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dezembro 10, 2007

Mais um Paizinho, ou Por Qué No Te Callas?

Televisão espanhola: é raro haver um intervalo durante o qual não somos castigados com pequenos filmes, patrocinados pelo governo de Espanha (ou seja, pelos contribuintes), que pretendem conduzir o cidadão no sentido do comportamento mais adequado a diversas situações da sua vida privada. Desde como lidar com os emigrantes até à leitura correcta de rótulos, passando por lições sobre a divisão de tarefas entre homem e mulher, temos de tudo um pouco. Um rolo compressor de paternalismo. É a teoria do Homem Novo, desta vez mais asseadinho e sem barbas revolucionárias. Mas a farinha vem do mesmo velho saco e não engana ninguém. Claro que há sempre alguém pronto para bater palmas perante estes tristes espectáculos do socialismo, mas eu não gostaria de ter gente que dialoga com terroristas a ensinar-me a viver. Manias. Para bem do futuro de Espanha, espero que em Março o Sócrates cá do sítio desapareça como surgiu: sem glória.

Carlos Miguel Fernandes

P.S. Comprando "tolices":
Um Estado que exige, mas não cumpre, que cobra e não paga, mesmo quando condenado em tribunal, e que nem o básico – a justiça e a segurança – assegura. Mas que, mesmo assim, está sempre disposto a dar lições de moral sobre os perigos de tudo, desde o endividamento (em que é o maior especialista) ao saco plástico e à globalização.
José Manuel Moreira, no Diário Económico

(Tolice comprada hoje tendo O Insurgente como intermediário.)

Publicado por CMF às dezembro 10, 2007 04:57 PM

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Comentários

Carlos:
Mesmo para quem assume as respectivas paranóias, dizer que esse tipo de anúncios televisivos tem qualquer coisa a ver com socialismo - é um bocadinho ridículo de mais.
Caso mais sério é a história do "diálogo com terroristas". Se você não estivesse sempre tão disposto a comprar todas as tolices que diz uma certa ala política, e em vez disso procurasse ser tão lúcido a criticar os que considera amigos como quer ser lúcido a denunciar os que considera inimigos, saberia que os factos mostram que por vezes é necessário dialogar até com o diabo. Até porque por vezes o diabo está por todo o lado. E muitas situações desgraçadas continuariam hoje, em vez de terem acabado, se não houvesse gente com a cabeça menos cheia de ideologia do que o Carlos. Felizmente, por vezes há políticos com a cabeça menos "formatada politicamente" do que pseudo-meros-observadores que sentem as mãos livres para o radicalismo dos intelectuais.
Um abraço.

Publicado por: Porfírio Silva em dezembro 11, 2007 02:49 PM

Porfírio, educar o povo não é uma posição liberal nem conservadora. Por isso, outra coisa deverá ser. Não é socialismo? Então é o quê?

Quanto ao diálogo com os terroristas, lamento, mas o que não compro são as teses "Mário Soares". É uma questão de princípios, ética. E aqui voltamos ao socialismo, Utilitarista quase sempre, e aos campos opostos, onde a Ética e Moral tomam posições dominantes.

(Em termos práticos, e olhando para a situação espanhola, o diálogo teve os tristes resultados aos quais temos assistido. Nesse registo, Porfírio, a sua posição utilitarista também é um acto falhado. Zapatero arrisca-se a perder as eleições graças ao bonito serviço que fez com a ETA. Claro que a derrapagem económica que já se sente é capaz de ajudar. Mas que o PSOE começa a ficar com a fama de uma atroz incompetência na gestão do problema do terrorismo, lá isso fica. Depois das GAL, temos o "diálogo" de Zapatero. Muito bonito.)

Agora, Porfírio, fica registado e com resposta, e apenas porque recentemente ficou ofendido por eu apenas apartar as águas e dizer que o Porfírio se move num terreno político muito diferente do meu:
"paranóias", "ridículo", "tolices", "cabeça cheia de ideologia", "há políticos com a cabeça menos "formatada politicamente"", "pseudo-meros-observadores", "radicalismo"...
pois bem, deixe-me responder na mesma moeda. Esta reacção é típica do discurso esquerdista: "quem não concorda comigo é tolo"; ou então "precisa de ser educado, coitado"... talvez por anúncios na TV?

