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agosto 13, 2008
Kon Lazàla pe C’hiboetar Lazàla pe Ratetar*
Os ciganos não são identificáveis, não são idênticos. Guardam e conservarão a sua invencível alteridade.
Claire AUZIAS, Os Ciganos
Segundo o jornal Público, Paulo Pedroso terá dito, a propósito dos recentes confrontos na Quinta da Fonte, Não é um problema de cidadãos de etnia Roma (cigana) e de cidadãos de pele negra, o que está em causa é a concentração de pessoas com grandes níveis de pobreza e com uma vida urbana separada da geral. Tardou mas chegou: roma como sinónimo de ciganos! Como aconteceu com muitas outras entradas do dicionário politicamente correcto que vingaram no passado, este pode ser um hábito que veio para ficar. Mas há ainda alguns obstáculos no caminho dos missionários do progressismo que podem atrasar o processo e impedir que o termo se entranhe no discurso comum antes que o ridículo o abafe irremediavelmente. Em primeiro lugar, o termo roma, apesar de ser muitas vezes usado com o objectivo de abranger a totalidade da Diáspora cigana, é redutor, pois transforma grupos bem distantes, no terreno e no “tempo”, numa miscelânea niveladora de identidades (ou alteridades). Como descendentes do ramo principal, que nasceu na Índia, podemos hoje encontrar, entre outros, os sinti, os calé, e os roma em sentido estrito − os ciganos das regiões balcânicas e arredores. Tendo em conta o temperamento e o brio desta gente, o progressista que se aventure nas colinas do Sacromonte arrisca-se a ouvir, como réplica ao seu roma, um sonoro e orgulhoso ¡yo soy gitano! (Vamos condescender e pensar, para já, que a crescente utilização do termo roma não está relacionado com a agenda de um grupo de intelectuais de etnia cigana que se move nas universidades francesas e que reclama uma nação romani desde os Balcãs até à Península Ibérica**; o Nacionalismo Romântico já corrompeu os ciganos.)

O segundo problema que encontro na utilização deste termo tão “correcto” pode ser facilmente resolvido com um pouco de estudo. Roma é um nome. Não se diz etnia roma (seria qualquer coisa como escrever etnia ciganos)! A designação correcta é etnia romani. Com estes cuidados, use-se então roma como sinónimo de ciganos. É erróneo, deixa cair termos como gitano, atzinganoi, zigeneur, ciganyok e gypsy – palavras vetustas que nasceram da língua grega e da crença na origem egípcia dos ciganos − mas o progresso e a linguagem politicamente correcta a isso obriga. Há, no entanto, um detalhe que talvez conduza a uma inversão desta marcha no sentido de mais um auto-de-fé das palavras malditas. Rom (o singular de roma) significa homem em língua romani. Homem! Parece-me coisa pouco ajustada à ideologia progressista (a mesma que deixou cair mankind). Isto não vai ficar por aqui…
Carlos Miguel Fernandes

*Quem tem vergonha da sua língua tem vergonha do seu sangue. Em romani (assim se designa a língua dos roma), mais ou menos…
** Devo esclarecer, para não alarmar os espíritos mais delirantes, que esta hipotética nação romani que se estenderia desde Balcãs até à Península é uma nação sem terra. Se algum pedaço fosse alguma vez reclamado, uma espécie de Terra Prometida romani, estaria certamente situada algures no território indiano.
Publicado por CMF às agosto 13, 2008 05:51 AM
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