.


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Carlos Miguel Fernandes, Barcelona, Março de 2001

O passeio já vai longo, mas ainda há tempo para uma pequena incursão a Barceloneta. O lugar, que parece apenas um ponto no mapa, pede um par de horas de caminhada pelo seu traçado ortogonal. O roteiro é essencialmente gastronómico, mas o passeio compensa também aqueles que desejam chegar ao Passeig Maritm e apreciar o Mediterrâneo, ou mesmo mergulhar nas suas águas mornas se o tempo assim o entender. Depois, podem rumar à Plaça de la Font, mesmo no coração do bairro, para descansar num pequeno bar que descobri nesta última vista a Barcelona. Infelizmente não registei o seu nome, mas merece ser procurado. Lugares com cerveja checa e xadrez não se encontram todos os dias.

(continua em breve, com algumas sugestões para o tapeo)

Carlos Miguel Fernandes

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abril 01, 2006

França

Fui a França várias vezes. Muitas visitas foram passagens breves, ditadas pela geografia, outras surgiram acidentalmente. Mas nunca visitei França com convicção. Porquê? Porque desde a primeira vez que pus os pés no país senti um mal-estar que os regressos nunca conseguiram eliminar. De França nunca trouxe boas recordações. Fui mal tratado, e foi o único sítio do mundo onde me senti vítima de xenofobia. Isso aconteceu em quase todo o sul de França, onde o estranho não parece ser entidade bem-vinda. Nem Paris me seduziu, embora reconheça que teve pouco tempo para uma tarefa que, na altura, já não era fácil. Com uma centena de bilhetes de avião em cima da mesa, deixaria os destinos franceses para o fim. Bons momentos, só os tive em Cagnes-sur-Mer, em casa de um amigo. Mas isso deveu-se mais à companhia, e às conversas hilariantes ao sabor de umas magníficas noites de verão, numa varanda onde se conseguia cheirar o Mediterrâneo.
França nunca aprendeu a lição de Voltaire, nem consegue seguir os passos de Camus num processo de aprendizagem que pode ser doloroso, mas que é essencial para se abandonar a pré-história das ideias. Continua a confundir liberdade com outros movimentos menos humanitaristas e a cultivar a crença num universalismo deturpado. É verdade que tem os queijos e os vinhos, e isso, para o viajante epicurista, é motivo forte para não ignorar o país. O Banon, por exemplo, talvez seja mesmo o melhor queijo do universo. Mas os Banons que provei, comprei-os em Andorra e comi-os em Lisboa, eliminando assim um hipotética recordação aprazível de terras gaulesas.
Quando o Danúbio sobe e invade as avenidas ribeirinhas de Budapeste, sinto-o como se água me entrasse pela casa adentro. Quando a ETA mata espanhóis, sinto-o como se fossem meus irmão. França? França pode arder, o meu coração não se sobressalta. Aliás, se os franceses a querem queimar, quem somos nós para protestar!

Carlos Miguel Fernandes

P.S. Circula por aí, na blogosfera, um argumento de autoridade: eu conheço França, tu não conheces França, eu vivi em França, tu só visitaste. Pois. Eu também posso dizer que quem nunca comeu Banon não percebe nada de queijos.

Publicado por CMF às 02:27 PM | Comentários (16)

março 24, 2006

A Vida São Dois Dias

O António Viriato revelou-nos, na caixa de comentários da entrada anterior, um velho ditado sobre Barcelona: Barcelona es buena, si la bolsa suena. Barcelona é boa se a bolsa soa. Ou seja, uma bolsa bem recheada é essencial para usufruir convenientemente de tudo o que a cidade tem para nos oferecer. No último fim-de-semana pude comprovar a actualidade do adágio. Todos sabem que já passou o tempo em que se ia a Espanha comprar caramelos. Mas enquanto na Andaluzia a vida ainda é simpática para as bolsas portuguesas, na Catalunha já se atingiram, como se costuma dizer, os padrões europeus. Barcelona está também geograficamente às portas da outra Europa, menos marcada pela periferia peninsular, e isso reflecte-se numa cultura mais universalista e numa oferta (ainda) mais diversificada do que no resto de Espanha. Os preços, contudo, acompanham a qualidade dessa oferta. Como disse antes de ir, come-se muito bem em Barcelona, e este último regresso apenas reforçou essa ideia. Mas a qualidade faz-se pagar. Espanha atingiu uma dimensão extraordinária no mundo da gastronomia. A vaga é liderada pelos restaurantes do País Basco, coroados com as cobiçadas estrelas Michelin, mas a Catalunha não fica atrás nesta revolução tranquila da cozinha espanhola. Tranquila, sim, e pouco revolucionário na verdade, porque sem o conhecimento e aproveitamento da tradição nada se constrói. Sobre o vazio faz-se apenas o vazio. Os cultores da falsa nouvelle cuisine, que acabou por dar má fama à autêntica e quase pôr em causa o futuro da cozinha europeia, nunca perceberam este princípio básico da gastronomia e da vida. Na arte, como na política, os revolucionários transformam-se em conservadores no dia seguinte à revolução. E pelo caminho deixam destroços e edifícios que só a muito custo se voltam a erguer.
Mas se a comida barcelonense pede uma bolsa que suena, ainda há coisas que nada custam ao viajante. Passear nas ruas da cidade, apreciando as mudanças, rua a rua, bairro a bairro, é uma dessas actividades que pouco nos pedem. Armados com alguma vontade de caminhar, a cidade é nossa. Por isso, vamos deixar o pequeno roteiro gastronómico para mais tarde e passear um pouco por Barcelona, limitando-nos à zona central e ocidental, porque um fim-de-semana não permite grandes aventuras.
O passeio pode começar no Montjuic. Desde a Praça de Espanha, sobem-se as escadas que levam ao Palácio Nacional. Lá em cima, o descanso é feito em frente a uma visão geral da cidade que se estende pelo vale numa serena uniformidade quebrada pelas torres da Sagrada Família e da Catedral. A descida é iniciada pela estrada que leva à Fundação Miró. Num ápice, o verde que cobre o monte é deixado para trás e surge um bairro, ainda nas encostas, que, integrado na área designada como Poble Sec, termina na Avenida Parallel. Até lá percorrem-se artérias estreitas, num ambiente familiar feito de cafés, pequenos restaurantes com cozinha de autor e lojas. Alguns prédios Arte Nova completam o cenário afável que sugere qualidade de vida. Chegados à Parallel, que se alonga desde a Praça de Espanha até ao porto, é necessário resistir à tentação da água e deixar o Mediterrâneo para mais tarde. A passagem para o outro lado da Parallel pode ser feita um pouco acima da entrada para o Raval, ao qual se chegará mais tarde. Agora, é melhor procurar a estação de metro Poble Sec e aí por perto entrar no padrão ortogonal do Eixample Izquierdo, para depois percorrê-lo no sentido oriental com ligeiros desvios descendentes. Pelo caminho, ver-se-ão ruas folgadas e animadas por pequenos comerciantes e marisqueiras galegas onde nunca se é maltratado. Mas vamos, para já, resistir ao chamamento das vieiras e do polvo, e entrar no Raval passando pela Igreja de Sant Pau del Camp, um vestígio românico muito bem conservado. A rua com o mesmo nome, adjacente ao monumento, leva-nos ao coração de um bairro caricato ao qual por vezes se chama Chino. A paisagem muda bruscamente, e o ambiente desafogado do Eixample dá lugar a ruelas pedonais enxameadas de lojas de imigrantes que lutam num país estranho por condições de vida inexistentes na sua pátria, convivendo com a marginalidade inerente a uma grande cidade. Essa parece ser a tragédia dos imigrantes, condenados a viver e trabalhar nas zonas mais baratas das cidades, as quais acabam por funcionar como vórtices de todos os males. No entanto, o Raval de hoje já não corresponde às histórias de antanho e é sítio que pode e merece ser visitado. E nas suas franjas, junto à Rambla, já se veêm restaurantes elegantes e hotéis acima de qualquer suspeita.

(continua em breve, para o outro lado da Rambla)

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 01:50 PM | Comentários (2)

março 16, 2006

O Regresso

Olá, eu sou a co-autora deste blogue. No princípio escrevia uns textos, nunca muito assiduamente, mas de vez em quando lá chutava uma entrada. Depois ausentei-me, por mor de falta de entusiasmo, porque estas coisas não são contínuas. Agora (será da primavera?) apetece-me voltar, até quando não sei...mas apetece-me escrever sobre coisas de que gosto. Aborrece-me aquela conversa de alguns blogues, sempre atenta, sempre à cata do deslize, quase voyeur. Já não tenho paciência para escrever sobre todas as coisas ignóbeis que oiço, como hoje de manhã, num congénere do Fórum TSF, mas na Antena 1, em que o tema versava sobre as escolhas de Cavaco para seus conselheiros e aparecem as mais livres, mas hediondas concepções políticas, ao ponto de termos de ouvir uma indignada senhora dizer que o Muro de Berlim faz muita falta...Eu, para este peditório, já dei! Não posso perder tempo a transcrever estes impropérios.
Amanhã vou para Barcelona, uma cidade (outra) que mudou a minha vida. Anseio estar lá naquela cidade viva, onde estive pela primeira vez há anos e anos. Preparava-se a cidade para receber os Jogos Olímpicos, e eu preparava-me para chegar à Grécia. Vinda de Madrid (da terceira ou quarta visita), achei Barcelona enfadonha, onde é que estava a minha Espanha? Onde paravam os espanhóis? Onde andava a simpatia a que me habituara em Madrid? Onde estavam as caves? Os bares? Porquê que Barcelona não me matava?
Nunca mais fui a Barcelona, entretanto cresci (eufemismo para envelheci) e depois de uma viagem pela Europa, de carro, no seu retorno a Portugal, encalhei em Barcelona, ligeiramente contrariada, eu disse ligeiramente...E, tudo aquilo que me tinham contado sobre as maravilhas da cidade era mentira. Barcelona, afinal, era a melhor cidade de Espanha e eu a partir daí nunca mais fui a mesma. Morri, finalmente.

Maria João Reis Martins

Publicado por João às 01:37 PM | Comentários (5)

Barcelona

Barcelona era um ponto de paragem obrigatório quando percorria o continente de carro, antes de começar a aterrar directamente na Europa Central. Foi a primeira grande cidade estrangeira que conheci e quando passeei pela primeira vez nas suas ruas senti que algo mudava. Há a vida antes e depois de Barcelona. Há a vida antes e depois de Espanha. Os regressos nunca mais foram iguais, e o desconforto começou a surgir, lentamente, e a invadir o quotidiano de uma forma insuportável.
Ano após ano, fui-me habituando às avenidas largas do norte da cidade e às descidas frenéticas pelas ramblas com passagem obrigatória pelo mercado La Boqueria. Habituei-me a perder-me no Bairro Gótico, e, mesmo no seu coração, a retemperar forças com cañas e presunto. E não abdicava das caminhadas pelo porto, que percorria desde a estátua de Colombo até chegar a Barceloneta, antigo bairro de pescadores e hoje refúgio seguro para apreciadores de marisco. Aí, fazia sempre questão de espreitar o Mediterrâneo. É o fascínio do Sul.
Amigos portugueses que por lá vivem foram-me dando abrigo em diversos pontos da cidade: perto do Camp Nou, a poucos quarteirões da Sagrada Família, na Calle Carderf. Noutras ocasiões, experimentei os hostales duvidosos dos bairros Gótico e Born. Fui batendo a cidade, da esquerda à direita da Diagonal, do Montjuic à Vila Olímpica. Espreitei a estranha noite do Raval, mais conhecido por Bairro Chino, o qual, antes das mudanças trazidas pelos Jogos Olímpicos de 1992, era, diz-se na cidade, lugar quase impenetrável. E, numas já longínquas férias, que começaram em Praga e acabaram na capital catalã, cheguei a cruzar-me involuntariamente com a versão mais dura das noites alternativas de Barcelona, com “quartos escuros” e mais cabedal do que plumas. Mas apesar das imensas e gratas recordações que Barcelona me deixou, muito ficou por fazer. As cidades são fontes de prazer eterno que nos corrompem a vida. Mas a vida vinga-se com a maldita finitude.
Saí de Barcelona, pela última vez, no primeiro de Janeiro de 2002. Volto agora, por pouco tempo, para ver como estão as coisas. Anseio já pelo Mediterrâneo, pela paisagem urbana enfeitada de Gaudis, pelas casas de enchidos e tascas galegas do Gótico, pelas marisqueiras de Barceloneta e pelos elegantes restaurantes do Born. Sim, a gastronomia é uma faceta fundamental de Barcelona. Come-se bem, muito bem. O detective Pepe Carvalho sabe-o.


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Carlos Miguel Fernandes, Praia de Barceloneta, Barcelona, Março de 2001

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 12:25 AM | Comentários (1)

dezembro 31, 2005

Sevilha me Mata!

Se Sevilha não convencer o mais resistente cidadão português a ceder aos encantos de Espanha, e a abandonar definitivamente os lugares-comuns sobre o país vizinho, então, e perdoem-me o abuso de linguagem causado certamente pelo estado de choque (positivo) em que ainda me encontro, tal indivíduo não sabe viver. Em Sevilha tudo se aproxima perigosamente da perfeição: os labirintos do bairro judeu (Santa Cruz) pejados de casas de tapas, a marginal de Triana e os seus bares de flamenco, a calmaria nervosa da ruas estreitas de Macarena, os restaurantes do El Arenal, a imponência emocionante da Plaza de Espanha, o burburinho comercial da Calle Feria, a herança cultural das três grandes religiões monoteístas, tudo se conjuga para gerar um lugar mítico, místico até, e inolvidável.
A mole de gente invade as ruas a partir das cinco da tarde para aproveitar o segundo horário de abertura das lojas e a partir das nove torna-se quase impossível encontrar uma mesa numa petisqueira. A multidão até transforma numa tarefa épica a tentativa de aproximação a um balcão, pois muitas vezes geram-se até três camadas de clientes em redor das extensas barras. Mas isto é um retrato de Espanha, embora na Andaluzia o movimento humano e a oferta de comida cheguem a dimensões inultrapassáveis. E é neste aspecto que as terras andaluzas se distinguem do resto do país: o exagero, na variedade de tapas, nas multidões, nos motivos religiosos usados na decoração, no sofrimento do canto cigano, em tudo. Falemos um pouco dos ciganos.
Escapando às sevilhanas, talvez a variante mais turística do flamenco, o viajante que passeia pelo centro pode atravessar o rio para Triana, antigo bairro de má-fama, e aleatoriamente, entrar numa das muitas casas que se estendem em frente ao Guadalquivir. Com sorte, encontrará bulerias, canto contido e sofrido, teatral e quase operático, interpretado por Carmens modernas e ciganos de voz pujante, que desfiam enormes trechos vocais entre a serenidade e as explosões de fúria e alegria, tudo pautado pelas complexas cordas flamencas e um coro de palmas sobre-humano.
A experiência gastronómica pode ser outro caso sério. De entre o nível elevadíssimo das tapas, podem encontrar-se pequenas maravilhas que nos arreliarão a memória por muitos anos. Na boca, ainda se sente o sabor das gambas com foie gras e arroz pilaf, das conquilhas com favinhas, das amêijoas de Carril (cruas!) e do cordeiro com mel, tudo provado no Porta Gayola. As casas galegas permitem-nos recordar as zamburiñas e os gambones. E as ortiguillas da Casa Cuesta, as gambas ao alhinho de um restaurante junto a La Giralda e as ovas de choco grelhadas de uma marisqueira de Santa Cruz merecem figurar num livro de honra da arte do petisco (infelizmente não registei os nomes dos dois últimos lugares, mas Sevilha é um lugar de descoberta, e só vale a pena seguir conselhos quando o tempo escasseia).
E se isto não convencer, experimentem visitar os Reales Alcazares, e depois passear nas ruelas adjacentes, uma espécie de Alfama plana mas onde as casas têm condições que respeitam a dignidade humana. Depois, ao fim da tarde, sentem-se numa das muitas esplanadas que aparecem quando as ruas alargam uns centímetros, e, com uma cerveja e uma tapa à frente, talvez comecem a pensar que o mundo é injusto na forma como se dividem os passaportes. Porque há lugares que nos seduzem pelo seu exotismo, pela diferença, ou até pelo mero prazer de viajar. Mas outros vão mais longe e fazem-nos odiar a forma como fomos distribuídos pelo mundo.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 08:01 PM | Comentários (15)

dezembro 19, 2005

Bloco de Notas - VI

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Carlos Miguel Fernandes, Oswiecim, Setembro de 2005

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 01:26 PM | Comentários (2)

dezembro 13, 2005

Bloco de Notas – V

Na praça Szeroka a tarde de sábado passa com serenidade. O tempo hostil não convida para grandes passeios e os cafés são o refúgio perfeito. Quase sempre com os tons escuros da madeira velha, com luminosidade ténue, estes lugares de Cracóvia são, provavelmente, os mais acolhedores do mundo.
Cracóvia, Setembro de 2005

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Carlos Miguel Fernandes, Cracóvia (Alchemia), Setembro de 2005

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 03:41 AM | Comentários (1)

dezembro 09, 2005

Em Budapeste

São muitas as coisas que me remoem a alma quando regresso de uma viagem. Mas este ano senti um incómodo discreto que só agora entendi na sua plenitude: na última viagem não dei atenção suficiente a Budapeste. É verdade que a ida à cidade chegou a ser posta em causa, pois andar de um lado para o outro entre a Polónia e a Sérvia requer algum tempo e muita disponibilidade física. E a meia dúzia de visitas anteriores à capital húngara ajudavam quem defendia que, desta vez, lhe podíamos passar ao lado. Mas mantive-me firme, e lá fomos parar a Budapeste duas vezes, na descida para a Sérvia e no regresso a Varsóvia. Na primeira noite, após uma cansativa viagem desde Cracóvia, fomos ao Castro, e as minhas dúvidas desvaneceram-se. Eu tinha que estar ali, naquela cidade. No canto da sala um quarteto tocava temas de Parker. Na mesa, matávamos saudades dos cevapcici. Sim, cevapcici, porque a cozinha do Castro é sérvia. Aliás, foi lá que, em 2003, numa noite anterior à minha partida para aquela que seria a minha primeira visita a Belgrado, tive o contacto preambular com a cultura da Sérvia, numa conversa com Mihailovic, o cozinheiro. E agora, lá estava eu, outra vez no meu bem-amado Castro, a comer uns rolinhos de carne que nada devem às melhores cervejarias de Belgrado, no meio de um ambiente contagiante. E tudo começou a fazer sentido. Não são caprichos que me levam a voltar exaustivamente a Budapeste. Há qualquer coisa na cidade que a faz parecer perfeita, mesmo com todos os seus defeitos visíveis.
O que me tem atormentado então? Ter dedicado pouco tempo a Budapeste, nesta última viagem dominada pela Polónia e pela Sérvia. Mal houve tempo para rever amigos. Foram visitas de médico, ditadas pela dúvida e pela solução de compromisso que foi encontrada, entre estadas muito mais prolongadas nas restantes quatro cidades que ficaram na rota da jornada. Espero que ela não tenha ficado ofendida. Tentarei voltar em breve, em busca de redenção.

