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agosto 19, 2008

O Egoísmo

Recentemente, numa conversa de café, expressei as minhas reservas perante a crescente moda das mães solteiras. Não me refiro a acidentes de percurso ou a famílias monoparentais nascidas da tragédia; falo apenas de actos conscientes, de passos cuidadosamente estudados no sentido de procriar sem partilhar a vida com um homem. Não é o moralismo que me move, mas antes a convicção de que suprimir, voluntariamente, da vida de um indivíduo, a figura do Pai, é um acto atroz e leviano. Não são os efeitos na sociedade (seja lá o que isso for) que me perturbam, mas a visão de crescer sem Pai (ou sem Mãe, se as modas e a biologia ajudassem a tal simetria nos comportamentos). As minhas observações foram mal recebidas, e como contraponto tive que ouvir falar sobre o egoísmo (!) de quem não tem filhos porque não quer. Ora aqui está o pensamento colectivista e progressista em todo o seu esplendor. Por um lado, a vida de indivíduos concretos, filhos, é menosprezada em detrimento de uma teimosa ideia de sociedade moderna, anti-patriarcal e multiculturalista. O indivíduo não conta. Mas essa mesma sociedade, que, quer queiram quer não, não é mais do que entidade abstracta, é defendida contra opções livres que não afectam terceiros! Onde está afinal o egoísmo? No individualista, que respeita a esfera privada do próximo, pois espera que respeitem a dele, ou no colectivista que reduz todos os homens a números, pesados e recontados no sentido de trabalhar aquilo que se costuma designar, com toda a candura, de bem comum, ou interesse geral? Se pelo caminho alguns forem sacrificados, é tudo por uma boa causa. Fraternidade e Igualdade acima de tudo, mesmo que nesse altar a Liberdade seja imolada: é este o espírito enviesado que tantos dissabores nos causou durante os últimos dois séculos.
O meu pessimismo antropológico, aliado à busca da coerência, não deixa lugar a grandes esperanças. Somos imperfeitos e temos que viver com isso. O colectivismo e o progressismo parecem entranhados na natureza humana, e a caução é sempre o malfadado bem comum. Mas também podemos seguir um raciocínio mais cínico, e interpretar a recorrente antropomorfização da sociedade de outra forma: “se não têm filhos, quem nos vai pagar as reformas douradas?” Serão estes os verdadeiros predadores da selva?, aqueles que comeram tudo e não deixaram nada?

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às agosto 19, 2008 02:28 PM

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