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março 16, 2009
Campanha Negra
(Publicado ontem no Insurgente.)
(…) as lendas atraem o escol como as ideologias atraem os homens comuns e como as descrições de “terríveis” forças ocultas atraem a ralé e a escória. (…)
Hannah Arendt, As Origens do Totalitarismo
Há algumas semanas surgiu na imprensa portuguesa uma crónica burilada por pena servil que, sem medo de cair no ridículo (e aqui não sei se devemos louvar a coragem ou lamentar a insensatez), aproveitou o alvoroço em redor do caso Freeport para sugerir um paralelo entre o primeiro-ministro português e Dreyfus, o oficial judeu do exército francês que no final do século XIX se viu involuntariamente envolvido numa trama de dimensões inconcebíveis. (É verdade que a crónica nunca esclarece os seus propósitos, mas o debate que se seguiu permite-me abordar o assunto por esta perspectiva sem recear estar a cometer uma injustiça). A irreflectida analogia já foi suficientemente denunciada por muitos que, contra ventos e marés, insistem em manter uma postura de lucidez e não embarcam na chavização do espaço público, e talvez já seja assunto do passado neste mundo acelerado dos blogues. Mas não sei se foram ao cerne da questão.
Dreyfus foi um alvo fácil num fin de siécle anti-semita que haveria mais tarde de atear chamas a toda a Europa. Os manipuladores apontavam o dedo a “forças ocultas”, e viam conspirações em cada esquina, ou pelo menos tentavam inculcar no povo essa crença. Dreyfus, por uma armadilha do destino, foi eleito como o rosto visível de uma putativa “campanha negra” contra o Estado francês. Não sei se percebem onde quero chegar. Sócrates não é um Dreyfus contemporâneo. Sócrates é uma manifestação actual — uma cópia inconsciente? — dos demagogos que incendiaram a turba que condenou o oficial judeu na praça pública. Repare-se no discurso do primeiro-ministro no último congresso do PS! Palavras daquelas só podem mesmo atrair a ralé e a escória, e perdoem-me aqueles a quem a carapuça serve, ou aqueles que enfiam o barrete, que é expressão distinta — conquanto ainda no registo dos afagos da moleirinha — mas que também se ajusta bem aqui.
Não, Sócrates não é Dreyfus. Quanto muito seria Edouard Drumont, se também quiséssemos entrar nestas comparações estapafúrdias, que tentam urdir ligações entre um caso que marcou a História do século XX e as prevaricações de um pobre diabo com aspirações a tiranete.
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às março 16, 2009 11:53 PM
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