agosto 01, 2010
Daba Igual Trabajar o No
La filosofía de autogestión se basaba en el obrero como pieza fundamental de la economía y se trataba de equilibrar el desnivel entre lo que ganaba un obrero y un técnico con estudios universitarios. La educación era gratuita y todo el mundo podía acceder a un título universitario. Pero un licenciado no ganaba mucho más. La diferencia entre el sueldo de un ingeniero, con un cargo relevante en INA (la industria petrolífera de Croacia), y el de señora de limpieza de su propia empresa era insignificante comparada con la que existe en España.
En este sentido la autogestión no estimulaba a los trabajadores, ya fueran cualificados o no. Era muy difícil y existía una gran desmotivación; es decir, daba igual trabajar o no, de todas formas se cobraba. Esto a mi me afectaba, pues me ponía muy nerviosa cuando iba a comprar y el dependiente o dependienta apenas se esforzaba por venderme nada. Para que iba a dejar de cotillear con su vecino o la novela que estaba leyendo si iba a ganar lo mismo comprara yo o no comprara?
Luísa Fernanda Garrido, Diario de Yogoslavia
Os parágrafos em cima transcritos, que são um dos traços do interessante retrato da Jugoslávia dos anos 80 feito por uma madrilena que assistiu à agonia final do ideal pan-eslavo (do sul), contam-nos, em poucas palavras, o deprimente resultado da acção de um Estado omnipresente e paternalista. Mas nem tudo mudou com a queda do Muro, com a desagregação do país, e nem sequer com o fim da guerra. Na Sérvia, ainda há poucos anos podíamos (e julgo que podemos) encontrar hotéis de gestão pública. Eram caros, decadentes, e o serviço… bem, pensem numa repartição de finanças e ficam com a ideia do serviço em hotéis chamados Voivodina, Balkan ou, vá-se lá saber porquê, Splendid. Damos a volta ao mundo e à História, e não há mais volta a dar: o Estado falha até na administração de uma mercearia ou de um hotel, e nem sequer o Estado-modelo de tantos revolucionários não-alinhados, com os seus avançados planos de auto-gestão, conseguiu desempenhar, com sucesso, tarefas aparentemente tão simples. Ficamos por isso surpreendidos ao saber que há ainda tantos crentes na alardeada capacidade da administração pública para tomar conta de algo tão importante como a Educação, só para dar um exemplo. E talvez seja essa a razão pela qual não precisamos de ir tão longe para encontrar quem lhe dê igual trabalhar ou não.
Carlos Miguel Fernandes
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maio 14, 2008
Lazar, Que Império Escolhes?
A Madalena Lello escreveu um texto sobre a ex-Jugoslávia fazendo referência a imagens e palavras que eu trouxe da região. Lê-lo reforçou-me recordações. Não pelas fotografias, com as quais tenho lidado obsessivamente nos últimos dois anos, mas pelas frases que a Madalena foi desenterrar nos arquivos deste blogue. Lembrei-me do que fiz, do que vi e do que senti. Os Balcãs são um baú sem fundo de História e emoções. Há uma maneira de viver o (ou no) excesso só comparável com o desregramento espanhol. Com um passado remoto e recente tão agitado, a forma mais tentadora de estar na vida e nas ruas balcânicas é celebrar cada dia como o último. O impacto no observador é emocionalmente devastador, e nesse aspecto há também uma semelhança com a Espanha histriónica que seduz viajantes com uma eficácia espantosa (a Espanha foi durante muito tempo uma espécie de Balcãs ocidentais, que viajantes e escritores descreviam como o Oeste Selvagem da Europa). Mas basta-nos arranhar um pouco a superfície festiva para logo encontrar histórias cruéis que ora explicam, ora complicam a nossa visão dos Balcãs. A Madalena toca num ponto crucial, o prematuro reconhecimento da independência da Croácia e da Eslovénia por parte do governo alemão, em 1991, ao qual se juntou a Áustria e o Vaticano. Provocação, ignorância?, não sabemos, mas é lamentável que tal gente, sem rosto, nunca tenha sido responsabilizada pelo que se seguiu. Numa região como os Balcãs é impossível fazer exercícios do tipo “e se”, mas não é preciso conhecer a História europeia do século XX em profundidade para se perceber que o gesto iria ter consequências desastrosas. Em Belgrado ainda há quem se lembre dos cadáveres sérvios arrastados pelo Sava e pelo Danúbio que se amontoavam junto à fortaleza durante a II Guerra Mundial. Depois do bombardeamento e conquista da capital sérvia, os croatas, católicos (e este adjectivo é importantíssimo quando falamos da História da Jugoslávia), e os alemães fizeram, cada um à sua maneira, a imperativa limpeza étnica: selvagens e impulsivos, os Ustashas, metódicos e burocratas, os nazis. As águas do Sava transportavam as vítimas dos Ustashas, e o Danúbio levava até às portas da capital os sérvios mortos pelo exército alemão (os actos dos Ustashas foram desumanos ao ponto de chocar alguns militares alemães, naquele que é um dos episódios mais caricatos e absurdos da II Guerra). Por isso, quando a Alemanha e o Vaticano reconheceram a independência da Croácia e Eslovénia, Belgrado estremeceu de raiva, e os mais atentos temeram, com razão, o pior (sobre a Áustria nem vale a pena falar). Nessa altura não foram os mitos fundadores que foram desrespeitados; foram os sentimentos mais profundos, e ainda frescos, de um povo que viu a sua capital ser arrasado mais de quarenta vezes nos últimos séculos. Mas houve um homem que lucrou com a asneira: chamava-se Slobodan Milosevic, e a desastrada política externa dos estados europeus foi a sua escada para o poder.
Hoje, quase duas décadas passadas sobre o início do desmembramento da Jugoslávia, ainda se pergunta: que tem o Kosovo que não tinha a Krajina? Em vão. A Sérvia teve azar. O conflito foi, quase na sua totalidade, acompanhado pelo clã Clinton no comando do mundo. Se fosse um Bush, pai ou filho, a Sérvia talvez tivesse direito a manifestações de rua e teorias da conspiração. As maiores ou menores simpatias por cada uma das três grandes religiões monoteístas também podem explicar qualquer coisinha, mas nem vale a pena ir por aí.
Carlos Miguel Fernandes
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abril 21, 2008
A Camioneta da Adriana
Romania had no food, and practically no government, but it had the airline Tarom, and in every airport in Europe you could look at the arrivals board and feel that somehow the essence of Romania was perfectly evoked by the fact that the two hour flight from Bucharest was eleven hours late.
Brian Hal, The Impossible Country – a journey through the last days of Yugoslavia
Sim, há uma estação de camionetas na cidade, e tem ligações com Belgrado. Mas é melhor irem de comboio, disseram-nos.
Estávamos em Timisoara, e, ao contrário do que sucedeu um par de anos mais tarde em Novi Sad, ignorámos o conselho. Só havia um comboio diário a ligar Timisoara a Belgrado, e partia às seis da manhã em direcção à capital da Sérvia, onde esperávamos descansar uma noite e logo descer para a Macedónia. Seis da manhã, hora traiçoeira. Muito cedo e muito tarde. Cedo demais para dormir no hotel antes da viagem, pois de lá teríamos que sair a umas ridículas cinco da manhã. Muito tarde para nos perdermos na noite da cidade. A noite de Timisoara não é assim tão cativante. Pelo menos não era em 2004, não o suficiente para compensar o esperado desgaste e, consequentemente, uma viagem transformada em pesadelo por uma opção desvairada. Não, não podíamos ir de comboio. Pensado e feito, apontámos para estação de camionetas, que não ficava muito longe, e para lá nos dirigimos.
Chegámos sem dificuldade ao tosco pátio que passava por terminal de camionetas e logo encontrámos a desejada: Timisoara-Vrsac-Pancevo-Belgrado. A que horas parte, e em que dias?, todos os dias às vinte horas, Quanto?, (já não me lembro). Pouco passava das sete da tarde, e a camioneta parecia preparada para arrancar em hora marcada. Depois da breve conversa com o condutor voltámos para o centro de Timisioara mais animados e fazendo contas de cabeça. Menos de duzentos quilómetros separam as duas cidades. Mesmo contando com os inevitáveis atrasos na partida e na fronteira, era credível que a viagem não durasse mais do que cinco horas. Como a mudança de fuso horário nos favorecia, poderíamos estar em Belgrado antes da meia-noite. No melhor cenário, ainda teríamos tempo para descer a Skadarlija, e comer um mesano meso regado com Jelen Pivo, antes de nos recolhermos no Hotel Balkan e descansarmos para a longa viagem até Skopje. Entre estes “sonhos”, fomos caminhando no sentido do centro para aproveitar o último dia na cidade.

Chovera durante a manhã e o céu continuava carregado. Voltámos a pé para o centro, do lado rio oposto à via por onde circulam os principais transportes públicos. As estações de comboio e de camionetas ainda estavam um pouco longe do coração da cidade. Nesse pequeno núcleo mais agitado situava-se o hotel Timisoara, onde nos alojáramos três dias antes, depois de uma serena viagem de carro pela Transilvânia, que culminou com uma noite passada numa caricata pensão, perdida numa aldeia da Crisana, mais preparada para acolher os negócios da carne do que dois viajantes vindos do outro lado do continente. Tínhamos todo o tempo do mundo naquele dia que parecia encerrar a primeira fase da viagem de 2004, e voltámos a pé pela margem esquerda do Bega. Fotografei, pouco. Dois cliques. Finalmente consegui registar na película a “minha” Roménia, a imagem mental, sensorial, que se formou em mim durante aquela viagem que estava a um passo de terminar. Um lugar desolado, cabisbaixo, que por vezes nos surpreendia com uma beleza pungente. Um lugar adiado.
Voltaríamos no dia seguinte, de malas na mão, àquela estação de camionetas no fim da Europa. Por enquanto, perdíamo-nos, sem rumo, sem pressa, nas ruas desertas de Timisoara. Mal sabíamos naquela altura que à meia-noite do dia seguinte ainda estávamos no parque de chaços onde nos disseram: todos os dias, às vinte horas!
(continua)
![[14] Timisioara, Agosto 2003 362-5.jpg](http://no-mundo.weblog.com.pt/arquivo/%5B14%5D%20Timisioara%2C%20Agosto%202003%20362-5.jpg)
Carlos Miguel Fernandes
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março 06, 2008
Ajde Beograde, Kolo da Igramo (agora completo)
Há o barulho e as multidões. Há o convívio desregrado entre avenidas aprumadas e becos esconsos. Rios e oceanos abordam-nas para o ritual de ablução e com as suas marés conduzem o baptismo eterno que lava os pecados da noite com águas quase sempre imundas. E a grandeza das áreas ocupadas despista a ilusão da imortalidade, ensinando-nos que há uma caducidade inerente à existência que nem o fardo da primogenitura consegue contornar.
São duras, as cidades.
No entanto, são também vórtices sábios que nos apartam dos ardis da natureza. As cidades foram feitas por homens, para homens, e os campos imaculados servem apenas para lucubrações de poetas ou para escapatória de espíritos pouco confortáveis com a complexa, e patética, condição humana. Nem todos conseguem desempenhar com convicção o papel de Sísifo.
Mas é astuta a natureza, e eu, que nunca me rendo ao seu chamamento, reconheço no mar uma arma forte contra a minha disposição empedernida, uma lança apontada ao calcanhar frágil de um corpo de andarilho. O caso não é grave. Não peço que me atem a um mastro quando a maresia se mostra, até porque, muitas vezes, a sugestão de fim do mundo e serenidade que emana do mar é apenas um mesmerismo que se desmonta com algum esforço. São águas traiçoeiras, e só a reflexão cuidada permite ultrapassar a barreira do delírio e entender a verdadeira fonte de sedução. Olivier Rolin percebeu tudo e alvitrou uma tese atrevida: os Açores estão mais perto de serem o centro do mundo do que a estação de Perpignan. Eu mirava o Atlântico, desde a plataforma continental de Portugal, buscando um sentimento esquecido, sem sucesso, quando a angústia me atingiu com imagens de Kotor. Ali estava eu, um felizardo em pleno usufruto de um paraíso português, mas a sonhar com as terras remotas do Montenegro. Que estranho acometimento era esse que me fazia desejar uma finisterra em detrimento de outra? A resposta já me havia sido dada um ano antes, depois de atravessar mais uma vez a Sérvia e entrar no Montenegro.

