« Atlanta, Geórgia | Entrada | Fotografias »

abril 21, 2008

A Camioneta da Adriana

Romania had no food, and practically no government, but it had the airline Tarom, and in every airport in Europe you could look at the arrivals board and feel that somehow the essence of Romania was perfectly evoked by the fact that the two hour flight from Bucharest was eleven hours late.
Brian Hal, The Impossible Country – a journey through the last days of Yugoslavia

Sim, há uma estação de camionetas na cidade, e tem ligações com Belgrado. Mas é melhor irem de comboio, disseram-nos.
Estávamos em Timisoara, e, ao contrário do que sucedeu um par de anos mais tarde em Novi Sad, ignorámos o conselho. Só havia um comboio diário a ligar Timisoara a Belgrado, e partia às seis da manhã em direcção à capital da Sérvia, onde esperávamos descansar uma noite e logo descer para a Macedónia. Seis da manhã, hora traiçoeira. Muito cedo e muito tarde. Cedo demais para dormir no hotel antes da viagem, pois de lá teríamos que sair a umas ridículas cinco da manhã. Muito tarde para nos perdermos na noite da cidade. A noite de Timisoara não é assim tão cativante. Pelo menos não era em 2004, não o suficiente para compensar o esperado desgaste e, consequentemente, uma viagem transformada em pesadelo por uma opção desvairada. Não, não podíamos ir de comboio. Pensado e feito, apontámos para estação de camionetas, que não ficava muito longe, e para lá nos dirigimos.

Chegámos sem dificuldade ao tosco pátio que passava por terminal de camionetas e logo encontrámos a desejada: Timisoara-Vrsac-Pancevo-Belgrado. A que horas parte, e em que dias?, todos os dias às vinte horas, Quanto?, (já não me lembro). Pouco passava das sete da tarde, e a camioneta parecia preparada para arrancar em hora marcada. Depois da breve conversa com o condutor voltámos para o centro de Timisioara mais animados e fazendo contas de cabeça. Menos de duzentos quilómetros separam as duas cidades. Mesmo contando com os inevitáveis atrasos na partida e na fronteira, era credível que a viagem não durasse mais do que cinco horas. Como a mudança de fuso horário nos favorecia, poderíamos estar em Belgrado antes da meia-noite. No melhor cenário, ainda teríamos tempo para descer a Skadarlija, e comer um mesano meso regado com Jelen Pivo, antes de nos recolhermos no Hotel Balkan e descansarmos para a longa viagem até Skopje. Entre estes “sonhos”, fomos caminhando no sentido do centro para aproveitar o último dia na cidade.

htimis.jpg
Carlos M. Fernandes, Hotel Timisoara, 2004

Chovera durante a manhã e o céu continuava carregado. Voltámos a pé para o centro, do lado rio oposto à via por onde circulam os principais transportes públicos. As estações de comboio e de camionetas ainda estavam um pouco longe do coração da cidade. Nesse pequeno núcleo mais agitado situava-se o hotel Timisoara, onde nos alojáramos três dias antes, depois de uma serena viagem de carro pela Transilvânia, que culminou com uma noite passada numa caricata pensão, perdida numa aldeia da Crisana, mais preparada para acolher os negócios da carne do que dois viajantes vindos do outro lado do continente. Tínhamos todo o tempo do mundo naquele dia que parecia encerrar a primeira fase da viagem de 2004, e voltámos a pé pela margem esquerda do Bega. Fotografei, pouco. Dois cliques. Finalmente consegui registar na película a “minha” Roménia, a imagem mental, sensorial, que se formou em mim durante aquela viagem que estava a um passo de terminar. Um lugar desolado, cabisbaixo, que por vezes nos surpreendia com uma beleza pungente. Um lugar adiado.
Voltaríamos no dia seguinte, de malas na mão, àquela estação de camionetas no fim da Europa. Por enquanto, perdíamo-nos, sem rumo, sem pressa, nas ruas desertas de Timisoara. Mal sabíamos naquela altura que à meia-noite do dia seguinte ainda estávamos no parque de chaços onde nos disseram: todos os dias, às vinte horas!

(continua)

[14] Timisioara, Agosto 2003 362-5.jpg
Carlos M. Fernandes, Timisoara, 2004

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às abril 21, 2008 04:27 PM

Trackback Pings

TrackBack URL para esta entrada:
http://no-mundo.weblog.com.pt/privado/mt-tb.cgi/170002

Comentários

Comente




Recordar-me?

(pode usar HTML tags)