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fevereiro 22, 2008

O Paizinho III

Enquanto em Portugal o governo socialista distribui computadores portáteis, em Espanha o Estado oferece 410 euros para ajudar na compra dos mesmos. Há critérios de elegibilidade para a coisa, mas parece que grande parte da população consegue o dito subsídio. Critérios largos. (É assim o Estado Social, gosta de afagar a extensa classe média, mas deixa as franjas entregues à rua e à caridade cristã.)

Um dos jovens informáticos com quem partilho o gabinete vem de um pequeno pueblo andaluz com pouco mais de mil habitantes. Sendo o homem da sua terra mais entendido na matéria, a ele recorrem todos os seus conterrâneos quando decidem comprar um computador portátil. Antes de os aconselhar, pergunta-lhes, obviamente, para que fins vão utilizá-lo. Depois de devidamente informado, dá a sua sugestão, mas esta cai muitas vezes em saco roto: os seus “clientes” atiram-se quase sempre a uma máquina mais potente e mais cara. Mas porque compraste um computador de 1500 euros, quando só precisavas de um que te custaria apenas 1000?, pergunta J., surpreendido. Porque 1000 tinha eu, e como o Estado me dá 410 euros
Não vale a pena dizer mais nada. Bom fim-de-semana.

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Carlos M. Fernandes, E.T.S. Engenieria Informatica, Granada, 2008

Carlos Miguel Fernandes

P.S. Não há aqui nenhuma crítica à atitude referida em cima. As regras são essas e os cidadãos limitam-se a jogar no tabuleiro inteiro. O problema está em "quem" faz as regras, distorce o mercado, põe em causa laços de solidariedade e de confiança mútua.

Publicado por CMF às fevereiro 22, 2008 05:14 PM

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Comentários

Quanto a "distorcer o mercado", é leitura capaz de muita instrução o que diz respeito ao Northern Rock, o banco britânico recentemente nacionalizado.
O artigo do Público sobre essa matéria hoje tem o seguinte destaque: «Inglaterra nacionalizou um banco em pleno século XXI. As ideologias liberais da "Citi", que há décadas são (eram) a principal imagem de marca do paradigma dos centros financeiros europeus, de nada valeram, pela simples razão de que o país não se podia dar ao luxo de deixar falir um banco.»
O liberalismo quando convém, e o Estado a cobrir os grossos disparates dos privados, a tapar com rios de dinheiro o roubo que eles fazem aos desprevenidos, esse é que é o pão nosso de cada dia.

Publicado por: Porfírio Silva em fevereiro 22, 2008 06:22 PM

Porfírio, na minha opinião o Estado inglês não tinha nada que "colocar a mão por baixo" do tal banco. O Estado cobriu os disparates porque quis. E isso vai custar mais de 4500 euros a cada cidadão britânico. Lamentável. É a mão visível...
Da próxima vez os bancos vão arriscar mais e os clientes serão menos exigentes com a gestão. Se há um Estado sempre pronto a intervir...

Publicado por: CMF em fevereiro 22, 2008 06:27 PM

Afinal não são só os tugas que são gananciosos e exibicionistas! Nuestros hermanos também nos acompanham...

Quanto ao alegado choque tecnológico deste governo, só uma breve nota de alguém que todos os dias atende numa linha de apoio técnico pessoas do tal programa e-Escolas: o tal choque tecnológico, mais do que distribuir computadores devia ter-se preocupado em instruir com o básico dos básicos aqueles a quem se destina, através de alguma espécie de cursos rápidos de informática na óptica do utilizador, nas escolas ou juntas de freguesia. É que dizer "Vamos clicar no menu iniciar" e obter o repto "clicar no quê?", ou demorar 10 minutos para chegar ao painel de controlo, é de facto exasperante.

Um abraço

SPP

Publicado por: Samuel de Paiva Pires em fevereiro 25, 2008 02:30 AM

O Carlos escreve «na minha opinião o Estado inglês não tinha nada que "colocar a mão por baixo" do tal banco».
Só para termos uma ideia do que isso realmente significa (e da ideia que você tem da economia), o Carlos importava-se de dar assim um pequeno lamiré do que você acha que seriam as consequências económicas dessa opção?

