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julho 20, 2007

Dez Dias em Londres

Dez dias nas ruas de Londres, dez dias entre o Bloomsbury, o Soho, o University College, e pouco mais. Percorri muitos quilómetros, alarguei a geografia e a toponímia privada. Baker Street, Russel Square, Tavistock Place, Shaftesbury Avenue, Old Compton Street, Thames. Nomes que transportam aos ombros uma história nobre e brava, tal como qualquer singela parede de Londres nos afaga com um enredo milenar. Há um clube inglês de futebol que vive sob o lema You’ll never walk alone. É essa sensação de conforto que temos ao percorrer as ruas de Londres; a frase parece que nos acompanha em todos o instantes, surge-nos escrita no pavimento a cada passo que damos. Na pátria do individualismo encontramos o aconchego da espécie. Só a um colectivista é que isto pode parecer estranho.
(Sim, visitei Londres pela primeira vez, após muitos anos de viagens. O que está perto acaba sempre por ficar para trás, tal como aconteceu durante muito tempo com Sevilha. Mas alegra-me ter percebido, em Londres, que ainda não perdi a capacidade de me deslumbrar com algo que, à distância, parecia tão familiar e banal. Quando isso acontecer, quando se desvanecer a propensão para o deslumbramento, é altura de guardar as malas no sótão.)

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Carlos Miguel Fernandes, Londres, 2007

Não entrei em museus nem em galerias, mas nesse registo só lamento ter perdido, por desleixo, a hipótese de comprar um bilhete para o Don Giovanni, apresentado na Royal Opera House. Abaixo de Mozart, já nada valia a pena. As ruas bastaram-me, e, quando me cansava, entrava numa livraria ou num pub, e descansava os olhos nas imensas filas de livros ou consultava as aquisições com uma ale ao lado. Ah, os pubs! Umas das muitas instituições inglesas que foram preservadas por quem melhor o sabe fazer. Mas...saberão mesmo?, ou começam a dar sinais de “continentalização”, arrasando aquilo que demorou séculos a erguer? Os pubs de hoje já não são os de ontem (quase literalmente). No dia 1 de Julho deste ano tudo mudou. A infame lei antitabaco chegou às ruas de Londres como um rolo compressor e ignorou tradições, acorrentou a liberdade e a responsabilidade individual. A interdição invadiu aos pubs, sem transigência ou excepções. É triste. Uma cervejaria sem fumo é como uma cerveja sem álcool, é como tremoços sem sal. Eu não fumo, as minhas roupas agradecem no dia seguinte, mas frequentar um pub sem tabaco é uma experiência coxa. A plenitude está perto, mas a beleza da madeira escura, o sabor agreste das ale ou anacronismo das alcatifas não são suficientes para fazer esquecer a ideia do verdadeiro pub. Alguns, enfastiados, e do alto de uma putativa sabedoria, dizem que noutros lugares, como Nova Iorque, já nem se discute esta questão: não se fuma nos bares e ponto final. É verdade, mas essa resignação colectiva não é argumento para encerrar a revolta. E.O. Wilson disse, Doutrinar os seres humanos é de uma facilidade absurda. A resignação de fumadores e não-fumadores é apenas um reforço de peso desta tese.

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Carlos Miguel Fernandes, Londres, 2007

E a continentalização da Inglaterra continua. As câmaras de vigilância já fazem parte do património da cidade há muito. You’ll never walk alone é agora uma frase mais literal e assustadora, e nem a velha casa de George Orwell escapa ao fulgor vigilante. Num artigo publicado na última edição da revista Atlântico, o André Azevedo Alves leva-nos mais longe, e fala de Inglaterra, da vigilância electrónica do lixo doméstico (!) e da forma como as crianças são agora incentivadas a denunciar pais fumadores. Acabou-se. Se o último reduto da liberdade, daquela liberdade que é uma herança — como dizia Burke — que deveria acarinhada como um objecto precioso de família, se esse último bastião cai, o que nos espera? Os ingleses estão a desbaratar o legado. Nós, que sempre fomos pobres nesse aspecto, e que nunca tivemos pais fundadores para ancorar uma ideia de liberdade, temos um futuro ainda mais negro pela frente. Que o fantasma de Churchill os assombre sem piedade; pode ser que se assustem.

