« Orly | Entrada | Arte, Ciência e Vida Artificial »
julho 04, 2009
Arte, Literatura e Ciência
(...)
Curiosamente, uma das personagens de Alice do Outro Lado do Espelho (1872) — a continuação de Alice no País das Maravilhas — inspirou uma teoria que pretende descrever a co-evolução e explicar as vantagens da reprodução sexual: o efeito Rainha Vermelha. O termo foi motivado por este parágrafo do livro: (…) ‘Um país lento!’ disse a Rainha Vermelha. ‘Como vês, aqui precisas correr tão rápido quanto puderes para ficares no mesmo sítio. Se queres chegar a algum lado tens de correr pelo menos duas vezes mais rápido!’ (...). A literatura e a evolução encontram-se no estranho País das Maravilhas.
A relação entre literatura e ciência podia ser objecto de um tratado, mas Italo Calvino (1923-1985), pelo menos, deve ser aqui mencionado pois há investigadores que sugerem que as histórias de Calvino têm afinidades com as teorias da complexidade. Calvino foi um dos fundadores do Oulipo (Ouvroir de littérature potentielle), um colectivo de escritores e matemáticos que pretendiam explorar os limites da criação literária com restrições. Uma dessas restrições, o lipograma, consiste em escrever um texto sem uma ou mais letras. George Perec (1936-1982) fez uma tentativa com o célebre La Disparition (1969), no qual a letra “e” — a letra mais comum na língua francesa — nunca é utilizada.
O grupo foi fundado em 1961 pelo poeta e escritor Raymond Queneau (1903-1976) e pelo matemático François Le Lionnais (1901-1984), quando aquele engendrava o seu Milles de Milliards de Poems (1961), que consiste num conjunto de dez sonetos que podem ser reordenados (na próprio estrutura de cartão na qual foram impressos) para que cada linha de cada soneto possa ser combinada com qualquer linha de qualquer outro dos nove sonetos, podendo assim criar-se sonetos diferentes (e consistentes). Após a fundação do Oulipo, apareceram grupos semelhantes, como o Oumupo, que aplicava os mesmos conceitos à música, o Oupeinpo (pintura) e o Oucinépo (cinema).
As inquietações e obras do Oulipo assemelham-se de certa forma aos temas de alguns contos de Jorge Luis Borges (1899-1986) publicados em Ficciones (1944) e El Aleph (1949). Em La Biblioteca de Babel (1941), um conto mais tarde incluído em Ficciones, Borges descreve um universo composto por salas hexagonais interligadas, todas elas repletas de livros indecifráveis. Os habitantes desse estranho mundo acreditam que aqueles livros contêm todas as combinações possíveis dos caracteres básicos, logo, é quase impossível encontrar um livro cujo texto seja legível ou transmita alguma informação. Esta ideia evoca o teorema do macaco infinito de Felix Borel’s (1871-1956), que afirma que um macaco pode escrever qualquer texto, mesmo uma obra de Shakespeare (1564-1616), desde que lhe seja dada uma máquina de escrever e tempo suficiente enquanto dactilografa aleatoriamente. O macaco de Borel e a biblioteca de Borges são duas metáforas diferentes para o mesmo conceito.
(...)
Carlos M. Fernandes, in ROBOT ARTe, catálogo da exposição de Leonel Moura com o mesmo nome
Publicado por CMF às julho 4, 2009 06:02 PM
Trackback Pings
TrackBack URL para esta entrada:
http://no-mundo.weblog.com.pt/privado/mt-tb.cgi/182732