Publicado por: CMF em dezembro 11, 2007 03:22 PM

Carlos:
Quanto à parte menos grave: por muita razão que tenha quanto à paranóia higienista de certos anúncios televisivos e materiais relacionados, e tem alguma de facto, achar que isso tem alguma coisa a ver com socialismo é paranóia. Lamento, mas não vejo outro termo. Basta ir por aí fora, recensear essas práticas e anotar os países onde isso existe - e qualquer ligação com "socialismo" apresenta-se como paranóia. A meu ver, é claro. Insisto que há muitas coisas de que não gostamos, ou de que gostamos, nas sociedades europeias ou em outras sociedades ocidentais, que são movidas por coisas muito mais profundas do que qualquer oposição entre socialimo ou não socialismo. Também chamo paranóia a qualquer tentativa de interpretar tudo o que interessa numa sociedade à custa de um único critério (político, religioso, étnico, por exemplo). Essa forma de enfrentar os problemas é a base de todos os radicalimos.
A questão do terrorismo é mais séria. Em primeiro lugar, este governo espanhol foi o primeiro governo ocidental a conseguir julgar segundo os princípios do estado de direito terroristas que se inscrevem na vaga pós 9/11. Em segundo lugar, não foi este governo espanhol, mas o anterior, que tentou manipular a informação dos serviços de "inteligência" sobre um acto terrorista para efeitos de campanha eleitoral. Em terceiro lugar, se o governo da África do Sul não tivesse decidido negociar com os terroristas do ANC, ou se o governo de Londres não tivesse decidido negociar com os terroristas católicos da Irlanda do Norte, esses dois conflitos não teriam tido a evolução que tiveram. Não se trata, mais uma vez, nem de esquerda nem de direita. Trata-se de não simplificar abusivamente o que é complexo e de não usar temas sérios (como o do terrorismo) para mero combate partidário. Infelismente a cultura política dominante em Espanha, quase sempre favorável ao radicalismo, é propícia ao seu próprio espírito "combativo", Carlos. O que é pena.
Já agora, Carlos: o radicalismo dos intelectuais já provou ser um problema real deste mundo. E não é a mesma coisa ser radical a promover o radicalismo ou ser radical a combater o radicalismo. Falo de quando "radical" não quer dizer "ir à raiz", mas quer antes dizer "extremar".
Um abraço.

Publicado por: Porfírio Silva em dezembro 11, 2007 05:48 PM

Porfírio, se prefere Estado Social (ou Paternalista como o designei no texto) faço-lhe a vontade. Para mim é igual, é tudo fruto da ampla árvore do socialismo e do utilitarismo. Por exemplo, há por aí muitos que se dizem liberais-sociais, e depois vamos ver com atenção e não andam longe das velhas doutrinas. Qualquer que seja o nome, eu só quero uma coisa: que me deixem em paz, e que de uma vez por todas se perceba o que é esfera pública e esfera privada. Se isso é radicalismo, sinto-me muito confortável com o rótulo.

