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janeiro 28, 2009
Inverno
Este relato do inverno lisboeta feito pelo meu amigo João podia ser facilmente transposto para Granada se lhe acrescentássemos uma dose extra de rigor invernal (a serra não brinca!) e se lhe retirássemos os quatro últimos quadros. Não é que Espanha seja avessa à família e às virtudes do seu resguardo, muito pelo contrário, mas a calle está sempre em primeiro lugar, esteja a nevar, a chover ou a granizar (e nas últimas semanas a coisa não fugiu muito a esta trilogia meteorológica). Não!, um relato do inverno granadino nunca poderia terminar com um refúgio em casa e uma lareira. Talvez com um passeio pela avenida, uma taberna, e uma conversa de barra. A casa ficaria para mais tarde. A sequência não parece muito lógica, mas isto é Espanha, meus caros, e a lógica é outra. Se querem um cantinho numa taberna, ou apenas cobiçar as montras, não se fiem nas temperaturas negativas e nos ventos ameaçadores porque estes pequenos espasmos da natureza não assustam gentes inquietas: há que porfiar e furar a multidão que ocupa as ruas e até o mais escondido tasco de bairro. É por isso que tremo perante a mais remota possibilidade de ser obrigado a voltar para Lisboa. Tremo de medo ou de frio, não sei bem. O frio é muito subjectivo. Uma rua vazia pode assustar-nos, mas também gelar-nos a alma.
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às janeiro 28, 2009 05:43 PM
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