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março 27, 2008

As Granadinas II – Depois da Semana Santa

Na última quinta-feira antes da Semana Santa já se respirava um ar diferente aqui em Granada, uma mescla de sagrado e profano que durante uma semana anula qualquer ilusão de livre-arbítrio e nos arrasta como uma onda de euforia. Na confluência da rua Elvira com a Plaza Nueva a movida não destoava das melhores noites de sexta e sábado. No Bar Leon já se sentia a Paixão. (Do outro lado da rua, o restaurante com o mesmo nome estava mais calmo. Em Granada tapeia-se, não se janta. E é assim que deve ser…) As casas Leon são um dos pousos mais nobres da cidade. Fundadas pelo pai Leon, são agora geridas pelos seus dois filhos, os quais continuam a honrar o bom nome paterno. (Honrar pai e mãe, lema que nos guia quando nos debatemos nas malhas da ignomínia.) Os dois irmãos, confrades, vivem a Semana Santa com o fervor dos penitentes. De toda a Espanha recebem os cartazes evocativos da festa católica e logo forram as paredes da taberna com eles, tradição que dá um ambiente irreal e anacrónico à casa, mas não direi único, pois outros bares da cidade têm semelhante obsessão. Estava bem composto o Bar Leon, naquela última quinta-feira antes da Semana Santa, e alguns clientes, confrades também, divertiam-se ao verem-se nas reportagens que a televisão de Granada ia transmitindo sobre os preparativos das procissões. Nos dias seguintes a taberna ficou intransitável, tal como grande parte da cidade, e comer o delicioso ciervo da casa era empreitada para heróis. Mas entre o Domingo de Ramos e a Quarta-feira Santa as coisas ainda correm com alguma fluidez. É na madrugada de quarta para quinta que os ânimos se soltam definitivamente. As ruas enchem-se até ao limite das suas costuras com os turistas recém-chegados, e a festa entra no derradeiro e excessivo estágio. É a noite da procissão Los Gitanos, da Cofradía del Santísimo Cristo del Consuelo y María Santísima del Sacromonte. Dez horas de caminhada durante as quais os ciganos de Sacromonte mostram à cidade a força da sua devoção. Conta quem já assistiu à sua passagem que esta é emocionalmente devastadora.

(Apenas apanhei a cauda da procissão, já ela ia, e eu, pelo Camiño de Sacromonte, uma das mais belas ruas de Granada, o melhor lugar para, durante a noite, pasmar perante o Alhambra iluminado. Atrasei-me. Atrasei-me porque os gambones da taberna Arco Íris, que fica numa ruela que desemboca na calle Elvira, muito perto da porta com o mesmo nome, me distraíram durante algum tempo. Gambones e sardinhas, e a procissão a passar pelo lado ocidental da Elvira. Gambones e sardinhas e a procissão a chegar à Plaza Nueva. Depois, uma hora a perseguir Los Gitanos, e o trono da Virgem já ia junto ao La Buleria quando finalmente avistei a procissão, passava da uma da manhã. O último troço da caminhada dos devotos é terrível. Uma escalada violentíssima até à Abadia de Sacromonte, com chegada ao templo marcada para as quatro e vinte da madrugada. Fiquei pela “minha” zambra, La Buleria, que prometia festa gitana até de manhã. E, no Sacromonte, o prometido é devido.)

Na madrugada seguinte, a estrela é a procissão El Silencio, uma das mais esperadas da Semana Santa granadina. A saída dá-se à meia-noite. As luzes apagam-se todas à sua passagem: Plaza Nueva, San Matiás, Navas, Plaza del Carmen… Às seis da manhã regressa ao templo. Pelo caminho, o silêncio é apenas quebrado pelo ribombar do tambor que guia os nazarenos e os costaleros. Falta-lhe a música, a magnífica música das procissões da Semana Santa. Mas é assim, El Silencio, serena, soturna, introspectiva.

O excesso granadino e andaluz, exacerbado, se tal é possível, pela Semana Santa, continuou no dia seguinte. Eu não aguentava mais. O cansaço apoderara-se de mim, e o tempo mudou radicalmente, desde as temperaturas de Verão do Domingo de Ramos até ao frio glacial da noite da procissão El Silencio, tornando mais desconfortáveis as aventuras nocturnas. (Bienvenido a Granada, assim brincam os meus colegas quando refiro a volubilidade do clima da cidade.) E, de certa forma, o centro da cidade havia-se descaracterizado um pouco desde a noite de quarta-feira. A quantidade de gente que invade as ruas é indescritível. A Gran Vía, larguíssima e cortada ao trânsito, é um rio de almas que se atravessa com cuidado para evitar os choques. Na parte sul do centro, na zona do Plaza de Gracia, um dos meus lugares favoritos de Granada, o ritmo é mais lento. Mais lento pelos padrões da Semana Santa, claro. Mas a vida não se alterou tanto nos bairros Magdalena e Pedro Antonio de Alarcon. Foi lá que terminei a minha primeira Semana Santa em Granada.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às março 27, 2008 05:45 PM

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