Este governo espanhol foi aquele que viu umas "tréguas" com a ETA a explodir-lhe nas mãos. Foi aquele que viu dois elementos da Guarda Civil a serem assassinados por três elementos de uma força mais ampla que em França se armava há muito tempo, talvez para as tais "tréguas". Este governo espanhol foi vaiado há poucos dias durante o funeral de um dos guardas, numa situação que fez lembrar a tal de há quase quatro anos atrás que o Porfíro refere. Erro do PP que lhe custou as eleições (para a campanha o erro não serviria muito, até porque julgo que se estava praticamente em véspera de eleições) e que só prova os "limites" da democracia e a irracionalidade do voto: muitos eleitores, que já haviam julgado oito anos de governação e que haviam decidido contribuir para um terceiro período , mudaram de ideias. Por um erro.
Eu só espero que este governo, por errar desde o início na abordagem ao terrorismo também tenha o "castigo" merecido no próximo mês de Março. Não se dialoga com assassinos, ponto final. Ou o Porfírio acha que as autoridades devem dialogar com um assassino em série eficaz, garantindo-lhe perdão se ele parar? O assassinato político é diferente do assassinato demente? Onde é que a Ética do Porfírio coloca a linha? A minha está bem definida, bem atrás da ETA.
(E já agora, voltemos à perspectiva utilitarista. As tréguas com a ETA, com uma ETA que estava fraca quando Zapatero chegou ao poder, só serviu para que esta se reforçasse. Os resultados estão à vista. Quem continua a aplaudir é conivente com inépcia política de Zapatero.)

Publicado por: CMF em dezembro 11, 2007 06:16 PM

E, deixe-me acrescentar, se ver alguma relação entre as campanhas paternalistas e o Socialismo é paranóia (mesmo quando estas nascem de governos socialistas!), então também me sinto à vontade para dizer que não ver qualquer relação entre tais campanhas e a bafienta história do Homem Novo socialista, é ingenuidade.

Publicado por: CMF em dezembro 11, 2007 06:21 PM

Carlos:
Para si, este mundo está repleto de Estado Social. Mesmo os que disfarçam, você topa-os. Você lá sabe. Que mais posso fazer senão aplaudir a sua sageza?

Para si, o PP há uns anos cometeu um erro que por irracionalidade os eleitores castigaram. Para mim, esse "erro" foi mentira política e contrabando com o sangue das vítimas. Mas isso para si é leve. O PSOE, esse, sim, é pecaminoso: não é irracionalmente castigado por "erros" leves, como o PP. O pecado do PSOE foi o mesmo pecado, como disse antes, da África Sul que negociou com o ANC e de Londres que negociou com quem mandava no IRA. Ou de Portugal que negociou com a Indonésia. Mas a isso o Carlos não responde. (Infelizmente, muitas vezes tem uma concepção de debate que consiste em não responder ao que o outro diz, mas ir sempre "chutando para a frente".) Esse é o "erro" de tentar sair do charco da violência, porque há sempre os "puros" que se reservam, não para resolver os problemas, mas para criticar os fracassos dos que tentam. A isso chama-se estar sentado a fumar charuto na varanda da história. Posição que não invejo.

Quanto às bafientas campanhas do Homem Novo socialista, coisa por onde nunca andei (você deve imaginar que qualquer coisa que cheire levemente a esquerda deve ser primo do Estaline), talvez lhe fizesse jeito aperceber-se de alguns pequenos detalhes da história da direita política na Europa e dos Estados Unidos pelo menos na primeira metade do século XX. Ah, já me esquecia, se fizeram asneira são de esquerda, por definição...

Um abraço.

Publicado por: Porfírio Silva em dezembro 11, 2007 11:53 PM

Porfírio, se vê o Homem Novo como coisa exclusiva do mundo estalinista, então deve estar a observar a História com um belo erro de paralaxe. O passado está cheio de exemplos fora do âmbito do comunismo duro. No presente, recordo, de cor, palavras de alguns governos: Zapatero: “os espanhóis têm que mudar os hábitos”; governo inglês: “os casais da classe média inglesa gostam muito de, na sexta-feira depois da semana de trabalha, beber uma ou duas garrafas de vinho ao jantar; isso tem que mudar”; ministro da saúde português (acho), “os portugueses têm que ser educados para fazer as escolhas certas”… certas para quem? Se isto não o Homem Novo revisitado…

Em relação ao IRA e ao ANC eu respondi e recordo-lhe: “não se negoceia/dialoga com terroristas, ponto final”. Os meus princípios são as minhas respostas. EU NÂO SOU UTLITARISTA, volto a repetir. Tente entender isso antes de me atacar mais uma vez. (no entanto, recordo que por altura dessas tais negociações com o ANC, havia um boicote generalizado à África do Sul; por isso, não sei quem era "o terrorista" na altura). O Porfírio é que não me respondeu: onde está a sua linha ética, quando falamos de um crime de sangue?