Publicado por: Porfírio Silva em fevereiro 25, 2008 11:09 AM

"Só para termos uma ideia do que isso realmente significa (e da ideia que você tem da economia), o Carlos importava-se de dar assim um pequeno lamiré do que você acha que seriam as consequências económicas dessa opção?"
Falência do banco...

Publicado por: CMF em fevereiro 25, 2008 11:15 AM

Falência do banco? Curto. Muito curto. Seria muito mais do que isso. Ou a "complexidade" é para ficar só em terreno académico e não ajuda a compreender a realidade?

Publicado por: Porfírio Silva em fevereiro 25, 2008 07:57 PM

Qual complexidade?

Publicado por: CMF em fevereiro 26, 2008 01:02 PM

Certamente que em Espanha, que até é um país mais desenvolvido do que nós (e isso não é por acaso), também há bons jornais económicos que analisaram fartamente as razões pelas quais a liberal GB "nacionalizou" um banco, análises essas que certamente deram suficiente destaque aos múltiplos efeitos secundários que teria uma tal falência, bem como aos múltiplos cruzamentos desses efeitos secundários, bem como à incerteza associada a tudo isso e ao seu desdobramento no tempo. Mas, claro, como diz o povo "não vale a pena estar a querer ensinar o padre-nosso ao vigário". Especialmente quando o dito cujo eclesiástico qualificado não quer ver o que até os liberais empedernidos reconheceram.
Ou seja: por mim, fico por aqui, para não promover mais nenhuma desconversa trabalhosa e sem rendimento à vista.
Saudações.

Publicado por: Porfírio Silva em fevereiro 26, 2008 06:42 PM

"a liberal GB"? Ora, partir logo de premissas erradas não é boa estratégia...

Publicado por: CMF em fevereiro 26, 2008 06:53 PM

Bem sei. Liberal, liberal, mesmo, liberal na pureza, só a selva.
(Bem sei que você não gosta da expressão, mas poderei deixar de a usar quando eu perceber que sociedade liberal mítica é essa que você usa sempre como "lugar nenhum" - vulgo, utopia - para dar enigma ao seu discurso. Ou, mais precisamente, para evitar qualquer contacto entre ideologia e realidade. E, tratando-se de eu perceber, dadas as minhas limitações cognitivas, é melhor sermos práticos: quando você emigrar para essa terra liberal para onde aponta tanto no discurso, mande-me postais e notícias para eu me maravilhar também. Se a coisa for apenas imaginação, funciona na mesma: mande notícias da sua imaginação. Mas concretas,se faz favor: boutades qualquer um produz.)

Publicado por: Porfírio Silva em fevereiro 27, 2008 02:42 PM

Para começar, seria um lugar onde o Estado não tira 4500 euros a cada cidadão para salvar uma empresa da falência...

Publicado por: CMF em fevereiro 27, 2008 03:27 PM

Já agora podia também fazer a conta a quantos cidadãos perderiam quanto por cabeça no caso de falência do banco? Para começar, os que perderiam directamente, mas também os que perderiam indirectamente (outras falências induzidas e respectivos efeitos na economia, incluindo emprego e essas coisas pequenas)?
(Espero que você não seja daqueles esquerdistas primários que pensam que os bancos são um assunto de banqueiros e de malta com muita massa...)

Publicado por: Porfírio Silva em fevereiro 27, 2008 05:32 PM

Se o banco respeitar a lei, e garantir o “reembolso” de contas até ~30000 libras, penso que não haveria muita gente a passar fome. Mas nem queria por aí. Pelos vistos, se lhe roubarem 100 euros na rua, o Porfírio vai defender que o Estado o deve ressarcir. É que fica o Porfírio sem 100 euros, e muita gente a juzante, gente que não vai vender os bens que o Porfírio iria comprar com esses 100 euros. A ideia que a “esquerda” tem da economia, do mercado e do papel do Estado não deixa de me fascinar. (O Porfírio é de “esquerda”, não é?)

