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outubro 08, 2009

Consiliência

Quando lhe perguntaram o que gostaria de ser se não pudesse ser médico, o neurologista Egas Moniz (1874-1955) respondeu: pintor, se para isso tivesse habilidade. Esta declaração, que só surpreende quem não conhece as estreitas relações entre a arte e a ciência e as semelhanças entre os processos (criativos) científico e artístico, é o ponto de partida perfeito para algumas reflexões sobre o papel (e o significado) do talento, não só na arte, mas também no domínio da investigação científica e desenvolvimento. Neste texto tentaremos abordar a importância do talento e da criatividade na arte contemporânea e nas tendências que a intersectam com a ciência, das quais faz parte a arte artificial.

Nascida de um conjunto de disciplinas científicas fundada por Alan Turing (1912-1954) e John von Neumann (1903-1957), entre outros cientistas que ergueram os alicerces da complexidade e da inteligência artificial, a arte artificial introduz temas vitais nos debates que envolvem a História da Arte e da Ciência. É até possível que a arte artificial motive uma revisão da História que considere as interacções entre estas duas manifestações do génio humano (juntamente com as humanidades, a engenharia e a tecnologia). De momento, estamos interessados, principalmente, em algumas questões que surgem com a crescente popularidade desta nova forma de expressão (e, em, geral, de todas as expressões artísticas que interagem com a ciência). Quando Egas Moniz fez a declaração acima citada, o talento (no sentido clássico) perdia já o seu papel central na arte. Será que esta nova tendência que leva a ciência para a esfera artística poderá eliminar definitivamente a importância da estética e do talento na arte contemporânea ou será que, ao invés, irá reforçar os laços que foram afrouxados há mais de um século? Serão o talento e as propriedades estéticas finalmente reconhecidos como uma parte do edifício da ciência, na sequência, obviamente, do reconhecimento das semelhanças entre os métodos científicos e artísticos? E será que, após um período em que a arte conceptual quase eliminou as emoções e o espanto das galerias e dos museus, o “ideal de Beleza” pode ser ressuscitado pelo apelo e pela estética dos mundos ocultos revelados pela ciência e tecnologia, explorados por artistas e admirados pelo público? Este texto não ambiciona responder a estas questões, mas apenas reflectir sobre os temas e contribuir para um debate crucial, que no final deveria convergir para uma ideia: consiliência*.

(...)

Carlos M. Fernandes, in Inside (Arte e Ciência)

* No sentido da palavra (consilience em inglês) definido, por exemplo, por E.O. Wilson em Consilience: The Unity of Knowledge (New York, Alfred A. Knopf Inc., 1998).

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às outubro 8, 2009 02:39 PM

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