Sim, este mundo (pelo menos o mundo que eu conheço melhor, a Europa) está repleto de Estado Social? Ainda não tinha percebido? Todo o nosso continente se sustenta nessa ideia, e nem a Inglaterra escapou disso logo depois da guerra. Associando isso à decadência europeia ao nível económico, demográfico e cultural (só não a vê quem não quer), o Porfírio que decida, porque realmente não tenho provas irrefutáveis: correlação positiva ou causa-consequência?
(E, já agora, que grande confusão que já começa a meter por aqui: recordo que na época do conflito Portugal-Indonésia-Timor, os terroristas, do ponto de vista de um Estado, nunca poderia ser a Indonésia. Há conflitos entre nações e há terrorismo; são duas coisas bem diferentes.)

O Porfírio diz que houve uma "mentira política". Olhe, por cá ainda se discute isso, e pelo que tenho ouvido ninguém o conseguiu provar. O incidente serve apenas como arma de arremesso.

Quanto às referências à história da direita política na primeira metade do séc. XX, não sei ao certo do que está a falar mas desconfio e atrevo-me a interpretar as suas palavras vagas. Mas até tenho medo de lhe dizer isto: olhe que o Partido Nacional-Socialista não era direita. Não me obrigue a citar o Mein Kampf. E olhe com atenção para a evolução eleitoral na Alemanha dos anos 20 e 30. Vai ter uma surpresa quando vir quem contribuiu com uma parte significativa para a eleição do NSDAP.

Respondi a tudo?


Publicado por: CMF em dezembro 12, 2007 12:09 PM

Carlos:
(1) Ainda há quem pense que beber vinho dá de comer a um milhão de portugueses. Mas também há quem ache que as cirroses são um aborrecimento. E custam dinheiro.
(2)Eu também não sou utilitarista. Como você sabe. Mas justificar o dogmatismo com isso é algo que serviria bem a certos fundamentalistas, sejam eles islâmicos ou cristãos. Já agora: o que eu não sou é relativista, porque o relativista é o irmão gémeo do dogmático.
(3) "Não se negoceia com terroristas, ponto final" equivale a "que se lixe o futuro, o que importa é fazer as contas do passado". É usualmente a posição dos que estão mais ocupados com as suas feridas do que com o futuro das gerações vindouras. É, afinal, colocar os mortos a dominar os vivos. Continuo a defender que, em muitos sítios, uma paz justa foi possível porque vozes como a sua perderam a parada.
(4) Não use definições estreitas para esconder as questões. Portugal negociou com a Indonésia quando havia terroristas em Timor que eram controlados por essa mesma Indonésia.
(5) A mentira política (o governo do PP dizer que os atentados do 11/3 eram da ETA e não islâmicos, porque isso lhe convinha eleitoralmente) já começou a ser testada nos tribunais. É claro que alguns discutem sempre tudo até ao fim, quanto mais não seja para poderem negar as evidências (dizer que "ainda se discute").
(6) Para si o Partido Nacional-Socialista não era de direita. Bravo. Pelos meus critérios, Estaline também não era de esquerda. Mas, a falarmos assim, podemos recortar a "família" à vontade para ficarmos imunes a qualquer crítica. Era o que Popper chamava, noutro contexto, "estratagemas convencionalistas".

Fique bem, Carlos.

