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agosto 25, 2008

A Ilha Secreta

− Frailecillos? – pregunté. Eran unas aves de aspecto simpático, con plumaje de varios colores y un aparatoso pico amarillo que nunca habría dicho que pudieran comerse.
− Son unas aves encantadoras – me confirmó la camarera −, pero también se comen. Su carne es muy apreciada.
Pensé que comerse un frailecillo debía de ser algo así como comerse un animal de compañía o como despanzurrar un osito de peluche. Rechacé la oferta, pues, y me incliné por el filete de ballena. Al fin y al cabo, por simpáticas que caigan las ballenas, nunca podrán ser consideradas animales de compañía.

Xavier MORET, La Isla Secreta – Un Recorrido por Islandia

Durante os últimos dias regressei à Islândia com a prosa de Moret. Senti uma identificação imediata com o narrador, com o seu relato entre o deslumbramento e a desconfiança, como se a pátria mediterrânica, e a atracção pelo sul, fossem chão de onde brotam as mesmas emoções, o mesmo desconforto, aliado a idêntico fascínio pela magia da ilha do gelo. O livro, bem-humorado sem ser trocista, traça o retrato possível, para um viajante, de um dos recantos mais escondidos da Europa. Desde os bares cosmopolitas de Reykjavik, pejados de vedetas nova-iorquinas e londrinas, até aos remotos glaciares da costa oeste, Moret leva-nos numa viagem por uma terra temperamental, onde os homens são convidados a prazo. E como o tempo é um ladrão, mas também um generoso dador de recordações e atenuador de irritações, o livro de Moret veio mostrar-me que, dois anos após a minha viagem à Islândia, o balanço é, afinal, bastante positivo. As planícies de lava, escuras, o mar frio e ameaçador, a natureza em estado puro e em ebulição, sempre à beira do desastre, causaram-me tremores semelhantes aos descritos por Moret na sua aventura islandesa. Elfos, sagas e valquírias. Wagner, e os seus ambientes cobertos de neblina e urdidos por histórias trágicas, sente-se de outra forma após conhecermos a ilha secreta. A Islândia evoca o funeral de Siegfried, e lembra-nos que não há espaço para heróis entre os homens e os deuses. Somos apenas seres imperfeitos à mercê dos elementos e do desassossego interior. E as baleias, ao largo, acentuam a carga mitológica e literária. Mas é no prato que melhor as podemos apreciar.

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Carlos M. Fernandes, Reykjavik (de Atlas), 2006

Em Reykjavik fiz como Moret, talvez enfeitiçado pelo espírito de Stubb (a steak, a steak ere I sleep! You, Daggoo! overboard you go, and cut me one from his small!, Moby Dick, cap. 64, Stubb’s Supper), e finquei o dente na carne de baleia. E, tal como o imediato do Pequod (Don’t you think this steak is rather overdone?) −, mas sem insultar o “Dagoo” do Saegreifinn − logo me vieram à cabeça exigências gastronómicas, e imaginei a carne mal passada, mais rija, e com o sangue no centro ainda vivo e a gotejar para o prato. Ah, e o frailecillo, esse pássaro adorável (se tal coisa é possível) que Moret não teve coragem de comer, também me passou pela boca, mas não é grande manjar. O escritor catalão escolheu direito por linhas tortas. Homens são homens, animais são animais. Excepto os cães, que parecem ter sido moldados por nós, por milénios de selecção artificial, à nossa imagem e semelhança, mas que talvez sejam anjos-da-guarda colocados na terra pelos deuses, para nos mostrarem que a perfeição é inalcançável, a nós, simples mortais.

Carlos Miguel Fernandes


Adenda: Um ministro islandês, em 1984, ameaçou abandonar o país caso a lei que proibia a permanência de cães nas cidades fosse levada à letra (não queria ficar sem a sua Lucy). A lebre fora levantada algum tempo antes por uma organização ambientalista, que no seu afã de acabar com uma legislação anacrónica e de pendor totalitarista, acabou por acordar o polícia que há em cada governante, e causar uma autêntica caça ao cão nas ruas de Reykjavik. A lei existia no papel, mas era ignorada, como deve acontecer nos Estados que se querem “de direito”. A patética legislação lá acabou por desaparecer, mas crê-se que tal assomo de bom senso não teria acontecido se um dos perseguidos não fosse um ministro. Serve esta história para exemplificar os perigos do moralismo-lei-é-lei-e-é-para-cumprir. Não, não é. Num Estado totalitarista talvez, mas numa democracia liberal não. Mas assim se vê para que lado cai um “democrata”.

Publicado por CMF às agosto 25, 2008 04:47 PM

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