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abril 07, 2008
O País Visto de Longe V
A situação é cada vez mais ser hilariante, mas eu agora rio-me porque estou longe, muito longe. Enviaram-me por correio electrónico uma notícia do jornal Público (domingo, 6 de Abril) que reza assim:
As máquinas de bolas que dão direito a chocolates, habitualmente instaladas em cafés e restaurantes, podem ser consideradas ilegais e os seus proprietários ou responsáveis pela sua exploração acusados de crime de jogo ilícito. Num armazém no Centro do país, todo o material foi apreendido pela Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) com a justificação de que não era possível ao cliente perceber qual o chocolate a que teria direito antes de introduzir a moeda de 50 cêntimos. Há, no entanto, acórdãos dos tribunais que contrariam este entendimento.
As máquinas de cápsulas que contêm senhas correspondentes a chocolates ou a outro tipo de brindes, que saem mediante a introdução de uma moeda de 50 cêntimos ou um euro, são aparentemente inócuas, mas a sua má utilização pode levar os seus proprietários a tribunal.
Com a parte superior da estrutura em acrílico transparente, este tipo de máquinas tem habitualmente uma janela interior que permite ver qual a cápsula que vai sair. Lá dentro está uma senha com uma cor que corresponde a determinado chocolate. Se a janela estiver obstruída (por um autocolante, por exemplo), a máquina é considerada um jogo de fortuna e azar. E a sua comercialização é crime.
Foi o que aconteceu recentemente num armazém do Centro do país. O proprietário foi detido e o material (máquinas e cartazes de exposição dos chocolates) apreendido pela ASAE, que considerou haver prática de jogo de fortuna e azar, considerado crime. A justificação é que o jogador se limita a introduzir a moeda sem poder escolher o prémio da sua preferência, neste caso um chocolate.
(…)
Quanto à legalidade das máquinas de bolas correspondentes a prémios como chocolates ou outras pequenas utilidades domésticas, a mesma fonte explica que só é considerado jogo de fortuna e azar quando o "cliente não sabe o que vai sair".
Parece que as bolinhas com chocolates são os novos alvos da ASAE, a entidade protectora do consumidor desamparado. E porquê? Porque podem ser vistas como um jogo de fortuna e azar. Vamos falar um pouco sobre Granada e a sua tradição de tapeo.

Aqui nesta magnífica cidade instalada nas encostas da Serra Nevada cultiva-se uma tradição que não vi em qualquer outra cidade espanhola, nem sequer andaluza, pelo menos a um nível tão amplo. Quando nos sentamos na barra de uma taberna ou na mesa de um restaurante e pedimos uma cerveja, um copo de vinho ou uma coca-cola, sabemos que vamos pagar alguns cêntimos acima daquilo que pagaríamos noutra cidade de dimensão semelhante a esta. Mas sabemos também que, com a cañita ou outra bebida, nos chegará às mãos uma tapa, sempre (conheço apenas duas excepções que confirmam a regra: a Casa Henrique e as Bodegas San Antón). Tirando algumas, poucas, tabernas onde essa tapa é eleita pelo cliente, a maior parte segue a política mais simpática (ou ultrajante, na perspectiva do fiel seguidor da ASAE): nunca sabemos o que nos vai cair no bucho. Claro que há lugares onde, após algumas visitas, vamos percebendo a ordem e adivinhando a sucessão de petiscos. Mas, mesmo aí, há sempre lugar para a improvisação e quando termina um ingrediente é necessário colmatar a falha. (Ou quando alguém se entusiasma e chega à sétima ou oitava tapa, obrigando o taberneiro a inventar qualquer coisa.) Em Granada, tapear é um jogo de fortuna e azar, no qual o consumidor não sabe o que o seu dinheiro vai pagar. Uma almôndega ou uma gamba? Uma fatia de presunto ou uma taça com paelha? Entramos em La Taberna de Bienvenido (calle Alhamar) para beber um copo de vinho e comer um petisco, e vamos encontrar a fantástica tapa de cordeiro, ou a mais banal tortilha (que, diga-se de passagem, não é nada má neste Bienvenido)? Nunca sabemos. Quem escolhe é o taberneiro.
Precisamos de uma ASAE que nos salve desta selva. Zapatero é um frouxo. Precisamos, aqui na Andaluzia, de um verdadeiro governo progressista que nos proteja destes ataques de empresários sem escrúpulos, porcos capitalistas que se aproveitam da ingenuidade do consumidor. (Nota: como é óbvio, não há menu de tapas, nem à entrada, nem dentro das tabernas. Um escândalo!)
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às abril 7, 2008 04:19 PM
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Comentários
É sobre outro assunto, mas não faz mal.
Publicado por: Nemo em abril 8, 2008 05:36 AM
Este é um artigo sobre o não aquecimento global. Bom proveito.
Publicado por: Nemo em abril 8, 2008 05:41 AM
É outro assunto, mas não é assim tão "outro"!
Publicado por: CMF em abril 9, 2008 01:33 PM