Publicado por: Porfírio Silva em dezembro 12, 2007 07:21 PM

1) As cirroses são problema de quem as tem (cria). Só os defensores do Estado Social pensam de outra forma. Por mim, podem pensar como quiserem. Desde que não me imponham nada. Mas...sem imposição não há Estado Social, não é? A sua natureza é coerciva, não é? Pois é, e assim se vai a liberdade...os outros, que se lixem, que paguem na mesma, mesmo quando pagam a ineficácia, mesmo quando caminhamos para o abismo. Como dizia o futebolista: "estávamos à beira do abismo e demos um passo frente"; aqui, não se trata de uma das muitas calinadas de um futebolista: é a realidade da vida do homem europeu. Meta isto na cabeça de uma vez por todas: há pessoas diferentes, uns malucos que gostam de ter liberdade até para desbaratarem a sua saúde e que não têm paciência para lições de moral, nem para um Estado que nos espolia para depois dizer que não quer pagar qualquer resultado de um desvio da norma. É assim o ser humano, complexo, muito complexo.
2) Não é?, mas parece. Sabe o que é o utilitarismo? Tenho a certeza que sim. E relativista também me parece, embora num registo mais suave. Ou então sou que não estou a perceber nada da conversa.
3) É uma questão de princípios. Ou se tem ou não se tem. Uma paz justa? A paz liga com a guerra, entre nações ou civil. Não com o terrorismo. O Porfírio quer transformar um bando de cobardes, de tiranos, de opressores, numa qualquer facção de uma guerra que não existe. É lá consigo...
4) Humm, para o outro país, Indónésia, terroristas eram os outros, os guerrilheiros das montanhas. Aqui estamos em terreno demasiado pantanoso para tirar ilações sobre a questão central.
5) Nem para mim, nem para a História. Mas eu já sabia que esta verdadeira "verdade incoveniente" não é do agrado de todos. Eu posso explicar-lhe porque razão o NSDAP não era de direita. Pode fazer o mesmo em relação a Estaline. Não creio...
5) Discute-se de um lado e do outro. Tem sido tema (menor) de alguns debates (menores). E não vi ainda ninguém a fechar o assunto.

Para quem diz que gosta de debater, para quem diz que rejeita o conflito e prefere o diálogo e o compromisso (é isso o centrão?), dá sinais, desde o início, de uma grande grande crispação. Volto a repetir: talvez exista neste mundo gente que discorda dos seus pontos de vista, e que, mesmo assim, é gente minimamente esclarecida. Talvez. Algumas pessoas, não sei. Pense nisso. Ou não...

Publicado por: CMF em dezembro 13, 2007 12:56 PM

Carlos, a minha crispação é só uma: combato os ideólogos. Tenho medo deles. Mesmo quando falam em nome da liberdade individual absoluta, têm demasiadas certezas. E nisso são perigosos, até porque a liberdade individual absoluta não passa de uma arma de arremesso política, uma invenção impossível, um pau de guerra. Guerra ideológica, claro.
E, mesmo quando dizem ser contra os higienistas, comportam-se como higienistas do espírito, porque vêem "Estado" em todo o lado e estão sempre atentos a arrancar as ervas daninhas de qualquer coisa que sonham ser "esquerda". A sua "pureza" sacerdotal, em nome da "liberdade" abstracta, é a ASAE do espírito: isto é, a impossibilidade de falar de coisas concretas e simples de todos os dias sem estar sempre a catalogar as pessoas e a ver papões (de criancinhas ao pequeno-almoço, talvez).
Se o uso imoderado de rótulos do tipo "utilitarista" e "relativista" é para mostrar cultura filosófica, desculpe mas só mostra confusão. Se eu quisesse ser arrogante dir-lhe-ia para estudar melhor o que esses palavrões querem dizer. Mas não vou para aí, por uma simples razão: porque o que é mesmo grave é a sua falta de vontade para tentar pensar sem "frames".
Portanto, Carlos, você daria um bom revolucionário, sem dúvida. Daqueles que matam o cão e o gato em nome de qualquer ideal mais ou menos palavroso. A isso chamo ser "ideólogo". Arrepio-me de medo com essa doença.
A gente não poderia, depois de tantas polémicas neste seu blogue e no meu, discutir qualquer coisa fazendo de conta que "factos são factos"? Uma boa e velha "discussão factual", algo que até teria a graça de um positivismo fora de moda?

