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fevereiro 27, 2012

La Clemenza di Tito, Teatro Real de Madrid, 2012

A produção é de 1982, e, se nessa altura já não devia entusiasmar muito, agora é apenas um objecto de museu, pesado e datado. Falo da La Clemenza di Tito, de Mozart, que está no Teatro Real de Madrid desde o dia 14 de Fevereiro. Por que razão trouxe Gerard Mortier esta encenação poeirenta para um teatro que não tem assim tantas récitas anuais que justifiquem explorar os restos do armazém? Porque é Mortier. Porque é um director artístico medíocre e arrogante, elevado a génio por meia dúzia de iluminados que acham que inovar é expor nus integrais no palco, promover obras e récitas de segunda categoria, de preferência com mensagens políticas, e destruir…perdão, “desconstruir” os clássicos. Nem é este um caso típico: a produção dos irmãos Ursel and Karl-Ernst Herrmann é até muito convencional. Demasiado convencional: não tem chama, não tem brilho, e os anos pesam com chumbo. Só Kate Aldrich, no papel de Sesto, e uma Vitellia com uma Non Piu de Fiori passável, salvaram a noite, levando o público, pouco exigente, a prestar-lhes uma longa ovação final, depois da fria, gélida!, reacção ao primeiro acto. Mas, com mais ou menos detalhes cintilantes, trazer isto ao Teatro Real de Madrid é um insulto. Mortier é um legado do Ministério da Cultura de Zapatero, e tem vindo a fazer um bom trabalho na destruição de um dos mais importantes teatros de ópera da Europa. Em Portugal, passou-se um fenómeno semelhante. Num par de anos, sob o governo do “engenheiro”, o São Carlos deixou de ser um teatro com alguma importância no contexto europeu e passou a ser uma anedota. Os socialistas gostam muito de fazer declarações de amor à cultura. Mas de boas intenções está o inferno cheio, e a cultura não é uma excepção nas práticas da esquerda: tudo o que toca, ou morre ou definha. Impunha-se por isso um pouco de contenção nos ataques às políticas culturais dos governos não-socialistas (ou menos socialistas). Chama-se a isso “ter vergonha na cara”.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às fevereiro 27, 2012 11:55 AM

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