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janeiro 16, 2008
Zapatero e o “Género”
As eleições espanholas estão perto e os partidos começam a apresentar as suas listas e programas eleitorais. Ontem o PSOE anunciou que, se ganhar as eleições, criará unidades de igualdad dentro del Consejo de Redacción de los medios de comunicación públicos e promoverá a criação dos mesmos nos meios de comunicação privados (este promoverá pode transformar-se rapidamente numa imposição, se nos lembrarmos da Ley de Igualdad de Zapatero, que impõe quotas para mulheres nas empresas privadas!). Para que servem estas unidades? Segundo o PSOE, para dar especial atención al tratamiento de la violencia de género, la trata de mujeres y contra los estereotipos sexistas. Uma patrulha ideológica, portanto. A liberdade de expressão que se dane. (Sócrates ainda não se lembrou disto; mas não deve tardar muito.)
O programa do PSOE contempla ainda o combate ao cambio climático, ou não fosse esta uma das novas causas progressistas. Há também um parágrafo sobre o aborto, cuidadoso, muito cuidadoso, mas que abre as portas à liberalização da Interrupção Voluntária da Gravidez, o que, como se viu há pouco tempo em Portugal, é sinónimo de pagar os abortos com o dinheiro dos contribuintes. (Entretanto, a legislatura termina, mas o governo de Zapatero continua a defender as suas causas sem olhar a meios. O El Mundo noticia uma acusação gravíssima: o Executivo de Zapatero pressiona os juízes no sentido de absolverem as mulheres que recentemente foram acusadas de aborto ilegal. Saberá o governo espanhol que a separação de poderes é um dos pilares de um Estado de Direito?)
O PP também conta armas e lançou uma carta de peso que agitou a pré-campanha. Manuel Pizarro entra nas listas do partido por Madrid, logo a seguir a Rajoy. O sinal é claro: Pizarro será o número dois do governo se o PP ganhar as eleições. Para já, o PSOE parte com uma ligeira vantagem para a pré-campanha, mas até Março tudo pode acontecer e o resultado está em aberto.
Carlos Miguel Fernandes
Adenda: Uma pergunta pertinente.
Publicado por CMF às janeiro 16, 2008 10:43 AM
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Comentários
Carlos, Bom Ano.
E umas perguntas breves, para lhe dar oportunidade de me zurzir:
1) A liberdade de expressão está acima de tudo? Deveria permitir-se que a Al Qaeda publicasse jornais nos EUA a explicar como preparar massacres de inocentes nas carruagens dos metropolitanos? Ou pode haver outros valores que tenham de ser compatibilizados com o valor da liberdade de expressão, que sem dúvida é um dos grandes?
2) O "cambio climatico", como você escreve influenciado pelos nuestros hermanos, deve a sua existência ou não existência ao facto de ser ou deixar de ser uma "causa progressista"? Ou haverá maneiras mais objectivas de discutir se existem ou não existem mudanças climáticas? Ou tudo o que seja ou pareça uma "causa progressista" é, ipso facto, atirado para o purgatório das coisas inexistentes?
3) Não lhe parece que embrulhar os dilemas morais do aborto, que existem, no problema do orçamento de estado, é imoral?
Saudações. Só não lhe posso é desejar que fique satisfeito com o resultado das eleições em Espanha - mas, pelo menos, resta uma consolação: um de nós dois deverá ficar contente. Mas um e só um, nunca mais - embora possa acontecer que nenhum de nós fique sorridente com o resultado.
Publicado por: Porfírio Silva em janeiro 18, 2008 02:39 PM
Porfírio, um bom ano para si também.
Respondo:
1) A liberdade de expressão não está acima da lei. O incitamento ao crime é punível na maior parte (ou em todos) dos Estados livres. Os estereótipos sexuais, ou o machismo, não entram nessa categoria, a não ser que alguém venha para a rua, reúna uma turba de dementes, e grite "matem todas as mulheres que encontrem pela frente". Penso que aqui linha está bem reconhecível.