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Carlos Miguel Fernandes, Budapeste, Setembro de 2005

P.S. Não se deixem enganar. Como dizia Jonathan, o ladrão de bancos inglês e exilado que conheci no Castro, o nome é a única coisa má do fabuloso "café" da Raday utca.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 08:04 AM | Comentários (4)

novembro 30, 2005

Bloco de Notas - III

Desde Junho tenho-me sujeitado à ditadura do café expresso.
Varsóvia, 8 de Setembro de 2005

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Carlos Miguel Fernandes, Varsóvia (Pozegnarie z Afryka), Setembro de 2005

Adenda: Pozegnarie z Afryka é o nome de uma pequena cadeia de “cafés” que encontrei na Polónia. São espaços pequenos e serenos, decorados com sobriedade, e onde se pode degustar um café fresco escolhido de um lista imensa que chega até ao mítico Jamaica Blue Mountain. Para quem, como eu, despreza o expresso, casas como o Pozegnarie z Afryka são um bálsamo. Os meses de estada em Portugal, entre as viagens, são sempre um castigo difícil de suportar. Essa tortura é agravada pela dificuldade de encontrar um bom café em terras lusas. Por isso, um dos grandes prazeres da viagem tem sido, cada vez mais, aquele primeiro café, bebido quase sempre em lugares acolhedores, que nos reconcilia com o mundo.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 04:17 PM | Comentários (0)

novembro 29, 2005

Bloco de Notas - II

Passo os últimos momentos em Belgrado no bar do Hotel Splendid, a ver os hóspedes a entrar e a sair, check-in, check-out. Mesmo quando estou em trânsito entre duas cidades, mesmo quando o momento não marca o horrível regresso a casa, mesmo assim não consigo deixar de sentir inveja, sentimento pouco nobre, daqueles que pousam as malas pela primeira vez no átrio do hotel. Imagino as suas descobertas, se se tratar da primeira visita, ou os reencontros com um passado feliz.
Belgrado, 1 de Outubro de 2005

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Carlos Miguel Fernandes, Belgrado (Hotel Splendid), Outubro de 2005

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 05:47 AM | Comentários (9)

outubro 19, 2005

Retorno Fabuloso

Realmente, os regressos de boas viagens são marcantes e começam a deixar-me francamente angustiada, descontente e com ódio por voltar. O que é bom porque tenho actuar contra a inércia. Mas a infelicidade vai-me acompanhando. Sinto-me triste. Já tinha escrito anteriormente que os regressos são por mim passados lentamente. Venho sempre cansada, exaurida de deleite. Esgoto-me em cada viagem que faço e é-me impossível partilhar com quem não as viveu. Deixo-me ficar zangada e triste, mas soberana e portentosa. Estou triste, mas estou repleta.
Visitei duas cidades pela primeira vez: Cracóvia e Varsóvia. A primeira é fabulosa; a segunda é fabulosa (por isso é que eu não consigo partilhar estas sortes...). Só me vem à memória um episódio ocorrido em Varsóvia que resume um pouco aquilo que sinto por Cracóvia, quando um rapaz, num bar fabuloso (nem quero pensar nesse bar, cujo nome nunca soube), me perguntou que impressões tinha registado acerca de Cracóvia e se estava a gostar de Varsóvia. Eu, contente como estava, lá expliquei muito prosaicamente que as duas me encantavam, mas que eram bem diferentes entre si. Mas ele percebeu e resumiu: Já percebi, para ti Cracóvia é a melhor cidade dentro do género compacto e Varsóvia é a melhor cidade dentro do género descompacto. Achei um resumo fabuloso!
Cracóvia deixa-se conhecer num instante. É da espécie das velhas cidades europeias, com o velho centro histórico fortemente dinamizador, com aquela fabulosa praça do mercado de uma energia vivaz e estimulante, mas facilmente deambulamos pelas menos centrais avenidas, no sentido das periferias e o aguilhão não cede. Que passeatas tão boas que ali se podem dar, assim, ao acaso, atravessando o rio para a margem de Podgorze (outrora uma cidade independente, mas hoje parte de Cracóvia) ou fazer incursões pelas sinagogas do Kazimierz, um antigo bairro judeu, que já viu imensas experiências nefastas no seu seio e que hoje é um centro de vivas heranças e novos renascimentos urbanos, e ir beber uma cerveja de fim de tarde numa tasca de outros tempos com homens a ver a bola e outros a cantar músicas dos Bee Gees ou dos Supertramp...
Varsóvia não se conhece facilmente. É uma cidade do século XX. Enorme. Fabulosa. Vi todas as paisagens, no caminho do aeroporto para o Hostel, mais ou menos no centro da cidade (questão muito pertinente por haver muitas opiniões diferentes acerca do centro!), desde a cidade subúrbio, até chegar à cidade-bairro, e no meio esbarrar com a cidade socialista, ou a cidade colossal, depois encontrar a cidade feia-cinzenta-funcional, até à cidade-maqueta que encontramos, como uma evocação à velha cidade, aquela que existia antes dos bombardeamentos alemães e russos. Todos os cenários são possíveis. Depois é só escolher. E eu escolhi tão pouco...É este o tormento! O regresso urge. Ficou-me a faltar quase tudo. Varsóvia é gigante. Tudo é longe. Ir a Praga (a outra margem do rio Vistula) é ir ao fim do mundo. E é um fim-de-mundo aquilo que eu vi (e não vi nada, a sério!), aquele mercado russo junto a um estádio meio abandonado, onde estavam centenas de quiosques com roupa, comidas, facas, alguidares, atacadores...Ir ao cemitério judeu, ao antigo Guetto de Varsóvia é ir a outro fim-de-mundo. Ir passear sem rumo é uma bestialidade...é assim Varsóvia, com a sua enorme e fabulosa oferta, com as suas inesperadas ruas cheias de gente ou corredores de parques sem fim.

Maria João Reis Martins

Publicado por João às 07:13 PM | Comentários (0)

outubro 16, 2005

Regresso, Mais Uma Vez - IV

Mas a maior preciosidade que trouxe da Polónia, para além da memória de um afável e sincero relacionamento humano, é difícil de descrever e partilhar. Percorri, solitário, o trilho judeu, apagado pelo tempo nalguns lugares, mantido como um circo noutros. Não me será fácil falar daquilo que vi, e daquilo que senti. Fui em busca de imagens para um projecto que se afigura eterno. As palavras, vou-as debitando neste espaço quando sentir que são pertinentes.
Sobre o lugar chamado Auschwitz (que foi apenas uma pequena parte nesta busca através de um capítulo da história europeia) ainda não sei se escreverei, pelo menos antes de descobrir uma razão forte para o fazer, tal como aquela que encontrei para visitar o museu que já foi campo de concentração. Por enquanto, penso mais nos guetos de Varsóvia e de Cracóvia, hoje só reconhecíveis por alguns marcos e monumentos, e escondidos por baixo de cidades novas. Penso mais na música Klezhmer omnipresente nalgumas ruas do bairro Kazimierz de Cracóvia, e nos poucos mais de cem judeus que hoje lá vivem, quando antes da guerra por lá andavam muitos milhares. E quase todos os dias me lembro do momento no cemitério judeu de Varsóvia quando um grupo de israelitas, parte de uma excursão imensa, cantou o hino de Israel, um dos mais belos do mundo, em redor das campas simbólicas das vítimas do Holocausto. No meu bloco de notas escrevi:
Cemitério judeu. Ontem. Uma das campas está rodeada por adolescentes judeus. Alguém lhes explica o significado do local. Quando me afasto, começam a cantar o hino de Israel, num tom comedido e sentido. A noção de pátria não me emociona, mas a beleza deixa-me quase sempre à beira das lágrimas.
Alguns dias depois, em Auschwitz e Birkenau, voltei a encontrar a mesma maralha de jovens em excursão. Desse dia, recordo comportamentos menos edificantes, mas, para já, não falarei de Auschwitz. No entanto, esse reencontro inesperado talvez seja a razão forte que procuro para um destes dias escrever qualquer coisa sobre o que representam hoje os antigos campos de concentração.

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Carlos Miguel Fernandes, Varsóvia, Setembro de 2005

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 02:07 PM | Comentários (1)

outubro 14, 2005

Regresso, Mais Uma Vez - III

Vim com novos nomes na bagagem, com os quais ainda estou a construir afinidades. Da Polónia trouxe as poderosas fotografias do Palácio da Cultura, tiradas por Daniel Kazimierski com uma câmara estenopeica, e o mundo enigmático a preto-e-branco de Anita Andrzejewska, com o qual me identifiquei ao primeiro olhar. Trouxe ainda a música nervosa de Mirek Czyzykiewicz, as canções das ruas de Varsóvia, e descobri que a Kaya, apesar de ter feito um disco brilhante com Goran Bregovic, não é cantora muito recomendável. Trouxe a história das insurreições de Varsóvia – Gueto e cidade – e as imagens brutais das mesmas. Da comida já falei.
Comigo veio também um pequeno livro de Stanislaw Krajewski, que devia ser lido por muita gente que, por cá, insiste em falar de anti-semitismo, de esquerda e de direita, de comunismo e nazismo, mas quase sempre com ideias em segunda mão de origem anglo-saxónica (ou, pelo outro lado, segundo cartilhas que tresandam a mofo marxista). Existe um mundo para além da língua inglesa. Existem escritores, pensadores e ensaístas que não escrevem em inglês. Começo a ficar cansado da anglofilia crescente em Portugal, que nos invade com a música, as letras e as ideias, e até nos corrói a escrita. A duração das minhas viagens não me permite descobrir se este é um fenómeno europeu, ou apenas de Portugal e da sua “vocação atlântica”. Mas pelo menos passei por um processo de desintoxicação: na Sérvia o anti-americanismo (sentimento primário, e, muitas vezes, pouco pensado) da população mostrou a sua face caridosa, e estive alguns dias bem longe das referências anglo-saxónicas, especialmente da ditadura enervante da música (mas será que alguém pode culpar os sérvios por serem anti-americanos?).
Do livro de Krajewski, chamado Poland and the Jews – Reflections of a Polish Polish Jew, talvez tire algumas ideias para desenvolver em futuros textos (e nessa altura tentarei explicar o Polish Polish Jew do título). Por agora, deixo apenas este pequeno trecho, que talvez ajude algumas pessoas a entender, embora por vias diversas, a batalha destes senhores no sentido de se retirarem as cruzes das salas de aula do ensino público (o destaque é meu):
Obviously, today many Jews experience no strong emotions when they encounter a cross; also, most Jews are perfecly aware of its lofty meaning for Christians. Still, the memory of persecutions remains, as well as a felling that the cross represents an alien and unacceptable religion. As long as a certain symbol is not universally accepted as a symbol of reconciliation, it must not be imposed upon others.
Estas palavras fizeram-me recordar o David, o meu grande amigo da escola primária. Não sei se a cruz seria, para a sua família, um símbolo de perseguição. Também não me recordo de nenhuma cruz na minha sala de aula. Felizmente, tive uma professora que não interferia em assuntos privados e que nos deu uma educação laica.

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Carlos Miguel Fernandes, Varsóvia, Setembro de 2005

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 02:42 PM | Comentários (0)

Regresso, Mais Uma Vez - II

A Polónia surpreendeu-me. A sua capital não é aquela cidade cinzenta e desinteressante que alguns amigos me descreveram, e muito menos o lugar lúgubre, quase infernal, das palavras que Isabel Fonseca escreveu no seu livro Enterrem-me de Pé, depois de visitar a Varsóvia no início dos anos 90, procurando os ciganos que, vindos da Europa Oriental, invadiam as estações de comboio com a esperança vã de chegar ao Ocidente:
Em Varsóvia há também uma abundância de novas lojas que vendem apenas lingerie lúbrica e outras que só têm alimentos de luxo: whisky e caviar, mas nunca leite. Quem lá vai? Quem vive ali? Tudo parece falso, afinal – as pessoas e os locais variegadamente enfestoados. Mas é mesmo falso, afinal. Há cinquenta anos, os soldados alemães apagaram do mapa a cidade e dois terços dos seus habitantes. Hoje restam apenas meia dúzia de fachadas descarnadas, anteriores à guerra, conservadas talvez como lembrete (muitos dos velhos prédios abundam em buracos de balas). Os Polacos andam obcecados pela sua história, mas na capital vivem numa cidade sem qualquer pátina. Ali, nada é antigo; e, muitas vezes, as coisas não são o que pretendem.
(...) A sensação de um cenário cinematográfico talvez prestes a ser novamente derrubado por terríveis forças históricas: é este o sabor do mal-estar que se sente ali, onde os nomes das ruas ainda estão a mudar e onde, no Gueto, os alicerces dos edifícios abrem fendas. O entulho do passado está realmente a vir ao de cima e fica-se de olhar fixo, como se se esperasse que aparecessem, duma fenda, duas trémulas mãos.

Quinze anos depois, vi uma cidade completamente diferente. Grande, viva, agitada. Com ofertas para todos os gostos, e sem a pressão turística de outros lugares. Entra-se em Varsóvia e rapidamente somos absorvidos pela engrenagem que nos faz sentir como uma parte da cidade. E o mercado russo, que se estende por uma área de dimensões inacreditáveis em redor de um estádio de futebol decrépito, na margem pobre do rio Vistula, é algo que pode deixar pasmado o mais incansável dos viajantes.

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Carlos Miguel Fernandes, Varsóvia, Setembro de 2005

Cracóvia é uma lugar belo, esmagadoramente belo, e para onde voltaria com prazer. Aí não houve surpresa pois já tinha ouvido muitos relatos apaixonados. Mas, perdoem-me a heresia, foi Varsóvia que me marcou mais, juntando-se àquela pequena lista (cada vez maior) de lugares que necessito de visitar regularmente para não me transformar num ser intratável.
A comida foi outro elemento inesperado. Conheço a gastronomia da maior parte dos países vizinhos e sei que, apesar de muitas terem iguarias únicas, não são caracterizadas pela diversidade. Mas a Polónia parece ter aprendido com o imenso mundo em seu redor e construiu um cozinha variada e muito menos cansativa do aquela que experimentei noutro países da Europa Central e Oriental, especialmente na área das entradas e dos petiscos. À típica comida continental da região, juntaram-se o peixe do Báltico, as influências russas, alemãs e austríacas (por razões óbvias, para além da proximidade), algumas especialidades húngaras, um pouco do Mediterrâneo e a caricata comida judaica, com os seus pescoços de ganso recheados e pés de vitela com passas. E provar o pato com maçãs, um dos ícones da cozinha polaca, num restaurante de Varsóvia, pode ser uma experiência inolvidável. Passei bons momentos nas mesas polacas e, para além dos citados, tão cedo não esquecerei pratos como o arenque com cebola e molho de maçã, o bigos, o bife tártaro (que se encontra por toda a Europa Central), os pierogi (uma espécie de raviolli), a enguia fumada, o fígado de ganso (grelhado com boletus, num magnífico jantar no Dawno Temu na Kazimierzu*, um restaurante sedutor no coração do bairro judeu de Cracóvia) e os cogumelos selvagens cozinhados de diversas formas.

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Carlos Miguel Fernandes, Dawno Temu na Kazimierzu (Cracóvia), Setembro de 2005

Carlos Miguel Fernandes

*Era uma vez no Kazimierz

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outubro 13, 2005

Regresso, Mais Uma Vez - I

Uma digressão por terras estranhas traz quase sempre um estimável enriquecimento pessoal. Há algo na viagem que não se encontra nos livros. Nasce de uma disponibilidade maior dos sentidos, do contacto com novas ideias. Até as palavras lidas, ou relidas, ganham novos significados. Alguns dizem que só se conhece um país ou uma cidade quando lá se vive e trabalha. São desculpas de mau viajante. Claro que uma ida com bilhete de volta, por muito longa que seja a estada, não permite a arrogância de dizer “já lá estive, já conheço”. Mas há um enchimento de alma que não acontece no sofá do lar.
Não é por ter passado doze dias em Varsóvia e uma semana em Cracóvia que vou dizer que conheço as cidades. Não é por ter regressado mais uma vez a Budapeste ou por ter confirmado que a Sérvia é, a leste dos Pirinéus, o país europeu mais estimulante - chamo-lhe a Espanha do Balcãs - que vou dizer que esses lugares já me pertencem. Mas cheguei com muito mais do que aquilo com que parti. E só por onde andei poderia ter conseguido essa mais-valia.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 04:53 PM | Comentários (0)

setembro 11, 2005

Restaurante Adler, Varsóvia

Depois de comer um carpaccio de carne e meio pato ao almoço (tardio), resolvi, ao jantar, abafar o borsch de lagostins com um joelho de porco assado e estufado em cerveja. Resultado: meia hora de sofrimento quase paralisante. Muito bonito! Ando para aqui a falar sobre as virtudes da cozinha mediterrânica para depois chegar à Polónia e empanturrar-me com a comida continental. É a terrível mania de, em Roma, querer ser romano...
Sentei-me, sozinho, numa mesa no canto da sala. Na minha frente uma animada e bem composta mesa denuncia um jantar de celebração. Gente na meia e na terceira idade bebe vodca, mesmo antes do prato principal, como se o mundo acabasse amanhã. Talvez não acabe, mas, para eles, o "amanhã" não vai ser fácil. Este costume polaco, vou ter que dispensar, pelo menos hoje. Amanhã começa a conferência e com vodca nao se brinca.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 11:24 PM | Comentários (6)

setembro 07, 2005

Pequenas Provocações (Antes de Partir) – V

E agora está na hora de partir. Para Varsóvia, em primeiro lugar. Uma semana solitária pelas ruas da capital polaca (e pela sala de conferências de um hotel porque os próximos dias ainda não serão de férias). Fala-se muito da solidão nas cidades modernas. Talvez exista, quando o corpo e a mente se degradam, ou quando a perda se torna insuportável. Mas não há melhor forma de conhecer uma cidade do que deambular sozinho pelos bairros, abancar em silêncio nos cafés e restaurantes, sentir os sons urbanos sem a perturbação de uma língua comum. Porque não estamos sozinhos. Estamos rodeados de centenas de milhares de seres humanos, alguns também numa disposição errante, e a maior parte empenhada nas tarefas diárias. Claro que o solo europeu é propício à emergência desse sentimento de integração. Os gestos são comuns e a conversa aparece quando menos se espera. Noutros lugares, alguns avaliados como culturalmente próximos, os mesmos gestos podem ser considerados ameaçadores e o diálogo é uma intrusão na redoma invisível que protege os indivíduos. Há sítios onde um homem é uma ilha. Alguns idolatram esse mundo diferente e ficam à beira-mar com os olhos posto no Atlântico, desejando que um qualquer antepassado tivesse resolvido dar o salto na terceira classe de barco apinhado, salto esse que nunca seria fruto de uma convicção ideológica, mas apenas uma tentativa de escapar a uma vida miserável.