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Carlos Miguel Fernandes, Londres, 2007

É este o legado de Blair, foi esta a sua missão? Acorrentar os ingleses e seguir cegamente os erros grosseiros da administração norte-americana!? Não vale a pena ficarmos surpreendidos. Essa é a verdadeira face, horrenda, do socialismo, e não são algumas privatizações que a vão conseguir esconder.
Mas, apesar destas nuvens negras, Londres é uma grande cidade. Atrevo-me até a dizer que é A cidade. Isto são sintomas do deslumbramento, certamente, é êxtase causado pela ale que ainda me corre nas veias. Mas sabe bem.

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Carlos Miguel Fernandes, Londres, 2007

Carlos Miguel Fernandes

P.S. Em Inglaterra a tradição pode já não ser o que era. Mas pelo menos ainda é fácil comprar um afia-lápis. Na papelaria do University College há uma caixa cheia de afias, 30p cada um. Mas estou a ver que devia ter comprado uma dúzia.

Publicado por CMF às julho 20, 2007 04:21 PM

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Comentários

E os pubs continuam a obedecer à tradição de fechar às 11 da noite?

Publicado por: Pedro em julho 21, 2007 04:46 PM

Não Pedro. No Soho e Covent Garden já encontras muitos a fechar à meia-noite. Um pouco fora da loucura do centro, vi alguns a fechar mais tarde ainda. Encontrei um que anunciava encerramento às 4 durante o fim-de-semana. Aos poucos parece haver uma adaptação.
Mas os ritmos da cidade também não convidam a fechar muito mais tarde. É por volta das 18 que aquilo está ao rubro.

Publicado por: CMF em julho 21, 2007 04:51 PM

Fantástico. Quando lá estive por volta de 1996 já havia esses pubs no Soho que fechavam à meia noite, e em também em Angel, uma zona muito simpática de resto, e noutros sítios como Finsbury Park. Nunca percebi como é que se coadunavam as ridículas limitações da venda de álcool com o celebrado espírito liberal britânico. O mesmo para os sinistros cartazes nos pubs a dizerem "qualquer pessoas que seja apanhada a consumir ou vender drogas ilegais será imediatamente denunciada à polícia sem aviso prévio", uma coisa que nunca vi noutro país. De resto, sim, Londres é uma cidade muito simpática.

Mas "os ritmos da cidade não convidam a fechar mais tarde"? Porquê? Admitindo que os ingleses tenham ritmos diferentes do resto da humanidade, porque raio não podem beber um copo depois dos espectáculos? -- coisa de que alguns se queixam até. É uma manifestação dum aspecto que está muito presente lá que é o puritanismo. Uma contradição? Certamente. A Espanha de hoje, com aquela estranhíssima commbinação de catolicismo arreigado com hedonismo e liberalismo de costumes até ao limite, não é menos contraditória. Mas os espanhóis começam a trabalhar tão cedo como os ingleses, que eu saiba. Só que não impõem a ninguém horas de ir para casa.

Os argumentos sobre a 'englishness' e a 'continentalização' são profundamente irracionais. A Inglaterra pode ser a pátria do liberalismo, tudo bem. Mas também é a pátria de Cromwell e do Labour, por exemplo. Segundo essa lógica, os puritanos e os trabalhistas são menos ingleses que os outros. O Orwell, que, não te esqueças, era socialista e andou na guerra civil de Espanha a combater nas milícias trotsquistas, era o quê? Será que tinha um lado 'continental' (ser socialista) e outro 'inglês' (ser antitotalitário)? Será que o facto de o Hobsbawm ser comunista faz dele um inglês renegado (ou será o facto de ter nascido em Alexandria)?