Chegámos a Novi Sad de comboio, ao final da tarde, como sempre.
Faltavam poucas semanas para que os Balcãs e o mundo assistissem a mais uma etapa da desagregação da Jugoslávia; a independência do Montenegro já tinha data marcada, e era para lá que íamos, para o novo Estado, o fruto moderno de um sentimento nacionalista fabricado pela Sérvia como estratégia para combater o império otomano. (Era uma decisão fresca. Numa região de embates e confluência de culturas, não é fácil acertar com os trilhos.) Os montenegrinos são sérvios, e o rumo que a História tomou só demonstra como é fácil manipular sentimentos. Qualquer identidade, desde que separatista, é passível de construção, e os homens controlam-se com cordelinhos descarados. (Já dizia E. O. Wilson: Doutrinar os seres humanos é de uma facilidade absurda.) Antes de atirar a primeira pedra ao telhado de vidro da Sérvia − a batalha de 1389, uma derrota metamorfoseada em lenda fundadora, a morte de Lazar travestida de vitória espiritual − talvez seja melhor olhar com cuidado para os próprios mitos. Há os que unem e os que separam. Será isso critério de distinção? No meio de tudo isto sobra a Vojvodina.
![[18c] Novi Sad, Agosto 2004 366-11.jpg](http://no-mundo.weblog.com.pt/arquivo/%5B18c%5D%20Novi%20Sad%2C%20Agosto%202004%20366-11.jpg)
Chegámos a Novi Sad, ao final da tarde e logo fomos para o centro procurar um hotel.
Passámos ao lado de velhos conhecidos, o Putnik, o Vojvodina, sempre fascinantes no seu anacronismo, e largámos as malas no Fontana, um hotel-restaurante situado na parte velha da cidade, mesmo em frente da Galeria da Associação de Fotografia de Novi Sad (Galeria Fkvsv), e a dois passos das melhores konobas: a Orkus, a Vinski Podrum, e a mais recente La Nuit des Gitanes, uma casa (e não uma konoba/cave no sentido estrito do termo) transformada em saleta de espectáculos por um roma regressado a Novi Sad após “uma vida” passada em Paris. Na Sérvia também havia malas de cartão. Talvez continue a haver. De cartão, como parecem ser feitos os instrumentos musicais dos ciganos que actuam nas konobas inundadas de fumo e álcool, a nicotina entranhada nas paredes e um cheiro intenso a cerveja morta derramada nas noites anteriores e infiltrada no chão tosco. Cerveja morta que todos os dias ressuscita e dá cor ao lugar quando roda pelas pequenas multidões que aos fins-de-semana invadem estes museus da música tradicional da Vojvodina. Por vezes, as melodias descem até ao Kosovo, ou Metohija e Kosovo, como se dizia antigamente, e então ouvimos as notas de Adje Jano, Kolo da Igramo.
Vem Jano, vamos dançar o kolo. No pensamento ribomba a voz de Mara Dordevic e quase somos levados às lágrimas. Era isso que nos esperava em Novi Sad. Emoção e comoção. Nos Balcãs cada esquina tem um drama e todos parecem viver entre a comédia e a tragédia, eufóricos, como se não houvesse amanhã.
Just imagine there is only one stary night until the end of the world. What would we do?, pergunta Boris Kovak. E responde: The last dance party!!!

Por agora estávamos serenos, no jardim do Fontana, a beber a primeira Nicksicko. O comboio ainda nos pesava no corpo. O Avala Express liga todos os dias as capitais da Hungria e da Sérvia, atravessando as monótonas planícies da Voivodina, parando em Subotica e Novi Sad antes de aportar em Belgrado. Já não sei quantas vezes entrámos naquele comboio. O mesmo calor. O mesmo enfado durante as paragens na fronteira. Mais um carimbo. Naquela tarde de Junho, que agora recordo, a carruagem ia quase vazia. Um casal comia cenouras, pimentos e beterrabas. Mudei-me para o bar, e o tempo passou ligeiro, com(o) um jogo de xadrez, um café turco e algumas Jelen Pivo. No final, um empate. Talvez. A memória de um tabuleiro à entrada do final dilui-se na noite de Novi Sad. E, à primeira noite, sucedeu-se a segunda, e a terceira.
(Numa dessas noites falaram-nos de Perast, numa tasca fora-de-horas que serve os melhores cevapcici da cidade:
Não podem perder Perast, fica a poucos quilómetros de Kotor,
avisaram-nos.)
A quarta noite foi passada noutra carruagem, a caminho de Podgorica. Deixávamos Novi Sad. (Gosto de Novi Sad, gosto de sentir aquela atmosfera com um travo a decadência, decadência orgulhosa, o ocidente com o oriente infiltrado, uma das portas de entrada em Bizâncio. Há Habsburgo e Porte em Novi Sad. Há Roma e Constantinopla. Em Belgrado já há menos Habsburgo e mais Porte.) Pensámos em alugar um carro, mas desistimos após o conselho que nos foi dado na agência de aluguer. (Deram-nos duas sugestões na agência. Uma foi:
vão de comboio. A outra: Vão para Kotor?, então têm que ir a Perast, fica perto. Parece que sim…)
Um carro alugado seria um problema. Para mudar de país teríamos que pagar mais, e os trâmites seriam um pouco complicados. Mudar de país!? Afinal, o Montenegro já era “outro país”, a declaração de independência era apenas uma formalidade (a moeda já há algum tempo tinha mudado, do dinar para o euro). Se havia fronteira, talvez fosse melhor atravessá-la dentro de uma carruagem. Agradecemos a sugestão desinteressada e fomos à estação comprar o bilhete. Escolhemos o comboio nocturno que liga diariamente Novi Sad a Bar. Nós apear-nos-íamos em Podgorica, para daí seguir até Kotor.

Após muitas horas deitado e poucas de sono, levantei-me com o cheiro a café que vinha do compartimento do revisor. Alguns passageiros tiveram sorte, e aproveitaram a simpatia do fiscal. Eu meti a cabeça de fora e tentei acordar com o ar fresco da manhã, ainda temperada pela neblina da madrugada que teimava em não levantar. Numa curva apertada o comboio abrandou. Estávamos em pleno terreno acidentado da península balcânica, onde Satanás cravou as unhas.
(É difícil imaginar o avanço e recuo dos turcos neste terreno. A Polónia queixa-se de uma geografia maldita. Nos Balcãs também se ouvem os mesmos lamentos. Mas mais diferentes não podiam ser as geografias polaca e jugoslava.)
Estávamos em território outrora disputado por clãs eslavos e cadres otomanos. Estávamos no coração da Europa Selvagem.
(Os Balcãs inspiram títulos dramáticos: The Savage Europe, no início do século XX; depois, Black Lamb and Grey Falcon, de Rebbeca West; mais recentemente, The Impossible Country, de Brian Hal; e o melhor, A Vida e a Morte dos Outros, o título com o qual José Cutileiro baptizou a sua obra essencial sobre a crise balcânica dos anos 90 do século passado.)
Estávamos nos Balcãs. Lá em baixo corria um rio. E, ao lado, repousavam, eternamente, duas ou três carruagens de comboio enferrujadas e retorcidas. Quantas vidas teriam ficado ali, naquela curva apertada perdida no meio da Sérvia central? Nós passáramos incólumes pela armadilha, mas era o primeiro aviso. A vida é frágil.
Após mais algumas horas de viagem (e um atraso de três), chegámos a Podgorica, a capital do Montenegro. Percorremos de camioneta as poucas dezenas de quilómetros que ainda nos separavam do (falso) fiorde de Kotor. Um corte na estrada. A temperatura subia. Entre mudanças de transportes e atrasos, a viagem durou vinte horas.

Em Kotor pensei ter chegado ao “fim da europa”. Encravada entre as montanhas, à beira da água e aninhada numa das extremidades do fiorde com o mesmo nome, a vila está rodeada por uma muralha impossível, que sobe e desce as escarpas como se lá tivesse sido colocada por deuses. Afinal, o Olimpo está nas montanhas de Kotor. Ou então são mesmo os verdadeiros obreiros da fortaleza, os reis da dinastia Nemanjic, quem guarda a cidade. Para os sérvios, os antepassados de S. Lazar, alguns também canonizados, têm a aura da divindade. Na vila sente-se o seu peso, mesmo depois de diluído por séculos de domínio veneziano, quando Kotor era Cattaro.
O clima inconstante, entre o calor excessivo e as enxurradas inesperadas, reforça a desconfortável sensação de estarmos fora do mundo, num estágio intermédio entre os mortais e os deuses, entre o inferno e o paraíso, longe do purgatório e da purificação. Nas paredes e nas árvores, enfrentamos obituários impressos em folhas A4: uma cruz, uma fotografia, algumas palavras. Não podemos desviar os olhos. Cheira a morte. Fim. Fim do mundo. Mais avisos.
Mas se Kotor nos levou às portas do céu, fazendo-nos temer que talvez fosse impossível regressar a uma existência terrena, Perast afundou-nos mais ainda na trama balcânica. E com Perast veio um inesperado sentimento de perda.

Chegámos novamente na pequena camioneta que recolhe viajantes em qualquer ponto dos vinte quilómetros que separam as duas vilas. Novamente, sim, pois no dia anterior já percorrêramos as ruas de Perast e já nos regaláramos com os mexilhões, os melhores mexilhões do mundo. Mexilhões na buzaru. Alho, tomate, salsa e vinho branco, o Mediterrâneo numa caçarola. Mas hoje íamos a Perast para visitar a ilha Gospa od Skrpjela (e depois, mais mexilhões, claro).
Fomos levados por uma espécie de táxi marítimo sem licença e a ilha vertia turistas quando desembarcámos. O ruído era ensurdecedor. Pouco tempo depois a multidão regressou ao barco e deixou-nos envoltos no silêncio. Para além de nós, apenas um homem permaneceu na ilha. Pescava peixinhos com uma linha, como quem faz “paciências”. Não havia conflito, nenhuma luta do homem com a natureza ou com o seu próprio âmago. Não era um velho, nem era o mar. Era apenas um homem tranquilo em águas tranquilas. Deitei-me junto do farol e esperei pela hora da recolha, angustiado, e incomodado pela beleza lancinante do lugar. Depois do vazio deixado pelo fim de um projecto que me consumiu as entranhas (MittelEur/opa, terminado em Fevereiro de 2006), confrontava-me agora com o fim de uma viagem iniciada cinco anos antes no Lublianica, no barco de Joze. Sozinho, no farol, enfrentava o Nada. O homem continuava a tirar peixes da água. Ao longe, um enorme navio de cruzeiro que se mantivera atracado em Kotor durante todo o dia aproximava-se. Antes de penetrar no estreito que liga o fiorde ao Adriático, contornou as ilhotas. Das balaustradas, os turistas acenavam. Percebi nessa altura, quando os embarcadiços gesticulavam nas janelas dos seus camarotes, que não havia chegado o fim da linha. Havia apenas viajado em círculo e regressado ao ponto de partida. Estava muito mais perto do mundo agora, do que quando Joze, numa noite do já longínquo Verão de 2001, me levou pelo Lublianica adentro no seu pequeno barco, iniciando-me nos rituais balcânicos, e dando início a uma trajectória que não pude mais controlar. Naquele farol, rodeado de água por todos os lados, estava na porta de saída. Era preciso partir. Novamente. Antes que o cansaço cedesse ao chamamento de Kotor. A minha Ogygia.

Corto Maltese temia Veneza. Receava que a cidade o afastasse dos mares e das estepes. A Veneza vai-se para morrer, já se sabe, e essa morte é mais do que um devaneio literário, é uma insinuação que brota do cheiro pútrido dos canais, e parece ser também o triste destino da cidade. Só a engenharia a pode salvar; o fim está cravado nos alicerces de Veneza. Corto Maltese temia-a (Veneza, ou a morte?). Eu temo lugares como Kotor. Talvez um dia lá desagúe para desaparecer. Mas agora desassossego-me com espaços assim, tenho medo que me afastem da cidade, acenando-me com as suas tentações nos momentos mais fracos, quando o cansaço agride o corpo e a mente.
(Uma vez perdi-me em Veneza. Cada ruela que escolhia acabava na água. Andei assim durante dez, quinze minutos. Não me recordo bem. Hoje, passados tantos anos, não sei se tudo não terá passado de um devaneio. Um sonho com duas luas.)

Em Kotor também se morre. Os obituários colados nas árvores, nas paredes, em qualquer lugar, lembram-nos, sem tréguas, e com rostos de todas as idades, como tudo pode acabar num segundo. E os dias de Kotor acabaram. No regresso a Podgorica, depois da ascensão aos céus, subimos as montanhas. A estrada ofereceu-nos mais uma visão da baía e depois descemos para Budva, e voltámos a subir. A paisagem hipnotiza-nos, mas as carcaças de automóveis que pontuam o caminho não dão descanso ao espírito. Mais avisos.
O mar desaparece. Agora tudo é verde, mas em breve regressará a aridez. Aridez e abundância alternam-se em períodos de poucos quilómetros. Essa é uma (outra) das maldições dos Balcãs.
Pelo caminho, um vestígio da Albânia, muito ténue, perdido na neblina. Um país longe de tudo.