2) O “cambio climático” transformou-se num dogma, infelizmente. Já não há discussão possível: existem alterações climáticas e elas são causadas pelo Homem, ponto final. Quem se atreve a questionar essa Verdade Absoluta corre o risco de excomunhão (leia-se, não tem financiamento para a investigação nesse sentido, se falamos do mundo académico). É triste ver a Academia, lugar de confrontação, de construção e refutação de teorias, transformada num veículo de dogmas. As idades do gelo, a mudança climática que empurrou os húngaros até à Europa, e a que “expulsou” os primeiros colonos da Europa (tudo pré-industrial), o pânico do “arrefecimento global” (anos 70 do século passado), já nada disso nos faz pensar. Estamos enfeitiçados pelo Al Gore (o prémio Nobel foi patético) e pelo eco-alarmismo. Pior ainda, nem sequer se fazem contas. Zapatero anunciou um regime de financiamento para a remodelação das habitações espanholas no sentido de reduzir as emissões de “gases de estufa”. Quem fez as contas com cuidado chegou a uma conclusão: a redução prevista é residual. Traduzindo da linguagem científica, significa que nem se pode dizer que há qualquer redução. Mas hoje, o que interessa são os grandes gestos, mesmo vazios de sentido.
3) “Não lhe parece que embrulhar os dilemas morais do aborto, que existem, no problema do orçamento de estado, é imoral?”
É imoral, sim senhor, mas não fui eu que fiz o embrulho, foi o governo português. O governo português (pela calada, pois antes do referendo fugiram do assunto como o diabo da cruz) obriga cidadãos para os quais o aborto é imoral, para os quais o aborto é atentado a todos os seus princípios, a pagá-los. Se a liberalização do aborto é discutível, e mexe com dilemas morais para os quais muita gente não tem resposta, esta situação, em que o SNS paga os abortos, é uma das maiores vergonhas nacionais. Note que aqui nem sequer estou a contestar o SNS universal (sobre o qual penso que conhece a minha opinião). Note que nem sequer estou a emitir uma opinião sobre o abroto. Apenas me choca que algo que divide um país, seja pago pelo bolso de todos os seus cidadãos.
Em relação às eleições espanholas, espero que Zapatero perca para Rajoy, sim. Mas penso que, qualquer que seja o vencedor, os estragos que possam vir a (tentar) fazer serão sempre menores do que, por exemplo, acontece em Portugal. Talvez devido à descentralização do poder, às autonomias, vejo que em Espanha é muito mais complicado impor directivas centrais. Espanha aproxima-se mais do modelo de pesos e contra-pesos, base de uma democracia liberal, do que a república portuguesa. Se o PSOE ganhar, julgo que vai ter muito trabalho para impor as unidades de igualdad. Em Portugal, como se costuma dizer, era “trigo limpo farinha amparo”.
Um abraço.
Publicado por: CMF em janeiro 18, 2008 03:11 PM
Carlos:
(1) "A liberdade de expressão não está acima da lei." Não lhe parece que o que está ou não está na lei é algo que muda com a história, não podendo portanto ser um critério absoluto?
(2) "É triste ver a Academia, lugar de confrontação, de construção e refutação de teorias, transformada num veículo de dogmas." Onde é que você encontrou essa versão idílica da Academia?
(3)"É imoral, sim senhor [embrulhar os dilemas morais do aborto no problema do orçamento de estado], mas não fui eu que fiz o embrulho, foi o governo português. " Não estávamos a falar de Espanha e do programa eleitoral do PSOE? O que você escreve nunca é culpa sua, é sempre culpa do governo português? Nunca é você que escolhe as suas palavras, é sempre um governo qualquer que o obriga, através dos seus esbirros, a escolher as palavras que você coloca no seu blogue? Não lhe parece pouco moral estar sempre a sacudir a água do capote?
Publicado por: Porfírio Silva em janeiro 20, 2008 02:46 PM
1) Confundir "opiniao" com "incitamento ao crime" nao me parece lá muito razoável. A opiniao nunca poderá ser um assunto "de lei". Se eu achar que um homem e uma mulher devem ter tarefas distintas em casa, tenho todo o direito a expressá-lo publicamente. No dia em que nao o puder fazer, viverei num Estado totalitário. O objectivo das brigadas da igualdade de Zapatero é claramente o controlo da opiniao.
Já houve, na História, muitas coisas estranhas que foram matéria de legislaçao. (Daí até ser legítimo, vai um grande passo.) Esses sao mundos nos quais eu nao quero viver.
