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maio 27, 2008
As Granadinas IV – O Prazer da Mesa
Es tarde y tenemos hambre; se trata de comer algo en seguida, antes de que el cocinero se acueste. Mi compañera de viaje habla de lavarse bien antes de nada. Pero, conociendo mi deber, doy un puñetazo sobre la mesa; primero comer; los lujos y la vanidad, después. Hago triunfar mi voluntad.
Knut Hamsun, En El Pais de los Cuentos
Desde sexta-feira à noite que o Antonio me falava do menu especial que tinha para o almoço de domingo no Wakame: degustação de pratos picantes. Eu, indefectível apreciador dos sabores quentes que as guindillas, chilis ou malaguetas dão à comida, quer directamente, quer através dos intermediários tabasco, piri-piri ou gindungo, não ia perder a ocasião, e no domingo, já a tarde ia a meio, desci do nono andar para ir até à calle Martinez Campos. A hora espanhola do almoço estava a terminar, e no Camino de Ronda circulavam poucas pessoas e carros. Ambiente de pré-siesta. Chegado ao Wakame, sentei-me na esplanada. Pedi a caixa de degustação de picantes orientais, e o sushi de salmão, para não variar, como tapa de la consumición. Deixei-me enredar pela languidez de uma tarde fresca. (A primavera tem sido amena, na Andaluzia, e os catastrofistas do aquecimento global devem andar nervosos com a falta de “tema”.)
A cozinha encerrou às 16.30. Eu ainda terminava a refeição quando o Antonio saiu para a esplanada, com o seu habitual copo curto, raso de cerveja, e se sentou entre a minha mesa e a do Rámon, que por lá também almoçou com os dois filhos. O Tony deixou a cozinha ao abandono e juntou-se a nós. O Fa recolheu os últimos copos e sentou-se ao nosso lado. A Geiko arrumava a casa, e deixava os homens entregues aos seus desportos favoritos. (O Antonio oferece uma rodada.) Um português, um espanhol, um mexicano, um inglês e um marroquino. A beber, comer e conversar. Isto não é multiculturalismo. É apenas grupo de homens, vindos de diversos pontos do mundo, unidos na cultura do hedonismo. Uma cultura que não tolera as patrulhas dos hábitos, um mundo sem espaço para misantropos. Um lugar (mental e físico) aprazível. Um lugar que devemos aproveitar, e até venerar, enquanto cá estamos, porque “amanhã” tudo se pode eclipsar, num sopro. É uma obrigação de contornos morais. Ah, e o caril verde ao estilo tailandês, com frango e beringela, estava delicioso. (O Antonio oferece mais uma rodada.)
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às maio 27, 2008 06:33 PM
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