HCB.jpg
Henri Cartier-Bresson, New York, 1959

No entanto, há lugares que, estando aparentemente tão distantes da velha Europa, revelam também a capacidade de integrar o indivíduo no imenso padrão humano da cidade. É o que acontece no extremo-oriente, que já desempenhou o papel que agora se atribui ao ocidente, liderando a civilização e o génio humano. Um dia regressarei às costas do Pacífico para conhecer melhor o outro lado do mundo. Por agora, partirei apenas para a Europa. Para casa.

Carlos Miguel Fernandes

P.S. Ja' cheguei.

Publicado por CMF às 08:54 PM | Comentários (4)

junho 21, 2005

O Regresso de Berlim – A Liberdade

O mais radical revolucionário tornar-se-á um conservador no dia seguinte à revolução.
Hanna Arendt

Um regresso a, conduz, inevitavelmente, a um regresso de. Enquanto penso na melhor forma de descrever Berlim ao turista de fim-de-semana, num pequeno roteiro gastronómico e cultural, e para não me deixar cair numa melancolia pouco saudável, vou cantando com Brel, num tom trágico e cómico,

Ça sent la bière
De Londres à Berlin
Ça sent la bière
Dieu qu'on est bien
Ça sent la bière
De Londres à Berlin
Ça sent la bière
Donne-moi la main

esperando por uma viagem sem regresso.


memorial-1.jpg
Berlim, Memorial do Holocausto (crédito: Deutsch Welle)

E, enquanto nos perdíamos nas ruas Berlim, o que acontecia em Portugal? Chorava-se a morte de um homem que não hesitaria prender-me, por delito de opinião, se as vicissitudes históricas e o processo democrático não o tivessem relegado para um lugar humilde no processo político português. Aos carpidores da semana passada, eu gostava de sugerir uma homenagem ao seu herói junto ao Muro invisível. Sugiro uma caminhada entre a praça Potsdamer (nesta, ainda podem ensaiar uma crítica à globalização capitalista, tendo como alvo a Sony e o magnífico “centro” com o seu nome) e a Porta de Brandenburgo, de punho erguido, seguindo a linha do Muro, visível no alcatrão da estrada e nos passeios. No caminho, sugiro que olhem para a direita, para os monolitos recentemente edificados, e meditem na filosofia de Hanna Arendt. Depois, chegados à Porta, podem bloqueá-la facilmente, com um cordão humano, impedindo a passagem dos transeuntes junto às imponentes colunas. Claro que estes passarão ao lado, impávidos, perante o estrebuchar de um fantasma.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 07:45 PM

junho 14, 2005

O Regresso a Berlim

Um regresso a Berlim é sempre mais estimulante do que um regresso de Berlim. Amanhã à noite, espero saciar o corpo com weizenbier e eisbein, e acalmar o espírito com a modernidade da Oraniamburger Strasse.
O país fica entregue ao debate ideológico e estéril sobre a morte recente de dois indivíduos que ambicionavam ser tiranos. Eu estarei perto das ruínas do Muro.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 12:39 AM | Comentários (5)

maio 24, 2005

Europa 1999

Com o passar dos anos, as imagens do interior do Nocturama foram-se confundindo no meu espírito com as que recordava da chamada ‘Salle des pas perdus’ da Centraal Station de Antuérpia. E hoje, quando tento descrever essa sala de espera, vejo imediatamente o Nocturama e se penso no Nocturama vem-me logo ao espírito a sala de espera, talvez porque naquela tarde fui directamente do jardim zoológico para a estação, tendo primeiro passado algum tempo na praça adjacente a contemplar a fachada desse fantástico edifício em que mal reparara na manhã da minha chegada. Vi então até que ponto a estação construída sob o patrocínio de Leopoldo II ultrapassava as meras funções utilitárias, maravilhando-me ante o rapaz negro inteiramente coberto de verdete que há um século estaciona, com o seu dromedário, na sacada da torre esquerda da fachada da estação, sozinho, um monumento ao mundo dos animais e dos nativos do continente africano recortado no céu flamengo.
W.G. Sebald, Austerlitz

Passei dez dias em Antuérpia, em Setembro de 1999. Dez dias, entre trabalho e lazer; dez noites entre o campus universitário, e, mais tarde, uma pensão que acolhia práticas tão antigas como a civilização (é uma história engraçada e absurda, que talvez um dia seja contada por aqui, e que envolveu alguma ingenuidade e um engano, prontamente esclarecido quando, após um telefonema para a recepção a indagar sobre o paradeiro da chave do quarto, nos informaram que, após terminarmos, podíamos sair e deixar a porta aberta; mas as malas já estavam no chão e a vida, ao contrário do que se costuma dizer, não são dois dias).
A cidade flamenga tem insistido em visitar-me nos últimos tempos. Antes de Austerliz, a lembrança foi despertada pela análise de um artigo científico, cujo autor, distinto investigador na área da Computação Evolutiva, tive o prazer de conhecer, no meio de palestras, jantares e um jogo de dardos inacabado. Foi uma semana agradável, onde se cultivou a descontracção, o convívio igualitário entre cientistas consagrados e principiantes, e a ausência de ostentação de títulos ou estatutos. O ciclo fecha-se agora, com um estudo que retoma a investigação iniciada há meia dúzia de anos, interrompida durante algum tempo, e que na habitual recolha bibliográfica encontrou nomes há muito esquecidos. Para marcar o definitivo regresso ilusório, só faltava a Centraal Station de Sebald.
A estação que maravilhou o narrador de Austerliz teve, em mim, um efeito semelhante, logo após desembarcar do comboio que me levou a Antuérpia. Foi um deslumbramento acompanhado de pasmo e envolto num manto de cansaço que dois dias a atravessar a Europa ocidental com uma breve paragem em Madrid não podiam deixar de causar. A estação foi local de passagem durante toda a estada em Antuérpia: deslocações para averiguar os horários de comboios, uma viagem de uma tarde a Bruxelas e respectivo regresso para mais alguns dias exclusivamente dedicados a usufruir dos prazeres da cidade, e a partida definitiva para Amsterdão. Sempre que entrava no átrio da estação, com a sua cúpula a sessenta metros de altura*, parava e olhava em volta tentado abranger com um relance toda a grandiosidade do empreendimento. Este, mesmo por baixo da fuligem urbana, não escondia a sua condição de símbolo de uma época próspera.
Antuérpia tem muitas atracções: o rio, e os bares ribeirinhos, cavernosos, que cresceram com as catervas de marinheiros vindas de todo o mundo; o Schipperskwartier e as montras de carne humana, uma versão mais decadente e reduzida do bairro irmão de Amsterdão; e as praças, as elegantes praças, com os seus cafés aprumados. Mas quando me lembro de Antuérpia, os pensamentos começam sempre na Centraal Station, como se esta se recusasse a abandonar o seu estatuto de porta de entrada para a cidade.
Não voltei a visitar Antuérpia. Noventa e nove foi mesmo um ano marcado por encontros solteiros e despedidas longas, pois Amsterdão, Bruxelas e Paris foram, também, lugares de primeira e única abordagem. Nunca mais regressei a Madrid, embora, em algumas ocasiões, lhe tenha feito uma tangente desinteressada. E Praga, como já referi num texto anterior, não resistiu à terceira incursão. Espero voltar, um dia, a todas estas cidades. Mas Antuérpia e Amsterdão, lugares canalhas onde a cada passo se sente a proximidade de mundos distantes, chamam com mais insistência.

Carlos Miguel Fernandes

*W.G. Sebald, Austerlitz

Publicado por CMF às 11:52 PM | Comentários (1)

abril 27, 2005

O Verdadeiro “Conflito de Gerações”

Há uma alternativa muito feliz, quando procuramos alojamento numa cidade desconhecida, chama-se hostel e, ao contrário do que muita gente pensa não é uma pousada da juventude, nem precisamos de ir à Movijovem com não sei quantas fotografias e para fazer cartões inúteis, nem somos obrigados a ter menos de trinta anos.
Aquilo é um serviço eficaz, em que há um balcão de atendimento 24 horas por dia; temos os quartos que são pequenos espaços, com uma, duas, três ou quatro camas, conforme os convivas, aquecimento, uma mesa e uma cadeira, um pequeno candeeiro de cabeceira e já está. Há a hipótese de ter casa-de-banho dentro do quarto é viável, mas o seu uso também poderá ser colectivo e fora do quarto, se prescindirmos da privacidade.
No tal balcão temos acesso a bebidas, comidas, internet, informações, e podemos usufruir de uns sofás, de umas mesas, de umas mesas de snooker, enfim, cada um dos hostels terá o seu cunho específico, mas em qualquer um, a sala de convívio existe sempre 24 horas por dia, o que se coaduna perfeitamente com o meu modo de fazer férias, passar o menor tempo possível, primeiro no quarto, e depois no hostel. Ainda assim há ocasiões em que somos obrigados a fazer umas quantas paragens no local da pernoita, tipo cargas e descargas, mas depois a vida é fora dali, por isso é bom que cumpra, e que não faculte qualquer ideia de tentativa de comodismo.
Este onde ficámos, em Berlim, o Helter Skelter era um exemplo desta política de cumprimento, em que tudo está em ordem, e não há rasgos, nem delírios, mas também não é rigoroso, nem espartano, era até flexível, bem flexível, por exemplo nos horários do pequeno-almoço, que por 2 €, poderia ser tomado das 9 ao meio-dia, o que é raro, normalmente, nem sequer consigo cheirar os pequenos-almoços de tão precoces que são. Mas ali não há a ditadura da juventude-que-não-sai-à noite. A única tirania deste género de lugares é a omnipresente música na sala de convívio, que, francamente me fazia tomar o pequeno-almoço buffet num ápice. Para mim, é hoje insuportável ter de tomar esta primeira refeição do dia, já de per se difícil, juntamente com o som sempre alto dos Ramones ou dos Green Day ou de outros já irreconhecíveis. E isto tudo se passa, como se nada fosse, ou seja, as pessoas que estão junto a mim a untar a torrada, a sorver um gole de café, já com um cigarro aceso pousado no cinzeiro, não sentem nenhuma espécie de irritação, nem a atitude deles indica que vão abandonar a sala com a sande a meio. É a isto que eu chamo o verdadeiro “conflito de gerações”, ou seja, os proprietários destes estabelecimentos não proíbem as pessoas com mais de trinta anos de os frequentar, mas sabem, que a verdadeira prova da juventude só será superada naquele momento e poucos sairão vencendores.

Maria João Reis Martins

Publicado por João às 06:51 PM | Comentários (4)

abril 07, 2005

Die Mauer

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East Side Gallery, Berlim, 2005, Maria João Reis Martins

Em Berlim não descansei enquanto não conheci as entranhas do muro. Por um motivo um pouco ambíguo, lá andava eu sempre na senda do muro abatido. Todos andam. Não é como numa peregrinação, mas é como se fosse uma descoberta omnipresente. Mesmo antes de aterrar em Berlim, quando andava a recolher material para ajudar à descoberta de Berlim, o motivo da obsessão residia junto ao muro.
Lá, percebi que a minha mania era partilhada por todos quantos visitam a cidade dividida durante vinte e oito anos. Na Europa não há estórias como as que contam as memórias dos resquícios daquele muro. É inimaginável que aquela cidade tão brilhante e cheia de fulgor tenha tido uma parede a dividi-la. Então, como se não acreditássemos, seguimos os mapas que indicam os restos mortais daquela parede, que foi construída pelos soviéticos para proteger os que lá habitavam, como é, aliás, alegado por todos aqueles que erguem sebes de betão.
Há vários pontos históricos do muro de grande marca emocional, como é o caso daqueles que assinalam as vidas perdidas dos afoitos ou desesperados que tentaram ganhar a liberdade, ou ousaram se assomar-se mais longe, mas há dois pontos particularmente assinaláveis: da Potsdamer Platz à Porta de Brandemburgo, e o Checkpoint Charlie. Do primeiro falarei depois; quanto ao segundo, parece-nos uma alegoria à memória do muro e àqueles que lá não passaram, é uma espécie de monumento vivo àquilo que não deve ser feito. Neste ponto ainda existe uma torre de vigia (obviamente inactiva) e aqui encontramos finalmente a simulação da separação de Berlim Ocidental/Berlim Leste, (neste caso, seria mais correcto dizer Sul/ Norte por uma questão meramente geográfica). Aqui foi construído o Museu do Muro, com toda a documentação e explicação que o visitante quiser consultar e toda a vastidão de souvenirs, como os pedacinhos de muro com certificado de autenticidade, devidamente embalados, que faz parte dum local como este. Enfim, mais um pedaço de ambiguidade: para quê comprar pedaços de muro de Berlim? Quem é que fica contente por mostrar aos amigos que tem um pedaço de muro de Berlim em casa? Não sei explicar, mas eu comprei para dar aos amigos. Aí também comprei um pequeno livro com mais informações sobre o muro e a cidade: Checkpoint Charlie and the Wall. A Divided People Rebel , cujos autores (Werner Sikorski/ Rainer Laabs) levantam a questão da excitação que emana do muro de Berlim para os que lá não viveram, como se tivesse sido o melhor momento da cidade, e lamentam a falta de memória de quem o faz. Mas também falam das pessoas que hoje têm 10 anos de idade que já não têm o famigerado muro a assombrá-los, e que o passado do muro é recente para o mundo. Daqui a uns anos, talvez muitos, o muro deixa de ser a atracção principal para a maioria das pessoas. Daqui a uns anos, talvez não tantos, Berlim será a cidade do futuro da Europa.

Maria João Reis Martins

Publicado por João às 10:25 PM | Comentários (4)

abril 04, 2005

O Regresso de Berlim – Os Portugueses no Mundo

Calipso, oh Calipso! Penso muitas vezes nela. Amou Ulisses. Viveram sete anos. Não se sabe quanto tempo Ulisses partilhara o leito de Penélope, mas não foi decerto tanto tempo. No entanto, exalta-se a dor de Penélope e troça-se da lágrimas de Calipso.
Milan Kundera, A Ignorância

Eles estavam em todo o lado. Nas ruas, nos cafés e nos restaurantes, faziam-se ouvir sem acanhamento, elevando os sons da sua língua a níveis que denunciam um povo com pouco medo de existir. Não, não falo dos portugueses. Refiro-me aos espanhóis, presença constante nos agradáveis passeios por Berlim ou na sofisticada atmosfera dos cafés berlinenses. Dos portugueses, nem um sinal. Onde estavam? Por que estranha razão não os ouvíamos?
Não podemos comparar a dimensão dos dois países, e muito menos a forma como encaram a vida, cuja diferença se faz sentir fundamentalmente no modo como as suas presenças são notadas. Mas antes de sair de Portugal as notícias eram agradáveis para as agências de viagens. A semana da Páscoa trouxera-lhes um bom volume de negócios e muitos destinos ficaram repletos de ávidos portugueses em busca de novos ares. Mas para onde viajaram os portugueses? Para Berlim, não foram, com certeza. Estariam mais uma vez dispersos pela República Dominicana e destinos afins? Provavelmente. Estranho povo este, dono das melhores praias da Europa, mas sempre em busca de uma areia mais branca e um mar mais azul. Não deixam de ser rumos coerentes com a História do país, comportamentos ajustados a uma vocação para atravessar o atlântico em busca de terras distantes. Mas aquilo que antes se fazia por necessidade e com bravura, parece, agora, nascer do comodismo e da recusa da diferença. São rebanhos acondicionados num avião e conduzidos para reservas cercadas onde, com os seus semelhantes, constroem um pequeno Portugal temporário. Depois, regressam, nervosamente, com saudades comoventes do pastel de bacalhau. Se Fernão de Magalhães pudesse ver-nos, se pudesse ver esta gente que tão depressa o olvidou, não ficava quieto no seu túmulo improvisado e remoto.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 10:48 PM | Comentários (23)

abril 01, 2005

O Regresso de Berlim – A Memória

Habituado a viver no presente, como os animais, agora fitava o céu e pensava que a auréola vermelha da Lua era sinal de chuva.
Jorge Luís Borges, Ficções

