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maio 05, 2007

O Engenheiro

Comprei-o na Bandi & Luni’s, uma excelente livraria que encontrei em Seul, no subterrâneo da estação de metro Jonggak, perto do acesso adjacente à torre Jongno. Trata-se de The Existential Pleasures of Engineering, escrito por Samuel C. Florman há mais de trinta anos. Foi o escolhido, no meio quantidade absurda de livros que trouxe da Bandi & Luni’s e dos alfarrabistas de Busan, para me acompanhar na cabina durante a viagem de regresso. Como em Lisboa me esperavam outras leituras, não tive oportunidade de o terminar, mas não pude deixar de reparar na actualidade dos primeiros capítulos. Florman reflecte sobre a condição do engenheiro numa época dominada pelo relativismo pós-moderno e pelos discursos contra a ciência, a tecnologia e a engenharia. O autor começa por identificar as origens e as causas da aversão à engenharia, maleita que enferma, desde o final da II Guerra Mundial, as visões do mundo pouco habituadas a lidar com a ciência; e de seguida embarca numa reflexão sobre a consciência do engenheiro e sobre o erro, factor indissociável da método científico e do conhecimento aplicado, mesmo que algumas vozes, eivadas com diversos e obscuros interesses, tentem convencer os mais incautos do contrário. Em certas ocasiões, e a trinta anos de distância, coloca o dedo em feridas incómodas.

There is scarcely a technical issue for which you cannot find expert witnesses of differing opinions. In questions of environmental impact, particularly, the complexities are so staggering that simple answers are unattainable. We are professionally committed to truth. But what is the truth?

Estas sim, são verdades inconvenientes numa época de putativos consensos.

Mais à frente, encontramos uma frase cuja leitura atenta e insistente se sugere aos membros do actual governo (e de tantos outros!), o qual parece ter alguns engenheiros no seu elenco, mas que conta, com certeza, com muitos “engenheiros sociais”.

The idea — expressed these days in the hortatory concluding passages of so many earnest books — that teams of experts can provide the information needed to allow the public “informed” choices, underestimates, in my opinion, the propensity of the wisest of men to make grievous calculations, and the inclination of ordinary people to make choices contrary to what appear to be their best interests.

Digitalizar0007.jpg

Uma bom livro, mesmo para quem não tem vocação para a engenharia. Claro que alguns conhecimentos de inglês (técnico) ajudam, pois não conheço tradução portuguesa da obra.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às maio 5, 2007 05:26 AM

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Comentários

"There is scarcely a technical issue for which you cannot find expert witnesses of differing opinions. In questions of environmental impact, particularly, the complexities are so staggering that simple answers are unattainable. We are professionally committed to truth. But what is the truth?"

A citação é interessante. Na minha visão de "fellow engineer", ou melhor, de licenciado em engenharia ;-) , não acho que os engenheiros tenham um compromisso com a verdade. Antes pelo contrário. Os engenheiros são os charlatões, os manipuladores da verdade na medida em que isso der jeito.

Dizia um professor meu algo do género de, se perguntassem a um aluno de ciências quanto era Pi, ele diria que não o poderia afirmar, porque era uma dizima infinita não-periódica. Se se perguntasse o mesmo a um engenheiro, ele responderia que era 3.14, 3, 4 ou 10 de acordo com o que desse mais jeito e desse menos confusão no cálculo em questão.

Para mim, a maisvalia do engenheiro é ser o mais próximo para mim nos tempos modernos do homem do Renascimento. Alguém com uma predesposição ao conhecimento multi-valente e com vontade de ajustar a ciência pura ao mundo dos Homens. O verdadeiro generalista da ciência, e a personificação do técnico que, mais do que uma cana, possui uma "caixa de ferramentas" que o ajudam a atingir um determinado objectivo prático.

E também isso se vai perdendo. A aposta, quer por iniciativa própria das Universidade, quer por imposições de redução curricular à là Bolonha, na ultra-especialização dos cursos de engenharia é em grande parte o que está a matar a própria génese do engenheiro. Compromete-se a visão de um engenheiro que consegue dialogar com os seus colegas engenheiros de outras áreas, por terem fundações do conhecimento comuns e conhecimentos cruzados, em prol da imagem do engenheiro especialista em apertar o parafuso do tipo XPTO.

É pena.

Publicado por: JLP em maio 8, 2007 04:57 PM

JLP,
o commited to truth parece realmente um pouco romântico. Mas a questão seguinte (But what is the truth?) deixa tudo em aberto. A citação deve ser enquadrada dentro do tema do capítulo, que trata da ética da engenharia, e da tentativa de imposição de uma ética externamente, em contraponto a uma auto-regulação.
Mais à frente Florman escreve: But the main trouble with engineers has not been their lack of morality. It has been their failure to recognize that life is complex. For a century they put their faith, somewhat unthinkingly, in "efficiency" and "progress". Now there is a danger that the same sort of mistake will be made with an abstraction called "social responsability". My warning example is simply: Beware of slogans.

(Jorge Calado, num texto da recente exposição INGenuidades escrevia qualquer coisa como: se há problemas na terra, não se soluciona acabando com a engenharia e a tecnologia. soluciona-se com melhor engenharia.)

Bem, o que quero dizer é que a aparente força e convicção do commited to truth serve apenas para alertar (beware!) que talvez não seja possível identificar essa verdade. E se a um primeiro nível, como homens de ciência que também são, os engenheiros perseguem a verdade (isto numa perspectiva popperiana de eliminação de erros), na aplicação prática (aquilo para o qual foram treinados) estarão sujeitos a uma série de constrangimentos (morais?). Mas deixar que esses constrangimentos sejam contaminados por (in)verdades (in)convenientes ou discursos politicamente correctos pode ser tão perigoso como fazer engenharia em nome do progresso (seja lá o que isso for).

Sente-se o conflito/cooperação entre ciência e engenharia, quando se está envolvido num doutoramento na área de engenharia. (Por vezes até penso se não será um contra-senso.) Há um rigor mínimo exigível, um respeito à verdade, se quisermos colocar as coisas nesses termos. Mas a certa altura, parece que é necessário abanar tudo um pouco, e extrair o sumo, para apresentar algo palpável. E aí, penso que se perde realmente um pouco de “ciência” no processo. A urgência de “funcionar” sobrepõe-se, por razões práticas (é necessário convencer um júri), ao gozo de “descobrir”.

Quanto a Bolonha e à descaracterização dos cursos de engenharia, só não via o que ia acontecer quem não queria ver. Eu tive que aturar reuniões intermináveis durante o início do processo, quando pouco ainda se percebia dos objectivos de Bolonha, mas onde já se falava de “especialização”. Recordo-me que um colega, baralhado, se levantou e colocou a seguinte questão: “então, vamos formar engenheiros que saibam apertar porcas para um lado, porque as empresas querem engenheiros que apertem as porcas para esse lado; e o que vai acontecer quando as empresas precisarem de engenheiros que apertem as porcas para o outro lado?” Ou seja, sabem apertar o parafuso XPTO1, mas não sabem apertar o XPTO2...

Publicado por: CMF em maio 9, 2007 04:00 AM

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