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janeiro 04, 2008
Democracia Iliberal
Entre encómios ternos e hipócritas sentenças sobre o carácter dinástico do partido de Benazir Bhuto, o assassinato da ex-chefe de Estado do Paquistão gerou um coro de reacções pouco reflectidas. Desde símbolo da democracia no Paquistão, até mártir do feminismo, foram muitas as nobres insígnias que a personagem Benazir Bhuto ganhou após o seu passamento. Outros vociferaram contra o anúncio de uma hipotética “sucessão de sangue” no Partido do Povo Paquistanês. O Miguel Castelo-Branco indispõe-se, e com razão, com as críticas estritamente baseadas na esperada sucessão. Mas o opróbrio está lá e é muito mais grave. Recordemos Fareed Zakaria, em O Futuro da Liberdade - A Democracia Iliberal no Mundo e nos Estados Unidos:
Em Outubro de 1999, o mundo ocidental foi surpreendido pelo derrube do Primeiro-Ministro livremente eleito, Nawaz Sharif, pelo chefe do Estado-Maior do Exército, o general Pervez Musharraf. O facto surpreendente não foi o golpe de estado – foi o quarto, na História do Paquistão, em quarenta anos – mas a sua popularidade. A maior parte dos paquistaneses rejubilou ao ver-se livre de onze anos de um simulacro de democracia. Durante esse período, Sharif e a sua antecessora, Benazir Bhutto, tinham-se aproveitado das suas funções para enriquecer, encher os tribunais com apaniguados políticos, destituir os governos locais, deixar os fundamentalistas islamistas aprovar leis draconianas, pilhando os cofres do Estado.
Não, o mal do clã Bhuto e do Partido do Povo Paquistanês não é o tique monárquico. Benazir Bhuto não foi mais do que uma tirana legitimada pelo voto popular, o mais perigoso veículo para o totalitarismo. A sua posição trouxe-lhe riqueza ilícita. Distribuiu cargos por amigos e familiares. E a cereja no topo do bolo foi o apoio de Benazir Bhuto aos taliban na luta pelo domínio do Afeganistão. Por estas razões, muito me surpreenderam algumas reacções blogosféricas ao recente atentado no Paquistão. Não a condenação do acto em si, obviamente, mas o elogio imponderado de uma figura que sempre se defendeu a si e aos seus muito bem, mas que nunca teve intenção de defender a democracia e a liberdade. (O Fernando C. Gabriel, mais uma vez, agitou o charco com pedra certeira.)
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às janeiro 4, 2008 04:29 AM
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