« Me Quedo Sin Sangre (ou, Gabinete com Vista para a Serra Nevada) | Entrada | Alambiques e Alquimistas »
novembro 19, 2007
A Velha Europa
Este fim-de-semana, em alguns lugares de Espanha, matilhas de bárbaros entretiveram-se a destruir propriedade privada e pública, num exercício cada vez mais habitual nesta velha Europa entorpecida pelo Estado Social e aberta à desordem. Antifascistas, assim se auto-intitulavam os brutos. Podiam ser fascistas, ou anti-antifascistas, ia dar ao mesmo. Num futuro próximo, numa qualquer manifestação pela alter-globalização, vamos vê-los do mesmo lado da trincheira, como já aconteceu no passado. São pau da mesma cepa, gente sem chama e sem vigor, incapaz de lidar com a complexidade da condição humana e com a luta constante e inerente a qualquer vida que não se consegue esconder debaixo de asa protectora dos “direitos adquiridos”.
De Portugal trouxeram-me há uns dias atrás algumas revistas, e assim vou seguindo os passos tristes do país. Li, já não sei onde, que os “trabalhadores precários” começam a associar-se e a exigir aquilo que as gerações anteriores sempre tiveram (tendo dessa forma hipotecado o futuro de Portugal): pedem mais direitos, mais segurança no trabalho, mais, mais, mais; querem “passar férias no Algarve com os filhos” e receber “13º e 14º mês”. (Falar com algumas destas pessoas sobre esses tais meses “extra” revela-nos quase sempre a sua imensa “iliteracia económica”.) Pedem aquilo que, segundo crêem, lhes permitirá ter uma vida próspera, mas que, com toda a certeza, adiará a tragédia para as gerações vindouras, e continuará, no presente, a prejudicar os cidadãos mais empreendedores. Não aprenderam nada com o passado. E continuam a não entender o presente.
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às novembro 19, 2007 02:36 PM
Trackback Pings
TrackBack URL para esta entrada:
http://no-mundo.weblog.com.pt/privado/mt-tb.cgi/164525
Comentários
O problema da precaridade no mercado de trabalho não é apenas um problema técnico relativo a um factor de produção. A questão da precaridade não se poria (pelo menos nos mesmos termos!) com "trabalho robótico". O problema da precaridade é um problema acerca de pessoas, humanos, seres da nossa espécie, sujeitos de direitos e deveres. É por isso que é muito pobre - e até triste - essa maneira redutora de olhar para o problema. Aliás, em geral só "falam de alto" acerca da precaridade os que não estão precisamente nessa situação.
Abraço.
Porfírio Silva
Publicado por: Porfírio Silva em novembro 21, 2007 09:19 AM
Pois é, mas eu estou "precisamente nessa situação".
Publicado por: CMF em novembro 21, 2007 10:37 AM
...e lá estou eu a deixar-me levar nas questões pessoais...
Publicado por: CMF em novembro 21, 2007 10:58 AM
Isso é, se possível, ainda mais grave.
Contudo, sendo esse o seu caso,lamento. Embora eu também esteja nessa situação - e eu desconfio que tenho uma certa incapacidade para pensar seriamente na minha própria situação...
Abraço.
Publicado por: Porfírio Silva em novembro 21, 2007 05:11 PM
Mais grave porquê, Porfírio?
Publicado por: CMF em novembro 21, 2007 05:16 PM
Carlos, para responder à pergunta:
Eu escrevi «em geral só "falam de alto" acerca da precaridade os que não estão precisamente nessa situação» e o Carlos ripostou «mas eu estou "precisamente nessa situação"». E eu tornei «Isso é, se possível, ainda mais grave». E o Carlos pergunta porque é que é mais grave. E a minha resposta é: posso compreender que alguém que não experimentou a precaridade tenha pre-juízos acerca da mesma, por um efeito de abstracção que acompanha toda a teorização - mas tenho menos compreensão por quem, sabendo o que é a precaridade, continue a falar dela como se isso fosse apenas uma questão de política económica. Que, em meu entender, é o caso do seu post.
No fundo, e isso remete para outros debates que já tivémos, a questão ainda é: devemos pensar a sociedade como se tudo fosse economia? Penso que não.
