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março 04, 2008

A Agonia de Tito

Há um ano tínhamos um teatro respeitado. Não exijo o nível de Madrid, ou Barcelona, ou Valência, ou Sevilha. Apenas, digamos, Oviedo ou Bilbau. Os políticos vão e vêm, mas as consequências dos seus disparates perduram anos a fio, às vezes até por gerações. Os catedráticos da Ajuda recolheram-se, impunes, às suas torres académicas. A sua pesada herança continua. Assim não vamos lá.
Jorge Calado, Actual (Expresso)

Este ano, e talvez nos próximos, é pouco provável que assista a uma récita no São Carlos. Pelo andar da carruagem, parece que não vou perder nada. Começam a ser visíveis os resultados das movimentações que levaram à saída de Paolo Pinamonti da direcção do teatro: mais uma produção, mais um desastre. Pior do que pagar um Ministério da Cultura, é pagar um Ministério da Cultura alarve. Assim se vê o perigo de um regime dependente dos virtuosos: quando os filisteus tomam as rédeas do sistema (e, para piorar as coisas, com um sinistro projecto de poder), a desagregação é inevitável.

Agora vou ali ouvir Die Zauberflote e apreciar a ironia que emerge quando se enreda Papageno e Sarastro no triste espectáculo do regime lusitano. Um homem nem sempre é um príncipe, e o príncipe iluminado só existe mesmo na imaginação dos mais ingénuos (ou na propaganda dos mais desonestos). Olhando para o passado com paternalismo, para o século XVIII de Mozart, ainda se pode compreender tal fé. No presente, é confrangedor.

(Não preciso ver com os meus próprios olhos, confio quase cegamente na opinião do crítico citado em cima; as afinidades hierarquizadas são assim, não se questionam, e criam laços de confiança que nos poupam muito trabalho.)

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às março 4, 2008 04:46 AM

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