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maio 12, 2009
Granada, Alhambra e Arte Artificial
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No limite sudeste da cidade de Granada há uma colina, e no topo dessa colina ergue-se o monumento mais visitado de Espanha: o Alhambra. Esta estrutura magnífica foi construída durante o reinado muçulmano da Península Ibérica, e, na sua forma original, foi concluída no século XIV. Após a queda de Granada, em 1492, o Alhambra passou por uma série de mudanças, algumas efectuadas pelos novos soberanos, outras causadas por catástrofes naturais, como o terramoto de 1821. Em 1812, o castelo escapou à destruição total quando um plano de Napoleão (1759-1821) para o derrubar com explosivos foi boicotado por um oficial com escrúpulos.

Visto do exterior, e à distância, o Alhambra revela-nos uma mistura de elementos naturais e humanos que lhe dão um tremendo e surpreendente carácter moderno. No interior, no palácio mouro, os visitantes podem apreciar os famosos mosaicos: padrões formados por conjuntos de figuras geométricas que se ligam para preencher um plano, sem sobreposições e sem espaços vazios. Estes padrões influenciaram o trabalho de M. C. Escher (1898-1972) após uma visita ao Alhambra, em 1921. Escher foi para além das figuras geométricas dos mosaicos mouros, e criou peças com formas de animais e pessoas — China Boy (1936), por exemplo —, e colocou-as em superfícies curvas, como em Circle Limit (1959). Antes de Escher, outros artistas, tais como Albrecht Durer (1471-1528) e Kolomon Moser (1868-1918), já haviam utilizado as mesmas técnicas, mas o Alhambra demonstra-nos que o valor estético do mosaico já era reconhecido pelo menos desde o Islão medieval, sendo na altura muito utilizado na arquitectura. No entanto, enquanto no Alhambra os padrões são exclusivamente periódicos, há outros exemplos na arquitectura muçulmana que se assemelham aos mosaicos de Roger Penrose (n. 1931), ou seja, não são periódicos, o que pode significar que os arquitectos islâmicos anteciparam em cinco séculos as descobertas dos matemáticos ocidentais. O que não anteciparam foi, obviamente, os mosaicos auto-replicáveis, e as ligações deste conceito às novas teorias que pretendem compreender e explicar os sistemas adaptativos complexos. A partir de simples formas geométricas que se juntam para criar uma forma maior, mas semelhante, temos acesso ao mundo fascinante da auto-replicação, dos autómatos celulares e da ciência da complexidade.
Os estudos de Alan Turing (1912-1954) sobre o autómato universal e as investigações de Jon von Neumann’s (1903-1957) na área dos autómatos auto-replicáveis são normalmente apontadas como os estudos fundadores da vida artificial, a ciência que modela e investiga os sistemas com propriedades semelhantes à vida, tal como auto-replicação, homeostase, adaptabilidade, e outras. No entanto, foi apenas no final dos anos oitenta do século XX que Christopher Langton (n. 1949) cunhou o termo “vida artificial” para designar esta área de investigação relacionada com a complexidade, robótica, algoritmos evolutivos, redes neuronais, e até ciências cognitivas. Menos citado num âmbito puramente científico, mas não menos importante por essa razão, é o trabalho pioneiro de Friedrich Hayek (1899-1992) sobre ordem espontânea e auto-organização realizado ainda na primeira metade do século XX. Segundo alguns autores, os conceitos abordados por Hayek anteciparam, até certo ponto, as investigações do Santa Fe Institute.
Entretanto, nos anos quarenta do século passado, William Grey Walter (1910-1977) construía as famosas tartarugas-robô, as quais foram uma fonte de inspiração para a robótica moderna. A inteligência artificial nasceu também na mesma altura (anos cinquenta), passou por uma fase que é conhecida como o Inverno (Artificial Intelligence Winter), e está agora a ressuscitar com fortes ligações à vida artificial e à computação evolutiva. O conexionismo, abandonado no final dos anos sessenta, está de volta, devido ao crescente interesse em redes neuronais. Darwinismo, caos, fractais, criticalidade auto-organizada (self-organized criticality) e outras teorias contribuíram e contribuem para um número crescente de estudos, projectos e publicações dedicados ao estudo de sistemas complexos.
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(Excerto do texto que escrevi para o livro ROBOT ARTe, de Leonel Moura.)
Carlos Miguel Fernandes
*Esta é uma das primeiras imagens do belíssimo livro de Hielscher dedicado a Espanha. La España Incognita (Das Unbekannte Spanien, na edição alemão) foi publicado nos anos 1920s e retrata exaustivamente um país que ainda hoje nos assombra com os seus contrastes, dramatismo geográfico e forte personalidade cultural. Espanha é emoção. Hoje já não é assim tão incógnita, mas continua a ser um bom refúgio para quem quer ter (nem que seja) um vislumbre da vida na sua plenitude.

Publicado por CMF às maio 12, 2009 04:11 AM
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