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dezembro 15, 2008

Anjos, Demónios e Homens

(Publicado no Atlântico)

A acção de Angels With Dirty Faces (Michael Curtiz, 1938) situa-se no Lower East Side dos anos 20 e 30 do século passado e conta a história de Rocky (James Cagney) e Jerry (Pat O’Brien), dois jovens delinquentes que o acaso separou, oferecendo-lhes vidas diferentes. Um assalto frustrado atira Rocky para o reformatório. Jerry, porque “corria mais depressa” escapa e abraça, precocemente, o caminho da salvação: quando Rocky sai do reformatório e volta para o bairro, Jerry é um padre que luta por manter um grupo de adolescentes apartado do mundo do crime que ele próprio trilhou. Mas Rocky encontra e conhece os rapazes, rapidamente os cativa com a pose de bandido, e converte-se no (anti-)herói de Lower East Side. Uma vida de pequenos crimes alimentada com a sageza de rua tem os seus encantos.

A intriga progride, e Rocky envolve-se com duas personagens sinistras que acaba por assassinar para proteger o amigo de sotaina. Capturado e condenado à morte, é visitado pouco antes da sua execução por Jerry, que lhe pede para dissimular o orgulho, e mostrar medo na hora da morte. Dessa forma, o empenhado sacerdote julga que o fascínio dos rapazes da paróquia pelo pobre criminoso e pela aura romântica da sua curta vida se extinguirá. Ninguém idolatra um cobarde. Rocky recusa, dizendo que a imagem de “duro” é única coisa que lhe resta. No entanto, pouco depois, o condenado chora, grita, e pede para não o matarem, enquanto é arrastado para a cadeira eléctrica. O amigo oferecera-lhe uma oportunidade de redenção, e no último momento Rocky agarra-se a essa tábua e esquece a duvidosa dignidade de morrer com o orgulho no rosto. O filme termina com o padre a confirmar aos rapazes a notícia nos jornais. Did Rocky die as they said, like a yellow rat?, perguntam, devastados pela queda do seu herói. It's true, boys. Every word of it. He died like they said. All right, fellas. Let's go and say a prayer for a boy who couldn't run as fast as I could.

Isto vem a propósito da recente da captura de um membro da ETA, da divulgação da sua reacção (urinou nas calças) e deste texto. Compreendo os argumentos do Carlos Abreu Amorim, que talvez se resumam a isto: não podemos ser iguais a “eles”. Mas podemos sentir uma ligeira (envergonhada?) satisfação por assistir à humilhação de um cobarde. (O) ser humano também passa por sentimentos menos nobres. Para além disso, o acto involuntário de Yartza não mostrou a sua “humanidade”: se o “medo é a sensação mais primariamente humana que conservamos”, então é uma sensação que partilhamos com os animais. Foi assim que Yarza se portou, como um animal, apenas como um animal acossado. A condição humana vem uns passos mais à frente. E vem com esta necessidade de retribuição, satisfeita pelo triste espectáculo da captura do terrorista. Mas se a ânsia de vingança nos perturbar, podemos sempre evocar os jovens de San Sebastian (aqueles aprendizes de etarra que se entretêm todos os fins-de-semana a aterrorizar as ruas das cidades bascas), e acreditar no padre Jerry. Se ele tiver razão, a divulgação da coisa afastará muitos adolescentes bascos das garras da ETA. Porque ninguém venera um cobarde que urina nas calças quando é confrontado com o castigo para os seus pecados.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às dezembro 15, 2008 09:54 AM

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