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abril 03, 2008
As Granadinas III – Os Touros
Mas inicia su faena Ortega Cano. Silencio estremecido. Belleza. Comprensión plena entre el torero y la negra bestia. Arte. Lo indefinible. Un césar con dominio total de su noble enemigo. Una danza iniciática. Lo más grande.
Fernando de Villena, Por los Barrios de Granada
Granada não é o centro da tauromaquia em Espanha, longe disso! Sevilha, Málaga e Ronda têm praças mais famosas e com mais movimento. A praça de Granada só vê touros no Corpus Christi e numa ou outra corrida dispersa, em Abril ou Maio. Durante o resto do ano o lugar é apenas destino de boémia, pois debaixo das suas arcadas e nos quarteirões em redor há rotas de tapeo muito apreciadas pelos granadinos. Mas estamos no coração da Andaluzia, e os touros, claro!, correm nas veias desta cidade. Nas tabernas discute-se o rejoneo como se fosse futebol, e as fotografias dos matadores, muitas delas assinadas pelos artistas com dedicatória ao taberneiro, são expostas nas paredes em poses de estrelas de cinema. Restante memorabilia, como os cartazes que anunciam num passado saudoso Dominguín ou Manolete numa qualquer praça andaluza, ou os bilhetes de sol e sombra com deliciosos preços de outrora, dão cor, entre o vermelho e o sépia, às paredes de mui distintas tabernas, como a Espadafor, na Gran Vía, a Jabugo, na calle Socrates e a El Duende, na calle Duende. (Tudo lugares muito recomendáveis, pelo ambiente e pela comida. E não, não é apenas uma fachada turística. Na Andaluzia, a Festa sente-se e faz-se com fervor.) Dominando toda esta profusão de signos como um rei endeusado, está El Fandi, nascido David Fandila, o filho dilecto da cidade, albaicinero, herói de Granada, matador jovem mas já com incontáveis triunfos na algibeira, conquistados em praças ibéricas e latino-americanas. Em Granada não é possível escapar à aura de El Fandi, e os meses que passam vão afilando a curiosidade. Na Andaluzia, não é possível passar ao lado dos touros, e os meses vão trazendo fantasmas e memórias que julgávamos estarem serenados.
Fui educado com os touros. Quando o quente Verão alentejano recebia a minha ansiedade infantil de braços abertos, havia um roteiro taurino para percorrer. Atirei bonés. (E tantas vezes fui eu a apanhá-los nas entranhas da praça, pois raramente passavam das bancadas!) Assimilei lições preciosas. (Nas touradas não há vencedores, dizia-me o meu avô, certamente vendo os “triunfos”, as orelhas e as saídas em ombros como o reconhecimento da arte sem decretar vencidos.) Mas as lições ficavam sempre coxas, pois, como não podia atravessar a fronteira sem os meus pais (outros tempos), não havia touros de morte no roteiro estival.
(Touros de morte em Portugal?, não se pode, tudo o que é excessivo ou sublime deve ser banido do país dos brandos costumes; as boas maneiras devem ser conservadas, recusa-se o segundo copo de vinho, para não estragar a pose, claro, porque essas coisas feias, bem, essas fazem-se em casa, escondidas, os olhos ébrios, ou o touro a sangrar, não é coisa para mostrar em público. E falar baixinho, claro, muito baixinho, não vão os vizinhos acordar…)
Mas desbaratei a herança. A adolescência é esbanjadora, há promessas de vida eterna na pele macia, e nada nos prepara para a lição mais dura: a existência é fugaz, e por vezes é tarde demais para retomar ensinamentos esquecidos. Tentarei. No Corpus Christi já tenho ida aos touros marcada com o meu amigo Juanlu, e connosco levaremos o seu irmão mais novo, num ritual de iniciação à praça de Granada. Antes, ou depois, passaremos pela Gran Taberna, um desses lugares de devoção à Grande Festa taurina, para as cañitas e o presunto.
Tourada em Granada, no Corpus Christi. É um regalo que me ofereço sem a ambição de me (re)especializar na arte. Tento reaver o espólio, mas regressar é difícil, agora. Pago o preço da estupidez e sou castigado por desonrar a memória do meu avô. Mas ele foi-se embora muito cedo, demasiadamente cedo. Não completou as lições. Não me deixou conhecer-lhe os defeitos. E não teve tempo para aplacar os meus.
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às abril 3, 2008 03:51 PM
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