Regressávamos à Sérvia. Por muito que a visita a Belgrado me parecesse, após Kotor, uma descida aos infernos, sabia que tinha que lá ir, mais uma vez. Quem diria que, depois de ter deixado a capital sérvia no verão de 2003 com má impressão, a tornaria a visitar, com prazer, três vezes nos três anos seguintes! E não foi o inferno, claro, pelo contrário. Pouco tempo após ter chegado a Belgrado, já a cidade me segredava ao ouvido, kolo da igramo! E eu fui, dançar o kolo com Belgrado durante quatro dias.
Carlos Miguel Fernandes
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fevereiro 21, 2008
Vidovdan (antecipado) II
O Carniceiro de Mendelsshon. Por Fernando Cruz Gabriel, no Diário Económico. Ler, sff.
Carlos Miguel Fernandes
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fevereiro 18, 2008
Vidovdan (antecipado)
Todos os mitos são iguais, mas uns são mais iguais do que outros. Os nossos. Não sei porquê, mas hoje sinto-me pouco tranquilo.
Carlos Miguel Fernandes
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dezembro 19, 2007
Kosovo I
(Com a iminente e perigosa independência do Kosovo, os Balcãs voltam a andar nas bocas da Europa. Não sei o que dizer. Está tudo dito. David Fromkin, em 1999, não se deixava deslumbrar:
Serbia’s apparent surrender in June 1999 was a triumph for the United States. But it was the easy part. If we stick to our goals, what comes next is likely to be much more difficult. It may be a long time, if ever, before we are justified in breaking open the champagne.
David Fromkin, Kosovo Crossing - The Reality of American Intervention in the Balkans (1ª edição: 1999)
Fui à gaveta e ao arquivo procurar textos sobre os Balcãs. Da gaveta saltou este, feito para um trabalho fotográfico, sobre a região, que cedo percebi estar ainda incompleto.)
Nada – Entre o Vazio e a Esperança
Balcãs: um nome que guarda uma narrativa maior do que o simples conceito geográfico que aparenta ser. Hoje, evoca a guerra, mas os Balcãs foram, durante o século passado, um alimento quase inesgotável para o imaginário ocidental. Nos anos 1900’s diversos autores referiam-se à península balcânica e aos países instáveis que se estendiam desde o Adriático ao Mar Negro como a “Europa selvagem” (H. De Windt, Through the Savage Europe, 1907, por exemplo). E logo a região fez por merecer o epíteto, pois no dia 28 de Junho de 1914, um sérvio bósnio, partidário do pan-eslavismo, assassina o arquiduque Franz Ferdinand em Sarajevo e oferece o pretexto ideal para o início de um conflito que logo se estende ao resto do mundo. Começava assim o século XX, o qual viria a terminar no mesmo lugar, com lutas fratricidas, cercos a Sarajevo e bombardeamentos em Belgrado. E entre prólogo e epílogo, os Balcãs não deixaram de inspirar fábulas em torno da sua imagem maldita, na literatura e no cinema. (Exemplo: o realizador Jacques Tourner, no filme Cat People, criou uma personagem sérvia portadora de um pecado ancestral que transforma os humanos em predadores sexuais.)
A Jugoslávia, a distância segura entre esta e a União Soviética e a tirania paternalista de Tito deram à região algumas décadas de uma acalmia que só viria a ser perturbada aquando da morte do general em 1980. A Jugoslávia aguentou-se, mas os fantasmas já se mexiam, e Milosevic começava a falar para os sérvios do Kosovo em 1987. Com a queda do muro de Berlim os demónios soltaram-se definitivamente e três anos depois a região estava embrenhada num conflito de contornos complexos e de difícil resolução. A paz acabou por chegar, mas nessa altura a guerra já havia feito feridas que vão ficar abertas durante várias gerações.
Fui, e vou, aos Balcãs (re)viver este passado. Encontrei-o nas histórias que me contaram nas tabernas. Encontrei-o nas avenidas de Belgrado, nos cemitérios de Sarajevo, na ponte velha de Mostar e na pátina dos hotéis anacrónicos. Encontrei o vazio e a esperança: Nada! (Palavra que, em servo-croata, designa esperança.) Resta saber se as asas que empurram a brisa suave que percorre agora os Balcãs são do arcanjo Gabriel ou de Ícaro.
![[34] Belgrado, Agosto 2004, 364-25.jpg](http://no-mundo.weblog.com.pt/arquivo/%5B34%5D%20Belgrado%2C%20Agosto%202004%2C%20364-25.jpg)
Carlos Miguel Fernandes
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setembro 13, 2007
Ajde Beograde, Kolo da Igramo
Há o barulho e as multidões. Há o convívio desregrado entre avenidas aprumadas e becos esconsos. Rios e oceanos abordam-nas para o ritual de ablução e com as suas marés conduzem o baptismo eterno que lava os pecados da noite com águas quase sempre imundas. E a grandeza das áreas ocupadas despista a ilusão da imortalidade, ensinando-nos que há uma caducidade inerente à existência que nem o fardo da primogenitura consegue contornar.
São duras, as cidades.
Mas são também vórtices sábios que nos apartam dos ardis da natureza. As cidades foram feitas por homens, para homens, e os campos imaculados servem apenas para lucubrações de poetas ou para escapatória de espíritos pouco confortáveis com a complexa, e patética, condição humana. Nem todos conseguem desempenhar com convicção o papel de Sísifo.
No entanto, a natureza é astuta, e eu, que nunca me rendo ao seu chamamento, reconheço no mar uma arma forte contra a minha disposição empedernida, uma lança apontada ao calcanhar frágil de um corpo de andarilho. O caso não é grave. Não peço que me atem a um mastro quando a maresia se mostra, até porque, muitas vezes, a sugestão de fim do mundo e serenidade que o mar nos dá é apenas um mesmerismo que se desmonta com algum esforço. Mas são águas traiçoeiras, e só uma reflexão cuidada permite ultrapassar a barreira do delírio e entender a verdadeira fonte de sedução. Olivier Rolin percebeu tudo e alvitrou tese atrevida: os Açores estão mais perto de ser o centro do mundo do que a estação de Perpignan. Eu mirava o Atlântico, desde a plataforma continental de Portugal, buscando um sentimento esquecido, sem sucesso, quando a angústia me atingiu com imagens de Kotor. Ali estava eu, um felizardo em pleno usufruto daquilo que muitos chamariam paraíso, mas a sonhar com as terras remotas do Montenegro. Que estranho acometimento era esse que me fazia desejar uma finisterra em detrimento de outra? A resposta já me havia sido dada um ano antes, depois de atravessar mais uma vez a Sérvia e entrar no Montenegro.
(Continua. Talvez.)

Carlos Miguel Fernandes
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junho 27, 2007
Cravar as Unhas nos Balcãs
A geografia dos Balcãs é uma suas maldições. Talvez seja mesmo a maldição primeva, aquela que lhe foi tecendo o epíteto de Europa Selvagem durante o século XIX e início do século XX (H. De Windt, Trough the Savage Europe, 1907). Mark Mazower não esquece este factor crucial no seu muito recomendável The Balkans – From the End of the Byzantium to the Present Days.
Unlike the mountain chains guarding the necks of the Iberian and Italian peninsulas, the Balkan ranges offer no barrier against invasion, leaving the region open to easy access and attack from north and east. On the other hand, their irregular formation hinders movement between one valley and the next. Communication is often easier with areas outside the peninsula than between its component parts do that Dubrovnik, for instance, has had closer ties for much of its history with Venice than with Belgrade. In this way, mountains have made commerce within the region more expensive and complicated the process of political unification.

No livro A Ponte Sobre o Drina, Ivo Andrić recorda um antigo mito, no qual Satanás, despeitado, arranha a superfície da terra com as suas unhas, para dessa forma destruir a obra de Deus e impedir os homens de se deslocarem e reunirem. Não há melhor alegoria para os Balcãs. When the angels saw how unfortunate men could not pass those abysses and ravines to finish the work they had to do, but tormented themselves and looked in vain and shouted from one side to the other, they spread their wings above those places and men were able to cross. Os homens, mais tarde, preferiram destruir as pontes.

Carlos Miguel Fernandes
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agosto 12, 2005
Hotel Balkan
Chegámos, entretanto, a Terazije. É o local mais concorrido e agitado da cidade. Em Terazije há cinemas, teatros, hotéis – o “Moskva” e o “Balkan” – restaurantes, instituições culturais, estabelecimentos comerciais. Os edifícios caracterizam várias épocas, mas a harmonia arquitectónica é perfeita. Os passeios são largos, arborizados, e a artéria, misto de rua e de praça, é desafogada, com três faixas de rodagem para cada sentido de trânsito. Como nota curiosa, deverá citar-se a presença de raparigas estudantes, transformadas em vendedoras ambulantes de postais ilustrados e discos de música popular jugoslava.
Vasco Callixto, Viagem até às Portas da Ásia
Há livros assim. Ficam arrumados na prateleira até que uma busca acidental os resgata do esquecimento. Recentemente, ao esquadrinhar uma prateleira reencontrei esta Viagem até às Portas da Ásia. O livro contém a descrição da jornada épica de Vasco Callixto e sua família. Realizada em 1967 num volkswagen “carocha”, a viagem levou-os não só às portas da Ásia, mas também a Itália, Grécia, Bulgária, Roménia e Jugoslávia, entre outros lugares europeus. A obra parece pertencer a uma pequena colecção de livros do mesmo autor que inclui relatos de viagens às ilhas britânicas, a Marrocos e à Rússia.
Folheei o livro ao acaso, em busca de referências familiares. Logo encontrei o parágrafo acima transcrito, o qual poderia ser ainda hoje usado para descrever o animado centro de Belgrado, com a ressalva de os teatros há muito não fazerem parte do roteiro social da maioria das capitais europeias. A “nota curiosa” também é um sinal dos tempos, pois não me recordo de estudantes a vender discos de música popular. E, ao ler o texto de Vasco Callixto, descubro que o Hotel Balkan, o “meu” hotel de Belgrado, de charme decadente, já existia em 1967. Daqui a poucas semanas, espero olhar novamente para o Sava num dos quartos do terceiro ou quarto andar.

Mas há outras passagens do livro com referências a lugares comuns. Para chegar a Belgrado, o velho “carocha” partiu de Timisioara, fazendo um percurso que repeti no Verão de 2004, e que se revelou prenhe de peripécias. Depois de visitar Belgrado, a família Callixto partiu para Sarajevo, talvez por caminhos que percorri em 2003. Procuravam a cidade onde fora assassinado o arquiduque, sem nunca imaginarem que, um quarto de século mais tarde, o acontecimento que os levou à capital bósnia seria abafado por uma catástrofe inimaginável.
De Sarajevo dirigiram-se para Mostar, e talvez tenham tido a felicidade de percorrer a estrada que me levou à cidade da ponte velha no Verão de 2003. Mas, pelo menos, partilhámos as condições atmosféricas pois, a dada altura, Callixto escreve: A paisagem é extraordinariamente emotiva, duma beleza que chega a parecer sobrenatural. Por sinal, o céu toldou-se e ainda chegou a chover e a trovejar, ao mesmo tempo que a temperatura desceu bastante, o que mais ainda contribuiu para emprestar maior emoção à travessia desta região das montanhas da Bósnia.
Mostar merece apenas um parágrafo.
Chegámos entretanto a Mostar. Nesta pequena e pitoresca cidade, tal como Sarajevo, de acentuada feição oriental, com mesquitas e minaretes, tivemos ensejo de apreciar – e de viver, ainda que por breves minutos – um quadro paisagístico formosíssimo, do mais encantador que temos visto na Europa. Transpondo o rio Neretva, uma velha ponte turca, pronunciadamente arqueada, é o grande atractivo desta ignorada cidade, excelentemente completado por outras construções da mesma época, que bordejam o rio. A ponte, interessantíssima, as construções anexas e o magnífico cenário em que tudo se enquadra, constituem, realmente, um quadro maravilhoso, que parece pertencer ao mundo da fantasia e dos contos de fadas. Só para o apreciar, vale bem a pena ir a Mostar.
Este, no entanto, faz justiça à cidade e é generoso nos adjectivos. Não retiraria uma palavra à descrição de Vasco Callixto. Mas, quando fui a Mostar, a ponte no fundo do rio, as paredes vergastadas pelas balas e as casas em ruínas faziam questão de dizer que ali já não se vivia um conto de fadas.
Carlos Miguel Fernandes
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maio 10, 2005
De Sarajevo a Mostar
As curvas acabaram por nos afastar irremediavelmente da visão de Sarajevo a descansar no vale. Estávamos a caminho de Mostar. No início a paisagem manteve-se agreste como que a lembrar-nos que, noutros tempos, havia sido refúgio de tropas em fúria. Na estrada, os ramos de flores, cuidadosamente depositados nas bermas, apareciam com uma frequência aflitiva. Noutro lugar, os mesmos sugerir-nos-iam metal retorcido e mortes precoces. Na Bósnia, as imagens eram sempre outras, talvez enganadoras, mas também a apontarem para o fim prematuro de uma vida.
Continuámos por estradas envelhecidas, percorrendo lugarejos magoados, anacrónicos, no meio de um tráfego fugaz feito de máquinas velhas, ao ritmo infernal dos sons balcânicos que se ouviam no interior da camioneta. Nas paredes das casas e dos muros surgiam, pintadas, com alguma regularidade, as siglas da democracia. Mas as iniciais dos partidos que agora tentam construir um Estado só deixam serenos aqueles que desconhecem que, por trás da fachada respeitável da democracia, se escondem indivíduos pouco respeitáveis, os quais nunca serão julgados pelos seus crimes porque a política internacional raramente conduz à justiça e ao confronto com o passado. Mas nem todos os países se dão bem com o silêncio e a resignação. O futuro bósnio é incerto.