2) Nao se trata "encontrar" essa versao idílica, até porque eu nao acredito em mundos perfeitos. Pretendo apenas ver a Academia longe de uma situacao que é totalmente incompatível com os seus mais básicos princípios: dogmatismo.
3) Sacudir a água do capote? Lá está o Porfírio com as suas leituras enviesadas do que eu escrevo...Vou dizer com todas as letrinhas: É, na minha opiniao, imoral sustentar o aborto no SNS com o dinheiro de todos contribuintes. E se o PSOE se prepara para fazer o mesmo, entao a imoralidade propaga-se a Espanha.
Era só o que faltava eu ficar caladinho porque há quem ache, como o Porfírio, que dizer uma coisa destas (ou constatar uma evidencia, pois os abortos, em Portugal, sao pagos pelo erário público) é imoral, vá-se lá saber porque? A bárbarie foi instituída por este(esse) governo, e agora eu (e outros com a mesma opiniao) nao devia tocar no assunto, pois misturar as duas coisas é imoral?! Francamente...
Publicado por: CMF em janeiro 20, 2008 07:32 PM
Carlos,
eu vou mais longe do que o Porfírio: na minha opinião é um imperativo ético e moral que o Estado Português, através do SNS (e dos meus impostos - sou taxado em 32,5% do meu rendimento bruto mensalmente)sustente, na totalidade e nas melhores condições uma interrupção voluntária da gravidez.
Imoral é a evasão fiscal e a destruição do SNS, sobretudo para permitir a expansão da iniciativa privada na Saúde que vive e enriquece à custa do erário público.
Agora, reconheço que quanto ao estado da saúde há muita culpa do Governo (para ser mais claro: todos os Governos da democracia contribuiram para e estado da situação sem excepção); mas quanto ao empenho do mesmo na despenalização da IVG só tenho de aplaudir. Enfim... não podemos estar a bater sempre no ceguinho!!!
Publicado por: FBR em janeiro 21, 2008 10:35 AM
Fernando,
imperativo ético e moral usar o dinheiro de cidadãos para os quais o aborto é uma violação de todos os princípios éticos e morais? Não, para mim é precisamente o contrário, é uma das grandes vergonhas nacionais, o aborto integrado no SNS. E é um exemplo da desproporção entre o poder do Estado e liberdade do cidadão.
(E é extraordinário como a uma coisa que se designou como "liberalização", se associou a total desresponzabilização dos cidadãos: "a partir de agora não só não tens que ter medo da justiça se engravidares e interromperes a gravidez, como para além disso não tens que te preocupar como dinheiro para o fazer". Uma vergonha! Não é num mundo assim que eu quero viver.)
Quanto ao SNS (universal), a minha opinião é esta: acabe-se com ele. É imoral porquê? Qual é a legitimidade de um SNS universal? É um dogma, nada mais, um dos dogmas do Estado Social europeu. Quando alguém me convencer que existe legitimidade em taxar a classe média e a classe alta (que tem poder de compra para escolher e pagar a saúde) para depois a obrigar a dirigir-se aos serviços do Estado (sob pena de pagar duas vezes pelo mesmo serviço), então talvez reveja a minha posição...
(Já agora, porque não um Serviço Nacional de Alimentação universal!? Sem comida não há vida, não há saúde...Onde está a linha divisória do "ridículo"? Não estou a brincar, é um asunto muito sério.)
Publicado por: CMF em janeiro 21, 2008 12:19 PM
Outra questão Fernando: falas de evasão fiscal. Existe, para ti, alguma fasquia a partir da qual a evasão fiscal é legítima; ou seja, um ponto a partir do qual os impostos são tão altos, que o Estado perde legitimidade para os cobrar e a fuga fiscal ganha legitimidade?
Eu penso que sim, e julgo que, em Portugal, já passámos esse ponto. É por isso que, por aí, nunca peço facturas.
Publicado por: CMF em janeiro 21, 2008 12:22 PM
O Carlos algum dia chegará a entender que a "moral da selva" é uma contradição nos termos?
Publicado por: Porfírio Silva em janeiro 21, 2008 03:54 PM
Moral da selva? O que é isso? (Será o Porfírio a definir o que é a Moral boa e a Moral má? É isso? Lições de Moral desde o lado iluminado da Força?...)