A generalização da videovigilância é 'continentalização'? Porquê, podes explicar? A videovigilância foi uma invenção 'continental' que um sinistro 'continentalizador' chamado Blair importou para a ilha da liberdade?

A ideia de pátria da liberdade, da contaminação das puras ideias pelos ideais maléficos vindos do estrangeiro, a demonização do 'continente', a omissão sistemática de tudo o que não seja conforme ao ideal do progresso nacional rumo à felicidade, estes argumentos não te fazem lembrar nada? A mim fazem, e não gosto nada, mesmo nada, dessa associação.

Agora, os ingleses (a esmagadora maioria deles) não têm nada a ver com isso, e certamente até se riem da coisa. E Londres é uma cidade fantástica de facto, mesmo com pubs a fecharem às 11.

Publicado por: Pedro em julho 23, 2007 04:13 AM

"Fantástico. Quando lá estive por volta de 1996 já havia esses pubs no Soho que fechavam à meia noite"
Fantástico, mesmo, porque eu pensava que tinha havido recentemente muitas mudanças nessa área. Mas adiante.

"O mesmo para os sinistros cartazes nos pubs a dizerem "qualquer pessoas que seja apanhada a consumir ou vender drogas ilegais será imediatamente denunciada à polícia sem aviso prévio", uma coisa que nunca vi noutro país. De resto, sim, Londres é uma cidade muito simpática."
Olha, eu não vi nenhum desse cartazes na semana passada (o que não quer dizer que não existam), mas não me são estranhos, já os vi noutros lugares. Ou eu fiz uma espécie de transferência de memória, ou tu andas a viajar pouco.

"Mas "os ritmos da cidade não convidam a fechar mais tarde"? Porquê? Admitindo que os ingleses tenham ritmos diferentes do resto da humanidade..."
Andas mesmo a viajar pouco. Experimenta tentar encontrar uma cervejaria aberta no Sul de França ou em Itália à meia-noite.

"É uma manifestação dum aspecto que está muito presente lá que é o puritanismo."
Puritanismo? Sim, deve ser isso, temos a Old Compton Street, mas os pubs das redondezas fecham às 11 por puritanismo.

"Só que não impõem a ninguém horas de ir para casa."
Ninguém te impõe horas de ir para casa, em Londres. Se quiseres ficas no Soho até tarde, ou desces para Vauxhaull, ou então procuras um pub de bairro, aberto até mais tarde, ou então...tanta coisa...

Tu pareces estar muito preocupado com o horário de funcionamento dos pubs. Eu, enquanto lá estive, entretive-me a olhar para a solidez das pedras dos edifícios. E preocupei-me mais com os estragos que o multiculturalismo ou a nova (eco-)religião podem fazer a essas pedras.

Ah, já que falaste em Espanha, e não nos obrigam a ir para casa e tal, experimenta dar um saltinho a Cáceres. Não é muito longe.

“Os argumentos sobre a 'englishness' e a 'continentalização' são profundamente irracionais. A Inglaterra pode ser a pátria do liberalismo, tudo bem. Mas também é a pátria de Cromwell e do Labour, por exemplo. Segundo essa lógica, os puritanos e os trabalhistas são menos ingleses que os outros. O Orwell, que, não te esqueças, era socialista e andou na guerra civil de Espanha a combater nas milícias trotsquistas, era o quê? Será que tinha um lado 'continental' (ser socialista) e outro 'inglês' (ser antitotalitário)? Será que o facto de o Hobsbawm ser comunista faz dele um inglês renegado (ou será o facto de ter nascido em Alexandria)?"
Ó Pedro, comunistas e liberais há em todo lado. Em Inglaterra, basta olhar para a família Amis, pai e filho, para teres um exemplo interessante. E também um exemplo interessante de como se assumiu o erro, a culpa, ao contrário de muitos Sartres que andam por este lado do Canal da Mancha. Mas não é isto que interessa.

