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dezembro 26, 2008

Lisboa

Victor Palla e Costa Martins chamaram-lhe Cidade Triste e Alegre. Nunca encontrei muita alegria na capital portuguesa, mas agora, que sou mais turista do que lisboeta, a tristeza de Lisboa mortifica-me os olhos como nunca. Não sei se foi a crise ou a ASAE, ou se é mesmo o resultado dos três tomos (qual deles o mais desastroso!) desta República com quase um século de idade, mas o país parece-se cada vez mais com um enclave escandinavo na Península Ibérica. E Lisboa é a capital correcta para este lugarejo que, apesar do clima invejável e herança mediterrânica, não se dá nada bem com o seu carácter latino. A Finlândia, a distante e fria Finlândia, não é apenas o modelo para a inepta personagem que tomou conta das rédeas de Portugal. Muitos dos que a lá colocaram também sonham com um “paraíso” asséptico e por isso batem palmas a uma Lisboa cada vez mais próxima do sonho de qualquer totalitarista: mansa e obediente. Limpa. E há ainda a caução de Bruxelas.

No entanto, se me deixo enlear por estas ruas desertas que causam desconforto e me impelem de volta para a feérica Espanha, perco-me num tédio aflitivo. Para piorar a situação, estamos na época do trânsito lento mas sôfrego, e dos jantares de Natal que ocupam todas as mesas do mais incógnito dos restaurantes. Há que aproveitar e celebrar cada raro momento de beleza que a cidade nos oferece como se fosse uma dádiva divina, mesmo que corramos o risco de fazer apreciações influenciadas pelas baixas expectativas. Nos últimos dias tenho tido a sorte de encontrar pequenos oásis no deserto lisboeta. Aqui fica a descrição de três, dois deles à laia de sugestão.

1. Fidelio de Beethoven esteve em Portugal, na versão concerto. Foi no sábado passado, no CCB, perante uma sala muito mal composta. Fontes seguras dizem-me que o São Carlos, desde a saída de Pinamonti, oscila entre o trágico e o cómico (isto não é metáfora de palco). Conquanto não tenha sido evento para animar a memória durante anos, esta co-produção CCB/TNCS esteve longe de ser um desastre, como aqueles que passaram recentemente pelo palco do São Carlos. E a brava Anja Kampe, apesar da constipação, foi uma Leonore fantástica que merecia uma casa cheia. Vendia a alma ao diabo para ver e ouvir a sua Isolda no festival de Glydebourne de 2009.

2. A Galeria Pente 10 abriu há menos de um ano, e dedica-se exclusivamente à Fotografia. O risco é enorme. Estamos a falar de um mercado incipiente, dominado pelas “instituições” e por preços arrogantes. Mas a Catarina Ferrer e o Pedro Lopes Vieira atiraram-se de cabeça a um projecto que já conta com cinco exposições (e respectivos catálogos) no curriculum. José M. Rodrigues, Miguel Santos, Carlos Afonso Dias, Flor Garduño e Rita Barros são os nomes que, para já, compõem uma ecléctica lista de artistas que abrange três gerações. Até 10 de Janeiro podem ainda ver o trabalho Presença da Ausência, de Rita Barros (espreitem também este texto da Madalena Lello), no número dez da Travessa da Fábrica dos Pentes, ao Jardim das Amoreiras.

3. A Taberna Ideal é, também, ainda infante. Abriu há poucos meses e trouxe uma mensagem diferente mas clara: o restaurante assume-se como alternativa a um modelo com uma presença cada vez mais forte nas cidades europeias, que confunde cozinha de autor com pratos feitos a eito, polvilhados com endro e adornados com riscos de redução de vinagre balsâmico. Na Taberna Ideal encontramos a “louça da avó” e o cada vez mais raro mobiliário de mármore e madeira. A comida chega à mesa com aquele aspecto rústico que, hoje, só é encontrado nos restaurantes dominados pelo aço inoxidável, de onde apetece fugir. Claro que esta opção corre o risco de ser paradigma, ou, utilizando palavras mais urbanas, moda. O chique já anda à espreita e o dia em que esta Taberna se vai transfigurar em lugar para ser visto não deve tardar. Entretanto, aproveitemos a comida que está muito acima da (baixa) média em que caiu a hotelaria portuguesa nos últimos anos (neste aspecto, há que culpar a crise, apenas). Não vou fazer crítica gastronómica, mas não posso deixar de destacar a tiborna, um petisco esquecido do Sul de Portugal. Aliás, a gastronomia algarvia parece ser um prato forte da Taberna Ideal e quero enaltecer aqui essa opção (mas posso estar enganado, porque em certas regiões do Sul as cozinhas algarvia e alentejana confundem-se). Na minha opinião, a cozinha do Algarve é a melhor de Portugal. É também a mais desprezada. Por isso, qualquer tentativa de apontar as baterias gastronómicas para o Sul é um serviço público.
Como não há tabernas ideais, tenho, pelo menos, dois reparos a fazer. O borrego estava óptimo, mas eu não lhe chamaria “ensopado”. E não deixem acabar a cerveja (ou o vinho branco fresco). Ah, e um balcão com espaço suficiente para beber uma imperial e comer uma tiborna, pelo menos enquanto esperamos por uma mesa, era muito bem-vindo. Mas isto é a alma granadina a falar. Sei que Lisboa e as outras cidades portuguesas já não conhecem a vida de barra. E nunca ouviram falar.
Resumindo, a Taberna Ideal é um lugar muito recomendável, especialmente para quem aprecia os sabores do Sul, e os reparos negativos não são mais do que pequenos detalhes num cenário louvável que não vos devem afastar do número 112 da Rua da Esperança, pois a relação qualidade/preço é, provavelmente, imbatível.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às dezembro 26, 2008 04:23 PM

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