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julho 25, 2008

Notas de Viagem III

O BillyMark’s West apareceu-me pela frente como um oásis num deserto urbano. Um deserto circunstancial, claro, pois Nova Iorque é tudo menos uma cidade desolada. Vinha de uma visita às galerias de Chelsea, na zona de armazéns perto do rio Hudson, e sentia na pele a aflição de Tom Ewell/Richard Sherman, mesmo sem o pecado ao lado (ou em cima), mesmo sem a comichão dos sete anos, e sem Rachmaninoff para me confortar. Eram três da tarde, o calor e a humidade atingiam níveis insuportáveis. Ainda queria subir a Avenue of the Americas até ao número 1133, a morada das exposições do Internacional Center of Phtography, perto das ruas mais congestionadas de Nova Iorque, onde a multidão se adensa até ao limite de almas por metro quadrado. Estava na hora de descansar um pouco. O contacto periódico com o ar-condicionado é fundamental para enfrentar o Julho nova-iorquino. Pode ser numa galeria, numa loja, num bar, desde que o suor pare, por um momento, de nos encharcar a face, de se acumular nas sobrancelhas e cair em gotas que baralham a visão já toldada pela beleza de Nova Iorque. Atravessava a Nona, pela 29, quando vejo o BillyMark’s. Entrei. A frescura do interior deu-me outro ânimo. Sentei-me num dos bancos de napa e encostei-me ao balcão de madeira pintada de negro. O bar é escuro, não por falta de luz, mas pelos tons da decoração. Ao fundo, em lado oposto à entrada, estão duas mesas de bilhar e a inevitável “caixa de música” (jukebox). A poucos bancos de distância, dois afro-americanos (é assim que se diz, não é?) falavam sobre o estranho labor dos “seguranças” (bouncers), com gestos a imitar agressões tentadas e pistolas apontadas à cabeça. Não é velho, nem novo, o BillyMark’s. Está apenas gasto, tem pátina, há ali histórias para contar, e por contar. Peço uma cerveja, uma Budweiser, por favor. Are you from Spain?, pergunta-me o Mark ou Billy, não sei qual deles (é o da esquerda nesta imagem). Olho para a mochila em busca de pistas. Na roupa é impossível. Confundirem-me a nacionalidade é habitual, e o “alemão” é sempre o primeiro tiro. Mas “espanhol” é a primeira vez. Actually I live in Spain, but I am portuguese, respondi, enquanto meditava na fragilidade de uma identidade, e nas razões que terão levado o homem a pensar que eu era espanhol. Ter-me-á a Andaluzia cambiado o sotaque? Ou, como dizia o Antonio em Atlanta, referindo-se aos meus hábitos aparentemente desregrados, serei mesmo half spanish? Por vezes sinto-o por inteiro. They sure know how to party there, continua o Billy/Mark. Respondi de acordo com a minhas palavras anteriores, yes they do, mas por dentro pensava, yes we do, my friend, yes we do. Sorri, levei a Budweiser aos lábios, e a temperatura da sala desceu mais um pouco.

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Carlos M. Fernandes, New York, 2008

Carlos M. Fernandes

Publicado por CMF às julho 25, 2008 02:27 PM

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