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setembro 05, 2007

A Educação

No dia 15 de Fevereiro de 1978, na sessão de encerramento de um congresso dedicado à sociobiologia e organizado pela American Association for the Advancement of Science, E.O. Wilson preparava-se para iniciar a sua palestra intitulada Trends in Sociobiological Research quando foi agarrado por quinze membros do Comité Internacional Contra o Racismo. Alguns segundos depois, estava no chão, encharcado com a água que entretanto lhe haviam lançado sobre a cabeça, e uma faixa, colocada à sua frente, mimava-o com o título: sábio fascista e racista do ano (durante os dias do congresso a turba já havia sido espicaçada pelo jornal do Partido Comunista do Trabalho dos Estados Unidos: A Sociobiologia é Uma Teoria Fascista, escrevia-se). O microfone acabou nas mãos de um dos agressores. Este, com um atrevimento boçal, explicou à plateia, do alto de uma tribuna para a qual não havia sido convidado, as teses do seu movimento. Lembrei-me do lamentável episódio quando vi este filme (via O Insurgente), protagonizado por um indivíduo que, recentemente, graças a um acto terrorista, acabou em horário nobre das televisões portuguesas. É verdade que esta invasão de palco alheio não escorrega para a violência física (ressalva que já não pode ser feita quando nos referimos à destruição da plantação de milho transgénico). Mas revela a mesma rudeza, a mesma falta de educação, o mesmo desrespeito pelo trabalho e espaço dos outros que levou os quinze terroristas, em 1978, a atrasar a palestra de Wilson. Admiro a paciência do tribuno, que se manteve calmo perante a grosseira interrupção da sua comunicação, a qual, independentemente do conteúdo, era conduzida com toda a legitimidade. Eu talvez não fosse tão condescendente com Gualter “A Acção” Baptista e seus acólitos. E não me faltaria vontade de distribuir uns valentes açoites pelos “activistas”, coisa que lhes deve ter faltado no processo de crescimento e aprendizagem.

Quem não sabe debater ideias recorre quase sempre a métodos proto-terroristas para tentar passar uma mensagem, e quem, ainda assim, dela discordar é imediatamente rotulado com paternalismo; o pobre indivíduo que não acata os sábios conselhos do iluminado está mal informado e a doutrinação é urgente. Mas é do conhecimento público que o chefe da quadrilha que anima o filme referido atrás está envolvido em trabalhos de doutoramento. Não será obrigação de qualquer instituição académica, principalmente em tal nível de estudos, ensinar aos seus aprendizes as virtudes da tolerância, do debate honesto de ideias, da dúvida e, já agora, da educação? Não é verdade que um candidato, quando presta provas de doutoramento, está a submeter-se à avaliação das suas qualidades como investigador? Não é verdade que uma dessas qualidades é a capacidade de discutir ideias, de defender as próprias com vigor mas também com honestidade, e de tentar refutar as alheias com argumentos sólidos e nunca com falácias ou “acções”? Se eu não conhecesse muito bem o sistema académico português talvez acreditasse que a culpa estaria toda do lado do discípulo. Mas a podridão também se vê nestes pequenos detalhes.

Carlos Miguel Fernandes

P.S. Sobre as guerras da sociobiologia já escrevi umas palavras aqui.

Publicado por CMF às setembro 5, 2007 12:58 AM

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Comentários

Eheh, sobre estes "activistas" pouco mais tenho a dizer do que citar um dos comentários que oportunamente surgiram na página do vídeo do youtube:

"Cambada de anormais....continuem a fumar as vossas ganzas e a queimarem neurónios!! Idiotas!!"

Publicado por: Bruno D. em setembro 5, 2007 04:39 PM

E outra coisa: quando o imbecil interrompeu o orador alguém da plateia lembrou que, se ele queria discutir o assunto, poderia aguardar, como acontece na maioria esmagadora das conferências científicas, pelo período de perguntas e de discussão. Um imediato "não tenho tempo" mostrou eloquentemente a confiança que esse palhacito teria na solidez dos seus argumentos. Estudante de doutoramento? Pff...

Publicado por: Bruno D. em setembro 5, 2007 05:08 PM

Não defendo a retaliação, nem penso que a mesma justifique qualquer acto, mas por dentro sorrio quando imagino um cenário: no dia da sua prestação de provas de doutoramento (um dos momentos de maior ansiedade da vida académica), uma turma igual invadia a sala, interrompendo a defesa da tese, e, perante a plateia incrédula, expunha uma qualquer tese diferente.

Publicado por: CMF em setembro 5, 2007 05:20 PM

Com sorte, pode ter uma surpresa desagradável quando descobrir que o indivíduo por ele interrompido fará parte do júri das suas provas...

Publicado por: Bruno D. em setembro 5, 2007 11:48 PM

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