Pouco a pouco, a irregularidade do terreno foi-se transformando em montanhas. Começava a chover, de forma torrencial, e a paisagem tornava-se maioritariamente selvagem. A natureza compõe quase sempre o postal ideal para pautar as estadas citadinas. Dá-nos tempo para digerir as emoções recentes sem a perturbação que a obra humana nos causa. Mas, para o espírito urbano, o papel da natureza limita-se a essa hipnose temporária e à indução de uma tranquilidade passageira. Logo regressa a ânsia pelo murmúrio das ruas de uma cidade.
A certa altura, o Neretva apareceu do lado esquerdo, acompanhado por inúmeros restaurantes que tentavam seduzir os viajantes com cabritos sobre brasas. Num deles, harmoniosamente enquadrado pelo rio e por uma encosta de declive ameaçador, parámos. Um minuto depois a marcha recomeçou. O tempo de paragem havia sido suficiente para que o condutor e o revisor comprassem algumas porções de cabrito. O episódio é paradigmático: nos Balcãs jugoslavos, a desorganização é organizada, e a pequena prevaricação nunca chega a incomodar, é apenas feita de desvios inocentes.
Durante mais alguns quilómetros, o Neretva, largo e farto em água, manteve-se ao nosso lado até atravessarmos uma ponte. Depois, à direita da camioneta, acompanhou-nos até à entrada de Mostar. Com os pés na terra, cheirámos o ar, olhámos para o movimento humano e para as curvas de nível arquitectónicas no horizonte. Procurávamos o centro croata, e, como em muitos lugares, usámos todos os sentidos na tarefa, pois, como verificámos alguns minutos depois, há sítios onde as diferenças linguísticas são tão grandes que a mais simples questão se transforma num diálogo de expressões impotentes e sorrisos conformados. Apostámos num caminho, com aquela confiança de andarilho que aumenta com os quilómetros batidos. Atravessámos novamente o Neretva pela ponte situada em frente à estação de camionetas, demos uma moeda a um grupo de crianças ciganas e virámos à esquerda. Durante cerca de dez minutos caminhámos no meio de escombros, de paredes recortadas, sem tecto, muros perfurados, castigados pelas balas. Dez minutos silenciosos, de um silêncio de veneração, apenas quebrado pelo barulho repetitivo das rodas da mala, arrastadas pelo alcatrão de textura lunar. Barulho alegre para aquela rua, habituada a um metralhar menos amigável.
A meio do caminho cruzámo-nos com uma equipa de filmagem. Uma câmara, um microfone. Filmavam as paredes e gravavam o silêncio, como se esperassem um testemunho falado daquele cemitério de lares. Passámos, deixando no ar o barulho da mala.
Finalmente, o alcatrão deu lugar a uma calçada tosca com aspecto secular. Havíamos chegado ao centro histórico de Mostar, belo e afável. No posto de turismo, um telefonema bastou para nos garantir lugar de descanso, a poucos metros, numa imponente casa-pensão. No último andar, a janela virada para um ribeiro, afluente do Neretva, acordava-nos todos os dias com o suave marulhar da água.
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às 11:36 PM
abril 21, 2005
A História de Almir (Integral)
Quis levantar-me, tornei a cair, feliz, desesperadamente feliz por morrer enfim: a morte é fresca e a sua sombra não abriga nenhum deus.
Albert Camus, O Exílio e o Reino
(Versão revista e integral da história publicada em três partes)