Falamos aqui de algo mais profundo, de conceito de herança associado às ideias de liberdade e responsabilidade. É na estrutura do Estado inglês que encontramos esse valores fundadores, e é essa estrutura, feita de pesos e contrapesos, refinada na Revolução de 1688, que impede a corrosão do Estado pelos seus próprios agentes. Chama-se democracia liberal, Pedro. Dá-me o nome de um Estado com uma democracia tão duradoura e estável como a inglesa e norte-americana. Diz-me, só um! A França, por exemplo, só se pode orgulhar de uma democracia (e quanto a mim muito frágil) já depois da II Guerra.
Repito, comunistas e liberais há em todo lado. O que não há é uma tradição de constituição liberal, ou de instituições fortes mas controladas por sistemas de pesos e contrapesos, ou de liberdade e responsabilidade. Isso meu caro, raramente encontras fora do mundo anglo-saxónico.
Quanto a Orwell, confesso que até encontro alguma ironia na situação actual que descrevi.

Perguntas se a videovigilância foi uma importação do sinistro Blair. Não sei, mas em relação à identificação por DNA, já me parece que ele foi bastante original e sinistro.

“A ideia de pátria da liberdade, da contaminação das puras ideias pelos ideais maléficos vindos do estrangeiro, a demonização do 'continente', a omissão sistemática de tudo o que não seja conforme ao ideal do progresso nacional rumo à felicidade, estes argumentos não te fazem lembrar nada? A mim fazem, e não gosto nada, mesmo nada, dessa associação. “
Sim, sim, já conheço este teu tipo de “argumentação”, mas, lamento, não a compro.

“Agora, os ingleses (a esmagadora maioria deles) não têm nada a ver com isso, e certamente até se riem da coisa.”
Uns riem-se, outros não, como em todo o lado. Tu, se calhar, vais rindo. Mas quando vierem buscar o teu vizinho falamos. Ou vais, como o outro, esperar que te venham buscar?

Publicado por: CMF em julho 23, 2007 05:43 AM

Em relação aos horários de venda de bebidas alcoólicas, em 1996 o que eu vi era assim: no Soho havia meia dúzia de bares que fechavam à 1h, sempre apinhados, e também alguns restaurantes onde podias beber desde que jantasses; depois havia em Angel e Finsbury Park uns pubs que tinham direito a 'prolongamento de horário' até à meia-noite, meia-noite e meia, ou 1h. Os clubs (ou discotecas como se diz por cá) podiam servir álcool até às 3 da manhã, embora não tivessem limite horário para fechar. Aliás, em relação aos horários as coisas são totalmente liberais, na ruaa onde eu estava havia mercearias abertas 24/24, montes delas, sempre às moscas, um mistério que não consegui desvendar.

Eu viajo muito menos do que gostava, obviamente. Mas comparar Londres com não sei o quê de Itália ou França é batota. Londres tem de se comparar com Madrid, Milão, Paris, Berlim, óbvio não?

Mas enfim, continuo sem perceber porque é um país tão liberal, tão liberal tem restrições destas à liberdade individual. Não percebo como é que te podes queixar de 'continentalização' a propósito da proibição do tabaco nos pubs, num país em que até há pouco tempo só se podia beber, aos domingos, das 10 às 13 e das 19 às 22 (não sei os horários com precisão, eram tão complicados que desisti). Até era divertido, os supermercados tinham de fechar as partes em que se vendia álcool a essas horas. Como é que é agora, podes ir ao supermercado a qualquer hora comprar cerveja?

