« Ajde Beograde, Kolo da Igramo (agora completo) | Entrada | Mensagem Curta »
março 09, 2008
Triste Fado
As primeiras projecções das eleições espanholas não surpreendem. É o resultado esperado desde há uma ou duas semanas, quando se percebeu que o PP não tinha capacidade para mobilizar a mudança. É pena. Podemos estar a presenciar o apogeu de mais uma "experiência socialista", e com certeza vamos assistir ao seu declínio. Infelizmente, como quase sempre acontece com as utopias, o país pode ser irremediavelmente arrastado pela voragem progressista. Pobre Espanha. (Não se deixem enganar, o governo do PSOE é mais do que um governo socialista, é uma "experiência", como referi, e Zapatero não se cansa de repetir que é um progressista que pretende mudar as mentalidades e a sociedade. Apetece recordar Tatcher, there is no thing as a society..., mas é inútil, há gente que nunca aprende.)
Uma coisa é certa: ele mentiu, ele ganhou. E eu não deixo de achar alguma piada à situação. Agora só resta enfrentar a intempérie com uma cañita na mão e o comentário corrosivo bem armado. Y Viva España (ou o que sobra dela).
(Na página do PSOE ficou registada a promessa: não vão “tocar” nas corridas de touros. Ficaremos atentos, muito atentos.)
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às março 9, 2008 07:16 PM
Trackback Pings
TrackBack URL para esta entrada:
http://no-mundo.weblog.com.pt/privado/mt-tb.cgi/168382
Comentários
Citar Tatcher, e um bom resumo das suas teorias sociais confirmadamente disparatadas, é apropriado.
Posso amigavelmente sugerir-lhe a leitura da seguinte série de posts: Testar a hipótese da ordem social espontânea (1/5) e os sucedâneos (2/5) , (3/5) , (4/5) e (5/5)?
Publicado por: Porfírio Silva em março 10, 2008 10:17 AM
"Citar Tatcher, e um bom resumo das suas teorias sociais confirmadamente disparatadas, é apropriado."
Comfirmadamente disparatadas?! Nem sei o que dizer...
Publicado por: CMF em março 10, 2008 11:00 PM
O Carlos, se não sabe o que dizer, é simples: leia os posts que lhe sugeri e critique-os, por exemplo. Já é um bom ponto de partida para dizer qualquer coisa que se possa considerar parte de um debate. É que "arregalar os olhos" e exclamar "estou espantado" não é propriamente um contributo para um debate racional.
(Mas fico satisfeito de ter passado a barreira do seu novo instrumento moderativo.)
Publicado por: Porfírio Silva em março 10, 2008 11:45 PM
Não há qualquer instrumento moderativo novo. Foi apenas a sequência de links que deixou no comentário que fizeram com este fosse classificado como spam. Por acaso vi-o a tempo e alterei a classificação.
Quanto ao arregalar de olhos, é pelo tom do comentário, tão definitivo, e não pelo conteúdo (existe?). Eu também posso dizer que "outras" teorias sociais são disparatadas. No fundo, é tudo uma questão de crença, talvez. Quanto aos textos, já os li em tempos, posso até não os rejeitar no seu todo, mas, lamento, não compro as conclusões. Para simplificações, prefiro as “normas” de Axelrod (que eu suponho que tenha sido fortemente citado na tese de Castro Caldos. Se não o foi…)
Publicado por: CMF em março 11, 2008 12:02 AM
Vejo agora no artigo Choice and Institutions in Agent Societies que Caldas não cita Axelrod. Estranho, muito estranho. Eu não deixaria passar sem um reparo. Para além disso, tendo em conta que se pretende estudar comportamento emergente, não se percebe de onde surgem os valores para os parâmetros. A emergência de ordem (ou "ordem no limiar do caos", costuma acontecer apenas numa gama limitada de parâmetros; depois temos o SOC, mas isso é outra história). Mas já estou aqui a entrar em registo de revisor...