O Muro caiu. Mas resistem alguns metros, à laia de memorial, a norte do Mitte, um pequeno fragmento na Potsdamer Platz a destacar uma linha que, atravessando ruas e passeios, recorda a antiga divisão, e cerca de duas centenas de metros junto à Ostbanhof (Gare do Leste ou do Oriente) que se prestaram à intervenção criativa dos artistas berlinenses. Existem outros pedaços espalhadas pela cidade, mas os citados parecem ser os mais significativos. Os cidadãos de Berlim aceitaram com facilidade e prazer a sua nova situação: uma cidade unida, uma cidade nova. O muro já não lhes tira o sono, e o espaço que ocupava é importante demais para ser preservado como museu eterno. Mas a memória não foi apagada. Está bem presente, e encontra o transeunte quando este sobe as escadas da estação de metro e acaba na arrebatadora Potsdamer Platz, quando abandona a cidade pela Ostbanhof em busca de destinos mais orientais, ou quando cruza a divisão entre o Kreuzberg e o Mitte, na Friedrichstrasse, e encontra o célebre cartaz com letra negras em fundo branco: You are leaving the american sector. Neste último local, a memória confunde-se com o mais frívolo aproveitamento turístico e com a mercantilização da História. Mas não podemos condenar uma cidade quando esta usufrui da sua riqueza.
Quando visitei Timişoara descobri, numa rua perto do centro, um local onde era prestada uma homenagem humilde aos que morreram nos primeiros ataques à ditadura de Ceaucescu. Nas paredes do segundo andar de um prédio degradado, desfilavam, perante os olhos dos visitantes fortuitos, as imagens a preto e branco dos dias da revolução, marcados pelos confrontos entre os populares libertos da mordaça soviética e as forças que teimavam em manter o estado de uma coisa há muito moribunda. O processo que culminou com o assassinato do tirano teve início na culta e esclarecida cidade do Sudoeste da Roménia, e os seus habitantes não disfarçam um certo orgulho por ter participado nos dias conturbados, trágicos, mas com final feliz, da revolução romena. Esse orgulho é visível num número considerável de pequenos monumentos evocativos.
Em Portugal, trinta anos após a queda de um regime totalitário, a revolução perdeu o erre. Devem ser as consequências de uma lucidez que chega com da idade adulta, com certeza, pois Alemanha Oriental e Roménia, dezasseis anos após as suas vitórias contra o totalitarismo, ainda vivem a adolescência da democracia. É óbvio que, quando crescerem, perceberão que as revoluções não existem, e que tais fenómenos não passam de evolução. Nessa altura, talvez rasurem todos os rastos do passado, num acto envergonhado de uma vergonha misteriosa. Talvez sigam o exemplo deste país tão sensato, que olha para a História como um conjunto de peripécias aborrecidas, cuja evocação pública pode perturbar uma calma corrompida, construída com muito esforço, muita dedicação e pouca glória.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 02:24 AM | Comentários (5)

março 31, 2005

O Regresso de Berlim – A Segurança

— É assim: o xadrez é uma arte. Quem pratica uma arte pode praticar qualquer outra.
Martin Amis, Água Pesada e Outros Contos

Enquanto passeava pelas ruas de Berlim, e observava os omnipresentes grafitos que adornam as paredes menos nobres da cidade, recordei-me de um senhor chamado Giuliani, político com fama mundial, que há poucos anos se deslocou a Portugal para falar da sua experiência na “limpeza” de Nova Iorque, e sugerir linhas de acção para um país que, na altura, vivia obcecado com a segurança. E que disse o senhor Giuliani? Com toda a sua experiência política, o ex-presidente da Câmara de Nova Iorque, manteve um discurso simples pontuado por duas ou três ideias fortes. A mais discutida, após a sua veneranda intervenção, propunha um ataque sério aos grafitos urbanos, punindo de forma exemplar os autores dos malfadados desenhos. Bateram-se palmas às doutas palavras, pois tudo parecia fazer sentido: atacava-se o problema na origem, mostrava-se que “não estávamos para brincadeiras” e punha-se a sociedade em ordem e sentido. Tudo isto, pasme-se, seria conseguido com uma guerra sem tréguas a bonecos pintados em paredes.
Enquanto passeava pelas ruas de Berlim, uma das cidades mais seguras que já visitei, uma cidade com forças policiais de presença discreta e arma escondida, e cujos espaços públicos são respeitados e aproveitados como em poucos lugares do mundo, não consegui evitar um breve sorriso interior. Absorvido por um mosaico de grafitos — alguns, desproporcionados, grandiosos, surgem em locais surpreendentes, enquanto outros, minimalistas, discretos, aparecem em qualquer fachada degradada — pensei naqueles que acreditam em falsas relações causa-consequência criadas por indivíduos como Rudolf Giuliani (quanto terá ele recebido pelas palestras dadas em Portugal?) e que recusam a desordem como factor essencial da evolução.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 02:44 AM | Comentários (2)

março 29, 2005

O Regresso de Berlim – A Cidade

The emergence of complex behaviour in any system consisting of interacting simple elements is among the most fascinating phenomena of our world.
Vitorino Ramos, On the Implicit and on the Artificial*

Mais uma viagem, mais um regresso, e a mesma agonia. Mas tentarei evitar o exercício habitual de autocomiseração. Neste breve resumo de dez dias extenuantes, mas de aprendizagem reconfortante, espero que o queixume habitual possa ser lido como crítica exasperada, mas construtiva, ao modo de vida nacional, ou como comentário aberto a todos os debates.

A Cidade

Vibrante? Fervilhante? Excitante? Cosmopolita? Não é fácil escapar aos lugares-comuns, particularmente após um regresso ainda fresco. Por isso, tentei fugir a uma descrição apressada e irremediavelmente ferida pelo embasbacamento da primeira visita, e procurei refugiar-me no discurso do fotógrafo.
Berlim, cidade fotogénica com esquinas singulares, raramente de ângulo recto, que abrem as portas às constantes mutações na relação tensa entre luz e sombra, criando cidades diferentes a horas distintas...não, também aqui o discurso se reduz a palavras feitas. Como descrever então o carácter único de Berlim, a sua idiossincrasia urbana tão surpreendente e a massa humana voraz que ocupa as suas ruas centrais — de muitos centros — durante vinte e quatro horas? Talvez pelo mais vulgar lugar-comum: o Muro. O Muro que já não existe. Quando falamos dele referimo-nos à sua ausência e às consequências da sua queda. Restam alguns pedaços espalhados pela cidade, mas abordaremos o assunto mais à frente.
O Muro caiu e a cidade tremeu. O lugar urbano e os seus habitantes podem ser vistos como um sistema complexo, sujeito a transformações no espaço com o correr do tempo, cativo de perturbações imprevistas, e possuidor de um carácter auto-organizado, o qual lhe permite saltar para novos patamares evolutivos após alterações no ambiente. A queda do Muro de Berlim foi um acontecimento grandioso aos níveis político e histórico, mas a magnitude do impacto na estrutura da cidade poderia parecer menos evidente aos olhos do incauto observador. Afinal, perto da maldita parede, proliferavam os terrenos vazios, e onde tal não acontecia (entre o Mitte e o Kreuzberg, por exemplo) a rede viária e a arquitectura eram semelhantes na sua construção mais planeada e mais moderna. Mas uma cidade é um sistema que evolui longe da linearidade. Se um prédio desaparece, as consequências podem ser imprevisíveis, embora, na maior parte dos casos, apenas se façam sentir ao nível local; se uma barreira estanque e extensa morre, o resultado é incalculável e o processo pode mudar a face da cidade. Tal como uma colónia de formigas que, colectivamente, descobre sempre o caminho mais curto para os alimentos (desde que as condições ambientais não impeçam a sua passagem), a cidade também encontra novas rotas na sua evolução, tanto perante as alterações inevitáveis e quotidianas inerentes ao próprio desenvolvimento do sistema, como nas mudanças mais repentinas causadas pelo homem ou pelas catástrofes naturais.
A queda do muro teve consequências urbanas incomensuráveis. Foi o grão de areia que causou a avalanche, conquanto neste caso se deva falar, com mais propriedade, de uma macheia de areia. Sem planeamento central aparente, o falso caos começa a transformar-se num novo desenho, os centros redefinem-se e as ligações alteram-se. Berlim está a procurar o seu novo caminho no ambiente modificado, e hoje nada tem a ver com as velhas mães Ocidental e Oriental. Berlim é uma cidade nova, e talvez o produto mais belo e estimulante da era política que começou em 1989. Não sei se é um caso único na História, mas é um privilégio poder assistir ao fenómeno.
(continua)

Carlos Miguel Fernandes

* Vitorino Ramos, On the Implicit and on the Artificial - Morphogenesis and Emergent Aesthetics in Autonomous Collective Systems, in ARCHITOPIA Book, Art, Architecture and Science, INSTITUT D'ART CONTEMPORAIN, J.L. Maubant et al. (Eds.), pp. 25-57, Chapter 2, ISBN 2905985631 - EAN 9782905985637, France, Feb. 2002.

Publicado por CMF às 07:07 PM

março 07, 2005

Als das Kind Kind war

Quando morrer, vou ter pena de todos os sítios que não cheguei a ver.
Daniel Blaufuks, Uma Viagem a São Petersburgo

A viagem enriquece, rasga horizontes, muda mentalidades... Na prosa de excelsos escritores, ou em fúteis descrições do sossego tropical, os lugares-comuns associados à jornada proliferam e asseguram a difusão do seu inquestionável carácter romântico. Mas a viagem é, no princípio, um processo de perda. Escolhemos o lugar desconhecido em detrimento do conhecido, ou adiamos a descoberta para rever imagens? Deixamos os saltos intercontinentais para tempos mais propícios, ou interrompemos um exaustivo processo de demanda das nossas origens históricas e civilizacionais para espreitar terras remotas? Delongamos reencontros carregando a esperança de desfrutar de novos encontros, ou cedemos ao apelo de amizades distantes mas estranhamente fortes? Tudo se perde, tudo se transforma. A angústia toma o lugar do entusiasmo inicial, e é apenas atenuada pelo bilhete na mão, fruto de uma dolorosa decisão.
O bilhete, contudo, já não nos traz a euforia de outrora, quando as viagens se contavam pelos dedos de uma mão, mas apenas uma sensação resignada de alívio e serenidade. Depois, até à partida, deixamo-nos embalar pelas recordações, se a nostalgia do lugar conhecido tiver tomado a dianteira, ou pela imaginação, se a curiosidade tiver sido mais forte. Existem ainda outros lugares, emparelhados com mitos e lendas modernas, que nos baralham com recordações falsas, nascidas das letras, dos sons ou das imagens. São as cidades do mundo, que nos perseguem desde a infância, ou as obsessões pessoais, cultivadas pelas obras de outras almas fascinadas. Nos próximos dias, enquanto aguardo a partida, talvez me rodeie de anjos sussurrantes, e, possivelmente, não resistirei a vasculhar o baú em busca da voz ausente de Lou Reed. In Berlin, by the wall/ you were five foot ten inches tall. Depois, irei ao encontro da História.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 11:28 PM | Comentários (3)

novembro 29, 2004

Pequenas Histórias Portuguesas (III) - A Saudade

Recentemente, ao vasculhar os despojos digitais da última viagem, encontrei esta imagem.

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Maria João Reis Martins, Budapeste, Agosto de 2004

Em Budapeste joga-se xadrez, um dos mais estimulantes e exigentes jogos criados pela civilização humana, nos espaços verdes e comuns: relógios, tabuleiros com dimensões adequadas, peças bem desenhadas para a difícil arte das “rápidas”, uma audiência curiosa e desperta para os padrões que se vão formando nas várias mesas de jogo (encontramos manifestações semelhantes na maior parte das cidades e vilas da Europa central e oriental).
Ontem, ao descer a Alameda D. Afonso Henriques, em Lisboa, vislumbrei uma pequena multidão que rodeava alguns cidadãos, sentados, em óbvio gozo dos prazeres do jogo. Por uns instantes, lembrei-me de algo muito vago, de imagens esmorecidas que, pouco depois, associei facilmente à Hungria e à fotografia dos jogadores de Budapeste. Mas, ao observar o quadro com mais cuidado, reparei que, nas mesas, não se movimentavam bispos e cavalos, mas apenas descansavam cartas entre duas mãos. Um vago sentimento de nostalgia percorreu-me o corpo. Numa altura em que, numa disposição de toxicómano em estado de privação, volto a olhar para os escaparates das agências de viagem em busca de uma oferta milagrosa – um quase impossível compromisso entre um bom preço e um voo para o leste europeu numa época alta, pois a essas estou limitado quando desejo ceder ao prazenteiro impulso de viajar -, dispensava a reminiscência causada pelas imagens, traiçoeiras, que me passaram pelos olhos num fim de tarde que já prenunciava o fim de semana.
Vivo num país de bisca. E, enquanto tal situação não se altera, resta-me apenas continuar a percorrer as ruas da cidade, com tabuleiro e relógio debaixo do braço, com reis e seus súbditos chocalhando no saco, publicitando uma forma de lazer que não se desliga do trabalho mental (infelizmente, não transporto também os argumentos neurais necessários para desafiar um jogador sério).

(Apetecia-me falar mais de bisca e de xadrez, procurar correlações empíricas entre estes jogos e as idades dos seus praticantes; poderia também falar dos saudosos de tempos antigos, poderia tentar encontrar as verdadeiras gerações "rasca". Mas o Pedro já escreveu, e bem, sobre o relativismo moral contemporâneo. E eu, pouco ou nada teria a acrescentar às suas palavras. Deixo apenas estas pequenas histórias portuguesas, prosa leve para um fim de semana frio e já iluminado pelas luzes tiranas que se dizem de natal)

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 12:45 PM | Comentários (7)

outubro 21, 2004

Jánus, o húngaro da Transilvânia

Foi com este troféu que saímos de casa do Jánus Gere, de outra forma não poderíamos ter abandonado o nosso amigo. Seria ingrato, indelicado, e portanto inadmissível.

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Maria João Reis Martins, O Cavalo de Jánus, Agosto 2004

Por razões óbvias, para quem viaja da país em país com a trouxa às costas, durante um mês, não é fácil aceitar tal oferenda sem pensar no lado prático. Muitas vezes durante a restante viagem passou-nos pela cabeça, sim é verdade que passou, deitar o mono fora, mas isso seria o desrespeito-mor por alguém que teve um prazer enorme em dar. Dar, doar. Foi isto que Jánus quis fazer, quis dizer que de alguma forma aquele momento foi um daqueles que lhe entrou para os registos da memória. Para nós também. Foi um momento simples de partilha emocional e de intimidade porque tudo começou num sítio público, o Bar Jennifer - um local esconso e escuro, cheio de clientela que presumo ser a habitual, as pessoas ali do bairro, ornamentado com quadros retratando artistas pop pouco recomendáveis, dos anos oitenta ou de outros idos - mas acabou no mais privado local, a sua casa, onde fez questão de nos mostrar tudo o que possuía, desde o seu cão medroso, até à “toca” dos seus coelhos e ainda o seu alambique caseiro, do qual brotou o seu vinho directamente para os nossos copos que limpou irrepreensilvelmente, antes de nos servir.

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Jánus e um amigo brincalhão no Bar Jennifer, Maria João Reis Martins, Agosto 2004


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Maria João Reis Martins,Convivas do Bar Jennifer , Agosto 2004


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Carlos Miguel Fernandes, A ornamentação do Bar Jenniffer, Agosto 2004

Ali ficámos a tentar comunicar, não sei se percebemos o que o nosso anfitrião quis dizer. Apanhávamos aqui e ali umas palavras romenas, que tentávamos interpretar pela sua natureza igualmente latina e não eslava; outras húngaras (Jánus vive em Sighisoara, na Roménia, mas é húngaro, como muitos outros na zona da Transilvânia), que já vamos dominando devido à frequência com que ultimamente temos preferido aquelas paragens para destino de férias (o verbo “dominar” foi muito mal aplicado, quase pretensioso, mas aqui vai a ressalva: sabemos umas palavrinhas básicas e é impossível tentar deduzir, ou “tirar umas pelas outras”); enfim...a nossa conversa parecia uma palete cheia de muitas cores, mas com pouca tinta.

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Maria João Reis Martins, Na casa de Jánus com Jánus, Agosto 2004


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Maria João Reis Martins, Na casa de Jánus sem Jánus, Agosto 2004

Ainda assim, ficámos com a certeza de que Jánus não nos permite voltar a Sighisoara e ficar a dormir num hotel, isso de modo algum. Temos ali uma casa às ordens e um amigo do coração.

Por tudo isto, hoje, o cavalo posta-se no seu digno lugar, aquela porcelana dourada em forma de cavalo relinchante não poderia brilhar senão em cima da televisão, assumido toda a sua dimensão. São estas as coisas que marcam. É inevitável.

Maria João Reis Martins

Publicado por João às 03:58 PM | Comentários (3)

setembro 12, 2004

A Brother is a Brother

O mais estranho testemunho que observei foi aquele em que a ponte não separava apenas duas margens de um rio. Falo do rio Neretva, em Mostar, na Bósnia-Herzegovina. A ponte, aquela ponte magnífica, a most, construída pelos turcos, no final do século XVI resistiu a tudo, menos ao dia 8 de Novembro de 1993, ano em que os croatas destruíram séculos de comunicação. A ponte voltou a erguer-se este ano, como se se tratasse de um símbolo de reunificação, mas agora há duas margens do rio muito distintas uma da outra: uma ostenta nos passeios do seu centro histórico, vários cemitérios públicos com as vítimas das vilezas dos seus vizinhos da outra margem, e alardeiam, sempre à hora certa, o seu credo vindo da mesquita mais próxima; a outra margem exibe uma cruz descomunal no monte mais alto do burgo.

A sólida e secular ponte de Mostar pode tornar-se, a qualquer momento, a mais frágil ligação entre estes vizinhos, que vivem na mesma cidade, federados no mesmo país, a Bósnia-Herzegovina. Aparentemente, foi em Mostar que senti, no ano passado, o mais tranquilo ambiente de todos. Era inevitável: o cenário idílico, com o mais belo rio de todos os que havia visto, um rio sinuoso e forte e de um verde-cobalto profundo, glauco. No entanto, neste pequeno empíreo, somos, de vez em quando, interrompidos pelo barulho característico das pás dos helicópteros, que não nos deixa permanecer iludidos por muito tempo.

Mostar chegou a ser proclamada, em Agosto do fatídico ano de 1993, capital da República Croata da Herzeg-Bosna. Foi na Bósnia que o fratricídio teve a sua maior expressão, com inúmeras tentativas de ali se poder constituir um Estado com representatividade das três etnias, mas as tentativas de eventuais acordos sucediam-se sem sucesso, umas atrás das outras, em vão. Irmão contra irmão. As pessoas começam a agregar-se não pelas afinidades geográficas, culturais e linguísticas, mas pela “raça”, a mais primária das desculpas para se lutar em nome do nacionalismo e do território. A tolerância e a diversidade daquele estado multiétnico passam de efígies a ideias proscritas e vãs.