Publicado por: Porfírio Silva em dezembro 13, 2007 04:52 PM

Porfírio, como eu já disse antes gosto mais de discutir ideias, no sentido amplo. Ideias, e até rótulos: utilitarismo, colectivismo, socialismo, liberalismo, conservadorismo...Não tenho medo dos rótulos, nem das ideias, mesmo quando falamos delas num sentido lato.
Quanto ao utilitarismo, existem algumas variantes, como sabe. Digo que o é, mas no sentido lato, mais uma vez, porque não o conheço o suficiente para ir mais fundo. Mas não vejo a diferença entre a sua "paz justa" que justifica o perdão a assassinos, e a busca da paz social que justificou a prisão, pelas autoridades inglesas, de alguns irlandeses (não me recordo agora dos detalhes), mesmo quando se sabia não terem sido eles os autores do atendados em causa. A sua defesa da negociação com o IRA acaba por ser, dentro do tal "frame" do qual não gosta, semelhante. Factos são factos e somos livres de abordar cada um à sua maneira. Mas a coerência é também valor estimável. E o problema da sua visão, que eu continuo a dizer, utilitarista deste problema do terrorismo, é que nos conduz a becos sem saída, muito escuros e muito perigosos (este sim, um ponto interessante para debate e levantado pela posição utilitarista). Pode-se parar quando se quiser, sim, antes de entrarmos em terreno perigoso, e ninguém nos obriga a ser coerente; como disse, somos muito complexos. (Se o seu utilitarismo é "directo" ou "indirecto", não sei, mas que está aí, está, numa tentativa de, através dos fins, justificar os meios. Não percebo o medo de assumir posições num determinado registo da filosofia política.)

- O Porfírio não quer ser arrogante, mas arroga-se de dizer o que é grave naquilo que eu digo ou escrevo.
- Combate os ideólogos, e com certeza não é ideólogo.
- Depois de eu falar de separação entre esfera pública e privada o Porfírio atira-se a mim com a "liberdade absoluta".
- A seguir diz que sou revolucionário.
- Como talvez não tenha a coragem (o que só lhe fica bem) de dizer que eu mataria gente, fala do "gato e do cão".
Tudo isto só num comentário.
Ou seja: Não gosta de rótulos mas não se coíbe de construir homens-de-palha, uns a seguir aos outros, para melhor me atacar.

Recordo-lhe, mais uma vez, que apenas por eu ter dito que nos movíamos em terrenos políticos diferentes, ficou ofendido. Agora, parece que me tenta ensinar "a pensar". O meu pecado é não estar do lado dos "justos", é isso? Porfírio, também aqui a História nos dá lições. Eu julgo que as aprendi. Vou continuar a usar a minha própria cabeça para pensar, por muito que o resultado dessa reflexão o choque. Conviver com ideias diferentes sem ferver: isso sim, é sinal de maturidade na discussão de ideias, e não o compromisso, e a tentativa de convergência para a "ideologia" (sim, ideologia) dominante.

("Porque vêm o Estado em todo lado." Essa é boa! Porfírio, vou dizer-lhe uma coisa: o Estado ESTÁ em todo o lado. Todo!)

Resumindo (ideias, e esquecendo os ataques):
Porfírio, o objectivo é só um: combato o Estado forte, Social, paternalista. Tenho medo dele.

Publicado por: CMF em dezembro 13, 2007 05:39 PM

E agora que tal colocar isto ao nível correcto: em cima temos um texto escrito para um blogue, um parágrafo, onde eu digo, mais ou menos explicitamente que 1) Não quero um Estado Social; 2) Não gosto de Zapatero; 3) Repugna-me a ideia de negociar com terroristas; 4) O Estado Social deve muito ao Socialismo. 5) O Estado Social e o Socialismo são moralistas (muitas vezes hipocritamente) e isso irrita-me muito.
Nada mais. Não é um ensaio, é um texto num blogue, ora bolas!

O Porfírio não concorda com nada do que é dito ali em cima por mim, especialmente no 3). Óptimo. Chega uma altura em que duas pessoas saudáveis "concordam em discordar". E é aí que se começa a falar do que realmente interessa: e a legitimidade para negociar? (E a lgitimidade para cobrar impostos altos? E a legitimidade para educar e moralizar?)

