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janeiro 04, 2007
Na Estrada, em 2006 - X
A Solidão.
A Islândia ficar-me-á gravada para sempre nas entranhas como um albergue de tédio. Onde muitos vêem sinais da cidade-paraíso – ausência de trânsito, poluição residual, segurança, nível de rendimentos elevado, protecção social a todos níveis, etc. – eu vi um prenúncio do inferno. O que senti naquela ilha parece reflectir a sua condição geológica: por baixo de cenários idílicos e paisagens imponentes vive uma Terra em sobressalto, que por vezes explode em torrentes de água quente e até de lava.
Mas é serena, sim, a Islândia. E o tempo parece passar devagar, sinal que pode ser interpretado como o ambiente ideal para vidas mais completas e atentas aos pequenos pormenores da existência. Ilusão. A serenidade exterior tolhe os sentimentos, e, para aqueles que o transportam, choca com o desassossego, conduzindo à inquietude implacável. O alerta chegava-me logo de manhã, quando enfrentava durante dez minutos um vento que me gelava a cara, percorrendo a pequena distância que separava o centro de Reykjavik da universidade, a qual, dada a desolação em redor, parecia já situar-se nos arrabaldes da cidade. Não se via vivalma, os carros passavam isolados, e até os seus motores pareciam ser mais discretos. Mas pelo caminho, o cemitério afastava-me logo de qualquer ensaio de adaptação ao ritmo lento das altas latitudes, lembrando-me que abrandar conduz à imobilidade, e parar é morrer. E antes a morte que tal sorte. Agitava então o passo e, sozinho numa rua de uma capital europeia à hora de ponta, esmagado pelo silêncio, sonhava acordado com buzinas enraivecidas e multidões anónimas esperando impacientemente pela mudança de côr do semáforo para prosseguirem as suas vidas.

Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às janeiro 4, 2007 12:37 PM
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Comentários
Avaliar se uma terra é entediante ou não com base numa visita pode ser enganador - um visitante vai sobretudo em busca de "estimulação externa", e, se não a encontra, acha entediante; mas, na nossa vida do dia-a-dia, grande parte dos nossos entusiasmos, alegrias, tristezas, etc. resultam do que poderemos chamar "estimulação interna" (ou, por outras palavras, das coisas que fazemos acontecer, em vez das coisas que nos acontecem).
Publicado por: Miguel Madeira em janeiro 25, 2007 11:10 PM
Miguel, terras pequenas não me atraem muito. Periféricas, também não. Quando as duas coisas se juntam, é preciso algo de especial para me deixar entusiasmado. E Reyjkavik, apesar do mar, não o conseguiu.
Muito "limpinha" para o meu gosto...
Publicado por: CMF em janeiro 26, 2007 12:00 AM