Em Sarajevo, o Almir, tocador de baixo no Terra Sacra e de contra-baixo no Conservatório onde estuda música, de quem o Miguel (CMF) já falou noutros textos, contou-nos a mais anacrónica história, explicou-nos o inexplicável. Narrou-nos a sua memória daqueles anos, em que as pessoas viviam escondidas em subterrâneos, e em que, de repente, o vizinho do lado deixa de ser afim, tornando-se o inimigo. Almir, o nosso narrrador, quando nos contou a sua vivência durante aqueles anos, confessou-nos, no ano passado, que mesmo assim, depois de decorridos oito anos sobre os hediondos acontecimentos, e de ele ter sobrevivido e estar a estudar obsessivamente o instrumento musical -que adquiriu durante a guerra, e lhe ditou o rumo da sua vida - que nunca compreendeu o que se tinha passado. Era uma guerra dentro de uma guerra. Foi ainda Almir quem nos falou de Kuprus, junto à fronteira com a Croácia, onde ele vivia com a sua família, numa zona de maior influência muçulmana, em que a guerra já não se fazia nem entre sérvios e muçulmanos, nem entre croatas e sérvios, nem entre croatas e muçulmanos, a guerra passou a travar-se entre muçulmanos e muçulmanos. A ganância desmedida. O absurdo. Populações varridas, famílias, relações e vidas humanas perdidas para sempre. Campos de refugiados, campos de fustigação, campos de morte.

Nos desastrosos anos de guerra fratricida, na Bósnia, as populações muçulmanas foram expulsas drasticamente, primeiro, pelo nacionalismo sérvio, depois pelos croatas sedentos da Grande Croácia, que desencadearam vários pontos de batalha, e por último, ironicamente, as populações muçulmanas foram atacadas por muçulmanos! Perante este pequeno exemplo torna-se óbvio que este conflito entrou em ruptura, numa histeria onde não existiu exclusividade nem de culpas, nem de vítimas. As dramáticas limpezas étnicas, em nome da sagrada pureza, não foram protagonizadas apenas pelos sérvios, aqueles que até hoje, na Europa, são conhecidos como os grandes carrascos da guerra. Isso é uma falácia bem absorvida pela Europa ocidental que crê que assim o problema foi resolvido. Karadzic, o líder dos sérvios da Bósnia, foi logo acusado antes de o ser; Milosevic está no TPI, a ser julgado por genocídio e crimes contra a humanidade, e isso basta para encontrar o bode expiatório e esquecer análises mais complexas. Os crimes perpetrados contra os sérvios foram apagados da memória colectiva. Izetbegovic, o então líder dos muçulmanos bósnios, faleceu este ano e com ele foram enterradas a culpa e a responsabilidade na morte de um sem-número de soldados e civis sérvios.

Os muçulmanos, ou antes, os muçulmanos bósnios, que antes do colapso jugoslavo constituíam apenas uma minoria relativa, pretendiam fazer da Bósnia o bastião nacional dos muçulmanos, com o apoio da NATO e dos Estados Unidos; os sérvios bósnios desejavam que a Bósnia fosse dividida e que a parte sérvia se juntasse à velha Sérvia de Belgrado, com o apoio da Rússia e da Igreja Ortodoxa; os croatas bósnios, com o amén do Vaticano e a ajuda da Alemanha, queriam anexar praticamente todo o território da Bósnia, aliciando os muçulmanos a lutar contra o velho “inimigo comum”, os sérvios.

Volvidos os anos de guerra, e visitando o país, não encontrei nenhuma situação em que tenha sentido em alguém a vontade da indómita vingança. As populações das diferentes Jugoslávias preparam-se para viver a melhor vida possível e nunca vi ninguém apontar dedos acusatórios. Como já disse antes, o único senão que observei foi uma enorme tristeza que quase todos sofreram. Rara foi a pessoa com quem me cruzei que não tivesse perdido alguém da família, normalmente, famílias compósitas. Esse é sentimento que ainda prevalece: a perda.

Maria João Reis Martins

Publicado por João às 07:54 PM | Comentários (3)

setembro 08, 2004

O Regresso II

Just imagine there is only one stary night until the end of the world. What would we do?
(...)
The Ladaaba orchest offers you the perfect tour for the very last night spent in this world!!!
The Last Dance Party!!!

Boris Kovač and the Ladaaba Orchestra, Begin-ing (The Last Balkan Tango), 2002

Regressei. Regressei ao país de João César das Neves e de Luís Delgado; ao país onde Boaventura Sousa Santos é o intelectual de esquerda e o intelectual venerado por alguma esquerda; ao país cujo primeiro-ministro pode agora fazer ao Estado aquilo que fez à cidade onde vivo. Noutros lugares também existem duplicados do abominável economista português, ou “bailarinos”* tão capazes como Pedro Santana Lopes? Provavelmente. Mas, como se diz por aí, com os males dos outros...
Mas o António Viriato tinha razão quando escreveu, num comentário ao texto anterior, que é este o país que temos, e é este o país onde vivemos. Esqueçamos os lamentos por algum tempo e tentemos abrir linhas de pensamento, rumos para as mentes, em primeiro lugar, mas que, bem traçados, se poderão tornar caminhos para as gentes.

Pensemos na linha da frente de um povo, nos seus cabeças-de-cartaz, como um subconjunto desse próprio povo. Não foram feitos em nenhuma linha de montagem sinistra. São, como todos nós, o resultado da acção da evolução sobre uma base cultural, antropológica e ambiental, a qual gerou o conjunto de indivíduos a que chamamos portugueses** (as pressões selectivas também actuam sobre as bases, mas uma estrutura antropológica, especialmente uma tão periférica como a portuguesa, demora algum tempo a transformar-se de uma forma visível). Por isso discordo quando alguém se refere à classe política como "os outros”. Não, não são os outros, somos nós.
Mas podemos, neste momento, colocar outra questão. Será que a verdadeira linha da frente portuguesa é aquela que nos entra pelos olhos e pelos ouvidos, todos os dias, ou é outra, uma elite que escolheu o mundo como palco, apesar da sua enorme dimensão, apesar do risco, e cujos protagonistas, neste momento, se assumem como líderes, não de um povo, mas, muitas vezes, de um ramo de conhecimento ou de uma arte? Será que a verdadeira elite é aquela que nos rodeia e que ostenta vergonhosamente a sua mediocridade e desfralda, sem pudor, toda a sua vacuidade? São estes os filhos de Abril? Ou serão apenas os parasitas de um país geograficamente pequeno e isolado, e que ainda não conseguiu (auto)adaptar-se, perante a perenidade destas características (pelo menos a curto prazo), a uma Europa modernizada e aberta? Serão apenas os parasitas de um corporativismo doentio e entranhado numa teia social arcaica, que teima em não se deslaçar?
Qual será a solução? Ouvi alguém dizer, não me lembro onde nem quando, que Portugal só sairá deste óptimo(!?) local onde parece estar preso, com um terramoto (literalmente) ou com a imigração oriunda do Leste da Europa. Um e outro acontecimento, tão díspares no processo, agitam, de certa forma, o decurso evolutivo. Prefiro os processos lentos, prefiro que os blocos constituintes se moldem, e se adaptem ao invasor pacífico, formando novas soluções, mais sábias, menos ingénuas, menos propensas a cair nos locais que parecem altos, mas que mais não são do que bons sítios para observar as grandes cadeias montanhosas. Uma verdadeira “mão invisível”, mas com rosto, com novas ideias, novos hábitos. Uma pequena pedra na engrenagem que, sem alterar significativamente a direcção do rumo, nos desvia para um futuro incerto, mas esperemos, mais adequado às mudanças que sempre rodearam o génio humano. Um desvio de uma fracção de um grau numa rota pode parecer insignificante no presente, mas implica uma grande diferença no futuro.

(A propósito deste último parágrafo deixo aqui uma questão para reflexão. Imagine-se um sistema de Vida Artificial concebido para estudar interacções familiares e estruturas sociais. O sistema foi ligado e, após um certo número de gerações, os indivíduos associaram-se em grupos com estruturas densas, endogâmicas, horizontais, sem elementos centrais claramente visíveis. Observam-se os grupos e constata-se que as trocas entre os mesmos são frequentes, mas que estes nunca se associam completamente. Pretende-se, a dada altura, destruir as estruturas familiares geradas, transformando o nosso sistema num mundo de estruturas nucleares, mais propícias a uma organização centralizada. Existem duas opções: 1) Introdução de uma espécie invasora, feita de indivíduos com características radicalmente diferentes, com o objectivo de mudar, a curto prazo, o comportamento dos nossos “bichos” artificiais, e transformá-los em réplicas obedientes aos novos habitantes desse mundo; 2) Alterar gradualmente a paisagem de aptidão, observar a adaptação dos indivíduos à mudança e, a longo prazo, esperar que os efeitos pretendidos surjam. Qual será a solução mais eficaz? Eu não conheço a resposta, mas não me parece que a primeira opção seja um exemplo da “mão invisível”. Mas alguns crêem que sim.)

Estes pensamentos percorrem-me a mente, misturando-se com as memórias agradáveis e desagradáveis da viagem. Sim, houve maus momentos. Dois maus momentos, ambos relacionados com o trânsito entre duas cidades. Com uma disposição ainda negativa, não me sinto à vontade para falar detalhadamente de tais assuntos. Mas abordá-los-ei noutra ocasião, porque, tanto o primeiro caso, relacionado com um péssimo serviço prestado pela Transportadora Aérea Portuguesa, como o segundo - uma viagem de doze horas para percorrer cento e sessenta quilómetros, uma noite em claro no meio de mais mercadoria do que se pode encontrar em toda a Feira do Relógio, contrabando e mercado negro - merecem ser contados. Por razões diferentes. Olhando para trás, já com alguma distância, o segundo episódio começa a ter a sua graça, mas aquelas doze horas, e o estado físico consequente, ainda provocam alguns arrepios. O primeiro, aquele que nos estragou o primeiro dia de viagem, é demasiadamente desprezível para que dele alguma vez nos recordemos com um sorriso na cara.
Agora, enquanto vou absorvendo os novos sons que os Balcãs sempre nos oferecem generosamente, prefiro lembrar-me da Transilvânia, da paisagem serena da Transilvânia, que percorria com olhos enquanto conduzia pelas calmas estradas da região (nem todas, é verdade), descobrindo a voz de Georghe Bîrlea, ao mesmo tempo que lobrigava desvios, à esquerda e à direita, cujo carácter finito da viagem me impedia de encontrar o fim. A vida não é tão borgesiana como parece. A paisagem que percorremos, física e temporalmente, é que é feita de caminhos que se bifurcam. Mas a existência tem esta idiossincrasia: apenas seguimos um caminho, e este levar-nos-á sempre até à tragédia final. E mesmo que não acreditemos no determinismo (ou acreditemos em tantos factores deterministas que, na prática, tornam o processo tão complicado que o termo deixa de fazer sentido) ainda nos resta o problema do livre-arbítrio. Pelo menos a unidireccionalidade temporal parece afastar-nos do devaneio de Niestzche. Mas poderemos, realmente, ter a certeza de que a termodinâmica conseguirá manter-nos a salvo de um anjo demoníaco que, num arremedo de atrevimento, se debruce sobre nós e nos diga: Esta vida, tal como a vives agora e tens vivido, tens de vivê-la uma vez mais e vezes sem conta; e não haverá nela nada de novo, mas sim te hão-de voltar cada dor e cada prazer, e cada pensamento e suspiro, e tudo o que é indizivelmente pequeno e grande na tua vida, e tudo na mesma ordem e sequência?
Infelizmente, tudo terminou, e muitos caminhos ficaram incólumes na mítica terra transilvânica, onde nasceram algumas das mais perversas e medonhas lendas ocidentais. Apenas me resta, após o regresso, e com Bîrlea na bagagem, descobrir novos sons, como Jelem, Jelem, cantado por Monica Anghel, canção conhecida de outras viagens, trazida de lugares não muito distantes da sedutora Roménia (ver a referência a Bašalen Romalen/Svirajte Cigani neste texto). A faixa faz de parte de uma obra intitulada Cântece de Petrecere, cuja tradução, feita com a ajuda de um pequeno dicionário que veio de Timişoara, (indispensável para entender as receitas do Carte de Bucate, espécie de Pantagruel romeno), não deve ser muito diferente de Canções de Festa.
Entretanto, vou tentando conhecer a arte de Constantin Mândrişteanu, Joana Radu e Radu Ciordas, entre outras vozes e instrumentos romenos. Mas Georghe Bîrlea trar-me-á sempre, à laia de formoso presente envenenado, as paisagens serenas da Transilvânia.

E, enquanto batíamos as terras balcânicas, o que acontecia neste país? Ao longe, acompanhava levemente as notícias do mundo e as peripécias quase sempre patéticas do verão português. E, longe, soube que o governo do país onde me encontro registado como eleitor impediu a entrada de um barco em águas territoriais portuguesas, recorrendo, para garantir a eficácia da sua acção, a dois vasos de guerra (lamento se cometo alguma imprecisão, mas escrevo sobre os acontecimentos recorrendo à memória). Fiquei estupefacto. Desproporção de forças (depois do que aconteceu não espero ouvir queixas sobre a falta de meios para combater prevaricações nas águas portuguesas), imputação de culpa antes de existir um crime (sempre acreditei que um indivíduo acusado de um crime é inocente até existir prova de culpa; agora, a inocência não está garantida, mesmo sem crime, e a culpa é um monstro sempre à espreita do mais prudente dos cidadãos), justificações burlescas (espero que, num futuro próximo, quando uma corveta da polícia marítima interceptar uma lancha rápida carregada de heroína, desvie a embarcação para o mar alto, e impeça a entrada de tais substância no território português) e, para agravar uma situação que já aparentava ser desastrosa, um ilustre representante do governo justificou a sua acção com as hipotéticas acções de propaganda de um pequeno grupo de cidadãos da Comunidade Europeia. Isto tem um nome, um nome feio: censura. As acções de propaganda, ou são um crime per se (incitamento à violência, por exemplo), ou devem ser imunes a qualquer sabotagem política. É angustiante ver um importante responsável pela gestão do Estado português recorrer a tal argumento, absurdo e intelectualmente ofensivo, quando no centro de muitas cidades portuguesas se encontram facilmente pequenas bancas de organizações defensoras da liberalização do uso de drogas leves a propagandear as suas ideias livremente (ou estarei a confundir com o centro de muitas cidades europeias?). Muitos não concordarão comigo. Mas espero que não o façam na embriaguez da cegueira ideológica ou religiosa. Espero que discordem, com o apoio de argumentos sérios e defensáveis, e sem recorrer a valores morais pessoais.
No entanto, uma facto parece-me incontestável. Com atitudes deste calibre, as posições continuam a ser arrastadas para as cercanias do discurso político. Regressaram os argumentos, pouco abertos ao debate, baseados nos “direitos das mulheres” e na afamada frase “a barriga é minha”; vandalizou-se propriedade privada; os grupos que vêm o Estado como uma entidade ao serviço da fé uniram-se e retaliaram em força; as imagens de fetos regressaram à blogosfera; etc.
E nós, o que é que podemos fazer? O que poderão fazer aqueles que recusam um debate ideológico ou religioso para uma questão cuja essência, cuja Verdade, nunca será alcançada, mas que aceitam discutir o assunto com bases éticas e objectivos pragmáticos, sem rejeitar o essencial pensamento filosófico, ponderado, energia vital do homem e da civilização. Infelizmente, a discussão ficará, por mais algum tempo, entregue aos deuses e às barrigas das mulheres. Receio que não haja espaço para outras vozes e que apenas nos reste ficar de braços cruzados até que a poeira baixe e os bravos guerreiros, armados até aos dentes com as suas verdades absolutas, se cansem e abandonem este campo que ninguém pediu que fosse de batalha.

O texto alongou-se por mais linhas do que esperava. Na verdade, os textos do No Mundo têm-se tornado mais longos do aquilo que é suportável para muitos leitores. Será que ainda nos ouvem?
Despeço-me, quando começo a sair da Roménia e a entrar na Sérvia. E o tapete vermelho foi estendido por Boris Kovač e a sua Ladaaba Orchestra, agrupamento ecléctico onde encontramos, entre outros, o ilustre Olah Vince. Com The Last Balkan Tango - La Danza Apocalypsa Balcanica (parte I e II; ver uma pequena recensão ao segundo tomo da obra no Crónicas da Terra), transporto-me, por instantes, para o universo sérvio, para um mundo onde cada indivíduo vive como se da última noite estrelada se tratasse, a última até ao fim do mundo. É uma dança tão apocalíptica como cada momento que se vive naquele país “maldito”, naquela nação onde cada segundo parece ser o definitivo e cada brinde o derradeiro. Hrvala!

Carlos Miguel Fernandes

*Ler este texto, ou, hipótese perfeita mas temporalmente mais exigente, A Lentidão de Milan Kundera, para compreender o significado da frase e do termo “bailarino”.
**Talvez esteja a simplificar o problema. É possível observar diferenças significativas de comportamento, e de ideologia dominante, entre, por exemplo, os habitantes do sul e do norte de Portugal. E, retomando o assunto do texto anterior acrescentado-lhe alguma especulação, não tive moambas nem calulu, mas sempre notei alguma diferença de atitude entre os portugueses que vieram de África e aqueles que nunca saíram da “metrópole”. Apesar de tudo, alguma efeito deverá ter a água do Bengo.