Publicado por: CMF em janeiro 21, 2008 04:00 PM
A sua alternativa é apenas entre (A) "é o Porfírio que define o que é bem e o que é mal" e (B) "não há critério nenhum para a moral"? Se o Carlos só conhece essa alternativa, então o Carlos é relativista.
Eu suponho que há outra alternativa: podemos discutir racionalmente acerca do que seja "bem" e "mal" em termos morais - e a maioria das sociedades consegue larga margem de acordo nessa discussão racional.
Mas também é verdade que nem sempre esse acordo é alcançado. Um exemplo é o caso do aborto. E, nesse caso, o que fazer? Como se lê acima, a ideia do Carlos é bastante estrita: como não há acordo moral acerca do aborto, a sociedade não pode usar os meios colectivos (SNS, impostos) como meios para o que a maioria considera legítimo. O Carlos pode argumentar: questões de moral não são questões de maioria. Concordo. Mas qualquer minoria pode impor um "travão" ao uso dos meios colectivos para fins que a maioria considera morais? Duvido, senão as testemunhas de Jeová poderiam impedir o SNS e o dinheiro dos contribuintes de serem usados para fazer transfusões de sangue, coisa que eles consideram pecaminoso. Então? Então, a meu ver, menos fundamentalismo e mais noção de que as opções morais não podem ser traduzidas directamente em normas para uso dos meios públicos. É por isso que me repugna discutir o aborto em ligação com o dinheiro dos contribuintes. Porque, se estamos realmente a pensar em termos morais, não vale tudo. Não vale usar qualquer arma de arremesso se queremos preservar a dignidade do território moral.
Publicado por: Porfírio Silva em janeiro 21, 2008 05:44 PM
Ao que chama "pergunta pertinente" há lá um leitor que responde pertinente: «Todos os dias na “televisão” norte-americana falam em possiveis ataques. GW Bush estava sempre a falar em ataques terroristas, mas aí vocês não falam em aproveitamento.»
Publicado por: Porfírio Silva em janeiro 22, 2008 02:24 PM
Conheço outra alternativa, sim. Só que tenho algum pudor em classificar/recusar sistemas de valores, na sua totalidade, quando na verdade só diferem dos meus em alguns pontos (e que talvez estejam mais próximas da Ideologia do que da Moral). Como o Porfírio diz, "a maioria das sociedades consegue larga margem de acordo nessa discussão racional". (E ainda não me explicou o que é a Moral da Selva, ou a razão para tal termo!)
"Então, a meu ver, menos fundamentalismo e mais noção de que as opções morais não podem ser traduzidas directamente em normas para uso dos meios públicos."
É por essa razão que os meios públicos, na minha opinião, devem ser reduzidos ao mínimo, dando liberdade ao cidadão para gerir as suas escolhas como bem entender. Mas não é isso que acontece, por isso teremos que avaliar as opções dos governos dentro do paradigma predominante. Dentro desse paradigma, e sendo o aborto um dilema moral, onde, como diz, não há acordo possível, é legítimo violentar duplamente os opositores, obrigando-os a viver sob uma lei da qual discordam profundamente, e ainda por cima obrigá-los a sustentar um acto que violenta todos os seus princípios? (Note que uso a palavra legítimo, para não entrarmos no campo da Moral.)Eu penso que não. Eu penso que é uma atrocidade, um abuso de um governo que sempre recusou tocar no assunto durante a campanha do referendo (e este ponto é fundamental: por que razão o governo não esclareceu a população, em relação aos seus verdadeiros propósitos?)
"É por isso que me repugna discutir o aborto em ligação com o dinheiro dos contribuintes."
Então diga-me lá como é que alguém com a minha opinião pode manifestar a sua indignação com o estado da coisa, sem o "repugnar"? Tenho que me calar? Se me indigno com a subsidiação do aborto, como é que eu posso protestar sem falar do dinheiro dos contribuintes, pois é isso mesmo que está em causa? Gostava mesmo de saber. É que assim, parece mesmo que estamos a lidar com dogmas! Será isso?
(A comparação com as testemunhas de Jeová já ouvi muitas vezes. Aqui realmente entramos no campo da Moral. 1) Uma gravidez não é uma doença; uma transfusão está sempre ligada a uma "doença". 2) Os opositores do aborto sustentam a sua posição no princípio da Vida (pode-se discordar da linha divisória, mas penso que a Vida é das tais coisas que "consegue larga margem de acordo".); recusar as transfusões de sangue é relativizar a Vida.)