Foi numa segunda-feira de Agosto climatericamente instável que, numa camioneta confortável, deixámos Sarajevo com destino a Mostar. Partindo do terminal adjacente à estação de caminho-de-ferro, atravessámos a parte ocidental da cidade e, enquanto nos afastávamos do centro de Sarajevo, os vestígios da recente devastação aumentavam. No bairro turco e arredores a guerra podia ser olvidada, por alguns instantes, pelo menos quando não nos cruzávamos com os ramos de flores abandonados nas pontes e nas ruas da cidade. Mas naqueles quarteirões suburbanos, locais de inúmeras fronteiras passadas e presentes, o drama não tinha esconderijo possível: não era fácil encontrar um edifício dignamente habitável, e, qualquer que fosse o horizonte que contemplássemos, apenas avistávamos colinas onde lobrigávamos, como padrões virginais tecidos a rigor, as pedras brancas dos cemitérios muçulmanos e cristãos. Os primeiros, aparentemente mais caóticos, os segundos, com as suas cruzes dispostas ordeiramente a emular soldados-fantasmas em formaturas de hesitação. Mas, não é o caos uma ordem por decifrar? E a ordem? Onde começa, e onde termina em desordem? Até na morte, esquecidos, privados da individualidade humana, servimos de blocos constituintes incorpóreos para um Lego fúnebre.
Já saíamos de Sarajevo quando o veículo que nos transportava iniciou a subida de uma estrada de montanha, íngreme e sinuosa. A certa altura, uma semicircunferência de alcatrão apontou a camioneta para a cidade, a qual se estendia por um vale imenso perante os olhares serenos dos passageiros. Do lado esquerdo, noutra encosta, um cemitério católico alongava-se até à berma da estrada, ocupando uma parcela de terra consagrada à morte, maior do que qualquer uma que víramos no centro urbano. Construído em socalcos bem visíveis, e passando a poucos metros dos passageiros silenciosos, parecia uma porta de saída lúgubre para aquela cidade ambígua, uma das mais belas e tristes que conhecêramos, e que nos havia despertado sentimentos contraditórios, embora todos eles se mantenham firmemente ancorados na memória, preparados para a reminiscência dócil, e provocando alguma ansiedade por uma viagem de regresso que tarda em chegar. E naquele instante lembrei-me de Almir.
Havíamos jantado com Almir na noite anterior, depois de o termos conhecido, dois dias antes, no Terra Sacra, clube de jazz pequeno e fumarento, gerido por Mirza, um bósnio encorpado, de estatura média, cabeça totalmente rapada e espesso bigode negro. Mirza apaixonara-se pelo jazz no início dos anos oitenta, e algum tempo depois abriu o clube onde começou a tocar bateria. Aos sábados, a sua banda de acid jazz improvisa num canto da sala principal do clube. As mesas são afastadas, Mirza, o teclista, e um dos guitarristas têm direito a lugar sentado, enquanto os outros três membros do grupo ocupam o espaço que podem na exígua e sobrepovoada sala.
Na sexta-feira anterior à nossa partida, quando entrámos pela primeira vez no Terra Sacra, a tarefa dos músicos não parecia tão complicada. A assistência era reduzida e num canto da sala descansavam os instrumentos de um quarteto: bateria, baixo, guitarra e teclas. Sentámo-nos no balcão, virados para a entrada do clube, e pedimos duas Sarajevsko. Os músicos, entretanto, regressavam aos seus lugares. Tocaram duas peças, durante cerca de meia hora, mas apenas quatro pessoas assistiram à performance, incluindo este que vos escreve, a sua companheira de viagem e o homem que nos servia do outro lado da barra.
No final, quando os membros do quarteto se aproximaram do balcão para um merecido descanso, entabulámos uma pequena conversa com o quarto companheiro de audiência. Sem demora, a nós se juntou o baixista da banda, o qual se chamava Almir e estudava música em Sarajevo. Reparámos também que o moço demonstrava uma curiosidade insaciável, bombardeando-nos com perguntas sucessivas sobre a nossa origem, as razões para visitar Sarajevo e a Bósnia, e os aspectos mais mundanos das nossas vidas privadas. Almir, fechado num país instável, com um passaporte que não lhe permitia mais do que um precário acesso à Croácia, queria saber como era “o mundo lá fora”.
Dialogávamos, com a precisão que a língua inglesa, mal dominado por Almir, nos permitia, quando o empregado, atrás do balcão, gentilmente, nos perguntou o que desejávamos ouvir. Sugeri-lhe música tradicional da Bósnia, mas depois da réplica only jazz, não arrisquei mais, e escolhi Miles Davis. A cavaqueira com Almir, embalada pelo trompete mágico de Miles, continuou até às duas da manhã. O Terra Sacra fechou a sua porta, mas prometemos cruzá-la no dia seguinte para conhecer o sexteto de Mirza, e continuar a conversa com o nosso jovem amigo.
No sábado entrámos no bar depois da meia-noite, ainda a tempo de assistir à segunda parte da actuação da banda de Mirza. Foi com surpresa que reparámos em Almir, no meio dos músicos, a dedilhar as cordas da sua viola-baixo. Mais tarde, explicou-nos como fora convidado para participar nos ensaios da banda, e como ficara estupefacto perante a aparente ausência de profissionalismo dos seus companheiros, autodidactas sem freio, movidos pelo delírio criativo e por uma clara disposição para o divertimento puro. Linhas melódicas dando o mote, músicos trocando de instrumentos, e frases que se perdiam quando as batidas se acumulavam. Mas Almir, um estudante clássico de conservatório, acabou por ser atraído pela loucura de Mirza e seus músicos, passando a integrar com regularidade a formação que, aos sábados, animava a noite do Terra Sacra. E, naquela noite de sábado, a casa, cheia, estava animada.
Encostados ao balcão, matávamos saudades da Croácia com Osusko — cerveja leve e amarga, ideal para uma noite de verão — enquanto a banda continuava a sua inusitada actuação, a qual terminou perto das duas da manhã. No final, Almir aproximou-se, saudou-nos e juntou-se a nós. A música passara a ser emitida pelas colunas; Tom Waits começava a celebrar o coração de sábado à noite e cantava I never saw the morning 'til I stayed up all night. Sentados ao balcão, falámos até às quatro da madrugada.
Almir mostrava ser um conversador nato, uma mente jovem, ávida de informação, que apenas o frágil conhecimento da língua (quase) universal que usávamos para comunicar impedia a plena satisfação. Falava da sua vida e indagava sobre a nossa. Descrevia retalhos de uma curta, mas conturbada existência. Com vinte e um anos, estudava no Conservatório de Música de Sarajevo. Especializara-se no contrabaixo, e na altura, durante a fase terminal do seu curso, as perspectivas eram boas: no horizonte, surgia-lhe a Filarmónica de Sarajevo, e até mesmo uma hipótese remota, mas excitante, de rumar para o estrangeiro.
O interesse pela história pessoal do nosso amigo, e pelo modo de vida dos cidadãos da Bósnia, acabou por apontar a conversa no sentido da religião. Embora, por tradição professasse a religião muçulmana, Almir mantinha-se afastado da mesquita e da tirania das orações periódicas, e manifestava apreensão perante o poder crescente do fundamentalismo islâmico, o qual ameaçava (e ameaça) transformar a Bósnia noutro estado teocrático.
Como quase todos os cidadãos bósnios, a vida de Almir fora profundamente afectada pela guerra. Aos pais, o conflito trouxe a invalidez permanente, impedindo-os de prosseguir actividades laborais comuns. A irmã escapara fisicamente incólume à guerra, mas Almir perdeu familiares e amigos, e a casa onde passara o início da sua infância era apenas uma recordação amarga.
A conversa prosseguiu o seu rumo ziguezagueante, em busca do conhecimento e compreensão mútuos. Falávamos de fantasmas, e Tom Waits procurava-os na noite de sábado: And a solitary sailor/ Who spends the facts of his life like small change on strangers...
A noite não terminou sem Almir nos mostrar a sua paixão pela música brasileira e o seu fascínio pela língua portuguesa com pronúncia tropical. Despedimo-nos do Terra Sacra ao ritmo de Tom Jobim. No caminho de regresso ao centro, Almir trauteava temas de Maria Bethânia e de Gal Costa, revelando uma espantosa aptidão para reproduzir, sem mácula, as palavras de uma língua que nenhuma informação lhe transmitia, mas onde, graças à universalidade da música, verdadeiro esperanto da civilização humana, encontrava motivos para alegrar o espírito.
Junto à catedral, a poucos metros do pequeno quarto que albergava Almir na sua aventura académica na capital, despedimo-nos, após assumirmos compromisso para o dia seguinte, o último que passaríamos em Sarajevo, antes de partir para Mostar.
No domingo encontrámo-nos, como havia sido combinado, no mesmo local. O verão já deixara para trás os dias compridos que marcam o solstício, mas o sol ainda estava alto e acompanhou-nos durante o agradável passeio até ao restaurante, através das ruas pitorescas que já nos habituáramos a calcorrear. Caminhámos pela Ferhadija, atravessando Bascarsija, o bairro turco. Chegados à praça com o mesmo nome, entrámos na Bravadziluk e desaguámos junto ao edifício da biblioteca, símbolo resistente, esventrado, do cerco de Sarajevo. Atravessámos a pequena ponte sobre o Miljacka que se encontra a poucos metros da biblioteca, e, do outro lado do rio, na esquina da Isakovica com Alifakovac — uma rua estreita com declive acentuado que termina num enorme cemitério muçulmano — sentámo-nos no terreiro do restaurante escolhido por Almir. Instalado numa pequena casa de dois andares, a dois passos do rio, o Inat Kuća já nos chamara a atenção durante as longas caminhadas diurnas pela cidade. De acordo com o nosso cicerone, era um dos melhores restaurantes de Sarajevo. Talvez ele não estivesse muito longe da verdade.
A ementa percorria o receituário tradicional da Bósnia-Herzegovina. Como muitos restaurantes balcânicos, Inat Kuć é uma benção para os apreciadores da diversidade na mesa. Por isso, aproveitámos a louvável política da casa e pedimos uma combinação com alguns pratos da ementa. Com a comida à frente, cenário perfeito para o prazer da conversa, ouvimos o relato das desventuras de Almir num país em guerra.
O conflito apanhara-o com dez anos de idade, em Krupa, a cidade onde nascera, situada no noroeste da Bósnia, perto da fronteira com a Croácia, numa região de montanhas áridas, mas cujos vales são, no entanto, férteis e verdes. O rio da cidade, segundo as suas palavras, é belo e corre, límpido, entre praias fluviais e rápidos que convidam à canoagem. É uma visão oposta à do Miljacka, sujo e cinzento, galgando a custo pequenas represas cuja função desconheço. Enquanto ouvíamos Almir, mal podíamos distinguir o rumor das suas águas, a correr timidamente nessa noite de agosto.
A região de Krupa, assim como grande parte da Bósnia, foi varrida por conflitos bárbaros, cuja verdadeira história poderá ainda estar por desvendar. Almir contou-nos que, perto da sua cidade, muçulmanos lutaram contra muçulmanos. De facto, no enclave de Bihac, perto de Krupa, o líder Fikret Abdic proclamou, em Agosto de 1993, a autonomia do território. No quinto dia do mês seguinte, confrontos entre as forças leais a Abdic e o exército bósnio muçulmano de Izetbegovic causaram pelo menos onze mortos. Guerra só é guerra quando o irmão mata o irmão. Assim falava Marko, o Tito de Kusturica. Fraternal pode ser um adjectivo pouco apropriado para classificar uma relação, entre povos de diferentes credos, que se tornou destrutiva. Mas, após os acontecimentos de Bihac, a História parece ter demonstrado que a ficção fez-se da realidade.
Com o decorrer da guerra, Almir acabou por abandonar a sua casa. Durante alguns meses sobreviveu com os pais e irmã em subterrâneos escuros e húmidos. Não tinham água potável e o pequeno Almir foi o eleito da família para transportar, todos os dias, dois baldes de água, desde um ribeiro que se encontrava a alguns quilómetros, até aos subterrâneos. Com vinte um anos, quando o conhecemos, não mostrava sinais de possuir extraordinárias aptidões atléticas. Não é estranho, por isso, que com dez anos de idade, o transporte diário de água se tenha transformado rapidamente num tormento fisicamente arrasador. Num desses dias, quando voltava do rio com os dois baldes cheios e se aproximava do final do longo percurso, ouviu uns sons repetitivos e abafados que lhe pareceram alguém a sussurrar com a mão à frente da boca. Enquanto nos descrevia o incidente, Almir colocou a mão em forma de concha à frente dos lábios e tentou imitar aquilo que ouvira, reproduzindo os sons de um morteiro a disparar ao longe. Um segundo após o murmúrio de fogo, várias explosões, a poucos metros do local onde se encontrava, atiraram-no para o chão com a barriga para baixo e os braços a proteger a cabeça, perdendo dessa forma a água que transportava nos baldes. Protegido pela ingenuidade dos seus dez anos, Almir praguejou num monólogo interior: malditos inimigos, agora tenho de voltar ao rio e fazer o caminho todo outra vez.
Mais tarde, os seus pais foram recrutados para o exército, deixando-o no abrigo a cuidar da irmã mais nova. Porventura devido a uma lembrança da solidão e desamparo, Almir descreveu este período, que durou cerca de três meses, com particular gravidade, revelando, pela primeira vez, uma profunda mágoa que até aí havia sido disfarçada por uma personalidade optimista e activa.
Quando os combates finalmente cessaram, a família, recomposta, pôde finalmente voltar para a sua cidade. Durante algum tempo viveram numa casa que pertencera, antes da guerra, a uma família sérvia, pois aquela que habitavam antes de fugir havia sido destruída. Como o orgulho não lhes permitia ficar num sítio que pertencera ao inimigo, começaram a construir, com as suas próprias mãos e com a ajuda de familiares e amigos, uma casa nova. E as duas mãos de Almir eram fundamentais para levar a bom porto a empresa familiar. Mas tudo tem um custo. Após perder três anos de aulas, o trabalho quase diário não lhe permitia progredir com suficiente discernimento para passar o ano. A situação foi resolvida pelo director da escola, amigo da família, que, compreendendo a situação, facilitou a sua transição para a fase seguinte.
O tempo passava e o futuro músico via-se confrontado com a necessidade de escolher um caminho para a vida. Almir contou-nos a conversa com o pai; contou-nos como ele lhe dissera que chegara a altura decidir o que fazer no dia de amanhã, que estudos seguir, que profissão escolher; e contou-nos como brincava com uma velha guitarra com apenas duas ou três cordas intactas. Por um impulso de vocação, decide estudar música e frequenta durante alguns anos uma escola da sua cidade. Mas os problemas gerados por uma guerra não se resolvem com facilidade nem rapidez. O pai e a mãe do jovem estudante de música já revelavam problemas psicológicos pós-traumáticos. E o seu desempenho na escola, que começara por ser bom, degrada-se de dia para dia. Almir começava a ser um aluno normal entre os maus. Deixara-se nivelar por baixo e percorria a vida sem rumo. Com dezasseis anos, passava o tempo a dedilhar a sua guitarra como se de um baixo se tratasse, e bebia meia garrafa de vodca por dia. Não tinha esperança, nem ambição.
Suportando com custo uma existência agonizante, passava todas as tardes por uma loja de música da cidade e pedia para tocar algum tempo com uma viola-baixo exposta, sempre a mesma. Custava cerca de trezentos euros, quantia incomportável para uma família que ainda não recuperara o desafogo passado. Mas Almir continuava a frequentar a loja, pedia o baixo e tocava durante alguns minutos. Um dia, ao sair, cruzou-se com o director da escola que frequentara antes e depois da guerra, o benfeitor de outra ocasião. Algumas horas depois, quando chegou a casa, informaram-no que se devia dirigir imediatamente à loja de música. Intrigado, ainda tentou saber a razão, mas nada foi acrescentado. Lá chegado, encontrou um embrulho em cima do balcão: É para ti, comunicou-lhe a mulher do outro lado, entregando-lhe a viola que o fizera sonhar durante tanto tempo. Parece que, após ter visto Almir sair da loja, o director terá iniciado uma conversa com a dona do estabelecimento e tomou conhecimento das visitas diárias do seu protegido. Após uma conversa com a família de Almir, durante a qual lhe comunicou as suas intenções, o director voltou à loja e, do seu bolso, retirou a quantia necessária para comprar o instrumento. Almir interpretou a situação como um sinal divino e a sua atitude perante a vida mudou radicalmente. Concluiu os estudos secundários com bom aproveitamento e, na escola de Krupa, foi o único no seu ano que conseguiu entrar no Conservatório de Sarajevo, após passar pelos exigentes testes da instituição. O vodca, que no passado ameaçara transformar-se num vício insuperável, passara a servir para animar, juntamente com leves conversas sobre a vida, os reencontros com o pai, durante as férias, quando regressava da capital após mais um semestre de aprendizagem.
O jantar e as histórias chegavam ao fim. Deixámos o Inat Kuć, satisfeitos com o repasto, e demos mais algumas voltas pela cidade. Como no dia anterior, despedimo-nos perto da catedral, com a esperança de nos reencontrarmos num porvir pouco distante. Sem o nosso amigo, dirigimo-nos para o Dino, um restaurante com as portas sempre abertas, perto da biblioteca, onde ficámos até amanhecer, antes de nos recolhermos para umas horas de descanso. No dia seguinte atravessávamos as colinas de Sarajevo numa camioneta silenciosa. Foi nessa altura que me lembrei de Almir.
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às 03:18 AM | Comentários (1)
março 17, 2005
A História de Almir – Parte III
(Directamente de Berlim, a conclusão da História de Almir - ver parte I e II)
No domingo encontrámo-nos, como havia sido combinado, no mesmo local. O verão já deixara para trás os dias compridos que marcam o solstício, mas o sol ainda estava alto e acompanhou-nos durante o agradável passeio até ao restaurante, através das ruas pitorescas que já nos habituáramos a calcorrear. Caminhámos pela Ferhadija atravessando Bascarsija, o bairro turco. Chegados à praça com o mesmo nome, entrámos na Bravadziluk e desaguámos junto ao edifício da biblioteca, símbolo resistente, esventrado, do cerco de Sarajevo. Atravessámos a pequena ponte sobre o Miljacka que se encontra a poucos metros da biblioteca, e, do outro lado do rio, na esquina da Isakovica com Alifakovac - uma rua estreita com declive acentuado que termina num enorme cemitério muçulmano - sentámo-nos no terreiro do restaurante escolhido por Almir. Instalado numa pequena casa de dois andares, a dois passos do rio, o Inat Kuća já nos chamara a atenção durante as longas caminhadas diurnas pela cidade. De acordo com o nosso cicerone, era um dos melhores restaurantes de Sarajevo. Talvez ele não estivesse muito longe da verdade.
A ementa percorria o receituário tradicional da Bósnia-Herzegovina. Como muitos restaurantes balcânicos, Inat Kuć é uma benção para os apreciadores da diversidade na mesa. Por isso, aproveitámos a louvável política da casa e pedimos uma combinação com alguns pratos da ementa. Com a comida à frente, cenário perfeito para o prazer da conversa, ouvimos o relato das desventuras de Almir num país em guerra.
O conflito apanhara-o com dez anos de idade, em Krupa, a cidade onde nascera. Krupa situa-se no noroeste da Bósnia, perto da fronteira com a Croácia, numa região de montanhas áridas, mas cujos vales são, no entanto, férteis e verdes. O rio da cidade, de acordo com as suas palavras, é belo e corre, límpido, entre praias fluviais e rápidos que convidam à canoagem. É uma visão oposta à do Miljacka, sujo e cinzento, galgando a custo pequenas represas cuja função desconheço. Enquanto ouvíamos Almir, mal podíamos distinguir o rumor das suas águas, a correr timidamente nessa noite de agosto.
A região de Krupa, como grande parte da Bósnia, foi varrida por conflitos bárbaros, cuja verdadeira história poderá ainda estar por desvendar. Almir contou-nos que, perto da sua cidade, muçulmanos lutaram contra muçulmanos. De facto, no enclave de Bihac, perto de Krupa, o líder Fikret Abdic proclamou, em Agosto de 1993, a autonomia do território. No quinto dia do mês seguinte, confrontos entre as forças leais a Abdic e o exército bósnio muçulmano de Izetbegovic causaram pelo menos onze mortos. Guerra só é guerra quando o irmão mata o irmão. Assim falava Marko, o Tito de Kusturica. Fraternal pode ser um adjectivo pouco apropriado para classificar uma relação, entre povos de diferentes credos, que se tornou destrutiva. Mas, após os acontecimentos de Bihac, a História parece ter demonstrado que a ficção fez-se da realidade.
Com o decorrer da guerra, Almir acabou por abandonar a sua casa. Durante alguns meses sobreviveu com os pais e irmã em subterrâneos escuros e húmidos. Não tinham água potável e o pequeno Almir foi o eleito da família para transportar, todos os dias, dois baldes de água, desde um ribeiro que se encontrava a alguns quilómetros, até aos subterrâneos. Com vinte um anos, quando o conhecemos, não mostrava sinais de possuir extraordinárias aptidões atléticas. Não é estranho, por isso, que com dez anos de idade, o transporte diário de água se tenha transformado rapidamente num tormento fisicamente arrasador. Num desses dias, quando voltava do rio com os dois baldes cheios e se aproximava do final do longo percurso, ouviu uns sons repetitivos e abafados que lhe pareceram alguém a sussurrar com a mão à frente da boca. Enquanto nos descrevia o incidente, Almir colocou a mão em forma de concha à frente dos lábios e tentou imitar aquilo que ouvira, reproduzindo os sons de um morteiro a disparar ao longe. Um segundo após o murmúrio de fogo, várias explosões, a poucos metros do local onde se encontrava, atiraram-no para o chão com a barriga para baixo e os braços a proteger a cabeça, perdendo dessa forma a água que transportava nos baldes. Protegido pela ingenuidade dos seus dez anos, Almir praguejou num monólogo interior: malditos inimigos, agora tenho de voltar ao rio e fazer o caminho todo outra vez.
Mais tarde, os seus pais foram recrutados para o exército, deixando-o no abrigo a cuidar irmã mais nova. Porventura devido a uma lembrança da solidão e desamparo, Almir descreveu este período, que durou cerca de três meses, com particular gravidade, revelando, pela primeira vez, uma profunda mágoa que até aí havia sido disfarçada por uma personalidade optimista e activa.
Quando os combates finalmente cessaram, a família, recomposta, pôde finalmente voltar para a sua cidade. Durante algum tempo viveram numa casa que pertencera, antes da guerra, a uma família sérvia, pois aquela que habitavam antes de fugir havia sido destruída. Como o orgulho não lhes permitia ficar num sítio que pertencera ao inimigo, começaram a construir, com as suas próprias mãos e com a ajuda de familiares e amigos, uma casa nova. E as duas mãos de Almir eram fundamentais para levar a bom porto a empresa familiar. Mas tudo tem um custo. Após perder três anos de aulas, o trabalho quase diário não lhe permitia progredir com suficiente discernimento para passar o ano. A situação foi resolvida pelo Director da escola, amigo da família, que, compreendendo a situação, facilitou a sua transição para a fase seguinte.
O tempo passava e o nosso amigo via-se confrontado com a necessidade de escolher um caminho para a vida. Almir contou-nos a conversa com o pai; contou-nos como ele lhe dissera que chegara a altura decidir o que fazer no futuro, que estudos seguir, que profissão escolher; e contou-nos como brincava com uma velha guitarra com apenas duas ou três cordas intactas. Por um impulso de vocação, decide estudar música e frequenta durante alguns anos uma escola da sua cidade. Mas os problemas gerados por uma guerra não se resolvem com facilidade nem rapidez. O pai e a mãe do jovem estudante de música já revelavam problemas psicológicos pós-traumáticos. E o seu desempenho na escola, que começara por ser bom, degrada-se de dia para dia. Segundo as suas palavras, começava a ser um aluno normal entre os maus. Deixara-se nivelar por baixo e percorria a vida sem rumo. Com dezasseis anos, passava o tempo a dedilhar a sua guitarra como se de um baixo se tratasse, e bebia meia garrafa de vodca por dia. Não tinha esperança nem ambição.
Suportando com custo uma existência agonizante, passava todas as tardes por uma loja de música da cidade e pedia para tocar algum tempo com uma viola-baixo exposta, sempre a mesma. Custava cerca de trezentos euros, quantia incomportável para uma família que ainda não recuperara o desafogo passado. Mas Almir continuava a frequentar a loja, pedia o baixo e tocava durante alguns minutos. Um dia, ao sair, cruzou-se com o Director da escola que frequentara antes e depois da guerra, o benfeitor de outra ocasião. Algumas horas depois, quando chegou a casa, informaram-no que se devia dirigir imediatamente à loja de música. Intrigado, ainda tentou saber a razão, mas nada foi acrescentado. Lá chegado, encontrou um embrulho em cima do balcão: É para ti, comunicou-lhe a mulher do outro lado, entregando-lhe a viola que o fizera sonhar durante tanto tempo. Parece que, após ver Almir sair da loja, o director iniciou uma conversa com a dona do estabelecimento e tomou conhecimento das visitas diárias do seu jovem protegido. Após uma conversa com a família de Almir, durante a qual lhe comunicou as suas intenções, o Director voltou à loja e, do seu bolso, retirou a quantia necessária para comprar o instrumento. Almir interpretou a situação como um sinal divino e a sua atitude perante a vida mudou radicalmente. Concluiu os estudos secundários com bom aproveitamento e, na escola de Krupa, foi único no seu ano que conseguiu entrar no conservatório de Sarajevo, após passar pelos exigentes testes da instituição. O vodca, que no passado ameaçara transformar-se num vício insuperável, passara a servir para animar, juntamente com leves conversas sobre a vida, os reencontros com o pai, durante as férias, quando regressava da capital após mais um semestre de aprendizagem.
O jantar e as histórias chegavam ao fim. Deixámos o Inat Kuć, satisfeitos com o repasto, e demos mais algumas voltas pela cidade. Como no dia anterior, despedimo-nos perto da catedral, com a esperança de nos reencontrarmos num porvir pouco distante. Sem o nosso amigo, dirigimo-nos para o Dino, um restaurante com as portas sempre abertas, perto da biblioteca, onde ficámos até amanhecer, antes de nos recolhermos para umas horas de descanso. No dia seguinte, atravessávamos as colinas de Sarajevo numa camioneta silenciosa. Foi nessa altura que me lembrei de Almir.
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às 08:16 AM | Comentários (2)
fevereiro 09, 2005
A História de Almir – Parte II
(continuação)
No sábado entrámos no Terra Sacra depois da meia-noite, ainda a tempo de assistir à segunda parte da actuação da banda de Mirza. Foi com surpresa que reparámos em Almir, no meio dos músicos, a dedilhar as cordas da sua viola-baixo. Mais tarde, explicou-nos como fora convidado para participar nos ensaios da banda, e como ficara estupefacto perante a aparente ausência de profissionalismo dos seus companheiros, autodidactas sem freio, movidos pelo delírio criativo, e por uma clara disposição para o divertimento puro. Linhas melódicas dando o mote, músicos trocando de instrumentos, e frases que se perdiam quando as batidas se acumulavam. Mas Almir, um estudante clássico de conservatório, acabou por ser atraído pela loucura saudável de Mirza e seus músicos, passando a integrar com regularidade a formação que, aos sábados, animava a noite do Terra Sacra. E, naquela noite de sábado, a casa, cheia, estava animada.
Encostados ao balcão, matávamos saudades da Croácia com Osusko — cerveja leve e amarga, ideal para uma noite de verão — enquanto a banda continuava a sua inusitada actuação, a qual terminou perto das duas da manhã. No final, Almir aproximou-se, saudou-nos e juntou-se a nós. A música passara a ser emitida pelas colunas; Tom Waits começava a celebrar o coração de sábado à noite e cantava I never saw the morning 'til I stayed up all night. Sentados ao balcão, falámos até às quatro da madrugada.