Publicado por CMF às 03:25 AM | Comentários (6)

setembro 06, 2004

O Regresso

Ah!, meu amigo, sabe o que é a criatura solitária, errando através das grandes cidades?...
Albert Camus, A Queda

Regresso. Relutantemente, regresso. Com pouca disposição para ouvir os mesmos sons, sentir os mesmos cheiros, ver as mesmas imagens. As paredes são as mesmas, cansam-me. Tudo parece pintado de tons deslavados, e não tenho um vislumbre de exaltação. Não, não quero estar aqui. Regressei para a prisão que me foi imposta pela existência, pelo nascimento. Uma periferia geográfica que, ao contrário de outros lugares por onde recentemente me movi, não aproveitou a situação única das franjas ou dos locais de trânsito, dos lugares que tocam outros mundos.
Regressei, mas não encontrei, no meu percurso, a nostalgia. Não quero estar aqui, em casa, seja lá o que isso for. Por uma qualquer razão que desconheço gostaria de estar, neste momento, neste lugar,

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Carlos Miguel Fernandes, algures, entre Arad e Deva, a caminho da Transilvânia, Agosto 2004


a caminho de uma das magníficas cidades da Transilvânia. E, se essa cidade fosse Sighişoara, poderia, mais tarde, visitar Janos na sua própria casa,


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Maria João Reis Martins, na casa de Janos, Sighişoara (Transilvânia, Roménia), Agosto 2004

oferecer-lhe o peito para um abraço, e brindar novamente com seu vinho de produção caseira.
Para jantar, não me importaria de ir até Belgrado,

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Carlos Miguel Fernandes, Belgrado, Agosto 2004

sentar-me nos bancos longos da Pivinica (cervejaria) Stari Grad,

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Maria João Reis Martins, na Pivnica “Stari Grad”, Belgrado, Agosto 2004

encomendar fígados de galinha envolvidos por toucinho, girices* e uma salada de pimentos, e apreciar os acepipes, acompanhados de uma deliciosa weissbier alemã, a cerveja da casa, enquanto observava o corrupio do exterior, a maralha ondulante da rua Kolarceva, que, debaixo de um enorme ecrã, dá uma aparência nova-iorquina à capital da Sérvia e Montenegro.
De noite, iria a uma cave romani de Novi Sad,

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Carlos Miguel Fernandes, na Vinski Podrum, Novi Sad, Agosto 2004

ou à Cigansky Noč (Les Nuits des Ciganes), casa inaugurada recentemente pelo cigano-sérvio Lajoš Nicolič (e cuja francofonia da designação foi determinada pela permanência prolongada de Lajoš em terras gaulesas),

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Maria João Reis Martins, na Cigansky Noc, Novi Sad, Agosto 2004

para sentir o arrebatamento e a vibração originados pela música que se toca, um pouco por todo lado, num país tão fascinante como esquecido e ostracizado, por uma “comunidade internacional” manipulada (e manipuladora) por tantos pretextos, causas e mentiras.
Ou então passaria o dia em Budapeste, percorrendo as ruas que começo a conhecer como se fossem minhas, como se fossem o albergue da minha essência, queimando tempo nos cafés deslumbrantes que se arregimentam no centro da cidade magiar, ultrajantemente, para quem viu tantas casas históricas portuguesas morrer, nas mãos de instituições com poucas preocupações estéticas. Poderia descansar, por exemplo, no Central Kavehaz, delongando-me com uma salada de tomate, queijo mozzarela e basílico fresco, porque a tradição fez-se de modernidade antiga, e o tradicionalismo impoluto e conservador não é mais do que um entrave à avidez do espírito humano.

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Carlos Miguel Fernandes, no Central Kavehaz, Budapeste, Agosto 2004

Percorreria, ao fim da tarde, a Belgrád rakpart (rakpart: marginal, estrada ribeirinha), lugar nobre da cidade, adoptado como centro de lazer pela comunidade homossexual (como agora se costuma dizer) da cidade, sem alaridos, sem indignações hipócritas, sem olhares reprovadores e doentios. Como? Porquê? Porque Budapeste é, provavelmente, uma das cidade mais tolerantes da Europa. Porque Budapeste não olha com desconfiança para o estranho, não rechaça a diferença. Também não a afaga, nem a coloca num pedestal. Budapeste absorve a diferença, e dela se alimenta para construir um dos auges civilizacionais da Europa. Este acme da evolução humana, aliado a uma herança imperial que se afirma abertamente perante os nossos olhos a partir das colinas de Buda, envolve-nos numa combinação de deslumbramento e optimismo, e abre espaço para todos as ambições e sonhos.

Mas regressei. Infelizmente e inevitavelmente. E esta angústia nada tem a ver com uma apreciação negativa da situação do país onde vivo, embora uma análise nesse sentido nunca deva ser menosprezada. Será que, como escreveu Saramago em A Caverna, viajar é importantíssimo para a formação do espírito, no entanto não é preciso ser-se uma luminária do intelecto para perceber que os espíritos, por muito viajeiros que sejam, precisam de voltar de vez em quando a casa porque só nela é que conseguem ganhar e conservar uma ideia passavelmente satisfatória acerca de si mesmos? Acredito que sim. Mas, nesse caso, ainda procuro a minha verdadeira casa. Como os homens que nascem em corpos de mulheres (ou vice-versa), como o indisciplinado que rejeita a ordem, ou o disciplinado que não convive bem com a desordem, eu, calamitosamente, talvez tenha nascido no país errado. Sinto-o na pele, quando aterro no aeroporto da Portela, ou quando atravesso a fronteira entre Ayamonte e Vila Real de Santo António. É um sentimento de inadaptação profundo e cortante. É uma tristeza que se apodera de mim sem dó, com uma crueldade ímpia. Uma tristeza pura e sincera, que advém, em parte, de viver num país que não soube aproveitar as inúmeras trocas interculturais das quais foi, em muitos casos, actor principal. O português orgulha-se das marcas que deixou no mundo, do Brasil ao Japão, mas não se envergonha com o pouco que ganhou com tão digna aventura. (Sei do que falo. Nasci em África e, embora tenha vindo para Portugal muito novo, a minha família viveu por lá tempo suficiente para trazer mais do que apenas uma apetência – assustadora para muita gente, mas não para mim, adepto incondicional do gindungo – por todos os ingredientes picantes que podem transformar uma refeição num aventura heróica e uma saudável atracção pelo marisco. Mas não, nem uma moamba, nem um calulu, passaram, alguma vez, pela mesa da casa onde cresci. Nunca.) Preciso da diversidade, mas não a encontro em terras lusas.
Extático, nas ruas da Andaluzia, emocionado, quando envolvido pela fraternidade das cidades balcãnicas, orgulhoso pelas conquistas da minha espécie, quando deslizo pelas grandes avenidas de Budapeste, infantilmente deslumbrado e autoconfiante, entre os milhões de almas de Nova Iorque, sou, no entanto, completamente insensível às maravilhas deste país (com uma excepção: o sul, e os seus ainda visíveis traços mediterrânicos, que resistem heroicamente, apesar dos esforços de uma entidade misteriosa, a qual insiste em empurrar os portugueses para um adormecimento colectivo, digno de uma qualquer cidade do Alasca em pleno inverno). O defeito será meu, com toda a certeza. Mas esta constatação pouco me ajuda quando, agora, sentado em frente a este monitor, em casa, me lembro de Zemun, subúrbio histórico e elegante de Belgrado, na margem do Danúbio, e nas suas esplanadas, que serpenteiam pelo rio a fazer lembrar paragens mais orientais e ainda mais exóticas. (Muito menos dinheiro, uma população assolada por duas guerras, mas uma vontade indomável de aproveitar a dádiva da natureza, a dádiva que dotou a sua cidade com dois rios, os quais se juntam num bifurcação encantadora e surpreendente, vigiada pela fortaleza de Belgrado. Noutro texto, escrevi a minha primeira impressão sobre Belgrado, em Agosto de 2003: é uma cidade fraca. Como já desconfiava, estava vergonhosamente errado. Belgrado não é uma cidade fraca. É, pelo contrário, uma das cidades mais estimulantes que conheci em toda minha vida. Mas isso são outras histórias.)


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Maria João Reis Martins, no Danúbio, Belgrado (Zemun), Agosto 2004

Nada me ajuda. Especialmente quando me lembro de uma certa marina, no Parque da Nações, cujo estado de abandono e decadência a que chegou deveria ser razão suficientemente forte para a aplicação de um duro castigo ao povo responsável pela afronta: a perda de soberania sobre aquela pequena parcela de terra e rio.

Carlos Miguel Fernandes

*Pequenos peixes de rio, de tamanho semelhante ao bom “jaquinzinho” (bom: aquele com tamanho adequado para ser comido inteiro), e de fritura semelhante ao pitéu português e andaluz. Deliciosos. Também se encontram facilmente na Eslovénia e na Croácia.


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agosto 03, 2004

Uma Pausa nos Relatos Balcânicos

Ainda não cheguei a Mostar, mas a publicação dos pequenos textos sobre os percursos e experiências nos territórios da ex-jugoslávia será interrompida durante algumas semanas. Chegou a hora de preparar uma nova partida. O dilema foi resolvido, com muita dificuldade e alguma angústia, e os Balcãs foram escolhidos em detrimento da Coreia do Sul. No entanto, desta vez, os caminhos escolhidos estendem-se mais para o oriente e para o sul desta região europeia, onde etnias, religiões e culturas convivem num equilíbrio ansioso. É uma estabilidade que, quando não desaba numa fúria incontrolável, nos mostra imagens e histórias fascinantes, e nos invade o espírito com lições de história.

O abalo só ocorrerá no final da semana, mas despeço-me já, pois o tempo que me resta será dedicado a preparações inadiáveis da viagem, e aos primeiros, e, provavelmente, últimos, mergulhos da temporada. Dada a dureza esperada do passeio, o corpo pede descanso adiantado, e nada melhor do que estes dias quentes para satisfazer o seu desejo, mesmo que a brevidade da pausa não admita entorpecimentos involuntários. Mas, como numa antecâmara da partida, ou como uma forma de complemento dos preparativos, as incursões ao oceano poderão ser intercaladas por Bela Bartok, pela aprendizagem de mais algumas palavras servo-croatas, pelo estudo da língua húngara, pela leitura de Os Ciganos, ou o Destino Selvagem dos Roms de Leste, de Claire Auzias, ou, quem sabe, num assomo de ansiedade e antecipação, pelo primeiro livro escolhido para me acompanhar na viagem: Vida e Morte dos Outros (A comunidade internacional e o fim da Jugoslávia), escrito por José Cutileiro. Ficar parado? Antes o poço da morte que tal sorte.
Para além dos relatos balcânicos, outros textos e outras cogitações ficam adiados durante algum tempo. O tema Literatura e Fotografia, ao qual tão pouca atenção tenho dado nos últimos tempos, não por falta de referências e citações, mas por uma confrangedora ausência de inspiração, talvez possa regressar com outro fôlego, em Setembro. Tenho ainda a esperança de que um eternamente adiado comentário ao livro Biologia como Ideologia – a Doutrina do DNA, de R.C.Lewontin, possa ser, após o regresso, debitado por uma disposição mais adequada a um debate profícuo, embora, necessariamente, polémico. Por fim, espero ter a capacidade e o tempo para contribuir activamente na implementação de uma ideia divulgada há algum tempo pelo Porfírio Silva na sua Máquina de Turing: a criação de um espaço que agregue, sem a pressão inerente à natureza dos blogues, algumas reflexões e ensaios sobre ciência e filosofia, para que estes não se percam no desenrolar dos dias (ou, mais literalmente, no desenrolar dos blogues). Aliás, o blogue do Porfírio poderá ser um dos mais aliciantes do mês de Agosto, se o seu autor cumprir promessas recentemente feitas (reflexões sobre uma eterna e intratável questão; “as máquinas pensam?”), e não acompanhar meio mundo numas férias que, com toda a certeza, seriam merecidas.

A Viagem

A viagem iniciar-se-á em Budapeste. Desta forma, exploraremos, mais uma vez, a localização privilegiada da capital húngara como ponto de partida para iniciar a caminhada para sul. Mas à utilidade geográfica juntamos a agradabilidade de uma nova visita, a quinta em cerca de dois anos, a uma cidade que tem um lugar desatacado na nossas pequenas geografias urbanas. Durante cinco dias pernoitaremos num apartamento na Dohány, próxima da celebrada Grande Sinagoga, vaguearemos pelas ruas, restaurantes e bares de Budapeste, revendo imagens, sabores e amigos, e acumularemos forças para a incógnita que nos espera.
Os cinco dias em Budapeste são uma das poucas certezas da viagem. Outra, a incursão na Roménia, ainda não está totalmente definida, nas cidades de base e na região, embora Timisoara se assuma, neste momento, como candidata destacada a primeiro burgo romeno onde pousaremos as malas. Daí, poderemos chegar a Arad ou a Oradea. Mas tudo continua em aberto.
Novi Sad, na Sérvia, é outra paragem obrigatória, pois a curta visita do último mês de Abril não foi suficientemente longa para um contacto aceitável com a capital da Voivodina. Pelo que pudemos observar debaixo da chuva que nos acompanhou na breve estada, a cidade abriga, com certeza, outros tesouros, para além daqueles que ajudámos a desenterrar do esquecimento ditado pela guerra e por uma história recente agitada.
A partir de Novi Sad, pouco sabemos do nosso percurso. Queremos ir para sul, para alguma cidade sérvia mais próxima do Kosovo (o regresso a Belgrado poderá ficar adiado para outra ocasião). E também desejamos visitar Skopje, a capital da Macedónia, e a Bulgária.
Mas podemos ser acometidos por um acesso de nostalgia e regressar a Sarajevo. Ou por um acesso de loucura, e seguir caminho pelos Balcãs até Istambul. (Nesta ultima hipótese, a loucura não está associada ao percurso, aos locais de passagem ou ao destino. Seria um acto demente porque o regresso a Budapeste, a cerca de 1500km de Instambul, e onde nos espera um avião infame para nos trazer de volta a Lisboa, poderia ser uma experiência fisicamente devastadora nos lentos transportes terrestres balcânicos. No entanto, atravessar os Balcãs até ao Bósforo é um sonho antigo que nos continua a invadir a alma nos momentos mais tensos da quotidiano.)

Deixo-vos, finalmente, com Mara Djordjevic, mítica cantora sérvia, nascida em 1916 na Roménia, e intérprete inexcedível das melodias tradicionais da Metohija e do Kosovo. Para que possam sentir, nos três curtos minutos de uma canção de casamento, os sons e a História dos distantes Balcãs. Ajde Jano, kolo da igramo.



Carlos Miguel Fernandes

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julho 29, 2004

Memórias de Sarajevo: Adi, o presidente do F.C Hrdi

Se queremos conhecer alguém, perguntamos-lhe qual é a sua história - a sua história verdadeira e íntima porque cada pessoa é uma biografia, é uma história. Cada pessoa é uma narrativa única que é contínua e inconscientemente construída por cada um de nós através de cada um de nós, das nossas percepções, sensações, pensamentos, acções e também do discurso, da narrativa oral. Biológica e psicologicamente não somos assim tão diferentes uns dos outros, historicamente, como narrativas, cada um de nós é um ser único.
Oliver Sacks, O homem que confundiu a mulher com um chapéu

Eram onze da noite, da nossa primeira noite em Sarajevo quando entrámos numa pequena taberna do bairro turco. Lá dentro, dois homens, numa mesa, preparavam-se para comer cevapcici. Um, mais novo, com um cabelo negro cujo corte nos fazia recuar duas décadas, encontrava-se virado para nós, quando entrámos; o mais velho tinha cabelo grisalho, constituição forte, e alguma obesidade trazida pela idade. Não havia mais clientes na sala ampla. O ambiente sugeria que o estabelecimento, apesar da porta aberta, poderia estar encerrado ou quase a encerrar. A maioria das casas no bairro turco fechavam por volta daquela hora. Entrámos timidamente e olhámos para o homem mais novo que, imediatamente, e sem trocarmos uma palavra, apontou os seus braços abertos e amistosos para as mesas vazias. Sentámo-nos no canto oposto da sala e pedimos duas Sarajevskos.

A sala estava decorada com fotografias de futebolistas anónimos e a parede em frente da porta de entrada recebia o cliente com uma bola de futebol, privada de uma dimensão e reduzida a uma bolacha enorme com brilho próprio. Manifestámos o desejo de fotografar a bola, mas o acanhado pedido transformou-se, em poucos segundos, numa sessão de retratos, com a bola e sem a bola, e explorando os diferentes pares que quatro pessoas podem engendrar. Era evidente que estávamos na sede de um pequeno clube de futebol, e nem teria sido necessário ver o homem mais novo apontar para o seu colega grisalho e anafado, ouvi-lo refrulhar “presidente” com um sotaque eslavo, e seguir o seu olhar até a um cartaz onde lemos “F.C. Hrdi”, para o entender. No instante seguinte, o presidente da agremiação pediu ao seu companheiro para nos trazer mais duas cervejas: oferta da casa. Este, serviu-nos, despediu-se de nós e do presidente, e deixou-nos, em mesas diferentes da sala. Pouco depois, após leve insistência, o presidente sentava-se junto de nós. Adi era o seu nome.
Adi não falava inglês, apenas entendia algumas palavras universalmente conhecidas. No entanto, conversámos até às três da manhã, despojando, com a sua voluntariosa ajuda, o frigorífico das Sarajevskos que tão bem o compunham quando entráramos.
Adi falou-nos do filho, o qual, segundo entendi, era um campeão local de judo. Desvendados os meus antecedentes desportivos, Adi tentou convencer-me a regressar num dos dias seguintes, entrar no tatami e defrontar o seu campeão. De nada me valeu argumentar que a astúcia com que a idade, eventualmente, me agraciou poderia não ser suficiente para resistir, sem mazelas, à impetuosidade e energia dos vinte anos do seu filho. Eram inúteis as minhas esquivas. Aparentemente, estava condenado à humilhação no tapete do F.C. Hrdi. Consegui, no entanto, arrancar de Adi a promessa de uma oferta: um cachecol do clube.
A noite foi longa. Trocámos palavras, esgares e sorrisos. Contámos e ouvimos histórias, conscientes da distorção imposta pelo canal, o qual acrescentava sinais de fantasia a narrativas concretas. Adi emocionou-se com uma infeliz tentativa de entender as suas origens étnicas (a mãe morrera há pouco tempo; regressamos ao problema da curiosidade, e do seu difícil doseamento) e emocionou-nos quando, na despedida, se recusou a receber qualquer pagamento pelo consumo efectuado na casa. Toda a nossa insistência, todo o nosso constrangimento foram inúteis. Adi não estava disposto a receber dinheiro das nossas mãos. Sem intencionalidade, já lhe havíamos dado, de alguma forma que desconhecemos, aquilo que ele desejava de nós.