Publicado por: CMF em dezembro 13, 2007 06:03 PM

Oh Carlos, se incomodo deixe estar. Já me calo. Mas como tanto você como eu costumamos, tanto no seu blogue como no meu, tanto por sua iniciativa como por iniciativa minha, ter estas longas e esforçadas discussões, pensei que isso para si fosse um prazer. Pelos vistos enganei-me. Desculpe, então. Já me calo.

Publicado por: Porfírio Silva em dezembro 13, 2007 09:54 PM

Não deixa de ser interessante verificar como o autismo - soliptismo? - latente deste blogue (tenho vindo a ler grande parte dos posts de finais de Novembro e Dezembro), surge aqui tão claro pelos comentários do próprio autor. Creio que o reparo em cima, de P.Silva (13 Dez. 4:52pm) desconstrói bem a via sacerdotal e de cruzada pessoal ultra-ideológica pela liofilização da mente humana, a que este blogue decidiu devotar-se. Infelizmente, muitas vezes os extremos tocam-se. Este triste, solitário mas tão puro blogue parece ser mais um caso. A ASAE que tanto combate é na realidade a mesma que vive dentro de si. E tal como na primeira, não existe aqui uma centelha de vida. Apenas frustação.

Publicado por: Rui Curado em dezembro 14, 2007 11:42 AM

Porfírio, ou está a fazer-se de vítima ou interpretou mal o que eu escrevi. Eu disse que devíamos avançar para o que realmente importa, e deixar de lado aquilo sobre o qual já percebemos que discordamos. Ou seja, não o quero calar, é precisamente o oposto.

Mas não gosto de discurso agressivo. Não gosto que me digam que vou andar por aí a matar "cães e gatos". Começando com a história das tolices, o Porfírio foi por aí fora (eu até posso ter sido injusto nalgumas ocasiões, mas o Porfírio foi implacável). Gostava que visse as "tolices" como "opiniões diferentes". Só isso.

Publicado por: CMF em dezembro 14, 2007 11:57 AM

Rui Curado, fraca cruzada deve ser, tendo em conta que é um "triste e solitário blogue". Por isso não se preocupe, não irá certamente afectar o mundo do qual tanto gosta (seja ele qual for).
ASAE do espírito? Ao que nós chegámos (suspiro). É isso mesmo, eu e outros "cruzados" andamos por aí a franquear as portas das casas e dos computadores, armados com passa-montanhas, metralhadora e legislação, e impedindo o pensamento livre. (Este blogue deve estar a aparecer como um “pop-up”, de cinco em cinco minutos, no ecrã do Rui Curado, introduzindo cavalos-de-tróia no seu computador, que fiscalizam depois tudo o que o Rui escreve. E isso?) E a paranóia está do meu lado…enfim…
(a parte do solipsismo é para rir com certeza, mais do que o resto...)

Quanto às opiniões de carácter pessoal, guarde-as. Olhe que eu não tenho por si o respeito que tenho pelo Porfírio. A si, nem o conheço.

