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junho 05, 2008
As Granadinas – Na Praça de Touros
A 21 de Maio de 2008, na praça de touros de Granada e durante a feria de Corpus Christi, larguei a última camada de pele de turista. O ciclo está fechado: Constitución, San Cecilio, Semana Santa, Las Cruces, Feria. Por vezes perguntam-me há quanto tempo vivo em Granada. Respondo, e de volta recebo, ah, entonces ya eres granadino! Sorrio, pela simpatia das palavras, mas desconfio do estatuto. Medir-se-á em tempo, o crédito acumulado e necessário para ganhar as chaves de Granada? Haverá um instante, ou uma epifania, que nos integre definitivamente na herança cultural e na estrutura humana da cidade? É pouco provável, mas a verdade é que, depois de entrar numa praça de touros andaluza, mais de vinte e cinco anos após a última corrida à qual assisti, me sinto agora mais confortável com a promoção: ya eres granadino! (O Peter, com quem partilho, quase todas as sextas, o balcão do Finnegan’s, dir-me-ia, Miguel, please don’t be a granadino! Mas a cultura britânica tem sempre esta tendência para a auto-segregação, mesmo naqueles que, como o Peter, falam fluentemente castelhano e estão plenamente integrados nos hábitos da cidade.)
A festa começava longe da praça. Ao meu lado, enquanto esperava o autocarro, três mulheres vestidas a rigor carregavam sacos com bebidas. Fizemos a mesma viagem, rumo à praça de touros. Subindo a Isaac Albéniz, a multidão adensava-se. As imediações do recinto reluziam com a alegria das gentes, e parecia que toda a cidade se havia engalanado - eles com o chapéu e colete, elas com os fatos garridos e justos ao corpo - e juntado naquelas redondezas. Crianças e velhos, pijos e povo, iam entrando pelas diversas portas da arena, arrastando consigo os farnéis providenciais. O Juanlu comprava pipas (sementes de girassol) quando o avistei. Juntámo-nos ao seu irmão, o Manolo, e entrámos quando faltavam poucos minutos para o inicio do espectáculo. A casa não estava cheia. Não era o melhor cartel do Corpus, faltava-lhe a presença de El Fandi, faltava-lhe Jose Tomás. Mas nas bancadas a festa era gorda, desfilavam já os copos de uísque ou rum com coca-cola, e o vinho, claro! Nem o gelo faltava, saído das muitas arcas frigoríficas que entraram na praça levadas pelos aficionados. (O fumo é permitido, claro.) Os bocadillos, embrulhados em papel de alumínio, saíam dos sacos, mostravam-se aos famintos, e faziam-me duvidar da minha estratégia de mãos a abanar. Pedi as pipas ao Juanlu, para enganar a gula, e comprei uma cerveja a um homem que passava. A cortina subiu.

Alavante foi a estrela, pálida, da tarde. Na primeira faena arrancou um bom desempenho, apesar de enfrentar um touro difícil. Sem grandes arrojos, fez uma lide limpa e rematou sem hesitações. O público pediu duas orelhas e júri acedeu. Na sua segunda entrada, Alavante teve que lidar um touro mal picado. Durante os primeiros minutos cansou-o, para depois fazer a lide da tarde. Foi o momento mais belo da corrida. Infelizmente, o toureiro vacilou na hora de rematar. Matador que não abata o touro na primeira tentativa perde as graças do público. Os lenços brancos, que já estavam fora para pedir mais duas orelhas, voltaram para a algibeira. Notava-se algum desalento na praça. A seguinte e última lide sofreu do mesmo problema (não me consigo recordar do nome do toureiro). O touro foi bem tratado, mas o remate tardou, e tardou. Aquela que podia ter sido uma tarde de glória, deixou afinal um travo amargo. Por uma espada.
Saímos da praça. As tabernas já rebentavam pelas costuras. Era hora de iniciar outro desporto granadino. O tapeo.
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às junho 5, 2008 06:35 PM
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Comentários
Pois benvindo a Granada, home!
Publicado por: JJ em junho 6, 2008 08:13 AM
Y que no me pille la "mala follá"! :)
Publicado por: CMF em junho 6, 2008 03:10 PM
Tarde o temprano lo acabará haciendo...
Publicado por: JJ em junho 11, 2008 11:44 PM