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setembro 14, 2008
Barcelona: Descobertas e Regressos
Não sei quando foi, nem sei se já era assim quando visitei Barcelona pela primeira vez, há doze anos. Nas últimas duas décadas a cidade de Gaudi atingiu um patamar que associamos habitualmente a Nova Iorque, Londres ou Tóquio. Tem, por exemplo, uma dinâmica delirante e transformadora, e essa é uma das características de uma verdadeira metrópole em evolução. O exemplo do Born é paradigmático. Conheci o bairro há dez anos quando parecia um subúrbio de Tanger, e, nas últimas visitas a Barcelona, fui vendo como se transformava num lugar elegante e de convergência de multidões. Há um rio de gente que, todas as tardes, desce a carrer de l’Argenteria para dar vida, uma imensa vida, às ruelas e praças em redor do Passeig del Born. O estatuto de recanto sórdido e negro do centro da cidade ficou agora na posse exclusiva do bairro Gótico (há o Raval, claro, mas quando o Raval perder a aura canalha que transporta há muitas décadas, Barcelona deixa de ser Barcelona).
A especialização do comércio é outra característica das grandes cidades, e emerge quando se atinge uma determinada massa crítica de habitantes e visitantes, em quantidade e “qualidade” (ou seja, de carteira cheia). Em qualquer bairro de Barcelona encontramos lojas que se dedicam a vender, exclusivamente, os mais inesperados produtos e conceitos. A Kowasa Books não vende um produto estranho ou surpreendente. Há muitas cidades com livrarias especializadas em Fotografia. Mas a Kowasa surpreende pela dimensão da oferta. Já conhecia a página, e agora, finalmente, visitei a loja, situada no 235 da Mallorca. Não conheço melhor. O único aspecto negativo é o preço dos livros, uma política que segue o padrão de Barcelona, entre o caro e o muito caro. Mesmo assim veio de lá, a um bom preço, o Reflections in a Looking Glass, dedicado à obra de Lewis Carrol, e editado pela Aperture. Passemos à música.

Na Rambla de Catalunya encontrei, por acaso, a Jazz Messengers. Só duas palavras podem descrever com exactidão mais este negócio especializado: tem tudo! E, neste caso, nem podemos dizer que os preços são abusivos. Como o jazz moderno raramente me entusiasma, fui ao baú dos clássicos e encontrei Complete Studio Recordings, de John Coltrane e Thelonious Monk (com Coleman Hawkins nas faixas 2 a 6 como brinde).

Abaixo da Gran Via visita-se, acima vive-se. Esta é uma das regras de ouro dos barceloneses. Quem já dormiu no bairro Gótico ou Velho sabe o pesadelo em que tal aventura se pode transformar. A zona que fica entre a Gran Via de Las Corts Catalanas e o Mediterrâneo – Gótico, Born, Raval, etc – é um lugar de animação permanente, ideal para uma tarde de tapas ou uma noite de excessos. Para dormir, é mais aconselhável procurar um quarto a norte da Praça da Catalunha, e depois caminhar. Mas, quanto mais conheço Barcelona, mais aprecio os bairros novos, com a sua geometria ortogonal que baralha o viajante, e os amplos cruzamentos, onde se escondem verdadeiras pérolas da gastronomia ibérica. Num desses cruzamentos, do qual infelizmente não tomei nota* (mas que sei estar entre a carrer del Bruc e o Passeig de Gracia), encontrei uma mercearia com uma selecção notável de enchidos e queijos (Torta del Casar, Serra da Estrela,…). Na montra, uma coisa chamada Mimolette chamou-me a atenção. É um queijo de vaca, de estilo holandês, com dois anos de cura. Lembrei-me do Ryipenaer e comprei um troço.

A carrer Roselló, uma das muitas vias extensas que compõem os Eixamples, é, na zona que se aproxima da Faculdade de Medicina, um segredo bem escondido e afastado do fluxo turístico. É lá que se encontra o Semproniana, um restaurante que já havia visitado em 2006, e ao qual voltei há pouco dias para confirmar a avaliação prévia. As molejas saíram, com muita pena nossa, do menu, mas o brazo de un gitano moreno, imagem de marca da casa, lá estava para nos estimular com a sua personalidade forte. Um canelone, um recheio de botifarra negra e um molho de parmesão, e o resultado é uma ode a uma certa gastronomia mediterrânica, um delírio de sabores em confronto, uma simplicidade desarmante. A refeição seguiu com o tamboril com judias e açafrão, e dois pratos fortes, um coelho recheado de verduras, e um pregado, que, como se sabe, é das melhores coisas que anda pelos oceanos. O Celia 2001, um reserva da Ribera del Duero, teve que se aguentar com tamanha diversidade, mas um grande vinho porta-se sempre bem (e este era “enorme”) e uma refeição nunca se pode desviar do que lhe é central: a comida, e esta estava irrepreensível. O Semproniana, mais uma vez, rondou a perfeição. Em Espanha só me sento para uma refeição tradicional quando a proposta é muito estimulante. A tapa está-me no sangue, e não é de ânimo leve que troco os longos roteiros feitos de marisco, frituras, enchidos e muitos outros petiscos saídos do riquíssimo receituário espanhol, pela tranquilidade de um jantar “de faca e garfo”. O Semproniana consegue tirar-me da barra e sentar-me à mesa. Mas antes não dispenso um par de cañas e umas setas no bar do 150 da Roselló, mesmo ao lado do restaurante, e que se pode ver na fotografia que escolhi para ilustrar a entrada anterior. Um excelente ponto de encontro. E um daqueles lugares em que, por vezes, nos sentimos no centro do mundo.
Carlos Miguel Fernandes
*Fica na Roger de Lúria 85, no cruzamento com a València.
Publicado por CMF às setembro 14, 2008 11:00 PM
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Comentários
Que rico e bem feito blog é este, CMF. Parabéns.
Publicado por: em setembro 16, 2008 09:41 AM
D
Publicado por: a próxima ignoramos o Célia e provamos o Inês... em setembro 16, 2008 01:18 PM