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dezembro 20, 2007

Kosovo II

(Agora vou ao arquivo. E encontro este texto, escrito há cerca de um ano e meio, por ocasião da indepedência do Montenegro. Hoje, não alterava muita coisa, embora agora entenda melhor o aparente paradoxo do Iluminismo, que se esclarece com um simples "plural".)

Sobre os Países

As nações são convenções. Não é uma ideia popular, mas defender o contrário deveria implicar mais do que uma crença romântica nas virtudes no nacionalismo. É preciso uma grande dose de fé para acreditar que existem menos diferenças culturais entre o Norte e o Sul de Portugal do que entre as desavindas províncias espanholas. Se ao Porto e a Faro, por vezes, parece que os separa um mundo, por outro lado, é difícil acreditar que Zagreb e Belgrado estavam há pouco mais de dez anos em guerra. E, sem o despotismo crónico dos Estados, é muito provável que emergissem surpreendentes relações entre os povos das raias, ainda mais do que aquelas que já existem, para desagrado dos fervorosos adeptos das divisões ferozes e das coisas da “pureza do sangue”.
O Montenegro será, daqui a poucos dias, a mais recente nação europeia. Onde antes existia um país, passarão a conviver seis Estados, com tendência para o crescimento deste número. O Kosovo como país independente é quase uma certeza, a Voivodina é uma preocupação (talvez o mais terrível pesadelo da Hungria e da Roménia), e a Bósnia-Herzegovina só com uma estranha e improvável evolução dos acontecimentos se poderá manter na forma como foi idealizada. Para além disso, existem ainda algumas complicações por resolver entre os territórios (e as aspirações) da Albânia, da Grécia e da Macedónia. Várias guerras, uniões e separações, limpezas étnicas e genocídios; é este o resultado da exportação dos ideais românticos do nacionalismo para as regiões balcânicas, cuja base campesina da população ainda há pouco mais de cem anos não compreendia o conceito de nação. A pertença era dada pela religião, nunca por qualquer especificidade étnica, nem sequer pela língua. As elites balcânicas, educadas no espírito da intelectualidade centro-europeia, levaram a Caixa de Pandora para a região e abriram-na. Lá de dentro começaram por sair, ainda no século XIX, as primeiras manifestação de nacionalismo mais ou menos interétnico (e foi nessa altura que nasceu o conceito de Jugoslávia). À derradeira expulsão dos Turcos da região, na Primeira Guerra Balcânica, em 1913, seguiu-se a primeira guerra étnica (e Segunda Guerra Balcânica). Depois, um estudante sérvio assassinou o arquiduque Francisco Fernando, em 1914, numa ponte de Sarajevo. A partir daí a história é conhecida, mas era importante compreender alguns dos seus fundamentos, especialmente aqueles que assentam numa dos maiores atrocidades dos intelectuais europeus: a traição ao Iluminismo. Infelizmente, é complicado defender o carácter maligno de alguns movimentos filosóficos reactivos ao Iluminismo, entre eles o Nacionalismo Romântico, porque estes sustentam ainda hoje doutrinas que vão desde o comunismo à democracia-cristã. Doutrinas que não estão tão distantes umas das outras como os seus seguidores desejavam que estivessem. Por outro lado, o Nacionalismo Romântico deve muito a Jean-Jacques Rousseau, uma das grandes figuras do Iluminismo, e isso dever-nos-ia fazer pensar na justeza das classificações. O que nos conduz à seguinte questão: o Iluminismo gerou o bem e o mal, ou, mesmo dentro do seu círculo, havia quem, afinal, não compreendesse muito bem o os conceitos de racionalismo e liberdade, abrindo caminho às mais cruéis formas de subjugar os homens, muitas vezes disfarçadas de lideranças benévolas e humanitárias, conquanto nunca disfarçando o seu perverso utilitarismo (sim, pleonasmo)? Mas desviámo-nos do assunto.
A Jugoslávia era um país artificial? Não mais do que qualquer país. (Ou são os milhares de anos de unificação da China que lhe dão um estatuto mais “natural”?) Mas a Sérvia, mesmo isolada e humilhada, mantém uma consolação: continua a ser o coração e a alma daquela região. O Montenegro fica com uma costa paradisíaca, mas uma capital triste. Terá valido a pena? Eu acho que não. Mas eu também penso que o princípio da autodeterminação nacional é um conceito inexequível e quase sempre cruel. Poucos concordarão comigo. Mas recordo aquele diálogo corrosivo d’A Vida de Brian, onde se pergunta o que nos trouxeram os romanos? Nada, responde-se, excepto estradas, saneamento básico, paz, etc, etc. Claro que a liberdade deverá ser sempre a questão central. Mas separatismo e espírito liberal nunca foram sinónimos. E ainda aí está o País Basco a prová-lo.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às dezembro 20, 2007 04:12 PM

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