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fevereiro 21, 2008
Direitos dos Não-…
I – Em redor da nova Lei do Tabaco gerou-se uma feroz disputa entre fumadores e não-fumadores, e muito se falou nos direitos destes últimos. Eu quero também aqui reivindicar os meus direitos de não-procriador e não-utilizador-de-telemóveis. Por isso, exijo a proibição da entrada de crianças em restaurantes e transportes (excepto se ficar demonstrado que se encontram fortemente sedadas), e a obrigatoriedade de manter os telemóveis desligados nos espaços atrás citados. O ruído e a perturbação que ambos − telemóveis e criancinhas − produzem, causam stress (ou echetré, como se diz aqui em Espanha), e o stress, como se sabe, mata lentamente.
II – Os crentes nas virtudes do Estado Social impõem-nos os seus dogmas e depois obrigam-nos a condicionar comportamentos para não colocar em causa essas cláusulas sagradas. Enquanto uns se entretinham a defender a Lei do Tabaco evocando direitos de não-fumadores, outros, num registo mais pragmático (e honesto, pois não escondem que, no limite, desejam que tabaco desapareça da face da Terra), defenderam a lei bradando com o argumento do Sistema Nacional de Saúde (SNS): menos fumadores implica menos gastos de saúde. Entretanto, há uns dias, foi divulgado um estudo (ah, um “estudo”, soa tão mal, não soa, quando não é a nossa arma de arremesso) que avança tese nova: afinal, os cidadãos saudáveis oneram mais o SNS do que os obesos e fumadores. Pois então meus caros, é hora de virar a agulha e começar a defender um Estado patrocinador do tabaco e da obesidade!
Tudo isto é muito parvo? Pois é, mas é sempre mais fácil perceber quando nos estão a fazer de parvos do que ter sentido auto-crítico e identificar a cretinice nas próprias crenças. E, para além disso, argumentos fracos estão sempre sujeitos a refutações grosseiras. Não será melhor centrar a discussão no que realmente importa – direitos de propriedade –, e deixar os dogmas para os beatos da Razão?
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às fevereiro 21, 2008 01:24 PM
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Comentários
este texto, bem como a citação do cabeçalho, são extraordinários. eu só acrescentaria as buzinas. a pouluição sonora anda a dar-me cabo dos nervos.
cumprimentos.
Publicado por: alice campos em fevereiro 21, 2008 05:06 PM
poluição *
Publicado por: alice campos em fevereiro 21, 2008 05:07 PM
Carlos,
sinto muito, mas não reconheço o nível a que me (nos) habituaste nas tuas postagens... Presumindo que não és sequer fumador, não percebo esse sentido de humor!
Eu fui um dos que lutou por uma legislação de protecção dos não fumadores. E tenho orgulho nisso. Muito mesmo. Sinto quase de estar a viver num país civilizado (ainda que a mesma não se afira por aí... etc, e tal..!)
Aproveito para te recordar este meu post, caso não o tenhas visto: http://elanaveva-fbr.blogspot.com/2008/01/finalmente-liberdade-ou-ar-puro.html
Publicado por: FBR em fevereiro 24, 2008 06:55 PM
Sim, Fernando, li. Como sabes, tenho uma opiniao completamente diferente. E, como também sabes, nao sou fumador.
Mas do que se trata aqui é de liberdade, liberdade de escolha, direitos de propriedade. E desses princípios nao abdico. Essa lei, pela qual tu lutaste, foi, para mim, a gota de água: espero nunca mais ter que voltar a viver em Portugal. E quando aí vou, tento nao gastar o meu dinheiro em lugares com sinalzinho "proibido fumar". (Nao pode haver liberdade quando nao há respeito pelos direitos de propriedade; quando construímos ou ajudamos a construir um mundo onde nos sentimos melhor, nao quer dizer que estamos a criar um mundo mais livre. A lei do tabaco portuguesa á exemplo disso.)
Publicado por: CMF em fevereiro 24, 2008 07:13 PM
Preparo-me agora para sair do cibercafé onde estou e vou beber um chá num belo bar, aqui perto. Vai estar gente a fumar. Talvez uma ou outra baforada me vá incomodar. Mas ver exercícios de liberdade compensa qualquer incómodo. O mundo nao é perfeito, nem todas as pessoas sao iguais, e se nao queremos viver num Estado totalitário temos que aceitar as diferenças. (E ninguém me obriga a ir ao bar. Tenho umas saquetas de manzanilla em casa.) Nao me passaria pela cabeça ir para casa alheia e ditar regras. Porque um restaurante ou um bar sao, antes de mais nada, casa alheia.
Publicado por: CMF em fevereiro 24, 2008 07:22 PM
Mas desde quando é que estabelecer regras, inclusivé sobre o modo de funcionamento de um estabelecimento privado, é cercear a liberdade?
No caso dos bares/restaurantes, a minha opinião é até de se poder deixar ao critério dos proprietários. Importante é defender os trabalhadores desses locais que se sintam incomodados pelo tabaco!
Eu aqui farei ao contrário, não irei onde haja dísticos azuis, porque esses proprietários me excluem, preferem ter clientes fumadores, tudo bem, estão o seu direito. Agora, tem é de haver também restaurantes e bares onde não se fume.
Repara que tu falas em ver pessoas a fumar, não te referiste ao dono do bar - e essas pessoas que lá vão, não estar a ditar (impor) regras em casa alheia?! Não são proprietários, são clientes...
É aí que reside a nossa divegência, é no comportamento de alguém que ao exercer um seu direito interfere, prejudicando um direito alheio. E nesse caso, eu não observo um exercício de liberdade. Observo sim uma prepotência que me incomoda!
Por fim, a minha resistência ao fumo em locais de restauração deriva sobretudo de uma questão de estética da higiene.
Publicado por: FBR em fevereiro 24, 2008 09:37 PM
Fernando, como também já te disse, a questão dos trabalhadores é talvez o único argumento pertinente nesta confusão toda. No entanto, há muitas outras profissões com factores de risco associados, e até muito maiores. Vamos acabar com elas?
Não falei do dono do bar, porque é ele quem impõe as regras. Ou achas que, se ele não quisesse, se fumava no bar? (Aqui em Granada ainda se vê uma coisa que a ti te chocaria bastante, penso: servirem-te uma caña ou uma tapa entre duas cigarradas.) Um homónimo teu, o Fernando, proíbe o fumo na sua loja de produtos gastronómicos e degustação Al Sur de Granada. Qualquer um pode fazer o mesmo, aqui em Espanha. Já em Portugal, as coisas não são bem assim.
Nota: estou sempre a falar de bares e restaurantes, negócios privados. Obviamente, tenho uma opinião distinta quanto ao espaço público. (Também não entendo a proibição de fumar no local de trabalho, até onde não é feita qualquer espécie de atendimento! Então duas pessoas fumadoras que partilham um escritório, onde não atendem ninguém, estão proibidas de fumar!? Ora bolas...)
Publicado por: CMF em fevereiro 25, 2008 11:14 AM
Fernando, o texto que acabei de colocar ali em cima nada tem a ver, directamente, com esta nossa conversa. Já estava preparado desde ontem, mas como não tenho internet em casa...
Publicado por: CMF em fevereiro 25, 2008 11:43 AM