Publicado por: CMF em dezembro 14, 2007 12:11 PM

Lamento se dei a entender que haveria soliptismo, mas coloquei essa hipótese em questão (se reparar, está por lá um ponto de interrogação). De qualquer modo, é exactamente essa a imagem que os seus textos transmitem - permita-me a opinião de alguêm que olha de fora. Como vê, estou a prestar-me ao cuidado de ser consigo delicado. Aliás, como aqui foi P.Silva (não vi do seu lado esse cuidado) mas tb não quero aqui tomar partes. Tb não sei ao que se refere quando fala de um pop-up? Não o vejo aqui por Chicago onde trabalho. Nem entendo o seu contexto, no qual desbarata grande parte da sua "argumentação" prá-frente-é-que-é-caminho. Mas de novo este mesmo comentário embrulhado em mistério reforça a paranóia latente, onde em todo o lado se vê "estado" (como aqui algures se refere) e inimigos de uma alegada pureza mental do absolutismo individual, a que de capa e espada em punho parece fazer querer banir a todo o custo, em nome de princípios - que claro está - ab-initio não reconhece nos outros. Se este não é o primeiro sinal de uma ideologia (ou de uma acentuada religião interior, não chego aqui a discernir), não sei o que será. Em posts anteriores chegou a falar de "bastões". Palavras manifestamente de alguêm que preza e defende a sua liberdade, mas que despreza e intolera a dos outros, como se vivesse em profunda letargia soliptista (lamento de novo). Ora estas sim são palavras graves. E se permite, dão-nos deste lado um excelente traço senão parte da realidade do carácter obstinado de quem assim escreve, baralhando e voltando a dar, entre outros, conceitos filosóficos que manifestamente está longe de dominar. Ou parece desejar nunca os dominar. Não deixo de me emocionar um pouco ao constatar que CMF atribui a si próprio a obstinada missão de nos explicar o que são os princípios. E quais de entre todos, os prioritários. Se parar um pouco para pensar, verá que é exactamente esse o papel, o leitmotif e o modus-operandi da ASAE. De novo, os extremos tocam-se. A vida ensina-nos que quem teme de modo tão extremado e radical a ausência de liberdade acaba por ser seu adepto.
Limitei-me a dizer, que P. Silva escalpelizou bem o que por aqui se passa. Foi só. Creio estar lá tudo. Se existe liberdade, ela no minímo deverá servir para dizer-mos aos outros, aquilo que eles não gostam de ouvir. Mas passe bem. E de preferência que não fique falando sozinho.

Publicado por: Rui Curado em dezembro 14, 2007 04:40 PM

Nao prentendo explicar a ninguém o que sao princípios. Apenas explico quais sao os MEUS princípios. Há uma grande diferenca, gostava que a entendesse; e o proselitismo normamlmente chega-me muitas vezes do outro lado. Quem quiser dicordar do que penso, está à vontade, desde que o faça com argumentos. Quem entra por consideracoes pessoais, nao irá por esse caminho por muito tempo. E quem quiser distorcer o que eu digo vai ficar a falar sozinho.
Em relacao à história dos pop-ups, questionava apenas o poder que este solitário blogue pode ter! A ASAE tem, como se costuma dizer, a lei por trás. E eu? Ou seja, a comparacao é rídicula.

Sobre liberdade, temos conceitos diferentes. O Rui Curado acha que uma dúzia de pessoas impedirem a circulaçao de meia cidade é um exercício de liberdade. Eu acho que é um acto de tirania. A lei existe para todos: Nao é esse o argumentos dos defensores da ASAE?
"Como vê, estou a prestar-me ao cuidado de ser consigo delicado."
Quer que lhe louve o esforço? Depois de entrar na "casa" de quem nao conhece e lancar ataques ad hominem?
Antes de acusar os outros pare um pouco para pensar. Talvez a intolerancia esteja onde menos espera. Liberdade de expressao? Sabe o que é? Liberdade de falar, sem ter que ouvir consideraoes de carácter pessoal, liberdade de debater sem ser catalogado como "tolo", liberdade de lançar ideias sem parecer que se mexe com dogmas. Sim, dogmas, é disso que se trata, dogmas do Estado Social.

Este é um espaço de liberdade. Quem quiser entra e fala. Quem se chocar com ideias, o melhor é ficar à porta. Quem quiser entrar para "educar", ou ser paternalista, ou ser mal-educado, estará apenas a testar a minha paciência. Por isso, no dia em que o Rui Curado estiver disposto a explicar porque razao uma manifestaçao pode ou deve parar uma cidade, tem aqui um espaço. Enquanto só tiver ataques ad hominem na manga, agradecia que, por muito que lhe custe. os guardasse para si. E repare que nao estou a fechar-lhe a porta. Estou simplesmente a tentar abrir-lhe outra. Bem mais saudável.

Publicado por: CMF em dezembro 15, 2007 04:28 PM

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