Publicado por: CMF em janeiro 22, 2008 02:39 PM
"Ao que chama "pergunta pertinente" há lá um leitor que responde pertinente: «Todos os dias na “televisão” norte-americana falam em possiveis ataques. GW Bush estava sempre a falar em ataques terroristas, mas aí vocês não falam em aproveitamento.»"
Resposta pertinente?, quando se está a falar de Espanha, da campanha e das próximas eleições espanholas?! Cada vez que se emite uma opinião deve-se escrever um tratado sobre o Estado do mundo, é isso? Não percebo.
Publicado por: CMF em janeiro 22, 2008 02:47 PM
Nota: a Adenda deveria estar no texto anterior, Zapatero e a ETA. Enganei-me, mas agora não vale a pena mudar.
Publicado por: CMF em janeiro 22, 2008 03:49 PM
Só para responder a uma pergunta sua: chamei "moral da selva" aos que apregoam o "cada um por si", ou "a liberdade de ser cada um por si", em questões como o direito à saúde.
Quanto ao resto, como se vê pela sua recusa do paralelo com as transfusões e as testemunhas de Jeová, é simples: para si, as suas questões morais são muito importantes, mas para as questões morais dos outros arranja facilmente maneira de as desqualificar como tal.
As partes verdadeiramente (ou puramente retóricas) ficam para minha apreciação estética, que é algo a que a retórica se presta.
Adenda: quanto à "pergunta pertinente" e à "resposta não pertinente": é uma questão de coerência não distribuir as críticas e aplausos em função das "afinidades", mas em função de princípios. Também se chama a isso às vezes coerência.
Abraços.
Publicado por: Porfírio Silva em janeiro 22, 2008 05:50 PM
E agora: o que é isso "cada um por si", "a liberdade de ser cada um por si"?
Liberdade de escolha é selva? Não percebo, sinceramente não percebo. É o que eu digo, por vezes parece que estou a mexer em dogmas, e isso, cuidado, não se faz...
"Quanto ao resto, como se vê pela sua recusa do paralelo com as transfusões e as testemunhas de Jeová, é simples: para si, as suas questões morais são muito importantes, mas para as questões morais dos outros arranja facilmente maneira de as desqualificar como tal."
Mas então?? Afinal não há relativismo, outras vezes parece que há, não percebo nada mais uma vez...vamos por tudo no mesmo saco, vida, transfusões de sangue, não comer carne de porco...
"As partes verdadeiramente (ou puramente retóricas) ficam para minha apreciação estética, que é algo a que a retórica se presta."
Boa maneira de não responder às perguntas. Volto a insistir porque sou teimoso: Se me indigno com a subsidiação do aborto, como é que eu posso protestar sem falar do dinheiro dos contribuintes?
"Adenda: quanto à "pergunta pertinente" e à "resposta não pertinente": é uma questão de coerência não distribuir as críticas e aplausos em função das "afinidades", mas em função de princípios. Também se chama a isso às vezes coerência."
Agora o Porfírio vem para aqui dar lições de coerência! Já não bastavam todas as outras. É uma vocação?
(Se pensa que eu tenho muitas afinidades com o neo-conservadorismo, se é disso que se trata quando refere G.W. Bush, ou entende pouco as minha ideias, ou entende pouco de Filosofia Política.)
Publicado por: CMF em janeiro 22, 2008 06:14 PM
Devo reconhecer que a minha paciência para o terrorismo verbal tem limites. Porque é que não faz de vez em quando o exercício de ler as coisas que escreveu acima?
Por outro lado: eu não dou lições, nem de coerência nem de coisa nenhuma. Só que não aceito que uma discussão racional possa ser completamente desprovida de regras - e, por essa simples razão, não me calo quando certas pessoas pregam regras para os outros mas se escusam a respeitar essas mesmas regras. Exigir isso numa discussão racional equivale, para si, a dar lições. Para mim é apenas uma questão de respeito - intelectual, quanto mais não seja.