(No resto da viagem, em Sarajevo e Mostar, lidámos várias vezes com esta generosidade aparentemente congénita. Desinteressada e inesperada, a dádiva é um modo de vida na Bósnia-Herzegovina, e não aparece associada a nenhum tipo de discriminação positiva ou incómoda. Aos passearmos nas ruas de muitas cidades do leste europeu e do oriente, a indiferença com que somos recebidos pode parecer quase ofensiva a viajantes etnocêntricos, a fervorosos crentes nas virtudes de anfitrião do seu povo, se feitas de afagos, subserviência ou exploração (ou, como na maior parte dos casos, feitas da conjunção destas três condutas), ou aos perseguidores de emoções fortes (tecidas, muitas vezes, pelo sofrimento alheio e mal escondido). A sensação de integração fácil e diluição imediata na massa humana, acompanhada por um refrescante sentido de ser “estranho”, não foi tão evidente em Sarajevo ou Belgrado como o foi em Seoul, onde caminhava sozinho, durante horas, sem que uma alma urbana levantasse os olhos para incomodar, com o seu olhar curioso, o solitário ocidental que se movia em ruas remotas da cidade, destoando, clamorosamente, das fisionomias que o rodeavam Mas, de certa forma, a sensação de ser um estranho e, ao mesmo tempo, de estar integrado na engrenagem da cidade, acompanha-me nas viagens balcânicas. E, tal como aconteceu num memorável final de tarde, no bar dos “poetas e artistas”, em Seoul (outra história...tantas histórias), uma mão amiga pode, a qualquer momento, puxar-nos para o seu lado, e contar-nos a sua história, partilhar a sua refeição, ou apenas oferecer-nos a sua companhia. A isso, ao que encontrei nos Balcãs, chamo generosidade, e ensinou-me a lidar convenientemente com a posse material e privada. Desde há alguns anos, a minha relação com aquilo que possuo tem-se degradado com uma celeridade evidente. Mas quando comecei a caminhar para oriente, e a conhecer a magnanimidade daqueles que pouco têm para dar para além de um par de horas de conversa, a relação piorou, e sinto agora um desejo inconsolável de abandonar o carro na Ponte Vasco da Gama e regressar a pé para uma casa que não possa chamar minha.
Por que razão temos esta avidez pela posse de bens, imóveis, ou com valor elevado e de aquisição quase cerimonial? Enriquecem-nos ou são um sintoma da nossa pobreza? Trazem-nos conforto ou disfarçam o desconforto inerente à própria existência? (O conforto, sempre o conforto, e Melville como memória recorrente.) Será que uma vida de arrecadação material disfarça uma vida sem histórias?
Não conheço a resposta a estas questões. Mas tenho sido brindado com belas histórias, curtas e longas, alegres e tristes. Histórias falsas e verdadeiras, histórias de cariz visual ou auditivo, táctil ou olfactivo. E cada narrativa substitui um desejo material fútil, moldado por anos de cultura estéril.)

Num dos dias seguintes, como prometêramos, regressámos ao F.C. Hrdi. Mas, nessa e noutra tentativas que fizemos para rever Adi, encontrámos uma porta fechada. Não é uma situação pouco habitual nos Balcãs. Nessa região em constante convulsão só existe uma regra: não há regras. Se uma casa, num determinado dia, se mantém aberta até de madrugada, nada garante que a história se repita brevemente, nem sequer que a casa abra nos dias seguintes. O serviço é feito à medida da vontade e da disposição (mas com todo o profissionalismo que uma relação com o cliente exige). Haverá melhor forma de o fazer?

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 02:53 PM | Comentários (1)

julho 24, 2004

Memórias de Sarajevo: Uma Noite Romani

Uma cidade é um emaranhado de milhões de histórias minúsculas juntas com outras, maiores.
Olivier Rolin, O Cerco de Cartum

Procurávamos um local para descansar o corpo e acalmar o estômago, após mais um intenso dia em Sarajevo. A noite já ia avançada e, mesmo para uma refeição ligeira, apenas restava uma macheia de casas abertas no bairro turco (mas, pelo menos duas, recebem clientes durante as vinte e quatro horas diárias). Passávamos numa pequena rua, perto da biblioteca, quando reparámos num grupo sentado numa mesa, no exterior de um pequeno restaurante. A ambiência tinha laivos de convívio mediterrânico: restos de saladas e carnes grelhadas espalhados pela mesa, guitarras em repouso junto a uma parede, roupas leves e um calor abrasador. Entrámos e averiguámos se seria possível trincar algo. Da referida mesa levantaram-se os responsáveis pela casa. Já não havia clientes. A reunião que se expunha no exterior era quase familiar e agregava pessoas ligadas, directa ou indirectamente, ao restaurante.

Com a garantia da satisfação dos nossos desejos, escolhemos uma mesa no interior e sentámo-nos, enquanto, lá fora, no único espaço de amesendação disponível, o sereno banquete continuava. Em poucos minutos, a curiosidade alastrou, a nossa origem passou de boca em boca, e, vindo da esplanada, um homem abeirou-se da nossa mesa. Choveram perguntas de um lado e perguntas do outro. O seu nome, embora tenha sido transmitido, perdeu-se para sempre nos esconderijos longínquos da memória. O nosso interlocutor, emigrado na Itália e de férias na sua terra natal, ganhava a vida como cantor. Tendo sido relativamente célebre na Bósnia, as vicissitudes da vida obrigaram-no a deixar o seu país. Cantaria agora na rua, em casamentos, em baptizados? Ou nalguma banda de cunho étnico e exótico? Nunca o saberemos. Na viagem, a curiosidade convive com a contemplação, com os estímulos sensoriais e com a meditação, num equilíbrio precário e estimulante. Exagere-se o peso dado a um dos graus de liberdade e a experiência única da jornada perde-se em solilóquios mentais absurdos.

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Carlos Miguel Fernandes, Sarajevo, Agosto 2003

Mas ficámos a conhecer a sua voz, muito bem tratada e de timbre versátil, pois, logo após o curto diálogo, o cantor, com meia dúzia de palavras intraduzíveis, conseguiu sentar, a poucos metros do improvável grupo que formávamos, dois homens e duas guitarras. Durante mais de uma hora, enquanto nos debruçávamos nos cevapcici e nas Sarajevskos, ouvimos o agradável e inesperado desempenho do improvisado grupo.
A tez muito morena dos três músicos já nos haviam sugerido que algum sangue cigano poderia correr nas veias daqueles homens. As harmonias e as melodias dedilhadas nos instrumentos (e que nos chegaram a provocar reminiscências andaluzes), e o ímpeto vocal do cantor, umas vezes à beira do sofrimento delirante, outras com uma alegria feroz, deixaram-nos as dúvidas à beira da certeza: foi um universo romani que encontrámos naquele pequeno restaurante de Sarajevo, escondido nos arrabaldes do Bašcaršija.
Indiferente às nossas cogitações, a actuação continuava, sem percalços, em grande ritmo. Por vezes, as músicas assumiam proporções épicas, com prolongadas vocalizações a sugerir intermináveis cavalgadas por planícies búlgaras e por montanhas jugoslavas. Outras vezes, o cantor retirava-se, deixando o ambiente, mais ameno, entregue aos dois guitarristas. As melodias, tal como o nome do nosso amigo, foram esquecidas. Vagueiam algures pelos lobos temporais dos nossos cérebros, à espera que uma hipermnésia as liberte dos seus grilhões neuronais.
A actuação terminou quando um dos músicos, cansado de olhar para os cigarros a consumirem-se entre o Mi e o Lá da cravelha, se ergueu da cadeira, decidido a apreciar, na esplanada, o tabaco amortalhado em toda a sua plenitude e comprimento.
Mas a música não acabaria aí. Decidido a mostrar a sua arte, o cantor, antes de se juntar aos companheiros, deixou-nos, na televisão da sala, uma gravação de um espectáculo de aspecto datado, em que o gosto duvidoso dos cenários e figurinos pediam meças a qualquer festival Eurovisão da canção. Percebemos que o nosso amigo apareceria a qualquer momento nas imagens (houve tentativas frustadas de colocar a fita no local exacto da sua actuação). Há muito que nos encontrávamos sozinhos no interior da casa, e lá fora, as mesmas pessoas que encontráramos um par de horas antes, já se haviam reagrupado na sua tertúlia, quando o som do televisor, controlado por alguém no exterior da sala irrompeu, inesperadamente, num alarido ensurdecedor. No écrã, o nosso amigo cantor, que acusava uma juventude há alguns anos perdida, e a sua banda, debitavam um ritmo balcânico de camioneta, uma espécie de turbo-folk inocente, conceito que não me é fácil descrever com palavras, mas cujo termo não augura boas perspectivas. O turbo-folk, desfiguração popular e oportunista da música tradicional da Bósnia, era desprezado por Almir, mas animava alguns recantos da noite de Sarajevo, acompanhado por luzes negra de cabaré barato, e aplaudido por uma audiência que, mesmo escondida pela escuridão dos recintos, não deixava de transmitir uma certa sordidez.
Pouco depois despedimo-nos, levando connosco um convite para regressar no dia seguinte, e assistir a um espectáculo do cantor, desta vez programado e planeado para animar os clientes da chafarica. Mas uma viagem faz-se de imprevistos e, no dia seguinte, à hora marcada, estávamos, provavelmente, retidos por outra situação igualmente sedutora.

Carlos Miguel Fernandes

P.S. Carlos Paredes morreu. Sei que cumpri a minha missão, noutra cidade e noutras histórias. Mas eu, por não agitar bandeiras e por desejar viver em Espanha, não sou patriota. Obviamente. Porque patriotas devem ter sido aqueles que, sob o lema Deus, Pátria e Família, tão bem o “trataram”, noutros tempos e noutras vontades.

Publicado por CMF às 10:30 AM

julho 20, 2004

Sarajevo: Dobro Dosli

Sarajevo começou, para nós, num pátio interior, cuja entrada se situava na Marsala Tita, e onde supúnhamos que encontraríamos um centro de informações. Lá dentro, um enorme cartaz recebia-nos de braços abertos: Dobro Dosli. Ao lado, buracos feitos por balas. Em cima, buracos feitos por balas. No prédio em frente, a poucos metros do cartaz, a visão era a mesma. Ter-se-ia desenrolado, cara a cara, vizinho contra vizinho, naquele pátio, alguma batalha privada, algum combate fratricida, representante menor, mas de inegável fidelidade, de uma guerra autófaga? Guerra não é guerra enquanto irmão não mata irmão, dizia Marko (Miki Manojlovic), no Underground, de Kusturika, depois ter sido espancado, até à condição de moribundo, pelo seu irmão Ivan (Slavko Stimac), num dos cenários mais terríveis, conquanto minimalista, da História do Cinema. Ali, naquele pátio de Sarajevo, onde serenamente se montavam, pela manhã, as esplanadas de alguns cafés, irmãos mataram irmãos.

Sarajevo recomeçou, algumas horas mais tarde, no coração do Bašcaršija, na praça com o mesmo nome, entre o bazar que se estende por todo o bairro. De frente para o rio, o adepto das grandes caminhadas urbanas pode virar à esquerda, e seguir pela Sarači, percorrendo mais uma centena de metros no meio das lojas de características muçulmanas e orientais (informalmente, o Bašcaršija ganhou a designação de “bairro turco”). Quando a Sarači dá lugar à Ferhadija, o bazar é substituído pelo comércio moderno e a arquitectura secular e aprazível do bairro turco cede o seu espaço a edifícios mais prosaicos. As pequenas praças e jardins sucedem-se a um ritmo regular, e por vezes, nos seus espaços, joga-se xadrez, no chão, com peças cujas dimensões nos transportam para os universos da Alice, de Lewis Carrol.
Da praça Bašcaršija, o viajante pode ignorar a Sarači e optar por percorrer a Bravadžiluk, embevecer-se pelos cheiros exóticos dos restaurantes bósnios, e, chegado à biblioteca de Sarajevo, poderá apreciar a beleza e o estilo ecléctico da mais representativa estrutura da cidade, edificada em 1896 e quase destruída na guerra de 1992-95. Do outro lado do rio, junto à ponte mais próxima, poderá avistar a esplanada ribeirinha e a pitoresca casa de dois andares do restaurante Inat Kuca, onde jantámos com Almir, no nosso último dia em Sarajevo, e onde fomos recebidos com uma refeição encantadora.
A deambulação do viajante, em Sarajevo, é atraída inevitavelmente pelo bairro turco, pelo seu bazar, pelo cheiro a carne grelhada que se escapa das Cevabdzinica que, em cada esquina, se mostram ao viajante, pelas esplanadas da praça central, e pelos locais de culto, cuja variedade reflecte o carácter pluri-religioso da cidade, embora, naturalmente, a religião muçulmana domine a área, com algumas mesquitas e o apelo à oração, que ecoa com alguma regularidade nas paredes da cidade.
Mas os mais curiosos não resistirão à tentação de meter os pés noutras ruas e iniciar uma procura, sem sentido nem ambição evidente, pelas franjas do centro da cidade. Aí, dificilmente encontrarão motivos para a alegria ou festejo. A realidade é dura e encontra-se a poucos passos de Bašcaršija. Os rostos passam pesados por nós, as casas revelam a condição de quem as habita e os cemitérios são omnipresentes e opressivos. Estão lá para nos lembrar, como as flores largadas, à laia de luto público, nas ruas e nas pontes de Sarajevo, que, daquelas colinas, já vieram outras coisas para além de uma paisagem serena.

A Noite

A noite de Sarajevo pode começar no bairro turco, num restaurante ou numa Cevabdzinica, mas acabará certamente, para os mais resistentes, em Skenderija, nome de rua e de bairro.
Skenderija, na margem sul do rio Miljacka, alberga inúmeras e diversificadas casas de diversão nocturna. Qualquer gosto poderá ser satisfeito nesse local. Mas o No Mundo deixou-se seduzir pelo Terra Sacra, uma cave pequena e fumarenta, onde o jazz dita a sua lei, quer venha do sistema sonoro da casa, quer da arte dos executantes que enriquecem o ambiente do clube. No bosnian music, only jazz foi a resposta que o empregado de bar me deu quando, depois de me perguntar se eu desejava escolher um disco, eu lhe respondi afirmativamente sugerindo-lhe música tradicional da Bósnia. Sem correr grandes riscos, após a recusa, fiquei-me por Miles Davis.
Foi no Terra Sacra que, numa noite de sexta-feira, conhecemos Almir, o baixista da banda residente. Muçulmano, vinte e um anos (no verão de 2003) e estudante no Conservatório de Sarajevo, Almir é um exemplo para quem insiste em associar o islamismo, mais do que as outras religiões, ao fundamentalismo: Almir não se vira para Meca quando os altifalantes das mesquitas assim o ordenam, bebe álcool, tem uma relação serena, feita de cordialidade e tratamento igualitário, com as mulheres, e demonstrou, nos poucos dias que com ele convivemos, um desejo sôfrego de conhecer outros países, outras gentes e outras culturas. Nesse dia, e naqueles que se seguiram, Almir contou-nos a história da sua jovem e atribulada vida. Já pensei em falar de Almir, e já referi o assunto neste blogue. Mas não é fácil. Não sou um contador de histórias e os acontecimentos em causa não merecem palavras demasiadamente emotivas ou inconsequentes. As palavras são a essência de uma história, são os seus blocos constituintes básicos. Não aproveitar a sua pureza para depurar uma narrativa como a de Almir é um atentado à memória daqueles dias. Não prometo contá-la, mas prometo tentar.
Quem não ficar extenuado com o ambiente arrebatador do Terra Sacra, especialmente aos sábados, quando a banda de Mircea, o proprietário do bar, sobe ao palco (“subir ao palco” é apenas uma expressão, porque palco é coisa que não se encontra ali; os músicos encaixam-se no espaço disponível, e tentam afastar-se dos clientes que passam de um lado para o outro de uma sala com cerca de trinta metros quadrados e um grande bar em forma de U no centro), pode ainda regressar a Bašcaršija e encontrar, a poucos metros da biblioteca e do rio, o Dino, um restaurante com uma esplanada acolhedora, que mantém as suas portas abertas durante as vinte e quatro horas que dura um dia. Nas noites quentes de verão, os viajantes podem esperar que os primeiros raios de sol se revelem por trás das colinas, enquanto conversam sobre os recheados e empolgantes dias de Sarajevo. Com alguma sorte, outra ave nocturna e solitária, outro pobre insone cujo ritmo circadiano ronde as vinte e cinco horas, os interpelará, tentando estabelecer uma conversa que, apesar das dificuldade inerentes à condição linguística dos intervenientes, lhes deixará recordações fortes e surpreendentes. E que bem que, nessa altura, Edward Hopper os retrataria, sem o charme de Bogart ou Marilyn, sem a solidão cortante de um restaurante lucífugo norte-americano, mas com a energia misteriosa e estimulante dos encontros fugazes, e com a cumplicidade do olhar, quando os brindes se celebram em línguas diversas.

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Carlos Miguel Fernandes, Sarajevo, Agosto 2003

Carlos Miguel Fernandes


Notas:
1) Detectámos erros no texto De Belgrado a Sarajevo. Em Sarajevo, dormimos na pensão Zem-Zem (e não Szem-Szem), que fica na rua Mula Mustafe Baseskije (é um prolongamento da Marsala Tita, mas aparece claramente com outro nome em qualquer mapa da cidade). Os erros serão devidamente corrigidos.
2) Cevabdzinicas são pequenos e simples restaurantes onde se pode comer, entre outras coisas, cevapcici.
3) A referência conjunta a Hopper, Bogart e Marilyn Monroe está relacionada com um famoso pastiche da obra “Nighthawks”.

