« As Granadinas IV – O Prazer da Mesa | Entrada | O País Visto de Longe XIII »

maio 28, 2008

O País Visto de Longe XII

Há uns anos largos, num cantinho da costa andaluza ocidental, o Philipe disse-me um coisa que, na altura, não sendo Portugal ainda um lugar de imigração massiva, não entendi na sua plenitude: um país entra em decadência quando os seus cidadãos começam a recusar trabalhos “mal” pagos. O Philipe falava-me de França, o país onde nasceu e viveu antes de se mudar para Espanha e casar com uma algarvia. Na Punta del Moral geria um simpático bar (quase) de praia (onde se podiam comer umas fantásticas douradas de mar). Há um ou dois anos, num dos seus artigos na imprensa, ou numa entrevista, não me recordo, Mário Soares afirmou que a grandeza de um país se revelava quando os trabalhadores começavam a recusar os empregos mal pagos. Nunca pensei encontrar mais sabedoria nas palavras de um taberneiro do que nas dissertações do putativo pai da democracia portuguesa.
Vem isto a propósito de um texto recente de Mário Soares, cujos fragmentos fui lendo enquanto passeava pela blogosfera portuguesa. Apetecia-me gozar o prato, mas a prosa é tão anacrónica, tão incoerente e apartada da lógica, que eu não saberia por onde começar. E está tudo aqui, no primeiro parágrafo de um artigo do Rui Ramos (no Público):

Uma parte da esquerda começou a tratar o subprime como o Muro de Berlim do capitalismo. Não se entusiasmem, porque já não é a primeira vez que se enganam. Há cerca de 30 anos, o primeiro choque petrolífero também foi acolhido triunfalmente como "a crise final do capitalismo", "pior do que 1929". O Vietname, como o Iraque agora, e Nixon, como Bush, ajudaram à festa. Portugal passou então ao "socialismo". Era o vento da história. E que veio a seguir? Thatcher e Reagan. Há quem ainda não tenha percebido que a história não acaba quando nos convém.

E também neste texto do meu caro amigo André: Soares esquece que a "agressiva concorrência dos países emergentes que antes não contavam" resulta do facto de muitos cidadãos, pessoas com inúmeras aspirações justas e legítimas viverem hoje melhor que em 1988, antes de "duas décadas de neoliberalismo, puro e duro".

E chega, para ilustrar a indigência do “pensamento” soarista, e a falácia do Fim da História, versão neosocialista.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às maio 28, 2008 04:03 PM

Trackback Pings

TrackBack URL para esta entrada:
http://no-mundo.weblog.com.pt/privado/mt-tb.cgi/171443

Comentários

Comente




Recordar-me?

(pode usar HTML tags)