Quanto à questão do aborto, você parece não compreender que uma discussão racional exige que as pessoas sejam capazes, no mínimo, de conseguir falar sem escolher termos que sabem ser inaceitáveis para a outra parte. Quando você insiste em falar em "subsidiação do aborto" sabe que está a escolher a via da provocação. Reparou na forma como eu falei desse assunto? Embora eu discorde de si nessa matéria, notou lá alguma falta de respeito pelo que você anuncia ser a sua posição moral? Não, isto não é dar lições: é padrão de comportamnto.
Carlos, lamento insistir em algo que já disse outras vezes: você parece distinguir mal entre duas coisas completamente diferentes. Uma é ter posições claras e defendê-las com força. Outra é discutir com a técnica do vale tudo. A forma como respondeu à questão das testemunhas de Jeová esclarece o seu posicionamento: moral mesmo, a sério, da boa, só a sua; a moral dos outrom, se não for igual à sua, você descarta-a facilmente, como se você pudesse dispor da moral dos outros.
Você combina maravilhosamente duas coisas que vêem muitas vezes juntas: autoritarismo (cf. facilidade com que atira a posição religiosa e moral das testemunhas de Jeová, nem sequer reconhecendo na questão deles uma questão moral séria) e relativismo (cf. como se eriçou com uma solicitação de coerência, isto é, quando lhe sugeriram que ficava mal criticar uns e absolver outros pelo mesmo comportamento).
Ah, não se mace muito a fazer perguntas para as quais pode obter resposta apenas lendo o que escreveu acima. Você explica muito melhor a sua posição do que aquilo que eu poderia explicar por si, não concorda?
Fique bem.
Publicado por: Porfírio Silva em janeiro 22, 2008 09:50 PM
Carlos,
para começar algo muito simples relativamente à IVG: insisto na classificação, pois Aborto tem uma conotação ideológica que não pretendo partillhar ou rebater, já que coloco este problema de saúde pública no campo da Ética e da Moral.
Depois a minha visão do problema está em total oposição com a tua, que respeito mas não comungo e rebato totalmente. Hoje não tenho tempo, mas um dia, aqui ou no meu blogue, escreverei mais e melhor sobre tal.
Quanto à universalidade do SNS, esse é um desiderato constitucional e um valor civilizacional de um Estado de Direito (o que não exclui a existência de um sector privado e muito menos a liberdade de escolha individual - só que jamais poderei aceitar que só aceda à Saúde quem tiver dinheiro para tal!!!).
Quanto à evasão fiscal não concebo qualquer legitimidade para a mesma num plano ético e moral, excepto num caso de estado de necessidade justificado legalmente. Isto é, a carga fiscal pode ser injusta, mas se a consideramos ilegítima ou ilegal devemos combatê-la legalmente e não por meio do incumprimento desse dever.
Publicado por: FBR em janeiro 23, 2008 12:27 AM
Fernando, repara que eu não comentei a IVG, nem dei opinião sobre a liberalização. Apenas constesto a integração da IVG no SNS.
Acabar com o SNS universal não é sinónimo de "só aceder à Saúde quem tiver dinheiro para tal". O que não aceito é um SNS que englobe a classe-média e a classe-média alta, um monstro que não serve os interesses de ninguém! Julgo que o SNS universal não serve os interesses dos mais desfavorecidos, e por isso sou favorável à existência de uma rede de segurança, em detrimento de um SNS. Ou seja, saúde pública sim, mas apenas para quem dela precisa, para a franja realmente desfavorecida da sociedade; para os enteados do Estado Social. Quando defendo que se acabe com a universalidade do SNS, pretendo que o mesmo seja direccionado para essa minoria.
Não concordo contigo em relação à evasão fiscal. Penso que a partir de um certo ponto não existe legitimidade para cobrar impostos. E a desobediência civil é uma forma legítima de luta (desde que se assumam as consequências, claro).
Publicado por: CMF em janeiro 23, 2008 11:26 AM
Devo reconhecer que a minha paciência para Primas Donnas tem limites.
Publicado por: CMF em janeiro 23, 2008 11:34 AM
O Carlos escreveu "É, na minha opiniao, imoral sustentar o aborto no SNS com o dinheiro de todos contribuintes." E também "é uma das grandes vergonhas nacionais, o aborto integrado no SNS. E é um exemplo da desproporção entre o poder do Estado e liberdade do cidadão." Mas, contudo, acrescenta "nem dei opinião sobre a liberalização. Apenas constesto a integração da IVG no SNS." Vejamos.
