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janeiro 06, 2007
Os Monstros
No palco, as crianças fizeram o possível, mas não aguentam o ritmo que estas coisas exigem. Sena viu-se forçado a abrandar os movimentos e, como último recurso, a formar filas para a coordenação ser mais fácil. Dizem-me que, na estreia, o público infantil se portou impecavelmente. No sábado 23, o último interlúdio já não se ouvia com a barulheira, as correrias e as conversas na sala. Que as crianças se portem mal, vá lá; que as famílias fiquem enternecidas com tal comportamento, dá que pensar. Percebo agora o título do ex-ministro da educação, Marçal Grilo, Difícil É Sentá-los. Na ópera, como na escola.
(Jorge Calado, sobre a recente representação de O Pequeno Polegar na Culturgest — Actual, Expresso, 6 de Janeiro de 2007)
Afirmações como esta já são raras em conversas de café. Na imprensa, menos gente se atreve a encetar o discurso. Saúda-se a coragem de Jorge Calado ao afrontar um dos tabus da sociedade moderna. Não há criança que não seja “a melhor coisa do mundo”, que não tenha uma bondade intrínseca pronta a ser afogada pelo cinismo do mundo dos adultos. As crianças são anjos na Terra. As crianças são incapazes de transportar a maldade. (O Senhor das Moscas não passa de um enredo inverosímil saído da pena de um qualquer triste misantropo.) Na escola nunca massacram os seus colegas até ao ponto de envergonharem o mais sádico dos adultos. Nunca.
Mas se até as mulheres grávidas, inchadas como porcos nos últimos meses de gestação, são olhadas como deusas, numa estranha inversão da libido (ou mais uma mentira social), é de esperar que os rebentos ganhem um estatuto apócrifo, de invólucros imunes à crueldade humana. É a neotenia como sonho de uma humanidade sedenta do paraíso. Cada um transporta as ilusões que quer e que pode. O que já não se pode aceitar de ânimo leve é o embrutecimento que conduz à desconsideração referida por Calado. Não é raro ver-se num restaurante, de qualquer nível, os berros e correrias das criancinhas acompanhadas pelo sorriso enternecido (eufemismo para pateta) dos progenitores. O mito do bom selvagem é bom para quem o quiser comprar. Mas as regras mais elementares de civismo e respeito pelo próximo exigem aos paizinhos que controlem com determinação os frutos dos seus desejos. Nem todos os movimentos desajeitados são magníficos ensaios de uma dança precoce, e nem todos os guinchos ou batuques eternos são o prenúncio de sensibilidade musical. Mozart só houve um, e esse parodiou Jean-Jacques Rousseau com doze anos de idade.
Recentemente, chegou-nos ao ouvido uma boa notícia. Em Portugal já se podem encontrar restaurantes e hotéis onde as crianças são barradas à entrada. Felicidade efémera, a minha, pois aquela estranha instituição que se arroga de defender o consumidor já se fez ouvir. Parece que tal prática, segundo os senhores da DECO, é uma afronta à liberdade. Não sei se falam da liberdade dos ressabiados de Abril, ou daquela que 80% dos portugueses estão dispostos a trocar por segurança. A minha Liberdade não é, com certeza.
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às janeiro 6, 2007 05:32 PM
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Comentários
companheiro, não te sabia assim tão infanto-fóbico, mesmo que partilhe algum desgosto e desespero por criancinhas aos berros em restaurantes...
mas até os "monstrinhos" têm direito a comer...
penso que o pior são mesmo os pais que deixam que a situação lhes escape e que acham que não existe tal coisa como uma "palmada pedagógica".
longe de mim defender que se espanquem as adoráveis criancinhas, mas uma palmada no rabo, onde assusta, mas não magoa demasiado, dada no momento certo e pelas razões certas, convenientemente explicadas ao petiz, faz milagres, quando as admoestações verbais parecem não fazer efeito.
mas que seja por boas razões e não porque os papás perderam a paciência e não sabem ou não querem ter o trabalho de tentar controlar a situação de outra maneira...
Publicado por: GVR em janeiro 17, 2007 04:36 PM
não te cures que não é preciso...
Publicado por: André em janeiro 19, 2007 12:48 AM
Ola !
Compreendo perfeitamente o teu exaspero. Ja em França, onde me encontro, acontece o contrario : as crianças são particularmente mal vistas e mal recebidas nos restaurantes. Ao ponto que muitos pais em passeio levam as suas criaturas a fast-foods... Acho que ha de haver bom senso e que a educação dos putos é da responsabilidade dos pais e não da escola, nem da televisão, nem da Floribella...
Pessoalmente,tendo duas crianças, sei que é dificil manter o rumo certo mas elas sabem que à mesa esta-se sentado e que os adultos é que falam.
desculpa pela falta de acentuação e por algum galicismo.
Continua,
Stanko
Publicado por: Stanko Trifunovic em janeiro 22, 2007 09:29 AM