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março 22, 2009
Arte Artificial
Inaugurou ontem a exposição ROBOT ARTe, de Leonel Moura, na Galeria Ogiva, em Óbidos. A convite do artista, escrevi o texto para o catálogo, o qual aborda, em geral, as ligações entre Arte e Ciência, e em particular a Arte Artificial. Começa assim:
Na ciência, como na arte, a inspiração é o miliário que assinala o início de mais um longo período de trabalho árduo e estudo intensivo. A célebre história da maçã de Isaac Newton (1643-1727) é o símbolo perfeito da inspiração — ou salto criativo —, seja artística, seja científica (se é que é possível distingui-las). O detalhe escondido que subitamente se revela e ilumina o todo; a argamassa que dá consistência a pensamentos dispersos; o passo decisivo que põe fim a um percurso titubeante. São estes os significados da maçã de Newton e do banho (eureka!) de Arquimedes (c. 287 AC-c. 212 DC). O sonho de Albert Einstein (1879-1955) sobre a solução da teoria geral da relatividade, ou a súbita visão de François Jacob (n. 1920), quando, num teatro parisiense, percebeu como os genes interagem para gerar vida, são algumas das manifestações modernas dessa “antiga” tradição. A arte, embora menos dependente de normas e verificação, é também pontuada por saltos criativos.
Veja-se, por exemplo, Wassily Kandinsky (1866-1944), quando afirmou que o seu Painting With a Circle (1911) foi o quadro abstracto primordial. Kadinsky classificava assim o resultado de um processo em curso, pessoal, no qual os motivos vinham sendo gradualmente desnaturalizados. Mas nesse trabalho em particular, e ao contrário dos anteriores e de alguns posteriores, ocorreu uma mudança radical: já não é reconhecível qualquer figura para além dos círculos, uma forma recorrente no seu período abstracto. Aparentemente, Painting With a Circle não foi um dos trabalhos favoritos de Kandinsky logo após a sua concepção; só mais tarde o pintor reconheceu as implicações da ruptura. Outro exemplo é a carreira de Jackson Pollock (1912-1956), que não começou com o artista a salpicar com tinta uma tela estendida no chão. No filme Pollock (2001), Lee Krasner (a sua mulher, interpretada por Marcia Gay Hardner), quando vê o resultado da primeira experiência do pintor com a técnica recém-descoberta, diz conseguiste Pollock, abriste novos horizontes. Essa cena (dramatizada) retrata a ideia estabelecida do artista a abrir horizontes após um momento de inspiração.
Mas o salto não é o único elo entre a arte e a ciência. Nos dois campos é notório que a preparação e a reflexão, sobre um problema ou sensação, precedem a explosão criativa; e, depois da inspiração, vem a confirmação ou aperfeiçoamento do conceito. Há muitas teorias “bonitas” que são rejeitadas sem nunca terem sido publicadas mas o mesmo se passa no âmbito das artes, com os seus desanimadores becos sem saída. Após ser bem sucedido nos primeiros passos, um cientista alcança uma melhor compreensão e aceitação do tema, testando a teoria e submetendo-a a um processo metodológico de refutação. Um artista embrenha-se no sujeito, aperfeiçoa as suas ideias e apura a sua visão. O acaso, ou aleatoriedade, também tem um papel crucial neste processo. Há muitas ideias que são descartadas depois de perscrutadas; tanto os artistas como os cientistas sabem o que é enfrentar um final inglório de uma ideia promissora. A centelha cognitiva — o salto — que nos ajuda a resolver o problema, alcançar o estágio seguinte, ou alargar os horizontes criativos é provavelmente uma componente comum de dois métodos muito parecidos, ou talvez, mesmo idênticos.
Por outro lado, é esta noção de salto criativo que afasta muitos filósofos e cientistas do conceito de mente algorítmica, pois não acreditam que o processo evolutivo possa gerar um sistema capaz dessa súbita percepção, ou intuição. Alguns sustentam as suas objecções na física quântica; outros agarram-se ao vago conceito de holismo. Mas, a não ser que acreditemos em “ganchos celestes” (uma expressão cunhada por Daniel Dennett para descrever uma origem de complexidade que não foi guiada pela evolução), parece não haver alternativa a uma representação computacional da mente, pelo menos se considerarmos o conexionismo e a auto-organização como extensões ou complementos dessa linha de pensamento, e não como movimentos opostos. De facto, as ciências da complexidade — a disciplina que estuda os sistemas complexos adaptativos e a emergência de complexidade — não só deram um novo fôlego à velha inteligência artificial e à robótica, demasiado dependentes da manipulação de símbolos associada à GOFAI (acrónimo de Good-Old-Fashioned-Artificial-Intelligence), como também contribuíram para uma visão alternativa dos mecanismos da mente humana. As ciências da complexidade e o (novo) conexionismo têm lançado alguma luz sobre este problema e, gradualmente, vão afastando o misticismo que rodeia o comportamento emergente e complexo de alguns sistemas. Voltaremos a estes temas mais tarde. Para já, vamos abordar alguns diálogos históricos entre arte e ciência.(...)
Carlos M. Fernandes, in ROBOT ARTe
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às março 22, 2009 12:39 AM
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