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novembro 23, 2007
A Felicidade
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Morreu Férnan Goméz (1921-2007), artista de muitos ofícios, e Espanha veste-se de luto. Respeitando os seus últimos desejos, familiares e amigos velaram-no no palco de um teatro de Madrid, colocando mesas e cadeiras em redor da sua urna. Beberam-se cafés e copas e ouviu-se tango, a música favorita de Goméz. Isto é Espanha. Na televisão passam imagens da sua mulher, Emma Cohen, a “mulher da sua vida”, como dizem, recebendo e cumprimentando amigos, conhecidos e oportunistas, com os olhos inundados de lágrimas. Mas não eram apenas lágrimas lavradas pela perda e desgosto. Havia algo mais naquele esgar de dor, alguma coisa que nos desvendava uma solidão violenta, e nos dizia que Emma perdeu mais do que um marido, perdeu um amigo, o maior amigo, e que, de certa forma, para ela, também chegou o Fim. Temos um estremecimento e lembramo-nos de Fellini e Massina. E invade-nos uma sensação de desconforto.
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Amor a Andalucía. Amor a sus gentes, a sus tierras, a sus cantes, a sus frutos y a sus vinos, a sus mares y a sus ríos, a su cielo y a su sol. Amor a todo lo andaluz. Fruto de este amor son estas páginas que reúnen una seria de trabajos que tienen el denominador común andaluz. Andalucia es tan bella como compleja. Y atrae amarla y estudiarla. Andalucía es un puro contraste que enamora e incita a hablar e a escribir de ella.
Assim começa o livro Temas Andaluces, de Manuel Gallego Morell, editado em 1971, e que comprei num alfarrabista da rua San Jerónimo, perto da Catedral de Granada. Foi hoje (ontem), e, para além de ter passado meia hora da minha tarde a espreitar as prateleiras desse alfarrabista — no qual eu já reparara há cerca de duas semanas, e em cuja montra se destaca uma edição de Os Lusíadas —, aproveitei também para me deter perante lugares e recantos que vou deixando para trás, com pressa, quando caminho quase todos os dias até à Gran Via de Colón, onde entro no autocarro que me leva até ao local oficial de trabalho.
Mas hoje não fui para a Gran Via. Gastei o dia a resolver assuntos pendentes, pequenos detalhes que, uma vez rematados, poder-me-iam proporcionar uma maior estabilidade. Por isso me deixei ficar pelo centro de Granada, hoje, jueves, numa disposição branda e contemplativa, intercalada pelos deveres ditados pelo quotidiano de um recém-chegado. E assim aportei na livraria onde estava o Temas Andaluces e outras obras que também vieram comigo, entre as quais se destaca um guia de Avila. Avila!, cidade de Castela, situada a centenas de quilómetros de Granada; Avila, terra deslumbrante que visitei há quase dez anos, numa outra vida. Por que razão escolhi esse lugar, tão longe dos “temas andaluzes” que agora me rodeiam? Pelo nome que vi no canto superior direito da capa, o nome do improvável autor: Camilo Jose Cela. Será “o” Camilo Jose Cela, enorme escritor galego, prémio Nobel, bom andarilho (recorde-se Vagabundo ao Serviço de Espanha)? Não coloco outra hipótese, tal como me parece muito plausível que o F. Catalá Roca que aparece na lista de fotógrafos do guia seja “o” Francesc Catalá Roca, um dos maiores de Espanha. São estes os pequenos tesouros que nos preenchem um dia e que nos vão acorrentando, aos poucos, às cidades por onde passamos, mesmo quando a adaptação é lenta e despreocupada. Falemos então de adaptação, que agora percebo ser um processo conduzida pelo registo da visita, e não pelo lugar.
Já passaram quase três semanas desde que cheguei a Granada e duas desde que me instalei na Conde de Tendillas. Quando pretendemos viver num lugar, e não apenas visitá-lo, precisamos de mais tempo para nos enterrarmos na verdadeira teia da cidade, no segundo nível, aquele que o viajante “de alguns dias” raramente alcança, mesmo quando volta vezes sem conta ao mesmo lugar — passatempo ao qual eu me dedico com afinco, e mania que me vai escondendo grande parte do mundo. As primeiras semanas de uma estada prolongada e dedicada ao trabalho não são “visita” nem “viver”. É um grau intermédio, um limbo desconfortável apenas amenizado pela plena consciência de que não vale a pena ter pressa, de que as ruas esperarão por nós, com toda a paciência do mundo. Mas um pequeno estúdio com vista para um saguão já não é tão apaziguador do desconforto. Não há qualquer romantismo num apartamento acanhado e frio, nem que lá fora nos esperasse Paris. Ah, Paris. Ironicamente, o livro Paris Nunca se Acaba de Enrique Vila-Matas acompanhou-me durante os primeiros dias que passei neste apartamento gélido, livro que trata não só do exílio de jovem Vila-Matas em Paris, mas também, e mais ironicamente ainda, da ironia: Eu esbanjava liberdade em Paris? Não muita, quando muito esbanjava riscos de pneumonia. Avariou-se-me o aquecedor eléctrico, por exemplo, e passei vários dias com um frio enorme na chambre. Sem aquecimento central, como o que tinha em casa dos meus pais, não há verdadeira ou, melhor dito, completa liberdade. No fundo eu sabia isso, mas preferia enganar-me a mim mesmo e acreditar que o frio e a boémia eram a liberdade pura.