Almir mostrava ser um conversador nato, uma mente jovem, ávida de informação, que apenas o frágil conhecimento da língua (quase) universal que usávamos para comunicar impedia a plena satisfação. Falava da sua vida e indagava sobre a nossa. Descrevia retalhos de uma curta mas conturbada existência. Com vinte e um anos, estudava no Conservatório de Música de Sarajevo. Especializara-se no contra-baixo, e na altura, durante a fase terminal do seu curso, as perspectivas eram boas: no horizonte, surgia-lhe a Filarmónica de Sarajevo, e até mesmo uma hipótese remota, mas excitante, de rumar para o estrangeiro.
O interesse pela história pessoal do nosso amigo, e pelo modo de vida dos cidadãos da Bósnia, acabou por apontar a conversa no sentido da religião. Embora, por tradição, professasse a religião muçulmana, Almir mantinha-se afastado da mesquita e da tirania das orações periódicas, e manifestava apreensão perante o poder crescente do fundamentalismo islâmico, o qual ameaçava (e ameaça) transformar a Bósnia noutro estado teocrático.
Como quase todos os cidadãos bósnios, a vida de Almir fora profundamente afectada pela guerra. Aos pais, o conflito trouxe a invalidez permanente, impedindo-os de prosseguir actividades laborais comuns. A irmã escapara fisicamente incólume à guerra, mas Almir perdeu familiares e amigos, e a casa onde passara o início da sua infância era apenas uma reminiscência amarga.
A conversa prosseguiu o seu rumo ziguezagueante, em busca do conhecimento e compreensão mútuos. Falávamos de fantasmas, e Tom Waits procurava-os na noite de sábado: And a solitary sailor/ Who spends the facts of his life like small change on strangers...
A noite não terminou sem Almir nos mostrar a sua paixão pela música brasileira e o seu fascínio pela língua portuguesa com pronúncia tropical. Despedimo-nos do Terra Sacra ao ritmo de Tom Jobim. No caminho de regresso ao centro, Almir trauteava temas de Maria Bethânia e de Gal Costa, revelando uma espantosa aptidão para reproduzir, sem mácula, as palavras de uma língua que nenhuma informação lhe transmitia, mas onde, graças à universalidade da música, verdadeiro esperanto da civilização humana, encontrava motivos para alegrar o espírito.
Junto à catedral, a poucos metros do pequeno quarto que albergava Almir na sua aventura académica na capital, despedimo-nos, após assumirmos compromisso para o dia seguinte, o último que passaríamos em Sarajevo, antes de partir para Mostar.
(continua)
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às 02:00 AM | Comentários (2)
janeiro 17, 2005
A Rotina
A rotina mata. A existência quotidiana é desabrida. Passaram quatro meses e alguns dias desde o regresso de uma viagem que se prolongou por quatro semanas. Meses insuportáveis, sem final à vista. Hoje, trocava esta vivença enfadonha, estes dias curtos do inverno lisboeta que nos apertam dentro de uma modorra austera, pela camioneta que, num episódio caricato e fisicamente devastador, nos levou de Timisoara a Belgrado. Trocava estes minutos insípidos, que me atravessam sem agitação, pelas doze horas que mediaram o início da inesquecível jornada e a chegada a Belgrado, num começo de manhã, cento e sessenta (!) quilómetros mais à frente, noutra viatura, mais cómoda e mais adequada ao grau de civilização europeu. Trocava o aconchego caseiro, que me protege do relento tímido do exterior, por aquela fronteira que separa a Roménia da Sérvia, por aquele amanhecer, entre contrabandistas e polícias corruptos, que nos tocava nos ossos com um frio de verão tão áspero como inesperado. Trocava. Trocava tudo para aportar em Belgrado e subir, como naquela manhã de Agosto, por ruas orgulhosamente envelhecidas, a colina que conduz ao centro da cidade. Chegado à esquina da Prizrenska com a Terazije, instalar-me-ia no Hotel Balkan, dormiria algumas horas antes de um banho reanimador, e sairia directamente para o vórtice pacífico que invade as ruas da cidade quando a tarde se aproxima da noite. Lá, entre bazares e cevavpcici, entre o Sava e o Danúbio, sei que encontraria a desejada face da serenidade.

Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às 10:53 PM | Comentários (3)
outubro 28, 2004
A História de Almir – Parte I
(Continuação dos relatos balcânicos, iniciados aqui, interrompidos no início de Agosto por uma boa causa, e retomados hoje com a história, há muito prometida, de um sobrevivente . A partir de agora, estes textos ficam reunidos numa categoria independente – ver coluna da direita.)
Foi numa segunda-feira de Agosto climatericamente instável que, numa camioneta confortável, deixámos Sarajevo com destino a Mostar. Partindo do terminal adjacente à estação de caminho-de-ferro, atravessámos a parte ocidental da cidade e, enquanto nos afastávamos do centro de Sarajevo, os vestígios da recente devastação aumentavam. No bairro turco e arredores a guerra podia ser olvidada, por alguns instantes, pelo menos quando não nos cruzávamos com os ramos de flores abandonados nas pontes e nas ruas da cidade. Mas naqueles quarteirões suburbanos, locais de inúmeras fronteiras passadas e presentes, o drama não tinha esconderijo possível: não era fácil encontrar um edifício dignamente habitável, e, qualquer que fosse o horizonte que contemplássemos, apenas avistávamos colinas onde lobrigávamos, como padrões virginais tecidos a rigor, as pedras brancas dos cemitérios muçulmanos e cristãos. Os primeiros, aparentemente mais caóticos, os segundos, com as suas cruzes dispostas ordeiramente a emular soldados-fantasmas em formaturas de hesitação. Mas, não é o caos uma ordem por decifrar? E a ordem? Onde começa, e onde termina em desordem? Até na morte, esquecidos, privados da individualidade humana, servimos de blocos constituintes incorpóreos para um Lego fúnebre.
Já saíamos de Sarajevo quando o veículo que nos transportava iniciou a subida de uma estrada de montanha, íngreme e sinuosa. A certa altura, uma semicircunferência de alcatrão apontou a camioneta para a cidade, a qual se estendia por um vale imenso perante os olhares serenos dos passageiros. Do lado esquerdo, noutra encosta, um amplo cemitério católico alongava-se até à berma da estrada, ocupando uma parcela de terra consagrada à morte, maior do que qualquer uma que víramos no centro urbano. Construído em socalcos bem visíveis, e passando a poucos metros dos passageiros silenciosos, parecia uma porta de saída lúgubre para aquela cidade ambígua, uma das mais belas e tristes que conhecêramos, e que nos havia despertado sentimentos contraditórios, embora todos eles se mantenham firmemente ancorados na memória, preparados para a reminiscência dócil, e provocando alguma ansiedade por uma viagem de regresso que tarda em chegar. E naquele instante lembrei-me de Almir.