Carlos, não teremos aí uma ponta de hipocrisia? Paso a explicar. Leia a sua resposta à questão das testemunhas de Jeová e as transfusões de sangue: aí já não admite o argumento religioso-moral delas. Por uma razão muito simples: porque não admite como moral o argumento deles. Embora queira escondê-lo, faz um juízo moral sobre a questão do aborto que é diferente do juízo moral sobre a questão das transfusões. Se fosse "apenas" uma questão de saúde, teria de reconhecer que o aborto também implica com questões de saúde (diferença entre abortar num vão de escada ou num hospital, por exemplo). E também poderia perguntar "o que estão as transfusões de sangue a fazer no SNS quando nem todos concordam sequer que elas existam".
Portanto, embora não o assuma, você implica questões morais no seu juízo sobre a integração do aborto no SNS.
Já agora: aquela das Primas Donnas era para si, por escrever posts violentos e depois ficar muito ofendido com o que lhe escrevem em resposta? Ou o Carlos simplesmente não tem a noção de que escreve coisas violentas?
Quando você escreve, por exemplo: "Quanto ao SNS (universal), a minha opinião é esta: acabe-se com ele" - não tem a noção de que isso é violento? Não tem a noção de que isso é aquilo a que eu chamo "a lei da selva"?
Portanto, Carlos, você que fica muito eriçado quando lhe chamo relativista, por exemplo, devia compreender que a acusação de relativismo não é um insulto pessoal gratuito, é uma qualificação de uma posição, mesmo que a qualificação não seja simpática e possa ser discutível. Já a das Primas Donnas está mais próxima da pura má educação.
Publicado por: Porfírio Silva em janeiro 23, 2008 04:29 PM
Pronto, agora chegou a vez da hipocrisia! E da "má-eduação" (claro que "terrorismo verbal" não é má educação, claro que não, e muito menos na "casa" do visado.)! O que virá a seguir?
Hipocrisia? Porfírio, não pense que me conhece para além da face deste blogue, e não tente ler nas entrelinhas do que eu escrevo, porque raramente se sai bem nessa tarefa.
Publicado por: CMF em janeiro 23, 2008 04:50 PM
A reivindicação de saber ajuizar da capacidade de cada um para se sair bem disto ou daquilo, deixo-a para si. Como parte de um debate não penso colocar-me acima dos debatentes para declarar quem se sai bem disto ou daquilo.
Quanto a esta ser a sua casa, já não é a primeira vez que você diz isso. Como sabe, temos tido discussões destas tanto no seu blogue como no meu. Nunca lhe disse, lá, que me devia algo especial por estar na minha casa. Você, pelo menos por duas vezes já, saca dessa arma "nesta sua casa". E depois acha estranho que eu fale de má educação: já que estamos em maré de "casas", o anfitrião não terá então responsabilidades próprias como tal? Ou não será que, tendo um espaço de comentários, convida a que se venha aqui escrever?
Portanto, quanto à fineza das prima donnas, estamos falados.
Fique bem.
Publicado por: Porfírio Silva em janeiro 23, 2008 05:50 PM
Já agora, não está nas suas mãos tirar essa coisa de aparecer uma janela de publicidade sempre que se visita o seu blogue?
Publicado por: Porfírio Silva em janeiro 23, 2008 05:52 PM
Sim, a casa é minha e eu defino as regras. O Porfírio define na sua casa e eu tentarei respeitá-las. (As responsabilidades como anfitrião também sou eu que as julgo.) Coisas como "tolices" ou "terrorismo verbal" são desagradáveis (não mais do que isso); se fosse outro comentador eu simplesmente ignoraria e talvez nem respondesse; no nosso caso, não faria sentido olhar para o lado.
Se reparar com cuidado, tento não ter o mesmo tom aqui e na sua casa (ou pelo menos as mesmas reacções ao seu tom, que muitas vezes se torna desagradável com o andar da carruagem). Se alguma vez falhei, lamento.
Resumindo: um espaço aberto também tem as suas regras.
"Já agora, não está nas suas mãos tirar essa coisa de aparecer uma janela de publicidade sempre que se visita o seu blogue?"
Não. Já lhe disse há uns tempos, isso nada tem a ver com este blogue, pelo menos de forma voluntária.
Publicado por: CMF em janeiro 23, 2008 06:07 PM