Em relação à 'assunção da culpa' quanto ao comunismo em Inglaterra, mas não do outro lado da Mancha: vê-se que nunca lês nada em francês, essa língua demoníaca. Se conhecesses a imprensa francesa não conseguias dizer isso. Já não há Sartres em França, e é cada vez mais consensual que o JP Sartre era um imbecil, um palhaço que só tem interesse como objecto de estudo -- como é que conseguiu enganar tanta gente? E aqui há um pormenor irónico: onde é que ele se tornou na celebridade que foi? Nos EUA.

Já me tinhas falado dessa história de a França só ter tido um sistema democrático depois da II Guerra. Pensava que a Frente Popular tinha ganho as eleições antes da II Guerra. Deixa-me bastante intrigado. Que eu saiba, embora a França tenha tido uma história conturbada durante o século XIX, foi uma democracia como as outras do seu tempo, com eleições, parlamento e isso tudo, e com limitações ao direito de voto semelhantes aos que havia nos outros países desenvolvidos da Europa, incluindo o Reino Unido. Onde é que leste isso?

Agora, que a Inglaterra e os EUA têm as democracias mais estáveis do mundo, ninguém diz o contrário. Imagina que até os franceses admiram os ingleses e os americanos por isso! Sim, franceses, é verdade! Há imensos franceses que adoram a Inglaterra e a América! Até mesmo muitos intelectuais! Imagina que até eu adorava ir a Londres e ficar lá uns tempos, adoro imensas coisas da cultura anglo-americana, já estou há não sei quantos anos para ir aos EUA e só não fui porque nunca tive dinheiro!

Só não percebo é porque é que tanta gente agora fala daquilo como a incomparável terra prometida, da esperança e da liberdade,com os seus pais fundadores, a magna carta, os seus gloriosos feitos militares em defesa da liberdade, um exemplo perante o qual nós, miseráveis não anglo-americanos, nos devemos respeitosamente curvar... quase me comovo.

Publicado por: Pedro em julho 23, 2007 03:02 PM

Falas de bares ou pubs? São coisas diferentes. Como te disse, hoje, em Londres, nada de obriga a ir para casa. Mas não esperes ficar a noite toda num pub (até de madrugada), tal como não ficas a noite toda numa cervejaria de Alcântara.
E sim, penso que podes comprar álcool a qualquer hora, num supermercado. Algo que, por exemplo, não podes fazer na Islândia. Nem a qualquer hora, nem nunca...

"Eu viajo muito menos do que gostava, obviamente. Mas comparar Londres com não sei o quê de Itália ou França é batota. Londres tem de se comparar com Madrid, Milão, Paris, Berlim, óbvio não?"
Também fizeste um bocadinho de batota ao comparar Inglaterra com Espanha, não fizeste?
De qualquer forma, e se compararmos pubs com kneipes (Alemanha, Berlim), sorozos (Hungria, Budapeste), pivnicas (Balcãs, Belgrado, Zagreb), ou o equivalente em Amsterdão (não sei o nome), vais ver que não ganhas muitas horas extra de abertura ao público, e muito menos durante a semana.

Aliás, falas das restrições ao funcionamento de bares e à venda de álcool que durante muitos anos estiveram em vigor no RU. Sim, tens razão, é inaceitável. Mas compara com os "paraísos" sociais-democratas do norte da europa. E compara hoje! Não falo só da Islândia — onde senti a verdadeira tirania nesse domínio —, sei que noutros ainda existem restrições parvas.
Em relação ao RU, penso que a razão pode estar no carácter conservador da nação (conservador no sentido de não mudar sem motivos, não legislar por tudo e por nada; e mais uma vez, estou a falar nas bases do sistema), o que fez com que as leis do início do século XX se tivessem mantido quase (e atenção a este quase) inalteráveis até 2005.

(Quanto a esses horários, e à liberalização dos mesmo no RU, espero que por cá não se siga o caminho inverso. É que no Técnico, por exemplo, já só se pode beber imperial durante o almoço. Depois, e durante a tarde, comes o prego ou a bifana com leite ou com sumo de laranja, se quiseres.)

