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agosto 03, 2008

Notas de Viagem VI

Vinha do Metropolitan e vagueava pela zona da Columbus Avenue, rumo ao metro que me levaria às portas de Brooklyn. É desta, pensei, é desta que saio de Manhattan. Queria estar do outro lado do East River quando o sol, baixo, iluminasse em contra-luz a silhueta mutilada da Dutch New Amsterdam. Mas o calor fez-me tropeçar no Dublin House, que fica na W 79th Street, perto da West End. Sentei-me ao balcão, e por alguma razão que agora não recordo, entabulei conversa com o Mark, dramaturgo nas horas vagas (I work for the city, é a única pista que tenho sobre o seu verdadeiro trabalho). O Mark tinha aquela energia louca, aquela ânsia pelos grandes feitos que nos faz desconfiar que o seu amor à arte é um desígnio constantemente adiado. Talvez nunca tenha estreado um trabalho na Broadway, nem fora da Broadway. Disse-me que prepara agora uma peça em dois actos baseada no Inferno de Dante. Não adapta a obra integral, porque, nobody cares about Purgatory! Comecei a perceber que estava a conversar com a cidade. O Mark cada vez me parecia menos uma pessoa de carne e osso, e transformava-se agora numa personagem literária, cinematográfica. Era matéria de romance. Como estávamos no Upper West Side, Auster vinha-me constantemente à memória, mas era mais profunda a investida no Great American Novel, eram as águas de Moby Dick que navegávamos, era a insana demanda pela obra maior do que a vida, a ambição acima do génio, era essa amálgama americana que estava em cima daquele balcão gasto de um bar irlandês na 79th Street. Mark perseguia o seu Leviatão pessoal. Mas estava convencido que Nova Iorque nunca o iria revelar perante os seus olhos. Vociferou contra a nova cidade, a cidade sem vagabundos e livre de fumo. Denunciou as campanhas higienistas, classificando-as como políticas nazis, e meteu democratas e republicanos no mesmo saco. As restrições das liberdades individuais, o Patriot Act, mereceram os mesmos mimos. Mark é um libertário, de ímpetos criados no caldo dos anos sessenta, sim (esteve em Woodstock), com tiques esquerdistas, talvez, mas é um exemplo de como a discussão política, na América, se recentra sempre que as liberdades são postas em causa. It’s all about freedom, man, it’s not about democrats and republicans. Mark já não consegue viver em Nova Iorque. É um poeta, diz-me. Se não pode beber uma cerveja e fumar um cigarro ao mesmo tempo, não consegue escrever. Vai para Oeste, para um Estado menos puritano, afirma com convicção. A sua descrição de uma Nova Iorque com os vícios mais sérios varridos para baixo do tapete, enquanto os cigarros e outros estilos de vida menos adaptados à moral higienista são perseguidos, fez-me lembrar as palavras de Abel Ferrara: em Nova Iorque ainda se compra cocaína; mas agora vamos de limusina.
A ronda pela histórias de Nova Iorque não terminou com o Mark. Do meu lado direito estava um texano, de cujo nome, lamentavelmente, não me recordo, que escrevinhava umas notas com o lápis que lhe emprestei. Estava a trabalhar em ideias para o seu espectáculo de comédia. Já actuaste em muitas salas?, perguntei. Não, ainda nem sequer tinha passado pelo baptismo! Graduara-se em Geografia, trabalhava agora com o pai na venda de livros de medicina (!) e estava à espera de uma oportunidade para sair de uma vida rotineira. Enquanto esta não chegava tentava melhorar o seu reportório. Mark partia, desiludido com o rumo de Nova Iorque, e este jovem nascido em Austin preparava-se para tentar a sua sorte na cidade que nunca dorme. I don’t even know if I’m funny, disse-me com uma sinceridade desarmante. A conversa chegou ao seu irmão mais novo, que acabara de se licenciar em Design. He has an artistic temper, disse, e depois perguntou-me que conselho daria a um jovem com tais ambições. Fiquei surpreendido com a questão. Talvez estivesse apenas a tentar arranjar material para o futuro espectáculo. Talvez não. Respondi como sabia: estudar os clássicos, estudar muito, evitar a arrogância da juventude, não cair no erro de pensar que pode construir algo a partir do nada; o objecto artístico nasce do autor, sem dúvida, mas de todo o conhecimento acumulado por este, de toda a cultura edificada pelos que lhe antecederam. Na Arte, como na Ciência, o défice de humildade é a morte do artista.

Saí do Dublin duas horas após ter entrado. Brooklyn ficava mais uma vez adiado. Sem penas. Estive no coração de Manhattan. E Manhattan (já) não é Amsterdão. Não há canais concêntricos a lembrar os círculos do Inferno, há apenas algumas almas, umas penadas, outras com um sopro imenso de vida, a lembrar-nos que o Inferno somos nós, e o que dele fazemos.


(Nota adicional: A Europa indignou-se com a escalada no ataque às liberdades individuais que se verifica nos EUA pós-11 de Setembro. Não percebo bem por que razão. Somos fotografados e obrigados a deixar uma impressão digital à entrada dos EUA? É verdade. Mas não é isso que portugueses, espanhóis, gregos e outros europeus fazem há anos? Não somos tratados como criminosos pelos sucessivos governos, não somos obrigados a sujar os dedos e a deixar a marca pessoal para os arquivos? Parece coisa de pouca monta, sujeitamo-nos com um sorriso na cara, e quem levanta a questão dos Bilhetes de Identidade é até alvo de chacota. Mas a fotografia e a impressão digital são o primeiro passo no sentido da servidão. Os americanos e os ingleses sabem-no bem, e por isso resistem aos avanços de certos sectores dos seus governos. Os europeu continentais vão olhando zombeteiramente para o mundo anglo-saxónico e para sua luta em prol da liberdade, enquanto as suas grilhetas vão ficando mais apertadas.
Um conselho: se forem aos EUA e vos pedirem algum documento de identificação, nunca mostrem o Bilhete de Identidade. Arriscam-se a receber em troca um olhar desconfiado. Uma impressão digital num documento é sinal de passado duvidoso.)

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às agosto 3, 2008 03:26 AM

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