Publicado por: CMF em fevereiro 27, 2008 05:43 PM

O problema é que o banco não respeitou a lei, ainda não se deu conta disso?
Já agora: qual é o papel da lei no seu liberalismo?
"Pelos vistos", na sua boca, quer dizer o quê? Quer dizer "pelo imaginado"? Então, toca a afinar a imaginação. É que a sua imaginação acerca da "esquerda" é portentosa: em que jardim zoológico é que viu isso que supõe serem exigências da esquerda, oh Carlos?
Quanto à "minha" esquerda: sem aspas, por favor.
Bom fim de semana.

Publicado por: Porfírio Silva em fevereiro 29, 2008 05:13 PM

Se nao respeitou a lei entao é um caso de polícia (leia-se tribunais). Ou isto é mais um exemplo do Estado a cobrir um erro (a lei nao foi respeitada, e o seu incumprimento nao é penalizado) com outro erro (financiar a má gestao)?
Pois entao se nao é "pelos vistos", gostava de saber onde está a linha divisória, onde começa (ou acaba) a responsabilidade individual.

Publicado por: CMF em março 1, 2008 04:24 PM

Pensamento geométrico como sociologia (ou economia) é coisa com história. A história que o Carlos pensa estar do lado dos seus "inimigos". Mas você é muito mais solidário com os seus "inimigos" do que você pensa. Como a história vastas vezes demonstrou para casos análogos. Ou seja: aquela coisa que você detesta que eu diga: ideologia.

Publicado por: Porfírio Silva em março 2, 2008 09:27 PM

Sim, sim, Porfírio, já estou habituado a essa "argumentação". Mas (ou por isso) não lhe dou (à argumentação) crédito algum.

Publicado por: CMF em março 3, 2008 01:56 PM

Já agora: eu não tenho inimigos, tenho adversários. Mas isso não lhe interessa nada, pois não?, pois estragar-lhe-ia o drama no discurso.

Publicado por: CMF em março 3, 2008 01:59 PM

Drama seria o de muitas pessoas se a visão geométrica (ideológica) do mundo se impusesse. Como, repito, a história demonstrou fartamente. A pura maldade dos homens chega para fazer muito mal durante algum tempo. Mas, para fazer muito mal durante muito tempo a muita gente, e continuar a respirar "santidade", é preciso ideologia. Pensamento geométrico. Muita racionalidade abstracta, sem ponta de consideração pela complexidade. E desprezo pelas objecções.
E, quanto a inimigos, já que você tirou as aspas que eu pus na palavra para melhor desprezar a objecção, sempre lhe digo que eu tenho inimigos. Para ser mais fácil, falo em termos históricos: Stalin ou Mao, grandes ideólogos, são inimigos. Sem qualquer tipo de aspas. Não são cândidos adversários para liberalismos geométricos.

Publicado por: Porfírio Silva em março 3, 2008 06:23 PM

O Porfírio pode fazer o retrato que quiser dos seus inimigos ou adversários. Pode construir os homens-de-palha que quiser quando confrontado com um pensamento oposto às doutrinas socialistas mais centristas (nas quais parece colocar-se, supondo que rejeita o extremismo). Pode colocar, e tirar, as máscaras que quiser às ideias conservadoras e liberais. Não espere é que o levem muito a sério.

Publicado por: CMF em março 3, 2008 07:10 PM

Leia-se, Carlos, leia-se. Já que não aprecia ler os outros. ler-se a si próprio evitaria tanta fantasia acerca dos outros. E evitaria acabar onde você acaba sempre quando não lhe dizem amén: a insultar.

Publicado por: Porfírio Silva em março 4, 2008 01:58 PM

A insultar!? Tenha respeito...

Publicado por: CMF em março 4, 2008 02:21 PM

Oh, Oh, Oh... como diria o Pai Natal (mas não o escandinavo, talvez o venezuelano).
Aproveito para o informar que o meu estudo de caso sobre "modalidades de retórica na blogosfera portuguesa" vai de vento em popa.

Publicado por: Porfírio Silva em março 5, 2008 05:27 PM

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