O conforto pode ser arquitectado, aos poucos, e voluntariamente (um aquecedor eléctrico novo é o caminho para a liberdade). Mas também nos surge nas pequenas minudências, como os livros de Morell e Cela que encontrei no alfarrabista da Calle San Jerónimo. Ou nos singelos diálogos que se vão formando, sem disso darmos conta, e que num repente se revelam, e nos tocam e animam a alma. Hoje, ao fim da tarde, fui à Cafetaria Duquesa, taberna onde tenho entrado e saído várias vezes durante esta semana e que fica a dois passos do meu apartamento. O lugar está vazio, ainda não são oito horas, momento solene em que calles granadinas explodem e os cafés se enchem de gente. Sento-me, como é habitual, num dos poucos bancos altos que rodeiam o balcão, a única manjedoura disponível na pequena sala. Do outro lado recebe-me o mesmo homem de sempre, camisa branca, calvo, com gestos e olhar simpáticos. Por cima da sua cabeça, numa prateleira, está uma fotografia de uma menina vestida para a primeira-comunhão, um dos mais característicos retratos de Espanha, e que destoa do cenário de tasca (bem, talvez não...). Uma cañita por favor. O homem, vendo-me entrar todos os dias, arrisca: Estás a viver aqui, ou só de passagem, Sim, a viver, na Conde de Tendillas, mesmo aqui ao lado, Encantado, chamo-me Rafa, e tu?, Miguel, encantado...Mais uma caña Rafa. E então da caña bebemos o conforto, lembramo-nos de Fernán Goméz, e brindamos à sua memória e ao absurdo da existência, no fim da qual não há qualquer vitória, apenas uma esforçada derrota na recta final. Por una cabeza.

Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às novembro 23, 2007 05:00 PM
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Comentários
Olà Carlos,
que bien que te quedas por España! (o meu rudimentar espanhol apenas me permite escrever assim; não sei se correctamente...)
Folgo por saber-te numa das cidades mais lindas que visitei até hoje e na região mais simpática que conheço. Beato te (como soy dizer-se em italiano).
Devo confessar que te invejo a sorte de teres podido ir trabalhar para fora deste país, que não merece os quadros que tem formado.
Resta-me desejar-te as maiores felicidades por essas terras da Ibéria.
Continuarei as minhas visitas.
Abraço,
FBR
Publicado por: FBR em novembro 25, 2007 10:25 PM
Fernando, infelizmente é a prazo, e ainda um pouco "preso" a Portugal. Mas é assim que se começa, e, de certa forma, realizo um sonho: viver em Espanha. Não é na "minha" Barcelona, mas esta Granada já me seduziu para sempre.
Um abraço, e se passares por perto, apita.
Publicado por: CMF em novembro 26, 2007 04:21 PM
Olá Carlos, como vai?
Me chamo Luiz Renato, brasileiro, natural de São Paulo, neto de espanhol. Meu avô materno nasceu em Granada. Meu sonho........viver e trabalhar em Granada. Sou casado, 46 anos, e trabalho como Corretor de Seguros aqui no Brasil. Minha esposa, também tem 46 anos, e em breve se aposentará por tempo de serviço, por isso, penso em passar uma temporada vivendo e trabalhando por aí. Temos uma filha de 19 anos, que pretende estudar medicina. Não conheço o local, tenho amigos brasileiros que residem nesta bela cidade. Lí alguns de seus textos e os achei interessante, com narratívas ao pé da letra, se é que me entende!
Apesar do sonho,temos o pé no chão, e sabemos que sair de um país da américa latina, pra a europa, não é fácil, tampouco bem vista pelos nativos europeus.
Sendo assim, quero saber de sua experiência em viver neste país que é lindo, mas ao mesmo tempo seu povo não me passa segurança no tocante a conviver com imigrantes.
abs
Luiz Renato
Publicado por: LUIZ RENATO em janeiro 16, 2008 03:19 PM
Olá Renato!
A minha situação é um pouco diferente, pois Portugal e Espanha, para além de serem países vizinhos, estão ambos na União Europeia, e entre países da UE os termos "emigração" e "imigração" deixaram de fazer muito sentido.
Quando ao que vou observando aqui, não vejo grandes preconceitos contra a imigração, mais do que o "normal" em qualquer país, excepto talvez em relação à imigração do norte de África. Quem vem da América Latina integra-se (e é recebido) mais facilmente, até porque existe uma forte ligação de Espanha a esse continente. Em relação aos povos árabes, é mais complicado, porque há um conflito cultural latente que por vezes estala, embora em Granada, em particular, haja uma receptividade maior, pois o mundo árabe também faz parte da cultura da cidade.
Resumindo: pode vir porque se irá sentir muito bem! Pode sentir discriminação numa ou outra situação, talvez, ocasionalmente, mas não mais do que em qualquer lado do mundo. Granada e a Andaluzia são sinónimos de Alegria, e se entrar no espírito do lugar passa logo a fazer parte desta grande família andaluza, onde convivem as tabernas espanholas, as ruas "marroquinas", e a cultura cigana.
Um abraço.
Publicado por: CMF em janeiro 16, 2008 05:39 PM