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outubro 20, 2008
Fernando Pessoa
Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente
Fernando Pessoa
...mas o senhor Ribeiro, nos últimos meses, fez questão de incomodar a memória de Fernando Pessoa, e a vida dos seus herdeiros. Depois de muitas chantagens e ameaças, lá tirou da cartola a Lei, a "justíssima" Lei portuguesa, para melhor cercear a liberdade e violar a propriedade privada de alguns cidadãos portuguesas que apenas pretendiam, legitimamente, rentabilizar a herança de um dos seus antepassados. Até a hipótese de expropriação foi posta em cima da mesa, num assomo de autoritarismo que nos fez lembrar os infelizes tempos do PREC, apesar de o senhor Ribeiro agora rejeitar tal acção (não precisa). Nem as palavras de Pessoa foram lidas com atenção, aquelas que antecedem a frase transcrita no inicio deste texto, e tantas vezes convenientemente ignoradas pelos “patriotas”, pois é mais confortável dar outro sentido à celebrada declaração do poeta:
A minha Pátria é a língua portuguesa.
(As palavras anteriores a esta frase, nas quais Pessoa confessa não ter sentimento político ou social, indispõem muitos revolucionários e progressistas; até nisto Pessoa foi grande, conseguiu incomodar duas largas fatias da população portuguesa, que ainda assim se reconciliam numa frase sua, retirando-a do respectivo contexto.)
A imposição limita-se ao território português, não se alargando à particular Pátria do poeta, que obviamente inclui o Brasil e outros países de expressão portuguesa. O nacionalismo bacoco, a prepotência do burocrata com pasta, não se coaduna com esses detalhes, com coerências e respeito pelo grandeza do autor mais universal da língua portuguesa, o único que, num país que se diz “de poetas” (com toda a mediocridade que advém dessa democratização do talento), extravasou, e de que maneira, as periféricas fronteiras de Portugal. Não, o universalismo de Pessoa não conta quando a ambição é grande, e a salvação de uma passagem discreta pela Ajuda pode ser este gesto político pretensamente grandioso e protector do património português (mas eu chamar-lhe-ia mesmo “ridicularia política”, como fizeram os herdeiros de Pessoa). Mas temos uma sugestão.
Se tem tanta vontade de manter os manuscritos de Pessoa em solo português, o senhor Ribeiro podia começar por abrir uma conta, e lá colocar, do seu bolso, uma razoável maquia, a qual pudesse incentivar outros cidadãos, tão patrióticos como o senhor Ribeiro, a abrir os cordões à bolsa. Depois, poderia então ir a jogo (leia-se, leilão) em igualdade de circunstâncias com outros licitadores. Mas é mais fácil fazer política com o dinheiro dos outros, não é? O pior é quando esse dinheiro escasseia. Então partimos para as nacionalizações.
Concluindo: caros concidadãos, não se preocupem em criar obra, não almejem a lugar de destaque nas Artes e Letras portuguesas; nunca se sabe que glória vos reserva o futuro, e com certeza não querem ver a herança dos vossos filhos e netos como matéria "colectivizável" (para além de colectável). Deixem património edificado ou edificável, e contas no banco; pelo menos essas heranças não podem ser nacionalizadas (por enquanto...).
Razão tem o meu pai quando diz que só me deixa ruas para caminhar. Isso não me podem tirar…ou podem?
Carlos Miguel Fernandes
P.S. Quando de todo este circo terminar, ou quando o senhor Ribeiro se cansar de interferir em assuntos privados, agradecia-se ao ministro da Cultura que nos explicasse como um teatro (o São Carlos), que há pouco mais de dois anos começava a querer ser uma referência das temporadas líricas da Europa, se converteu agora numa espécie de teatro de província. Afinal, para que serve um ministério da Cultura? Será apenas para arregimentar a Cultura?
Publicado por CMF às outubro 20, 2008 02:01 PM
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Comentários
"cidadãos portuguesas que apenas pretendiam, legitimamente, rentabilizar a herança de um dos seus antepassados"?
Muito discutível a sua opinião, do ponto de vista ético. Mas é uma opinião. É pena não se discutir mais este assunto, pelo que o seu artigo é valioso, mesmo que discorde fortemente com ele.
Publicado por: NunoH em outubro 21, 2008 12:30 PM
Reparei agora que é representado pela P4photography, o que torna este seu artigo demsiado parcial para ser publicado (na minha opinião pessoal). Cumprimentos.
Publicado por: NunoH em outubro 21, 2008 12:32 PM
"Reparei agora que é representado pela P4photography, o que torna este seu artigo demsiado parcial para ser publicado (na minha opinião pessoal). Cumprimentos."
É verdade, sou representado pela P4, mas se conhecesse (não sei se conhece) este blogue há mais tempo saberia que esta opinião está na linha das minhas ideias sobre liberdade e propriedade privada. Aliás, a minha ligação à P4, mais forte do que apenas a de artista representado, talvez até nasça de tais opiniões, e da forma como encaro o espaço público e o espaço privado. Mas isso já é outra história.
