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julho 18, 2008

Um Milagre

No Iorque não é uma cidade, é um milagre. Podem atacá-la, arrasar os seus edifícios mais emblemáticos, escarnecer do modo de vida americano. Nova Iorque manter-se-á, por muito mais tempo, como a Cidade Perfeita, aquela que faz todas as outras parecer uma aldeia perdida no espaço e no tempo.


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Carlos M. Fernandes, New York, 2001

Notas de viagem:
1) Passear por Nova Iorque depois do sol-posto, entre Chinatown e Chelsea. Comprar o Impressions do Coltrane numa loja de discos usados na W 4th Street; depois, o Let now praise famous men, o mítico livro de Walker Evans e James Agee, num alfarrabista de Greenwich Village, o Left Bank Books. Atravessar dois ou três quilómetros da cidade imerso numa multidão excitada. Parecem pequenas coisas, mas são grandes luxos.

2) Atlanta é maçadora, é demasiado extensa e não tem vida nas ruas que ligam as suas diferentes áreas mais (pouco, muito pouco) animadas. É uma cidade feita para carros, e os peões sofrem, e sofrem ainda mais durante o verão subtropical. Mas nunca esquecerei as noites quentes de Atlanta, a humidade, o cheiro a terra, os sons, o verde intenso da vegetação que rodeava as casa de madeira, aparentemente, frágeis. E não esquecerei a esplanada do City Café (um diner, aberto 24 horas), no cruzamento da 10 com a Hemphill, no meio do nada, o suor a escorrer-me pela cara, os arranha-céus do centro e do Midtown ao fundo, iluminados como árvores de Natal, e a sensação incómoda de nunca mais voltar àquele lugar.

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Carlos M. Fernandes, Atlanta, 2008

3) Sweetwater. A cerveja de Atlanta. Chama-se água doce, mas é uma ale amarga, a fazer lembrar as cervejas dos pubs londrinos. Excelente.

4) Bolo de caranguejo. Há uns dias, No Ray's Oyster Bar, na Peachtree, Atlanta, com a pandilha granadina reunida em volta de um enorme prato com os ditos, calamares fritos, ostras com parmesão e espinafre, e gambas picantes. Ontem, já em Nova Iorque, e aqui mesmo na porta ao lado, acompanhado por uma Hoegardeen. Deliciosos.

5) Em Atlanta, um jornal esquecido em cima da mesa do hotel descrevia, num artigo, a recente migração de reformados desde a Florida até à Geórgia, e em particular até à sua capital. Foram feitas algumas perguntas a um casal que trocou as praias de Miami por uma pequena vila nos arredores de Atlanta. Razões? Os impostos na Florida tornaram-se insuportáveis. Nos EUA, cada estado é livre de definir a sua política fiscal, podendo, dessa forma, competir com outras regiões do país, conquistando população e investimento. Na Europa, assustados com as políticas dos países de Leste, os sacerdotes do Estado social tentam, por todas as vias, a uniformização fiscal. Repare-se bem no absurdo: estados que pertencem a um país são livres de definir as suas regras, mas os iluminados burocratas de Bruxelas julgam que os estados soberanos que compõem a União Europeia não têm esse direito. Coisas de beatos, de quem tem medo de que a Santíssima Trindade (liberdade, igualdade, fraternidade) abandone o domínio dos governos e seja entregue ao povo. Os europeus têm a água pelo pescoço, lutam para conseguir respirar, mas insistem em continuar com as políticas que inundaram o salão. Ao mesmo tempo, mantêm sempre um dedo apontado ao outro lado do Atlântico, esperando a anunciada derrocada do capitalismo. Enfim, a Fé não se discute…

6) Escrevo desde o quarto 503 do Chelsea Inn. Nada mudou nos últimos sete anos. O Chelsea Inn é um hotel modesto, situado num velho prédio de Chelsea. As escadas rangem, as paredes são irregulares e as alcatifas já podiam ter sido mudadas há alguns anos. No entanto, é um sítio aprazível, o quarto é grande, o ar-condicionado ajuda a suportar os 35 graus e os 60 por cento de humidade, e na recepção estão caras simpáticas e prestáveis. Mas era escusado terem-me posto no quinto andar de um prédio sem elevador. Não sei que espécie de neotenia se manifesta no meu rosto (em Atlanta, em mais do que um lugar, tive que mostrar identificação para beber uma cerveja!!), mas já tenho uma barriga respeitável, e o corpo faria soar muitas campainhas se me desse ao trabalho de ir a um médico. Uns destes dias, de manhã, encontram-me estendido nas escadas, entre o terceiro e o quarto piso.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às julho 18, 2008 04:42 PM

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Comentários

Curioso ... pouco me lembra de Atlanta. Além desaguar num corredor com uma linha de comboio no aeroporto.
- Can I walk?
- Yes, you can but it takes two hours.

E depois o bafo quente, o suor, o aproximar dos prédios mais elevados. Senti-me pequeno ... humilde. Não gostei. Não havia nada para ver e desfrutar.

Publicado por: A. R em setembro 8, 2008 01:41 AM

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