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dezembro 19, 2007

Kosovo I

(Com a iminente e perigosa independência do Kosovo, os Balcãs voltam a andar nas bocas da Europa. Não sei o que dizer. Está tudo dito. David Fromkin, em 1999, não se deixava deslumbrar:

Serbia’s apparent surrender in June 1999 was a triumph for the United States. But it was the easy part. If we stick to our goals, what comes next is likely to be much more difficult. It may be a long time, if ever, before we are justified in breaking open the champagne.
David Fromkin, Kosovo Crossing - The Reality of American Intervention in the Balkans (1ª edição: 1999)

Fui à gaveta e ao arquivo procurar textos sobre os Balcãs. Da gaveta saltou este, feito para um trabalho fotográfico, sobre a região, que cedo percebi estar ainda incompleto.)


Nada – Entre o Vazio e a Esperança

Balcãs: um nome que guarda uma narrativa maior do que o simples conceito geográfico que aparenta ser. Hoje, evoca a guerra, mas os Balcãs foram, durante o século passado, um alimento quase inesgotável para o imaginário ocidental. Nos anos 1900’s diversos autores referiam-se à península balcânica e aos países instáveis que se estendiam desde o Adriático ao Mar Negro como a “Europa selvagem” (H. De Windt, Through the Savage Europe, 1907, por exemplo). E logo a região fez por merecer o epíteto, pois no dia 28 de Junho de 1914, um sérvio bósnio, partidário do pan-eslavismo, assassina o arquiduque Franz Ferdinand em Sarajevo e oferece o pretexto ideal para o início de um conflito que logo se estende ao resto do mundo. Começava assim o século XX, o qual viria a terminar no mesmo lugar, com lutas fratricidas, cercos a Sarajevo e bombardeamentos em Belgrado. E entre prólogo e epílogo, os Balcãs não deixaram de inspirar fábulas em torno da sua imagem maldita, na literatura e no cinema. (Exemplo: o realizador Jacques Tourner, no filme Cat People, criou uma personagem sérvia portadora de um pecado ancestral que transforma os humanos em predadores sexuais.)

A Jugoslávia, a distância segura entre esta e a União Soviética e a tirania paternalista de Tito deram à região algumas décadas de uma acalmia que só viria a ser perturbada aquando da morte do general em 1980. A Jugoslávia aguentou-se, mas os fantasmas já se mexiam, e Milosevic começava a falar para os sérvios do Kosovo em 1987. Com a queda do muro de Berlim os demónios soltaram-se definitivamente e três anos depois a região estava embrenhada num conflito de contornos complexos e de difícil resolução. A paz acabou por chegar, mas nessa altura a guerra já havia feito feridas que vão ficar abertas durante várias gerações.

Fui, e vou, aos Balcãs (re)viver este passado. Encontrei-o nas histórias que me contaram nas tabernas. Encontrei-o nas avenidas de Belgrado, nos cemitérios de Sarajevo, na ponte velha de Mostar e na pátina dos hotéis anacrónicos. Encontrei o vazio e a esperança: Nada! (Palavra que, em servo-croata, designa esperança.) Resta saber se as asas que empurram a brisa suave que percorre agora os Balcãs são do arcanjo Gabriel ou de Ícaro.

[34] Belgrado, Agosto 2004, 364-25.jpg
Carlos Miguel Fernandes, Belgrado, 2004

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às dezembro 19, 2007 02:12 PM

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