Havíamos jantado com Almir na noite anterior, depois de o termos conhecido, dois dias antes, no Terra Sacra, clube de jazz pequeno e fumarento, gerido por Mirza, um bósnio encorpado, de estatura média, cabeça totalmente rapada e espesso bigode negro. Mirza apaixonara-se pelo jazz no início dos anos oitenta, e algum tempo depois abriu o clube onde começou a tocar bateria. Aos sábados, a sua banda de acid jazz improvisa num canto da sala principal do clube. As mesas são afastadas, Mirza, o teclista e um dos guitarristas têm direito a lugar sentado, enquanto os outros três membros do grupo ocupam o espaço que podem na exígua e sobrepovoada sala.
Na sexta-feira anterior à nossa partida, quando entrámos pela primeira vez no Terra Sacra, a tarefa dos músicos não parecia tão complicada. A assistência era reduzida e num canto da sala descansavam os instrumentos de um quarteto: bateria, baixo, guitarra e teclas. Sentámo-nos no balcão, virados para a entrada do clube, e pedimos duas Sarajevsko. Os músicos, entretanto, regressavam aos seus lugares. Tocaram duas peças, durante cerca de meia hora, mas apenas quatro pessoas assistiram à performance, incluindo este que vos escreve, a sua companheira de viagem e o homem que nos servia do outro lado da barra.
No final, quando os membros do quarteto se aproximaram do balcão para um merecido descanso, entabulámos uma pequena conversa com o quarto companheiro de audiência. Sem demora, a nós se juntou o baixista da banda, o qual se chamava Almir e estudava música em Sarajevo. Reparámos também que o moço demonstrava uma curiosidade insaciável, bombardeando-nos com perguntas sucessivas sobre a nossa origem, as razões para visitar Sarajevo e a Bósnia, e os aspectos mais mundanos das nossas vidas privadas. Almir, fechado num país instável, com um passaporte que não lhe permitia mais do que um precário acesso à Croácia, queria saber como era “o mundo lá fora”.
Dialogávamos, com a precisão que a língua inglesa, mal dominado por Almir, nos permitia, quando o empregado, atrás do balcão, gentilmente, nos perguntou o que desejávamos ouvir. Sugeri-lhe música tradicional da Bósnia, mas depois da réplica only jazz, não arrisquei mais, e escolhi Miles Davis. A cavaqueira com Almir, embalada pelo trompete mágico de Miles, continuou até às duas da manhã. O Terra Sacra fechou a sua porta, mas prometemos cruzá-la no dia seguinte para conhecer o sexteto de Mirza, e continuar a conversa com o nosso jovem amigo.
(continua)
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às 11:31 PM
julho 29, 2004
Memórias de Sarajevo: Adi, o presidente do F.C Hrdi
Se queremos conhecer alguém, perguntamos-lhe qual é a sua história - a sua história verdadeira e íntima porque cada pessoa é uma biografia, é uma história. Cada pessoa é uma narrativa única que é contínua e inconscientemente construída por cada um de nós através de cada um de nós, das nossas percepções, sensações, pensamentos, acções e também do discurso, da narrativa oral. Biológica e psicologicamente não somos assim tão diferentes uns dos outros, historicamente, como narrativas, cada um de nós é um ser único.
Oliver Sacks, O homem que confundiu a mulher com um chapéu
Eram onze da noite, da nossa primeira noite em Sarajevo quando entrámos numa pequena taberna do bairro turco. Lá dentro, dois homens, numa mesa, preparavam-se para comer cevapcici. Um, mais novo, com um cabelo negro cujo corte nos fazia recuar duas décadas, encontrava-se virado para nós, quando entrámos; o mais velho tinha cabelo grisalho, constituição forte, e alguma obesidade trazida pela idade. Não havia mais clientes na sala ampla. O ambiente sugeria que o estabelecimento, apesar da porta aberta, poderia estar encerrado ou quase a encerrar. A maioria das casas no bairro turco fechavam por volta daquela hora. Entrámos timidamente e olhámos para o homem mais novo que, imediatamente, e sem trocarmos uma palavra, apontou os seus braços abertos e amistosos para as mesas vazias. Sentámo-nos no canto oposto da sala e pedimos duas Sarajevskos.
A sala estava decorada com fotografias de futebolistas anónimos e a parede em frente da porta de entrada recebia o cliente com uma bola de futebol, privada de uma dimensão e reduzida a uma bolacha enorme com brilho próprio. Manifestámos o desejo de fotografar a bola, mas o acanhado pedido transformou-se, em poucos segundos, numa sessão de retratos, com a bola e sem a bola, e explorando os diferentes pares que quatro pessoas podem engendrar. Era evidente que estávamos na sede de um pequeno clube de futebol, e nem teria sido necessário ver o homem mais novo apontar para o seu colega grisalho e anafado, ouvi-lo refrulhar “presidente” com um sotaque eslavo, e seguir o seu olhar até a um cartaz onde lemos “F.C. Hrdi”, para o entender. No instante seguinte, o presidente da agremiação pediu ao seu companheiro para nos trazer mais duas cervejas: oferta da casa. Este, serviu-nos, despediu-se de nós e do presidente, e deixou-nos, em mesas diferentes da sala. Pouco depois, após leve insistência, o presidente sentava-se junto de nós. Adi era o seu nome.
Adi não falava inglês, apenas entendia algumas palavras universalmente conhecidas. No entanto, conversámos até às três da manhã, despojando, com a sua voluntariosa ajuda, o frigorífico das Sarajevskos que tão bem o compunham quando entráramos.
Adi falou-nos do filho, o qual, segundo entendi, era um campeão local de judo. Desvendados os meus antecedentes desportivos, Adi tentou convencer-me a regressar num dos dias seguintes, entrar no tatami e defrontar o seu campeão. De nada me valeu argumentar que a astúcia com que a idade, eventualmente, me agraciou poderia não ser suficiente para resistir, sem mazelas, à impetuosidade e energia dos vinte anos do seu filho. Eram inúteis as minhas esquivas. Aparentemente, estava condenado à humilhação no tapete do F.C. Hrdi. Consegui, no entanto, arrancar de Adi a promessa de uma oferta: um cachecol do clube.
A noite foi longa. Trocámos palavras, esgares e sorrisos. Contámos e ouvimos histórias, conscientes da distorção imposta pelo canal, o qual acrescentava sinais de fantasia a narrativas concretas. Adi emocionou-se com uma infeliz tentativa de entender as suas origens étnicas (a mãe morrera há pouco tempo; regressamos ao problema da curiosidade, e do seu difícil doseamento) e emocionou-nos quando, na despedida, se recusou a receber qualquer pagamento pelo consumo efectuado na casa. Toda a nossa insistência, todo o nosso constrangimento foram inúteis. Adi não estava disposto a receber dinheiro das nossas mãos. Sem intencionalidade, já lhe havíamos dado, de alguma forma que desconhecemos, aquilo que ele desejava de nós.
(No resto da viagem, em Sarajevo e Mostar, lidámos várias vezes com esta generosidade aparentemente congénita. Desinteressada e inesperada, a dádiva é um modo de vida na Bósnia-Herzegovina, e não aparece associada a nenhum tipo de discriminação positiva ou incómoda. Aos passearmos nas ruas de muitas cidades do leste europeu e do oriente, a indiferença com que somos recebidos pode parecer quase ofensiva a viajantes etnocêntricos, a fervorosos crentes nas virtudes de anfitrião do seu povo, se feitas de afagos, subserviência ou exploração (ou, como na maior parte dos casos, feitas da conjunção destas três condutas), ou aos perseguidores de emoções fortes (tecidas, muitas vezes, pelo sofrimento alheio e mal escondido). A sensação de integração fácil e diluição imediata na massa humana, acompanhada por um refrescante sentido de ser “estranho”, não foi tão evidente em Sarajevo ou Belgrado como o foi em Seoul, onde caminhava sozinho, durante horas, sem que uma alma urbana levantasse os olhos para incomodar, com o seu olhar curioso, o solitário ocidental que se movia em ruas remotas da cidade, destoando, clamorosamente, das fisionomias que o rodeavam Mas, de certa forma, a sensação de ser um estranho e, ao mesmo tempo, de estar integrado na engrenagem da cidade, acompanha-me nas viagens balcânicas. E, tal como aconteceu num memorável final de tarde, no bar dos “poetas e artistas”, em Seoul (outra história...tantas histórias), uma mão amiga pode, a qualquer momento, puxar-nos para o seu lado, e contar-nos a sua história, partilhar a sua refeição, ou apenas oferecer-nos a sua companhia. A isso, ao que encontrei nos Balcãs, chamo generosidade, e ensinou-me a lidar convenientemente com a posse material e privada. Desde há alguns anos, a minha relação com aquilo que possuo tem-se degradado com uma celeridade evidente. Mas quando comecei a caminhar para oriente, e a conhecer a magnanimidade daqueles que pouco têm para dar para além de um par de horas de conversa, a relação piorou, e sinto agora um desejo inconsolável de abandonar o carro na Ponte Vasco da Gama e regressar a pé para uma casa que não possa chamar minha.
Por que razão temos esta avidez pela posse de bens, imóveis, ou com valor elevado e de aquisição quase cerimonial? Enriquecem-nos ou são um sintoma da nossa pobreza? Trazem-nos conforto ou disfarçam o desconforto inerente à própria existência? (O conforto, sempre o conforto, e Melville como memória recorrente.) Será que uma vida de arrecadação material disfarça uma vida sem histórias?
Não conheço a resposta a estas questões. Mas tenho sido brindado com belas histórias, curtas e longas, alegres e tristes. Histórias falsas e verdadeiras, histórias de cariz visual ou auditivo, táctil ou olfactivo. E cada narrativa substitui um desejo material fútil, moldado por anos de cultura estéril.)
Num dos dias seguintes, como prometêramos, regressámos ao F.C. Hrdi. Mas, nessa e noutra tentativas que fizemos para rever Adi, encontrámos uma porta fechada. Não é uma situação pouco habitual nos Balcãs. Nessa região em constante convulsão só existe uma regra: não há regras. Se uma casa, num determinado dia, se mantém aberta até de madrugada, nada garante que a história se repita brevemente, nem sequer que a casa abra nos dias seguintes. O serviço é feito à medida da vontade e da disposição (mas com todo o profissionalismo que uma relação com o cliente exige). Haverá melhor forma de o fazer?
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às 02:53 PM | Comentários (1)
julho 24, 2004
Memórias de Sarajevo: Uma Noite Romani
Uma cidade é um emaranhado de milhões de histórias minúsculas juntas com outras, maiores.
Olivier Rolin, O Cerco de Cartum
Procurávamos um local para descansar o corpo e acalmar o estômago, após mais um intenso dia em Sarajevo. A noite já ia avançada e, mesmo para uma refeição ligeira, apenas restava uma macheia de casas abertas no bairro turco (mas, pelo menos duas, recebem clientes durante as vinte e quatro horas diárias). Passávamos numa pequena rua, perto da biblioteca, quando reparámos num grupo sentado numa mesa, no exterior de um pequeno restaurante. A ambiência tinha laivos de convívio mediterrânico: restos de saladas e carnes grelhadas espalhados pela mesa, guitarras em repouso junto a uma parede, roupas leves e um calor abrasador. Entrámos e averiguámos se seria possível trincar algo. Da referida mesa levantaram-se os responsáveis pela casa. Já não havia clientes. A reunião que se expunha no exterior era quase familiar e agregava pessoas ligadas, directa ou indirectamente, ao restaurante.
Com a garantia da satisfação dos nossos desejos, escolhemos uma mesa no interior e sentámo-nos, enquanto, lá fora, no único espaço de amesendação disponível, o sereno banquete continuava. Em poucos minutos, a curiosidade alastrou, a nossa origem passou de boca em boca, e, vindo da esplanada, um homem abeirou-se da nossa mesa. Choveram perguntas de um lado e perguntas do outro. O seu nome, embora tenha sido transmitido, perdeu-se para sempre nos esconderijos longínquos da memória. O nosso interlocutor, emigrado na Itália e de férias na sua terra natal, ganhava a vida como cantor. Tendo sido relativamente célebre na Bósnia, as vicissitudes da vida obrigaram-no a deixar o seu país. Cantaria agora na rua, em casamentos, em baptizados? Ou nalguma banda de cunho étnico e exótico? Nunca o saberemos. Na viagem, a curiosidade convive com a contemplação, com os estímulos sensoriais e com a meditação, num equilíbrio precário e estimulante. Exagere-se o peso dado a um dos graus de liberdade e a experiência única da jornada perde-se em solilóquios mentais absurdos.