Publicado por: CMF em março 11, 2008 12:18 AM
Por aqui podíamos começar um verdadeiro debate, sem dúvida. Mas, de momento, apenas digo que o que eu queria sublinhar é que afirmações simples (como aquela da senhora Tatcher) são necessariamente afirmações simplistas, pela mera razão de que pretendem descartar, de uma penada, muito trabalho que já demonstrou (usa a palavra forte) que as coisas não são assim tão simples.
Quanto ao argumento do Castro Caldas, há que notar o seguinte ponto de lógica: ele não pretende demonstrar que certas coisas (ineficiência colectiva em caso de falha da possibilidade de concertar) acontecem sempre; pretende demonstrar (e demonstra) que certas coisas *podem acontecer* em dadas circunstâncias. Assim sendo, o ataque ao argumento teria de ter em atenção a estrutura do próprio argumento. O que poderia passar, por exemplo, por demonstrar o irrealismo dos pressupostos, ou a sua irrelevância.
Publicado por: Porfírio Silva em março 12, 2008 01:06 PM
Quando há posições inconciliáveis, o debate torna-se sempre complicado. E nós temos posições inconciliáveis no que à política diz respeito. Eu sou um anti-socialista primário, sem vergonha de o confessar. E sou porque tal doutrina esbarra com dois ou três princípios dos quais eu não abdico, e que passam pela tal frase que despoletou esta conversa, a qual está na altura de reproduzir na íntegra: There is no such thing as a society, there are individuals and then there are families. O Porfírio acha que é disparate; eu acho que as concepções holísticas (para não usar o termo colectivista, que é mais forte) do mundo são um disparate (nem Burke me convence, embora ele tenha sido muito mais sensato na sua abordagem do que os contemporâneos continentais). E, mais do que um disparate, têm um historial de tirania e restrição das liberdade individuais que já devia assustar muito mais gente do que assusta. Está na altura de dizer basta! Está na altura de acabar com as “experiências socialistas”, com as “mudanças de mentalidades”, com a falácia do “bem comum” (é muito engraçado falar de bem comum, e tal, mas eu gostava de saber quem o define, e quem é capaz de discernir quando este está a ser maximizado ou não). Está na altura de dizer: deixem-nos em paz! (Costumo dizer, em conversa de café, que darei sem reservas o meu voto ao político que fizer a seguinte promessa: prometo deixar-vos em paz.) Por isso, repito: há indivíduos e há famílias; o resto, disparate ou não, são construções.
O Porfírio diz que há muito trabalho que já demonstrou que as coisas não são assim tão simples. Se me falar de trabalho filosófico, aceito discutir. Mas aí, e o Porfírio sabe muito melhor do que eu, nunca foram encontradas respostas convincentes para estas questões. Quanto ao “trabalho científico”, não gosto de misturar ciências naturais com ciência política. É muito perigoso. Há gente, por exemplo, que vê na Inteligência de Enxame e coisas afins, justificação para a esquerda mais extremista (até de pendor anarquista, veja-se o paradoxo). E isso assusta-me. Por isso fico sempre de pé atrás quando vejo simulações com Algoritmos Genéticos como base para as tais teorias sociais. Já para a Teoria do Jogos se têm revelado insuficientes, quanto mais para coisas que lidam com a Moral e a Ética.
No caso das experiências de Castro Caldas, e fazendo apenas uma leitura muito rápida do artigo e dos textos do Porfírio, realço um certo simplismo nas experiências (que não as torna desinteressantes, mas apenas aconselha alguma prudência nas conclusões), e um problema com o meio (os AGs são demasiado “estáticos”, ou movem-se num ambiente demasiadamente estático, para se poderem retirar conclusões fortes; recentemente revi um artigo para a mesma conferência, que punha em causa o ambiente experimental de algumas experiências no âmbito de “bounded racionality”). A questão é: se a ordem não emerge espontaneamente, isso deve-se à impossibilidade de isso acontecer, ou à distância entre o modelo e o mundo real?
Publicado por: CMF em março 12, 2008 03:50 PM