Publicado por CMF às 04:58 AM | Comentários (5)

julho 12, 2004

De Belgrado a Sarajevo

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Carlos Miguel Fernandes, Belgrado, Agosto 2003

A noite já caíra quando deixámos Belgrado, rumando para Sarajevo. Para trás ficava uma cidade difícil, muito difícil. No meu bloco de notas, alguns dias depois, escrevi: “Belgrado é uma cidade fraca”. Hoje não concordo com as minhas próprias palavras, as quais podem ter sido influenciadas pelo calor infernal (durante os quatro ou cinco em que permanecemos em Belgrado as temperaturas não desceram abaixo dos trinta graus, nem durante a noite), por uma organização urbana pouco habitual na Europa (que nos obrigava a percorrer quilómetros sem entender a estrutura e organização da urbe), e por uma lentidão e monotonia nocturna que contrastavam com a grande agitação dos dias de Belgrado e que, segundo nos contaram, se deve ao quase universal êxodo de Agosto. A forma como os habitantes da capital da Sérvia partilham e usufruem dos espaços comuns devia ser um exemplo para os cidadãos deste país de sol e praias onde vivemos. No verão, as praças e esplanadas de Belgrado são invadidas, a partir do meio da tarde, por uma multidão esfuziante e ansiosa por afogar a aflição da canícula com todo o tipo de líquidos: desde a água morna das fontes até às leves e deliciosas canecas de cerveja Jelen Pivo. Aqueles que se entusiasmaram, nos últimos dias, com as cores e animação das ruas portuguesas deviam viajar um pouco pela Europa. (Mas receio que, para muitos, apenas um bombardeamento da NATO os poderá acordar desta espécie de letargia em que se deixaram cair). Mas deixemos Belgrado, e a descrição das suas virtudes e pecados, para outra ocasião.

Despedimo-nos de Belgrado numa camioneta no limite do conforto e lotada. A viagem nocturna não foi uma opção, foi ditada pelos bilhetes disponíveis. Em poucos minutos saímos da cidade e iniciámos o nosso périplo pela Sérvia até à fronteira com a Bósnia. O percurso, ao som dos frenéticos ritmos balcânicos debitados pelo sistema de som da viatura, foi pontuado por pequenas vilas e aldeias, cujo nome nas placas, se existia, não era visível através da escuridão. Mas em cada terra, no breu, era sempre visível a luz esverdeada de uma mercearia, vazia, misteriosa, mas de portas franqueadas durante toda a noite, disponível para saciar os desejos do mais noctívago dos habitantes. Esta apetência por estabelecimentos comerciais que nunca fecham começa ser notada à medida que caminhamos na Europa, de Oeste para Este. Característica muito oriental, e adoptada pela vida agitada de algumas cidades norte-americanas - como Nova Iorque, por exemplo -, este tipo de horário ainda se mantém afastado da maior parte dos países da Europa ocidental. Infelizmente.
Quando finalmente alcançámos a fronteira a viagem já ia longa. Duas paragens, passaportes a passar de mão em mão, cerca de uma hora para avançar cem metros. Por vezes esquecemo-nos da dádiva mais louvável da União Europeia: o abençoado espaço Schengen.
Por fim, dentro da Bósnia-Herzegovina, com a ansiedade habitual das novas descobertas disfarçada pelo sono, começámos a avistar os primeiros sinais do conflito de 1992-95. No caminho, o fraco luar permitia-nos observar as casas arrasadas, os buracos causados pelas balas e as crateras. Lá fora começava a fazer algum frio, o que tornou o vestuário que trazíamos de Belgrado pouco adequado para as montanhas que dominam a Bósnia, e que começavam a ditar a sua lei, transformando cada paragem num choque térmico desagradável. Mesmo com a ténue luminosidade que nos acompanhou durante todo o trajecto, o terreno acidentado e as encostas escarpadas era perceptíveis através das janelas sujas da camioneta.
O sol já surgia no horizonte quando avistámos o nosso destino, descendo uma das muitas montanhas que rodeiam a cidade, e que, no passado, foram o abrigo das tropas de Karadzic, durante o tristemente célebre cerco de Sarajevo. Ao longe, uma das imagens mais recorrentes das consequências do cerco exibia-se orgulhosamente, como um troféu de dor, perante os nossos olhos cansados: um edifício alto e esguio, completamente esventrado e enegrecido pelas explosões.
Continuámos a descer. Abeirávamo-nos da cidade, quando, subitamente, a camioneta abandonou o percurso óbvio e deixou para trás o imenso vale urbano. Alguns minutos depois parámos num terminal isolado, rodeado por algumas casas, num ambiente claramente suburbano. Mais tarde, soubemos que havíamos parado no sector sérvio, o qual, ainda hoje, se encontra separado do centro da cidade, onde habitam, predominantemente, croatas e bósnios muçulmanos (não existe uma separação física ou fronteiriça; trata-se apenas de uma demarcação étnica que emergiu da estrutura administrativa dos acordos de Dayton e de mágoas que ainda não foram esquecidas). Acordámos o preço com um taxista e este deixou-nos a poucos metros da Marsala Tita (uma das principais avenidas de Sarajevo, e que mantém o nome do ditador por quem muitos bósnio ainda suspiram de saudade) com uma pressa e nervosismo que só entendemos mais tarde, quando descobrimos a questão da separação entre sectores. Depois de um par de horas atribulados na busca por um quarto, acabámos por largar as malas na pensão Zem-Zem, no início da rua Mula Mustafe Baseskije, junto ao pitoresco e movimentado bairro turco, o Bašcaršija. Descansámos durante algum tempo, tentado recuperar as forças perdidas durante a extenuante viagem, e mais tarde, refeitos e estimulados, iniciámos o processo de descoberta de uma cidade histórica e cativante.

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Carlos Miguel Fernandes, Sarajevo, Agosto 2003

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 05:28 PM | Comentários (9)

abril 15, 2004

Devagarinho, muito devagarinho

O regresso do Leste tem de ser feito de forma vagarosa, para que o efeito indesejado não seja muito abrupto. Devagarinho, lá me vou reconciliando com a cidade, o meu bairro, o sr. Bessa, mas tudo muito devagarinho. Durante o dia tento reintegrar-me na equipa de edição e produção, depois à noite volto para o leste, ouvindo discos, cujas capas me impedem de poder dizer o que estou a ouvir, por estarem em cirílico, vou vendo umas imagens, e lá vou lendo mais autores de lá, do Leste, ou então releio capítulos sobre a História dos Balcãs, que depois de regressada vou entendendo melhor. Os Balcãs! Aquela região devia ser promovida a graças de continente...devagarinho, lá vou regressando. Mas ainda estou longe de poder escrever entusiaticamente. Até logo.

Maria João Reis Martins

Publicado por João às 01:44 PM | Comentários (3)

abril 14, 2004

Já Há Pontes em Novi Sad (II)

Pedimos desculpa aos habituais visitantes do No Mundo pelo atraso dos textos prometidos. O artigo sobre a música que connosco regressou já foi iniciado, mas apenas poderá ser convenientemente concluído e colocado no blogue amanhã, durante a noite.
Entretanto, para os habituais visitantes da página de fotografia, já estão disponíveis algumas imagens captadas durante a viagem. Mas não se surpreendam com as diferenças. Brevemente, retomaremos o estilo habitual e prosseguiremos na rota que escolhi para a concepção do meu trabalho fotográfico.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 02:13 AM

abril 12, 2004

Já Há Pontes em Novi Sad

E os autores do blogue No Mundo já regressaram a Portugal. Vieram com a bagagem recheada de novas músicas, com o corpo um pouco mais anafado pela cozinha continental da Hungria e da Sérvia e com a mente enriquecida por novas memórias de viagem. Regressaram com a habitual falta de disposição para contactos sociais e com o receio, bem fundamentado pela lembrança de outros regressos, de reacções amargas às necessárias ocupações quotidianas e rotineiras (embora, no meu caso, felizmente, as ocupações sejam menos rotineiras do que aquelas que fazem parte da vida da maioria das pessoas). Das novas descobertas musicais e gastronómicas dar-vos-emos pormenores em próximos textos. De Miklós Paizs, músico, radialista e empregado no bar Castro, e da forma como o “Heiner Müller” de Adolfo Luxúria Canibal animou o éter de Budapeste na manhã de quinta-feira (depois de, há seis meses atrás, Carlos Paredes ter entretido durante uma hora os clientes do Castro), falar-vos-emos noutra oportunidade.

Hoje, gostaria de escrever algo sobre o comportamento dos portugueses nos aviões. Mas a irritação do regresso ainda não me permite ter a lucidez necessária para discernir aquilo que é preconceito daquilo que são factos. Poderia dar o flanco a alguns leitores e comentadores deste blogue, que muito prezo e, nalguns casos, conheço pessoalmente, que não entendem que um indivíduo pode não conseguir identificar-se com as bases culturais dos seus concidadãos. Deixarei os assuntos de comportamento para mais tarde.
Falar-vos-ei apenas de factos. Ontem, nas sempre cansativas viagens que envolvem mais do que um voo, passámos por três aeroportos: Ferihegy de Budapeste, Schiphol de Amsterdão e Portela de Lisboa. Nos três existem, naturalmente, os pequenos carros fundamentais para facilitar a vida daqueles cujas viagens se prolongam por mais do que um fim-de-semana, e cuja dimensão da bagagem reflecte a duração da estada. Mas, apenas num destes aeroportos o utente tem de pagar para poder transportar as suas malas de uma forma mais confortável. Querem tentar adivinhar a que aeroporto me refiro?
Para terminar, quero reparar uma injustiça cometida no último texto que escrevi antes de partir: os dados relativos aos espectáculos dos húngaros Muzsikás foram obtidos no fundamental e obrigatório Crónicas da Terra. E, para completar este processo de redenção, devo acrescentar que a audição do Waltz Romano da Earth-Wheel-Sky-Band, durante a redacção do texto Novi Sad, só foi possível porque, quando aquele disco me surgiu pela frente, recordei-me deste texto e não hesitei em trazer o CD para casa.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 08:50 PM | Comentários (7)

abril 02, 2004

Uma viagem pelo Leste

Vou para Budapeste dentro de duas horas. Queria deixar aqui uma sugestão de leitura de outra viagem que já teve entrada neste blogue, mas que por várias razões me parece oportuno relembrar. Uma das razões é que este texto, sobre a capital da Eslovénia, foi elogiado por um amigo conterrâneo de ascedência, o que contribuiu para aumentar a minha vontade de escrever e de descrever. Obrigada pelo incentivo, Osvaldo.

Maria João Reis Martins

Publicado por João às 02:50 AM | Comentários (3)

abril 01, 2004

Ausência Forçada por Motivos de Viagem

O blogue No Mundo vai a banhos (turcos). Nos próximos dias seremos, em Budapeste, os cicerones dos autores de dois blogues da coluna da direita. Depois, partiremos para uma curta estadia em Novi Sad, a principal cidade da Voijvodina, província autónoma do norte da Sérvia. No fim-de-semana seguinte regressaremos à capital húngara para mais uns dias de deleite na companhia do fígado de ganso e do Unicum. Será mais uma oportunidade para visitar as cervejarias de Buda, petiscar no bar Castro ou deambular pelo mercado central entre salames, foie gras e colares de paprika. E uma visita, pelo menos, aos magníficos banhos turcos é obrigatória, para serenar o corpo e alimentar a alma. Na bagagem levamos música e vinho português para retribuir ofertas passadas.

Cada vez mais remota se afigura a hipótese de um regresso a Belgrado. O tempo é limitado e a capacidade de assimilação não necessita de ser posta à prova, especialmente a dos tais blogues da coluna da direita, novatos nestas andanças húngaras e balcânicas. A costa da Croácia, pela mesma razão, há muito que foi abandonada para outra oportunidade de viajar (prodigioso, esse litoral banhado pelo Adriático e ornamentado com centenas de ilhas). Depois de recusada a hipótese costeira, Zagreb e Vukovar foram fortemente consideradas no planeamento pouco rigoroso da digressão, mas a opção principal recaiu na vizinha Sérvia. A Roménia, pela quinta vez, ficou adiada (há coisas que não vale tentar explicar, de tão inexplicável que é o seu carácter). Mas nada é definitivo. Planos desta estirpe são sempre feitos com a noção de que poderão ser ignorados.
O blogue fica (bem) entregue aos leitores e comentadores habituais. Prometemos averiguar, com alguma regularidade, o estado da casa. Mas só colocaremos novos textos após o regresso - que, como sempre, se adivinha doloroso – porque, como devem saber, os teclados doutras nacionalidades são pouco tolerantes com a acentuação tão característica da língua portuguesa. Mas se nos permitirem uma temporária falta de rigor poderemos enviar um ou outro comentário que julguemos pertinente.
Entretanto, se puderem, e se quiserem, façam uma pequena viagem mental à Hungria, e aos seus sons mais tradicionais, assistindo a um dos espectáculos dos Muzsikás, integrados no 13º festival Inter-Céltico. Os concertos estão marcados para hoje à noite no Porto, amanhã em Lisboa e no dia 3 em Montemor-o-Novo. É a única coisa que me faz ter alguma pena de não ficar mais dois dias em Portugal. Se não conseguirem assistir a nenhuma das três actuações sugiro o disco Nem Arról Hajnalik, Amerről Hajnallot que, em Portugal, pode ser encontrado com título Prisoners’ Song. Já tem uns anos mas é um clássico.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 06:46 PM | Comentários (6)

fevereiro 27, 2004

Novi Sad

Fazendo uma pesquisa na rede, descontraída e sem requisitos específicos, para preparar uma provável visita a Novi Sad, capital da Voijvodina, província autónoma da Sérvia, encontrei este endereço. As três pontes de Novi Sad sobre o Danúbio foram destruídas, em 1999, pelos bombardeamentos da NATO. Há poucos meses, os seus destroços ainda não haviam sido removidos, impedindo dessa forma as viagens de barco desde a Hungria até Belgrado.
Pelas palavras que se podem ler nos textos do endereço referido, percebe-se que os habitantes de Novi Sad tinham uma relação especial com as pontes destruídas, nomeadamente com a mais antiga. Ao ler esses artigos lembrei-me de uma viagem de comboio que fiz no verão passado, de Budapeste a Belgrado.

Na carruagem cruzei-me com um fotógrafo húngaro, que vivera toda a sua vida em Novi Sad, com nacionalidade jugoslava, até Slobodan Milosevic pretender recrutá-lo para a guerra contra os croatas. Nessa altura, o fotógrafo, de cujo nome não me recordo, escapuliu-se para Sarajevo onde, após dez dias de angustiante espera devido ao mau tempo, embarcou num avião para Budapeste, passando a viver na capital húngara desde então. Durante a viagem, que tinha como objectivo a presença num casamento que se iria realizar entre a família que ficara na Sérvia, falou-me um pouco de Novi Sad. Na memória retive a sua descrição do que sentiu quando, na televisão, viu a pontes arruinadas. Para ele, Milosevic era um ditador, semeava guerras e tinha uma vocação demasiadamente nacionalista para gerir um país composto por incontáveis etnias minoritárias, mas não pôde ficar indiferente à destruição das pontes, especialmente daquela que, na sua adolescência, servira para encontros românticos furtivos. Na sua opinião, a questão podia ter sido resolvida de outra forma, embora se sentisse feliz por Milosevic já não oprimir o país que ainda considerava, em parte, como seu.
O fotógrafo saiu pouco depois de atravessarmos a fronteira, juntamente com a banda contratada para animar o casamento, e que nos acompanhara na mesma carruagem. Eram todos judeus, incluindo o fotógrafo. Na verdade, o som de clarinete que ouvira durante a viagem denunciara uma sonoridade Klezmer.
A leitura dos artigos que encontrei durante a minha pesquisa fizeram-me recordar algo mais: a aparente inutilidade dos bombardeamentos das pontes de Novi Sad. É um mistério que se adensa ainda mais se nos lembrarmos que as pontes de Belgrado foram poupadas pelos bombardeiros da NATO. Mas uma guerra começa, desenrola-se e acaba enredada em mistérios. Mesmo aquelas que são iniciadas por países democráticos para combater regimes totalitários e beligerantes.

Carlos Miguel Fernandes


P.S. Este texto foi escrito enquanto ouvia o Waltz Romano da Earth-Wheel-Sky-Band liderada por Olah Vince, cigano, legendary figure of musical scene in Novi Sad, de acordo com o texto impresso na bonita cobertura do CD. Aconselho.

Publicado por CMF às 05:04 AM | Comentários (1)

fevereiro 03, 2004

Budapeste

Desço a Rákóczi em direcção ao rio. É curioso como os caminho que nos levam para a água são habitualmente designados como descidas. Ou serão aqueles que nos levam ao centro da urbe, à "baixa" da cidade? Na verdade, a "baixa" da cidade costuma estar junto à água, por isso descemos, para o centro, ou para um rio ou mar. O núcleo ribeirinho de uma povoação sugere o embrião da mesma mas, se nos recordarmos que muitos cursos de água têm os seus limites controlados há apenas algumas décadas, a questão pode ser colocada de outra forma: a cidade não nasceu do rio, nasceu perto do rio e dele se aproximou cautelosamente, consciente da não perenidade das suas margens, sujeita ao capricho dos seus caudais por vezes demenciais, fixando-se nas suas margens, sazonal ou teimosamente, até o génio humano proporcionar a estabilidade mínima para garantir uma permanência menos desassossegada.

Desço a Rákóczi em direcção ao Duna, que avança para sul, esse ponto que, obstinadamente, também insiste em ficar por baixo para que, vindos do norte, para lá desçamos. A Rákóczi é substituída no seu percurso até ao rio pela Kossuth Lajos que por sua vez morre em Ferenciek tere para dar o seu lugar à Szabadsajto. É esta rua que desagua, finalmente, na Erzsébet hid, a ponte Elizabete, esteticamente a mais pobre das três pontes que ligam o centro de Peste à antiga Buda, que formam, com Óbuda, desde 1873, a cidade que permaneceu na sombra, primeiro de Viena, a principal metrópole do império austro-húngaro, depois do governo de Moscovo e da sua tirania castradora que atingiu o zénite numa manhã de 1956 ao som de rodas dentadas. Agora, a capital de um país que experimentou durante séculos a turbulência da História, pode tentar assumir o lugar que lhe pertence no centro de uma Europa a caminho dos Urais. A sua situação geográfica, que a tornaram numa ligação entre o Ocidente e o Oriente, as invasões e os impérios que viu passar e que lhe legaram também características de cidade charneira entre civilizações, um cosmopolitismo que junta povos desavindos noutras paragens, uma língua complexa e rica que faz parte de um clube restrito e de origem ainda pouco clara, indicam que esta cidade, plana do lado de Peste, irregular em Buda, pode ser, num futuro próximo e durante muitas décadas, uma das mais importantes capitais europeias, ao nível cultural, artístico e financeiro. Esta cidade chama-se Budapeste.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às 01:09 AM | Comentários (3)