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novembro 13, 2008
North Korea, de Bruce Cumings
(Publicado originalmente no blogue Atlântico.)
The Aquariums of Pyongyang is an interesting and believable story, precisely because it does not, on the whole, make for the ghastly tale of totalitarian repression that its original publishers in France meant it to be; instead it suggests that a decade’s incarceration with one’s immediate family was survivable and not necessarily an obstacle to entering the elite status of residence in Pyongyang and entrance to college. Meanwhile we have a long-standing, never-ending gulag full of black men in our prisons, incarcerating upward to 25 percent of all black youths. This doesn’t excuse North Koreas’s police state, but perhaps it suggests that Americans should do something about the pathologies of inner cities – say, in Houston – before pointing the finger.
Bruce Cumings, North Korea
O livro ao qual Bruce Cumings se refere, The Aquariums of Pyongyang, relata o calvário de Kang Chol-hwan, e da sua família, num campo de concentração da Coreia do Norte. A comparação entre um “gulag” e as prisões de um Estado de Direito dá-nos uma pista sobre as intenções de Cumings. Se soubermos que Kang Chol-hwan tinha nove anos quando foi enviado para o campo, e que o castigo, extensível a toda a família nuclear, se deveu às suspeitas de dissidência que recaíam sobre o seu avô (Kim Il-sung aprendeu bem as lições de Lenine), então começamos a lobrigar “alguma” desonestidade nas palavras em cima transcritas. Se a isso juntarmos um episódio do livro − a fuga de Kang para a China devido ao risco de novo encarceramento − que não combina bem com a reintegração exemplar (…entering the elite status….) referida por Cumings então percebemos que estamos perante um caso patológico, uma cegueira que impele o emérito professor da Universidade de Chicago a amputar mentalmente o relato de Kan, para melhor defender as suas teses. Mas as meias-verdades, as críticas leves ao regime logo seguidas de elogios convictos e as comparações grosseiras são constantes ao longo das mais de duzentas páginas de North Korea. Numa passagem do livro, Cumings, ainda sobre The Aquariums of Pyongyang, fala dos pequenos animais que se passeavam pelo campo e que eram capturados pelos prisioneiros, fazendo uma descrição do local que nos remete para uma colónia de férias situada num cenário bucólico − The natural environs meant that small animals could surreptitiously be caught and cooked, however, and death from starvation was rare −, esquecendo-se de referir que os bichos que os prisioneiros apanhavam e cozinhavam eram, na realidade, ratos. A Coreia do Sul das décadas 1950-80 é frequentemente descrita com um lugar atrasado e miserável, muito distante da prosperidade dos seus vizinhos do norte, uma prosperidade galopante que só os desastres naturais da década de 90 do século passado conseguiram parar. O carácter ditatorial do regime norte-coreano não é negado (embora Cumings resmungue por diversas vezes contra aqueles que o descrevem com um Estado totalitário), mas é justificado com a necessidade de se proteger contra os imperialismos deste mundo, numa reedição do argumento sartriano exposto n’A Engrenagem. (E Sartre, não ficou conhecido pela sua lucidez e honestidade intelectual.) Podíamos continuar, pois exemplos não faltam.

O espanto está à espreita em cada página deste North Korea de Cumings, e qualquer pensamento pertinente (por exemplo, sobre a imprudência de algumas administrações norte-americanas, que insistem em partir para a conquista do terreno sem o conhecerem suficientemente bem para garantirem a estabilização rápida da situação) é ofuscado pela desonestidade do autor. Comprei este livro em Seul há um ano e meio. A Coreia do Sul, cujos actuais níveis de desenvolvimento e liberdade são reduzidos por Bruce Cumings a um espasmo involuntário de um povo cronicamente imerso na miséria e tirania, não censurou a obra. Tendo em conta as críticas ao regime norte-coreano que, apesar de tudo, surgem pontualmente, temos razões para suspeitar que o mesmo não acontece no reino de Kim Jong-il. Mas há gente que não tem a noção do ridículo.
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às novembro 13, 2008 04:18 PM
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