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junho 23, 2009
Arte, Fotografia e Ciência II
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Entretanto, a fotografia perscrutava também para além da realidade, ou pelo menos para além da realidade que o olho humano desarmado pode ver. Em 1878, Eadweard Muybridge (1830-1904) usou um conjunto de câmaras para fotografar um cavalo em galope. A série de fotografias resultante, chamada The Horse in Motion, registou o movimento nas suas diferentes etapas, contradizendo a forma como os pintores sempre o haviam representado, pois mostrava que os cascos de um cavalo perdem o contacto com o chão ao mesmo tempo, mas não esticados, como era crença geral. Ao mesmo tempo, Etienne-Jules Marey (1830-1904) estudava também os movimentos humanos e animais, mas, ao contrário de Muybridge, Marey utilizava só uma câmara e conseguia registar o movimento em apenas um negativo. Os seus estudos sobre os movimentos dos animais começaram com um insecto artificial que Marey desenhou e testou com o objectivo de simular o voo de um insecto real e mostrar que este faz um movimento que se assemelha a um 8. Marcel Duchamp (1887-1968) reconheceu a influência de Marey no seu Nu descendant un Escalier. No.2. (1912), mas a sequência de Muybridge’s que mostra uma mulher a subir uma escada (1887) vem-nos imediatamente à memória quando vemos o quadro de Duchamp. Uma das mais importantes obras de arte do século XX terá sido inspirada por uma experiência científica.

Lewis Carroll foi um nobre seguidor da tradição renascentista. O seu reconhecido talento literário acompanhou a prática apaixonada dos seus dotes fotográficos. Para além disso, Carroll foi professor de matemática. Todos estes interesses se inter-relacionaram e deram origem a um corpo de trabalho consistente. E Carroll, sendo um homem de ciência, estava obviamente rodeado de motivos “científicos”. Por exemplo, uma fotografia tirada em 1857 mostra Reginald Southey (1835-1899) — um estudante de medicina e fotógrafo-amador que encorajou Carroll a seguir a arte — a pousar ao lado de dois esqueletos surpreendentemente parecidos de um homem e de um macaco. Dois anos antes da publicação da Origem das Espécies (1859) de Charles Darwin (1809-1882), Lewis Carroll, com este estranho retrato, parecia especular sobre a evolução.

O universo de Carrol, feito de lógica, charadas e realidades alternativas às quais se acediam por espelhos, era um universo mágico e, no entanto, científico. Em vida, tal como nas histórias, Carroll estava rodeado por uma aura de magia. Muito anos após ter inspirado o livro Alice no País das Maravilhas (1865), Alice Liddell (1852-1934) falou sobre a câmara escura (laboratório de revelação) de Carroll: (…) muito mais excitante do que ser fotografada era ser autorizada a entrar na câmara escura, e vê-lo revelar os enormes negativos de vidro. Que coisa poderia ser mais fascinante do que ver o negativo a formar-se gradualmente, enquanto ele o agitava suavemente no banho ácido? Para além disso, a câmara escura era misteriosa, e nós sentíamos que ali qualquer aventura poderia acontecer (…) [1]. Para Alice, o laboratório de revelação era o seu País das Maravilhas terreno, um mundo de fantasia repleto de aventuras latentes.
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Carlos M. Fernandes, in ROBOT ARTe, catálogo da exposição de Leonel Moura com o mesmo nome
[1] Alice Liddell Hargreaves, The Lewis Carroll that Alice Recalls, New York Times, 1932. (Fonte secundária: Morton N. Cohen, Reflections in a Looking Glass, Aperture, 1998)
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às junho 23, 2009 02:07 AM
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