Mas ficámos a conhecer a sua voz, muito bem tratada e de timbre versátil, pois, logo após o curto diálogo, o cantor, com meia dúzia de palavras intraduzíveis, conseguiu sentar, a poucos metros do improvável grupo que formávamos, dois homens e duas guitarras. Durante mais de uma hora, enquanto nos debruçávamos nos cevapcici e nas Sarajevskos, ouvimos o agradável e inesperado desempenho do improvisado grupo.
A tez muito morena dos três músicos já nos haviam sugerido que algum sangue cigano poderia correr nas veias daqueles homens. As harmonias e as melodias dedilhadas nos instrumentos (e que nos chegaram a provocar reminiscências andaluzes), e o ímpeto vocal do cantor, umas vezes à beira do sofrimento delirante, outras com uma alegria feroz, deixaram-nos as dúvidas à beira da certeza: foi um universo romani que encontrámos naquele pequeno restaurante de Sarajevo, escondido nos arrabaldes do Bašcaršija.
Indiferente às nossas cogitações, a actuação continuava, sem percalços, em grande ritmo. Por vezes, as músicas assumiam proporções épicas, com prolongadas vocalizações a sugerir intermináveis cavalgadas por planícies búlgaras e por montanhas jugoslavas. Outras vezes, o cantor retirava-se, deixando o ambiente, mais ameno, entregue aos dois guitarristas. As melodias, tal como o nome do nosso amigo, foram esquecidas. Vagueiam algures pelos lobos temporais dos nossos cérebros, à espera que uma hipermnésia as liberte dos seus grilhões neuronais.
A actuação terminou quando um dos músicos, cansado de olhar para os cigarros a consumirem-se entre o Mi e o Lá da cravelha, se ergueu da cadeira, decidido a apreciar, na esplanada, o tabaco amortalhado em toda a sua plenitude e comprimento.
Mas a música não acabaria aí. Decidido a mostrar a sua arte, o cantor, antes de se juntar aos companheiros, deixou-nos, na televisão da sala, uma gravação de um espectáculo de aspecto datado, em que o gosto duvidoso dos cenários e figurinos pediam meças a qualquer festival Eurovisão da canção. Percebemos que o nosso amigo apareceria a qualquer momento nas imagens (houve tentativas frustadas de colocar a fita no local exacto da sua actuação). Há muito que nos encontrávamos sozinhos no interior da casa, e lá fora, as mesmas pessoas que encontráramos um par de horas antes, já se haviam reagrupado na sua tertúlia, quando o som do televisor, controlado por alguém no exterior da sala irrompeu, inesperadamente, num alarido ensurdecedor. No écrã, o nosso amigo cantor, que acusava uma juventude há alguns anos perdida, e a sua banda, debitavam um ritmo balcânico de camioneta, uma espécie de turbo-folk inocente, conceito que não me é fácil descrever com palavras, mas cujo termo não augura boas perspectivas. O turbo-folk, desfiguração popular e oportunista da música tradicional da Bósnia, era desprezado por Almir, mas animava alguns recantos da noite de Sarajevo, acompanhado por luzes negra de cabaré barato, e aplaudido por uma audiência que, mesmo escondida pela escuridão dos recintos, não deixava de transmitir uma certa sordidez.
Pouco depois despedimo-nos, levando connosco um convite para regressar no dia seguinte, e assistir a um espectáculo do cantor, desta vez programado e planeado para animar os clientes da chafarica. Mas uma viagem faz-se de imprevistos e, no dia seguinte, à hora marcada, estávamos, provavelmente, retidos por outra situação igualmente sedutora.
Carlos Miguel Fernandes
P.S. Carlos Paredes morreu. Sei que cumpri a minha missão, noutra cidade e noutras histórias. Mas eu, por não agitar bandeiras e por desejar viver em Espanha, não sou patriota. Obviamente. Porque patriotas devem ter sido aqueles que, sob o lema Deus, Pátria e Família, tão bem o “trataram”, noutros tempos e noutras vontades.
Publicado por CMF às 10:30 AM
julho 20, 2004
Sarajevo: Dobro Dosli
Sarajevo começou, para nós, num pátio interior, cuja entrada se situava na Marsala Tita, e onde supúnhamos que encontraríamos um centro de informações. Lá dentro, um enorme cartaz recebia-nos de braços abertos: Dobro Dosli. Ao lado, buracos feitos por balas. Em cima, buracos feitos por balas. No prédio em frente, a poucos metros do cartaz, a visão era a mesma. Ter-se-ia desenrolado, cara a cara, vizinho contra vizinho, naquele pátio, alguma batalha privada, algum combate fratricida, representante menor, mas de inegável fidelidade, de uma guerra autófaga? Guerra não é guerra enquanto irmão não mata irmão, dizia Marko (Miki Manojlovic), no Underground, de Kusturika, depois ter sido espancado, até à condição de moribundo, pelo seu irmão Ivan (Slavko Stimac), num dos cenários mais terríveis, conquanto minimalista, da História do Cinema. Ali, naquele pátio de Sarajevo, onde serenamente se montavam, pela manhã, as esplanadas de alguns cafés, irmãos mataram irmãos.
Sarajevo recomeçou, algumas horas mais tarde, no coração do Bašcaršija, na praça com o mesmo nome, entre o bazar que se estende por todo o bairro. De frente para o rio, o adepto das grandes caminhadas urbanas pode virar à esquerda, e seguir pela Sarači, percorrendo mais uma centena de metros no meio das lojas de características muçulmanas e orientais (informalmente, o Bašcaršija ganhou a designação de “bairro turco”). Quando a Sarači dá lugar à Ferhadija, o bazar é substituído pelo comércio moderno e a arquitectura secular e aprazível do bairro turco cede o seu espaço a edifícios mais prosaicos. As pequenas praças e jardins sucedem-se a um ritmo regular, e por vezes, nos seus espaços, joga-se xadrez, no chão, com peças cujas dimensões nos transportam para os universos da Alice, de Lewis Carrol.
Da praça Bašcaršija, o viajante pode ignorar a Sarači e optar por percorrer a Bravadžiluk, embevecer-se pelos cheiros exóticos dos restaurantes bósnios, e, chegado à biblioteca de Sarajevo, poderá apreciar a beleza e o estilo ecléctico da mais representativa estrutura da cidade, edificada em 1896 e quase destruída na guerra de 1992-95. Do outro lado do rio, junto à ponte mais próxima, poderá avistar a esplanada ribeirinha e a pitoresca casa de dois andares do restaurante Inat Kuca, onde jantámos com Almir, no nosso último dia em Sarajevo, e onde fomos recebidos com uma refeição encantadora.
A deambulação do viajante, em Sarajevo, é atraída inevitavelmente pelo bairro turco, pelo seu bazar, pelo cheiro a carne grelhada que se escapa das Cevabdzinica que, em cada esquina, se mostram ao viajante, pelas esplanadas da praça central, e pelos locais de culto, cuja variedade reflecte o carácter pluri-religioso da cidade, embora, naturalmente, a religião muçulmana domine a área, com algumas mesquitas e o apelo à oração, que ecoa com alguma regularidade nas paredes da cidade.
Mas os mais curiosos não resistirão à tentação de meter os pés noutras ruas e iniciar uma procura, sem sentido nem ambição evidente, pelas franjas do centro da cidade. Aí, dificilmente encontrarão motivos para a alegria ou festejo. A realidade é dura e encontra-se a poucos passos de Bašcaršija. Os rostos passam pesados por nós, as casas revelam a condição de quem as habita e os cemitérios são omnipresentes e opressivos. Estão lá para nos lembrar, como as flores largadas, à laia de luto público, nas ruas e nas pontes de Sarajevo, que, daquelas colinas, já vieram outras coisas para além de uma paisagem serena.
A Noite
A noite de Sarajevo pode começar no bairro turco, num restaurante ou numa Cevabdzinica, mas acabará certamente, para os mais resistentes, em Skenderija, nome de rua e de bairro.
Skenderija, na margem sul do rio Miljacka, alberga inúmeras e diversificadas casas de diversão nocturna. Qualquer gosto poderá ser satisfeito nesse local. Mas o No Mundo deixou-se seduzir pelo Terra Sacra, uma cave pequena e fumarenta, onde o jazz dita a sua lei, quer venha do sistema sonoro da casa, quer da arte dos executantes que enriquecem o ambiente do clube. No bosnian music, only jazz foi a resposta que o empregado de bar me deu quando, depois de me perguntar se eu desejava escolher um disco, eu lhe respondi afirmativamente sugerindo-lhe música tradicional da Bósnia. Sem correr grandes riscos, após a recusa, fiquei-me por Miles Davis.
Foi no Terra Sacra que, numa noite de sexta-feira, conhecemos Almir, o baixista da banda residente. Muçulmano, vinte e um anos (no verão de 2003) e estudante no Conservatório de Sarajevo, Almir é um exemplo para quem insiste em associar o islamismo, mais do que as outras religiões, ao fundamentalismo: Almir não se vira para Meca quando os altifalantes das mesquitas assim o ordenam, bebe álcool, tem uma relação serena, feita de cordialidade e tratamento igualitário, com as mulheres, e demonstrou, nos poucos dias que com ele convivemos, um desejo sôfrego de conhecer outros países, outras gentes e outras culturas. Nesse dia, e naqueles que se seguiram, Almir contou-nos a história da sua jovem e atribulada vida. Já pensei em falar de Almir, e já referi o assunto neste blogue. Mas não é fácil. Não sou um contador de histórias e os acontecimentos em causa não merecem palavras demasiadamente emotivas ou inconsequentes. As palavras são a essência de uma história, são os seus blocos constituintes básicos. Não aproveitar a sua pureza para depurar uma narrativa como a de Almir é um atentado à memória daqueles dias. Não prometo contá-la, mas prometo tentar.
Quem não ficar extenuado com o ambiente arrebatador do Terra Sacra, especialmente aos sábados, quando a banda de Mircea, o proprietário do bar, sobe ao palco (“subir ao palco” é apenas uma expressão, porque palco é coisa que não se encontra ali; os músicos encaixam-se no espaço disponível, e tentam afastar-se dos clientes que passam de um lado para o outro de uma sala com cerca de trinta metros quadrados e um grande bar em forma de U no centro), pode ainda regressar a Bašcaršija e encontrar, a poucos metros da biblioteca e do rio, o Dino, um restaurante com uma esplanada acolhedora, que mantém as suas portas abertas durante as vinte e quatro horas que dura um dia. Nas noites quentes de verão, os viajantes podem esperar que os primeiros raios de sol se revelem por trás das colinas, enquanto conversam sobre os recheados e empolgantes dias de Sarajevo. Com alguma sorte, outra ave nocturna e solitária, outro pobre insone cujo ritmo circadiano ronde as vinte e cinco horas, os interpelará, tentando estabelecer uma conversa que, apesar das dificuldade inerentes à condição linguística dos intervenientes, lhes deixará recordações fortes e surpreendentes. E que bem que, nessa altura, Edward Hopper os retrataria, sem o charme de Bogart ou Marilyn, sem a solidão cortante de um restaurante lucífugo norte-americano, mas com a energia misteriosa e estimulante dos encontros fugazes, e com a cumplicidade do olhar, quando os brindes se celebram em línguas diversas.

Carlos Miguel Fernandes
Notas:
1) Detectámos erros no texto De Belgrado a Sarajevo. Em Sarajevo, dormimos na pensão Zem-Zem (e não Szem-Szem), que fica na rua Mula Mustafe Baseskije (é um prolongamento da Marsala Tita, mas aparece claramente com outro nome em qualquer mapa da cidade). Os erros serão devidamente corrigidos.
2) Cevabdzinicas são pequenos e simples restaurantes onde se pode comer, entre outras coisas, cevapcici.
3) A referência conjunta a Hopper, Bogart e Marilyn Monroe está relacionada com um famoso pastiche da obra “Nighthawks”.
Publicado por CMF às 04:58 AM | Comentários (5)
julho 12, 2004
De Belgrado a Sarajevo

A noite já caíra quando deixámos Belgrado, rumando para Sarajevo. Para trás ficava uma cidade difícil, muito difícil. No meu bloco de notas, alguns dias depois, escrevi: “Belgrado é uma cidade fraca”. Hoje não concordo com as minhas próprias palavras, as quais podem ter sido influenciadas pelo calor infernal (durante os quatro ou cinco em que permanecemos em Belgrado as temperaturas não desceram abaixo dos trinta graus, nem durante a noite), por uma organização urbana pouco habitual na Europa (que nos obrigava a percorrer quilómetros sem entender a estrutura e organização da urbe), e por uma lentidão e monotonia nocturna que contrastavam com a grande agitação dos dias de Belgrado e que, segundo nos contaram, se deve ao quase universal êxodo de Agosto. A forma como os habitantes da capital da Sérvia partilham e usufruem dos espaços comuns devia ser um exemplo para os cidadãos deste país de sol e praias onde vivemos. No verão, as praças e esplanadas de Belgrado são invadidas, a partir do meio da tarde, por uma multidão esfuziante e ansiosa por afogar a aflição da canícula com todo o tipo de líquidos: desde a água morna das fontes até às leves e deliciosas canecas de cerveja Jelen Pivo. Aqueles que se entusiasmaram, nos últimos dias, com as cores e animação das ruas portuguesas deviam viajar um pouco pela Europa. (Mas receio que, para muitos, apenas um bombardeamento da NATO os poderá acordar desta espécie de letargia em que se deixaram cair). Mas deixemos Belgrado, e a descrição das suas virtudes e pecados, para outra ocasião.
Despedimo-nos de Belgrado numa camioneta no limite do conforto e lotada. A viagem nocturna não foi uma opção, foi ditada pelos bilhetes disponíveis. Em poucos minutos saímos da cidade e iniciámos o nosso périplo pela Sérvia até à fronteira com a Bósnia. O percurso, ao som dos frenéticos ritmos balcânicos debitados pelo sistema de som da viatura, foi pontuado por pequenas vilas e aldeias, cujo nome nas placas, se existia, não era visível através da escuridão. Mas em cada terra, no breu, era sempre visível a luz esverdeada de uma mercearia, vazia, misteriosa, mas de portas franqueadas durante toda a noite, disponível para saciar os desejos do mais noctívago dos habitantes. Esta apetência por estabelecimentos comerciais que nunca fecham começa ser notada à medida que caminhamos na Europa, de Oeste para Este. Característica muito oriental, e adoptada pela vida agitada de algumas cidades norte-americanas - como Nova Iorque, por exemplo -, este tipo de horário ainda se mantém afastado da maior parte dos países da Europa ocidental. Infelizmente.
Quando finalmente alcançámos a fronteira a viagem já ia longa. Duas paragens, passaportes a passar de mão em mão, cerca de uma hora para avançar cem metros. Por vezes esquecemo-nos da dádiva mais louvável da União Europeia: o abençoado espaço Schengen.
Por fim, dentro da Bósnia-Herzegovina, com a ansiedade habitual das novas descobertas disfarçada pelo sono, começámos a avistar os primeiros sinais do conflito de 1992-95. No caminho, o fraco luar permitia-nos observar as casas arrasadas, os buracos causados pelas balas e as crateras. Lá fora começava a fazer algum frio, o que tornou o vestuário que trazíamos de Belgrado pouco adequado para as montanhas que dominam a Bósnia, e que começavam a ditar a sua lei, transformando cada paragem num choque térmico desagradável. Mesmo com a ténue luminosidade que nos acompanhou durante todo o trajecto, o terreno acidentado e as encostas escarpadas era perceptíveis através das janelas sujas da camioneta.
O sol já surgia no horizonte quando avistámos o nosso destino, descendo uma das muitas montanhas que rodeiam a cidade, e que, no passado, foram o abrigo das tropas de Karadzic, durante o tristemente célebre cerco de Sarajevo. Ao longe, uma das imagens mais recorrentes das consequências do cerco exibia-se orgulhosamente, como um troféu de dor, perante os nossos olhos cansados: um edifício alto e esguio, completamente esventrado e enegrecido pelas explosões.
Continuámos a descer. Abeirávamo-nos da cidade, quando, subitamente, a camioneta abandonou o percurso óbvio e deixou para trás o imenso vale urbano. Alguns minutos depois parámos num terminal isolado, rodeado por algumas casas, num ambiente claramente suburbano. Mais tarde, soubemos que havíamos parado no sector sérvio, o qual, ainda hoje, se encontra separado do centro da cidade, onde habitam, predominantemente, croatas e bósnios muçulmanos (não existe uma separação física ou fronteiriça; trata-se apenas de uma demarcação étnica que emergiu da estrutura administrativa dos acordos de Dayton e de mágoas que ainda não foram esquecidas). Acordámos o preço com um taxista e este deixou-nos a poucos metros da Marsala Tita (uma das principais avenidas de Sarajevo, e que mantém o nome do ditador por quem muitos bósnio ainda suspiram de saudade) com uma pressa e nervosismo que só entendemos mais tarde, quando descobrimos a questão da separação entre sectores. Depois de um par de horas atribulados na busca por um quarto, acabámos por largar as malas na pensão Zem-Zem, no início da rua Mula Mustafe Baseskije, junto ao pitoresco e movimentado bairro turco, o Bašcaršija. Descansámos durante algum tempo, tentado recuperar as forças perdidas durante a extenuante viagem, e mais tarde, refeitos e estimulados, iniciámos o processo de descoberta de uma cidade histórica e cativante.

Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às 05:28 PM | Comentários (9)