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novembro 29, 2007
Dias Granadinos
Hoje de manhã encontrei a Gran Via cortado por uma manifestação. Caminhei no sentido da Av. de la Constitución em busca de uma alternativa, sem grande esperança, pois a Gran Via de Colón é a coluna vertebral da cidade, e ainda mais quando falamos de transportes públicos. Passei pela multidão que agitava bandeiras e ouvia um orador. Pelas palavras que eram ditas, percebi o que se passava: agricultores, consumidores, governo; fui agricultor toda vida, quero morrer agricultor. Que luxo, hein, emprego para a vida! Nada de novo, é a Velha Europa no seu esplendor. Debater ou divulgar ideias é sinónimo, para esta gente, de estragar a vida aos seus concidadãos. E é notável com falam de consumidores, e da defesa dos seus produtos perante os mesmos, quando hostilizam esses mesmos consumidores. Mas é indiferente, não é? Quando a um agricultor lhe falha o mercado há sempre soluções: governo, governo, governo. Resumindo: perdi quase duas horas com a brincadeira, e cheguei atrasado a uma reunião durante a qual deveria mostrar o trabalho que tenho desenvolvido nos últimos dias. Por onde andam os bastões quando mais precisamos deles?
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No sábado passado sentei-me no balcão de uma cervejaria com O Pátio Maldito, de Ivo Andrić. Dividi o livro com cañas e fatias de presunto, enquanto mantinha uma orelha posta na conversa entre quatro empregados, sul-americanos, sobre a possível existência de uma língua brasileira. O ambiente estava manso, em contraste com outras bodegas da zona da Calle Gran Capitán. A noite anterior, vivida entre ciganos e flamenco, já havia sido palco de muitos excessos, e agora procurava um lugar mais calmo. Ali podia ler um pouco.
Ivo Andrić (1892-1975) nasceu na Bósnia, venceu o Prémio Nobel da Literatura em 1961, e foi um excelso narrador da condição balcânica. Tenho saudades dos Balcãs, e quis lá regressar em sonhos embalados pela prosa de Andrić. Mas, entre duas tapas, foi a outro lugar que voltei:
Neste momento, em direcção à cela diante da qual o monge e Kâmil estavam ainda sentados, veio a correr um guarda a gritar o nome do jovem. Alguns passos atrás corria outro também gritando a mesma coisa, mas com mais zelo ainda. Assim é em todos os lugares do género, o pessoal miúdo é muito rápido a cumprir a ordem superior, rápido para o bem e para o mal, depende da natureza da ordem.
O que é o Pátio Maldito? É uma prisão, uma prisão onde se entra sem se saber muito bem a razão, e de onde raramente se sai com vida. Lá dentro, a existência é parda. Vive-se num estado constante de esquecimento, e num progressivo abandono de qualquer vestígio de personalidade própria. O pátio é dirigido por Karagös, um tirano ambivalente, com explosões de raiva e punições duras, pautadas por atitudes mais benevolentes e paternalistas. Um paizinho.
Sentiu uma grande necessidade de mudar de lugar, de ver e ouvir outras pessoas, que estivessem longe destas complicadas e turvas histórias de Smirna; de ver outra gente, fosse quem fosse, desde que estivesse fora desta absurda rede que os loucos e os guardas do Sultão, sem cérebro e sem coração, entretecem, estendem e emaranham entre si, e na qual, inocente como um cordeiro, ele próprio se vira enredado.
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Para me reconciliar com a cidade, depois do desentendimento desta manhã, vou daqui a pouco a este lugar, ao Al Sur de Granada, participar numa prova de vinhos da região. Uma ampla e excelente loja de produtos gastronómicos, maioritariamente da região de Granada, e com uma zona de degustação de vinhos, queijos e enchidos, entre outras coisas. Degustação, sim. Eu sei que corro risco de vida porque não tenho uma ASAE que me proteja. No Al Sur atrevem-se a servir “tábuas” de enchidos e queijos em…tábua, madeira mesmo! Brrr, que medo. Não sabem o que fazem, estes andaluzes. E talvez ainda usem colheres de pau, estes loucos. E vinho a copo, servem vinho a copo! Ah, esqueci-me, ainda se serve vinho a copo em Portugal (pouco, mas serve-se). Confundi com o episódio dos galheteiros. Como se sabe, é muito mais fácil adulterar azeite do que vinho. Onde estava eu com a cabeça, que tonteria. Os portugueses podem ser enganados com o azeite, mas com o vinho não são parvos.
(Eu sei que começo a fazer figura de Lenny Bruce, mas a deriva “higienista” de Portugal irrita-me até ao tutano. E é irritação por uma boa causa.)
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às novembro 29, 2007 03:37 PM
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Comentários
Você faz uma pintura literária pitoresca, criativa, sobre a Andalucía, que conheço bastante bem. Mas o pedir bastões para diluir a manif dos agricultores, é excessivo, não?
Publicado por: f.limpo em novembro 29, 2007 11:00 PM
Caro f. limpo, era apenas uma expressao da minha irritaçao, resultado de uma manha perdida (minha e de muita gente). Bastava, naturalmente, que as forças policiais tivessem impedido a realizaçao da manifestacçao (muito pequena aliás) numa rua que é fundamental para o tráfego (e reservada a transportes públicos durante o dia). Os manifestantes estudaram bem a localizaçao. Junataram-se ali porque sabiam o caos que iam causar. Nao havia necessidade.
Publicado por: CMF em novembro 30, 2007 03:37 PM
Caro f. limpo, era apenas uma expressao da minha irritaçao, resultado de uma manha perdida (minha e de muita gente). Bastava, naturalmente, que as forças policiais tivessem impedido a realizaçao da manifestacçao (muito pequena aliás) numa rua que é fundamental para o tráfego (e reservada a transportes públicos durante o dia). Os manifestantes estudaram bem a localizaçao. Junataram-se ali porque sabiam o caos que iam causar. Nao havia necessidade.
Publicado por: CMF em novembro 30, 2007 03:38 PM
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Publicado por: Super Bock em novembro 30, 2007 05:02 PM