"Em relação à 'assunção da culpa' quanto ao comunismo em Inglaterra, mas não do outro lado da Mancha: vê-se que nunca lês nada em francês, essa língua demoníaca. Se conhecesses a imprensa francesa não conseguias dizer isso. Já não há Sartres em França, e é cada vez mais consensual que o JP Sartre era um imbecil, um palhaço que só tem interesse como objecto de estudo -- como é que conseguiu enganar tanta gente? E aqui há um pormenor irónico: onde é que ele se tornou na celebridade que foi? Nos EUA."
Bem, por cá, pelo menos, as coisas ainda não são assim. Quando aterrei no domingo das eleições em Lisboa percebi que mais de 15% dos lisboetas tinham votado na extrema-esquerda, comunistas e neo-comunistas (BE). É extraordinário. (E, infelizmente, Sarkozy demonstrou recentemente como a política francesa está (irremediavelmente?) marcada pelo estatismo. Seja esquerda ou direita.)

Pedi-te para me falares de uma democracia com a continuidade e a estabilidade da inglesa ou norte-americana. Espasmo de democracia houve em muitos lugares, e se calhar até em França (embora eu desconfie muito das "democracias" pré-II guerra, vide a alemã.)

"Agora, que a Inglaterra e os EUA têm as democracias mais estáveis do mundo, ninguém diz o contrário. Imagina que até os franceses admiram os ingleses e os americanos por isso! Sim, franceses, é verdade! Há imensos franceses que adoram a Inglaterra e a América! Até mesmo muitos intelectuais! Imagina que até eu adorava ir a Londres e ficar lá uns tempos, adoro imensas coisas da cultura anglo-americana, já estou há não sei quantos anos para ir aos EUA e só não fui porque nunca tive dinheiro!"
Pois, agora até o Levy elogia os EUA, não é?
Mas é verdade, e a começar em Tocqueville (é pena não ter feito escola). Mas volto a repetir, não é de ideologias que falo, ou de percentagens de população que seguem determinado partido ou corrente. Estou a falar das bases da democracia. E aí há diferenças evidentes.

"Só não percebo é porque é que tanta gente agora fala daquilo como a incomparável terra prometida, da esperança e da liberdade,com os seus pais fundadores, a magna carta, os seus gloriosos feitos militares em defesa da liberdade, um exemplo perante o qual nós, miseráveis não anglo-americanos, nos devemos respeitosamente curvar... quase me comovo."
Se calhar não percebes. E se calhar não prezas como eu a liberdade e a responsabilidade individual. E estas são melhor defendidas com constituições liberais, com tradições hereditárias de liberdade. Só isso. Sistemas imperfeitos também emergem dessas estruturas? Sim, mas a probabilidade é bem menor.
O que se admira aqui não são os governos anglo-saxónicos, Pedro. O que se adimira são bases das democracias e das instituições anglo-saxónicas (algumas até não-democráticas, como a Câmara dos Lordes inglesa, ou o Supremo Tribunal dos EUA, mas importantes garantias da liberdade individual; muitas vezes, mais do que o nosso presidente eleito, por exemplo.)

Publicado por: CMF em julho 23, 2007 03:35 PM

E que tal comparar em Portugal? Após viver alguns meses em Londres e 2 anos nos EUA, em várias cidades, confesso que me sinto mais livre em Portugal do que em qualquer destes dois países!

Publicado por: Hugo em julho 25, 2007 03:47 PM

É sem dúvida uma cidade fascinante. Mas acredite que uma vez não chega. Londres esconde-se e mostra-se devagar,muito devagar.

Cumprimentos,
Joao Galamba

Publicado por: joao galamba em julho 27, 2007 12:02 PM

Respeito sua opinião, mas para mim que sou uma brasileira alergiquíssima ao cigarro, essa lei é bem-vinda... e eu poderei freqüentar pubs como todo mundo... :.)

Publicado por: isa em novembro 15, 2008 01:12 PM

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