E o exercício de liberdade de expressão não pode ser (auto)condicionado de forma leviana, sob pena de uma ligação a qualquer entidade (um partido, por exemplo!), nos impedir de expressar opiniões no espaço público.
Concluindo, não me sinto minimamente desconfortável nesta aspecto (nem, comprometido, para além de comprometido com as minhas ideias), e penso que isso é o que realmente (me) importa.
Quanto à questão do texto, e ao dilema ético, aceito a divergência, mas pergunto: se tivesse na sua posse um Van Gogh, herdado da família, tentaria fazer dinheiro com a peça, ou facilitaria (ou doaria) a sua aquisição por parte do Estado holandês?
Publicado por: CMF em outubro 21, 2008 01:37 PM
Só mais uma coisa: não é ao Estado que compete avaliar isso se o comportamento é ético ou não. Nem nesta situação, nem em qualquer outra, pois a Ética não é da competência do Estado.
Publicado por: CMF em outubro 21, 2008 01:47 PM
Sendo a P4 a leiloeira responsável pela "rentabilização" supracitada, mantenho a minha opinião. Quanto ao Van Gogh, será demagógico comparar uma pintura a escritos mal analisados. A menos que essa pintura fosse desconhecida, claramente poderia ser rentabilizada, mas ao ser desconhecida ou mal estudada eu veria com melhores olhos a doação. Um compromisso "o melhor dos dois mundo" seria a venda ao Estado Holandês. Seria isso precisamente o que os herdeiros de Pessoa deviam ter feito há muito, mesmo se prejudicados financeiramente. Teriam evitado a má imagem de que usufruam actualmente e que só piorou agora. Cumprimentos.
Publicado por: NunoH em outubro 21, 2008 03:26 PM
"Sendo a P4 a leiloeira responsável pela "rentabilização" supracitada, mantenho a minha opinião."
Ok, mas eu também mantenho a minha. Na sociedade portuguesa trata-se de tudo com muitos paninhos quentes, e há muitos "medos". Mas se fôssemos todos ter cuidado com qualquer indício de "comprometimento", ninguém podia dar qualquer opinião. Veja-se o caso dos especialistas, Pizarro e afins, que não se coibiram de opinar na comunicação social. Não são eles parte (muito) interessada na matéria? São. Não têm algo a ganhar com a eventual compra pública dos bens (ou com a sua manutenção em Portugal, e consequente facilidade de acesso). Têm. Deveriam ter ficado calados, então?
"A menos que essa pintura fosse desconhecida, claramente poderia ser rentabilizada, mas ao ser desconhecida ou mal estudada eu veria com melhores olhos a doação. Um compromisso "o melhor dos dois mundo" seria a venda ao Estado Holandês."
Essa é uma opinião pessoal, e respeitável. Mas o ponto principal é o seguinte: tem o Estado legitimidade para impor esse compromisso (deixando de ser um compromisso, claro). Não tem. Não na minha concepção de Estado. A má imagem, havendo ou não, é um problema pessoal dos herdeiros. O Estado, o dinheiro dos contribuintes, e o direito ao usufruto da propriedade privada é um problema de todos nós.
Quanto à questão do estudo, sabe-se que as peças foram todas digitalizadas. E não vivemos no século XIX, qualquer investigação pode passar por deslocações e estadas em lugares distantes. O proprietário poderia inviabilizar o acesso aos manuscritos? Pois podia, mas continua poder, esta acção do Estado não resolve esse problema. Nem quer resolver, porque todos sabemos que esta classificação serve apenas para inibir licitações vindas do estrangeiro, e possibilitar ao Estado a compra, por 20.000, daquilo que talvez lhe poderia custar 200.000, exercendo o direito de preferência (que sempre teve, diga-se de passagem, o que só prova que o tal "pacto" de que se fala aí é apenas mais um embuste).
Enfim, nisto tudo quem fica com má imagem é o Estado, que mais uma vez demonstra não ser "pessoa" de bem.
Publicado por: CMF em outubro 21, 2008 03:55 PM
E podemos questionar também a legitimidade do Estado noutro aspecto. Conhecendo-se a posição de Pessoa (A minha Pátria é a língua portuguesa...), e sua vocação universalista (não esquecer que nasceu na África do Sul, e que também tem obra em língua inglesa) que legitimidade tem Portugal para se declarar dono e senhor da obra do poeta?
Publicado por: CMF em outubro 21, 2008 03:59 PM
Alertado por amigo atento, reparei num erro grosseiro, no comentário anterior. Fernando Pessoa não nasceu na África do Sul, mas viveu lá parte da sua infância e juventude, entre 1896 e 1905. De qualquer forma, a ideia mantém-se: Pessoa recebeu grande parte da sua formação num país longínquo e de língua não portuguesa.
Publicado por: CMF em outubro 22, 2008 05:59 PM