« Hogar, Dulce Hogar | Entrada | Corpus Christi »
maio 14, 2008
Lazar, Que Império Escolhes?
A Madalena Lello escreveu um texto sobre a ex-Jugoslávia fazendo referência a imagens e palavras que eu trouxe da região. Lê-lo reforçou-me recordações. Não pelas fotografias, com as quais tenho lidado obsessivamente nos últimos dois anos, mas pelas frases que a Madalena foi desenterrar nos arquivos deste blogue. Lembrei-me do que fiz, do que vi e do que senti. Os Balcãs são um baú sem fundo de História e emoções. Há uma maneira de viver o (ou no) excesso só comparável com o desregramento espanhol. Com um passado remoto e recente tão agitado, a forma mais tentadora de estar na vida e nas ruas balcânicas é celebrar cada dia como o último. O impacto no observador é emocionalmente devastador, e nesse aspecto há também uma semelhança com a Espanha histriónica que seduz viajantes com uma eficácia espantosa (a Espanha foi durante muito tempo uma espécie de Balcãs ocidentais, que viajantes e escritores descreviam como o Oeste Selvagem da Europa). Mas basta-nos arranhar um pouco a superfície festiva para logo encontrar histórias cruéis que ora explicam, ora complicam a nossa visão dos Balcãs. A Madalena toca num ponto crucial, o prematuro reconhecimento da independência da Croácia e da Eslovénia por parte do governo alemão, em 1991, ao qual se juntou a Áustria e o Vaticano. Provocação, ignorância?, não sabemos, mas é lamentável que tal gente, sem rosto, nunca tenha sido responsabilizada pelo que se seguiu. Numa região como os Balcãs é impossível fazer exercícios do tipo “e se”, mas não é preciso conhecer a História europeia do século XX em profundidade para se perceber que o gesto iria ter consequências desastrosas. Em Belgrado ainda há quem se lembre dos cadáveres sérvios arrastados pelo Sava e pelo Danúbio que se amontoavam junto à fortaleza durante a II Guerra Mundial. Depois do bombardeamento e conquista da capital sérvia, os croatas, católicos (e este adjectivo é importantíssimo quando falamos da História da Jugoslávia), e os alemães fizeram, cada um à sua maneira, a imperativa limpeza étnica: selvagens e impulsivos, os Ustashas, metódicos e burocratas, os nazis. As águas do Sava transportavam as vítimas dos Ustashas, e o Danúbio levava até às portas da capital os sérvios mortos pelo exército alemão (os actos dos Ustashas foram desumanos ao ponto de chocar alguns militares alemães, naquele que é um dos episódios mais caricatos e absurdos da II Guerra). Por isso, quando a Alemanha e o Vaticano reconheceram a independência da Croácia e Eslovénia, Belgrado estremeceu de raiva, e os mais atentos temeram, com razão, o pior (sobre a Áustria nem vale a pena falar). Nessa altura não foram os mitos fundadores que foram desrespeitados; foram os sentimentos mais profundos, e ainda frescos, de um povo que viu a sua capital ser arrasado mais de quarenta vezes nos últimos séculos. Mas houve um homem que lucrou com a asneira: chamava-se Slobodan Milosevic, e a desastrada política externa dos estados europeus foi a sua escada para o poder.
Hoje, quase duas décadas passadas sobre o início do desmembramento da Jugoslávia, ainda se pergunta: que tem o Kosovo que não tinha a Krajina? Em vão. A Sérvia teve azar. O conflito foi, quase na sua totalidade, acompanhado pelo clã Clinton no comando do mundo. Se fosse um Bush, pai ou filho, a Sérvia talvez tivesse direito a manifestações de rua e teorias da conspiração. As maiores ou menores simpatias por cada uma das três grandes religiões monoteístas também podem explicar qualquer coisinha, mas nem vale a pena ir por aí.
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às maio 14, 2008 04:08 PM
Trackback Pings
TrackBack URL para esta entrada:
http://no-mundo.weblog.com.pt/privado/mt-tb.cgi/170851
Comentários
Carlos Miguel, depois das imagens, escritos, agradeço agora esta maravilhosa música.
Publicado por: Madalena Lello em maio 14, 2008 06:58 PM
Chama-se Ajde Jano, Kolo da Igramo. vem Jano, vamos dançar o kolo. (O Kolo é uma dança tradicional da Sérvia.) É uma música da região do Kosovo e Metohija, e está profundamente enraizado no folclore sérvio. Infelizmente, não consigo encontrar a melhor versão, cantada por Mara Djordevic. Mas acrescentei entretanto uma versão mais "modernizada", tocada pelos Kroke (um agrupamento judeu, de Cracóvia) e pelo célebre Nigel Kennedy.
Publicado por: CMF em maio 14, 2008 07:13 PM