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fevereiro 27, 2008
Kurvenal, Kurvenal
Isaiah Berlin, no livro Rousseau e os Cinco Inimigos da Liberdade, escreveu o seguinte, sobre a filosofia de Hegel:
[…] é como uma floresta muito sombria e os que nela entram muito raramente regressam para nos contar o que viram. Ou, quando regressaram, assim como aqueles que ficam fascinados com a música de Wagner, os seus ouvidos parecem ficar permanentemente afinados para sons muito diferentes das harmonias antigas, mais simples e puras, que ouviram outrora.
A Hegel, pai involuntário (?) dos –ismos mais atrozes e de tantos irmãos desavindos, como Hitler e Lenine, Caim e Abel do paganismo, talvez já esteja imune. Não corro o risco de encontrar nas suas páginas um caminho sem retorno para crenças em colectivismos e holismos. A adolescência ideológica, quando passa, deixa anticorpos. (Ainda Berlin: Existiram sempre indivíduos que desejaram estar inseridos numa estrutura coesa, encontrar o seu lugar seguro e legítimo num sistema rígido, em vez de serem livres. Para essas pessoas, Hegel tem uma palavra de consolo.) Mas não estou a querer retirar Hegel do pedestal que bem merece, até porque não tenho ferramentas para lhe analisar a obra com seriedade. Berlin não nega a excelência do pensamento Hegeliano, e nem Karl Popper, que dedicou um dos tomos do seu A Sociedade Aberta a esmiuçar o proto-totalitarismo na obra do filósofo alemão, lhe recusa um lugar entre os maiores. Wagner é mais perigoso. Não digo que me afecte como acontece na caricatura de Woody Allen: Sempre que ouço Wagner apetece-me logo invadir a Polónia. Não há arrebatamento bélico, mas apenas a tal floresta a envolver-me no seu véu enigmático (Wagner é kaluptein, não apokalutpein; não há revelação, não há luz a iluminar o caminho ou a sustentar convicções, as incongruências e dúvidas filosóficas do compositor parece que se reflectem na sua música; talvez por isso Nietzche tenha renegado a herança do seu mestre.) Quando me perco nos therefore e nos in addition, muletas discretas para um discurso enfadonho, nem as franjas da Sierra Nevada que decoram a janela do meu gabinete me inspiram. Então, “ligo-me” ao terceiro acto de Tristan und Isolde e deixo-me guiar pela agonia de Tristan e pela tragédia dos amantes. Só me resta o terceiro acto. Tenho coisas espalhadas por quatro casas, em dois países diferentes. No disco duro do portátil ficou registado este final de Tristan und Isolde, dirigido por Carlos Kleiber, já nem sei porquê. Mas ainda bem.

Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às fevereiro 27, 2008 03:41 PM
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Comentários
Estas linhas deixaram-me saudades de falar contigo acerca de música.
A música de Wagner tem sido terreno onde colho frutos que me conseguem sempre surpreender, mesmo quando ouço as primeiras óperas que o autor classificava como sendo os seus "erros de juventude".
Abraço!
Zé
Publicado por: Zé em fevereiro 28, 2008 12:53 AM
Zé, também tenho saudades das nossas conversas e de aprender contigo. Tens um "lugar" aqui em Granada se quiseres cá passar uns dias. Vou a Lisboa em breve...
Um abraço
Publicado por: CMF em fevereiro 28, 2008 04:58 PM
Obrigado, Carlos. Avisa-me quando chegares a Lisboa.
Até breve
Zé
Publicado por: Zé em fevereiro 28, 2008 09:48 PM