Publicado por: Porfírio Silva em novembro 22, 2007 01:41 PM
Eu experimento a precaridade por opcao; sei o que é a precaridade. E no entanto, combato os direitos adquiridos e as leis laborais que nos tolhem os movimentos. Para o Porfírio isso pode parecer estranho, mas apenas porque se move num paradigma de filosofia política completamente diferente do meu. Preocupa-me muito mais a parcela da populaçao que se refugiou no forte dos "direitos adquiridos", e o peso de um Estado que continua a asfixiar o país, do que os altos e baixos que fazem parte da vida, e que devem ser enfrentados com coragem. Mas atençao, esses altos e baixos tornam-se muito mais perigosos com a ausência de liberdade que nos rodeia há décadas, e nao por falta de "direitos adquiridos". Cair num "baixo" pode significar nunca mais de lá sair. Mas de quem (ou de "quê) é a culpa? (E preocupa-me que, caso tenha a felicidade de encontrar um "alto", o Estado me leve metade do priveito; isso sim, chateia-me bastante.)
(Faltam alguns acentos porque hoje estou num cibercafé.)
Publicado por: CMF em novembro 22, 2007 03:40 PM
Carlos, já não apetece muito continuar esta conversa deste post, porque há coisas mais interessantes para cima neste seu Mundo (nos posts mais recentes).
Mas sempre lhe digo que quem experimenta a precaridade por opção não sabe o que é precaridade, porque precaridade é a dos que caem nela, não a dos que a escolhem.
E, já agora, e isto é um ponto importante para mim, não tente resolver os nossos debates à custa de "o P. move-se num paradigma de filosofia política diferente do meu". Desculpe, Carlos, mas isso é conversa de político, no mau sentido do termo.
Quando estamos a debater uma questão, debatamos essa questão, chamando realidades, opiniões, contingências. Se as discussões são para matar com um "só podemos discordar porque vestimos chapéus diferentes", não vale a pena. Eu sei que estamos quase sempre em desacordo e continuo a vir aqui discutir consigo (tal como você também vai ao meu blogue). Porque será? Pela minha parte é porque acredito no exercício democrático de confrontar opiniões concretas mesmo - ou principalmente - quando partimos de cenários diferentes. Se não formos capazes de fazer isso, todos, o que nos espera é a barbárie, mais tarde ou mais cedo. Como bem sabe essa Espanha onde você agora está, pela história da estupidez política de todos os campos partidários e ideológicos, que preferiram matar-se mutuamente, por mútuo sectarismo fanático, em vez de falarem.
Compreende o que quero dizer?
Um abraço.
Publicado por: Porfírio Silva em novembro 23, 2007 09:20 PM
Porfírio, dizer que se move num paradigma diferente é um juízo de facto, e nao de valor. E nao o faco com intencao de rematar. Naturalmente, o Porfírio está em desacordo comigo porque tem uma diferente maneira de ver o mundo, mais colectivista ou utilitarista, talvez (e que eu, se me permite o abuso, acho que conheco bem, porque também passei por lá). E é talvez isso que me interessa mais debater, as ideias puras, mais do que as meras consequências das diferentes formas de pensar. Nao há mal nenhum em nos posicionarmos no campo. As posicoes perante "pequenos" assuntos nascem quase sempre de um -ismo, que todos temos.
E nao, nao compreendo bem o que quer dizer. Luto com afinco, sim, mas apenas com palavras. Desprezo qualquer tipo de atitude revolucionária, ou luta armada. Aliás, é até contra essa forma de "estar na vida" que me insurjo. Com acontece perante estes idiotas que andam a destruir as ruas aqui de Espanha, e que ainda no outro dia passaram ao lado da minha porta.
Quanto à precaridade: olhemos para qualquer pessoa que tenha um pequeno negócio (daqueles que nao sao apoiados pelo governo quando corre mal, como acontece com a agricultura). É precaridade, nao é?, é inerente à coisa. E é ainda mais porque o Estado mete-se sempre onde nao é chamado, e usurpa grande parte dos rendimentos, desincentivando dessa forma a produtividade. Isto, Porfíro, é o que realmente me preocupa e indigna. Mais do que a precaridade daqueles que nao se importam de hipotecar o futuro da proxima geracao, imitando assim o que fizeram os seus pais. E é neste terreno que pretendo continuar a batalha (de palavras, Porfírio, de palavras).
Um abraco.
Publicado por: CMF em novembro 24, 2007 07:19 PM
...bem, numa coisa nao me importava de ver alguma violência. Na ASAE. Mas esse é o meu odiozinho de estimaçao... ;)
Publicado por: CMF em novembro 24, 2007 08:05 PM