« Recordar Londres | Entrada | Atlas »
setembro 13, 2007
Ajde Beograde, Kolo da Igramo
Há o barulho e as multidões. Há o convívio desregrado entre avenidas aprumadas e becos esconsos. Rios e oceanos abordam-nas para o ritual de ablução e com as suas marés conduzem o baptismo eterno que lava os pecados da noite com águas quase sempre imundas. E a grandeza das áreas ocupadas despista a ilusão da imortalidade, ensinando-nos que há uma caducidade inerente à existência que nem o fardo da primogenitura consegue contornar.
São duras, as cidades.
Mas são também vórtices sábios que nos apartam dos ardis da natureza. As cidades foram feitas por homens, para homens, e os campos imaculados servem apenas para lucubrações de poetas ou para escapatória de espíritos pouco confortáveis com a complexa, e patética, condição humana. Nem todos conseguem desempenhar com convicção o papel de Sísifo.
No entanto, a natureza é astuta, e eu, que nunca me rendo ao seu chamamento, reconheço no mar uma arma forte contra a minha disposição empedernida, uma lança apontada ao calcanhar frágil de um corpo de andarilho. O caso não é grave. Não peço que me atem a um mastro quando a maresia se mostra, até porque, muitas vezes, a sugestão de fim do mundo e serenidade que o mar nos dá é apenas um mesmerismo que se desmonta com algum esforço. Mas são águas traiçoeiras, e só uma reflexão cuidada permite ultrapassar a barreira do delírio e entender a verdadeira fonte de sedução. Olivier Rolin percebeu tudo e alvitrou tese atrevida: os Açores estão mais perto de ser o centro do mundo do que a estação de Perpignan. Eu mirava o Atlântico, desde a plataforma continental de Portugal, buscando um sentimento esquecido, sem sucesso, quando a angústia me atingiu com imagens de Kotor. Ali estava eu, um felizardo em pleno usufruto daquilo que muitos chamariam paraíso, mas a sonhar com as terras remotas do Montenegro. Que estranho acometimento era esse que me fazia desejar uma finisterra em detrimento de outra? A resposta já me havia sido dada um ano antes, depois de atravessar mais uma vez a Sérvia e entrar no Montenegro.
(Continua. Talvez.)

Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às setembro 13, 2007 04:19 AM
Trackback Pings
TrackBack URL para esta entrada:
http://no-mundo.weblog.com.pt/privado/mt-tb.cgi/161353