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dezembro 23, 2007
Saudade
Numa inversão de valores que pode parecer absurda a muita gente, é em Portugal que percebo o significado da palavra saudade, pois é aqui que a sinto em todo o seu vigor (sim, estou em Portugal durante alguns dias, demasiados). Saudades de Nova Iorque, saudades de Budapeste, saudades de Berlim, a lista é extensa e os itens invadem-me o espírito consoante os estímulos. Agora, menos de vinte e quatro horas após ter regressado, temporariamente, ao país, já sinto saudades do estúdio pequeno e frio que deixei fechado na Conde de Tendillas, e das ruas vivas do bairro Boquerón. Aqui, em Lisboa, nada me prende e nada me alimenta a saudade (estou a falar de “coisas”, e não de gente, claro; a família, uma cadela e alguns amigos – poucos, e cada vez menos – são matéria sagrada que não entra nestes delírios). Quando me deixo enredar nesta disposição recordo-me sempre do Jorge Calado e da conversa que tivemos há quase dez anos, uma espécie de diálogo mestre-aprendiz saído directamente de Cinema Paraíso. Carlos, vá para o estrangeiro e não volte, dizia-me o Jorge, enquanto explicava a sua forma de estar vida: quero lá saber do pastel de bacalhau quando estou em Londres. Acabei por perder a rampa que o fulgor da juventude nos oferece, tomei opções discutíveis e não abracei logo o sábio conselho. Mas também não sei se serei um homem do mundo, como o meu amigo Jorge Calado. Não porque esteja agarrado a Portugal, terra à qual nunca chamei “minha”, ou ao pastel de bacalhau. Digo isto porque, quando estou em Espanha, percorre-me, como em mais lado algum, uma vaga sensação de patriotismo, um patriotismo com rosto castelhano. É em Espanha, nas calles de Granada, Sevilha ou Barcelona, que percebo o amor a um pedaço de terra. É em Espanha que frases como Todo por la Pátria, inscritas à entrada dos quartéis, não me parecem ridículas, pois é em Espanha, mais do que em qualquer outro lugar, que respeito e venero aqueles que morrem pela pátria. Porque eu talvez desse o meu sangue pela tradição espanhola, pela sua força e brio. Porque eu talvez morresse pelas tabernas, pelo flamenco, pelas corridas de touros. Porque eu talvez morresse por Espanha, una e indivisível. Aliás, Espanha me mata. Todos os dias um pouco.

Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às dezembro 23, 2007 04:35 PM
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